Na hora da virada
Vinte e um
Eles estão sempre executando abusos de poder. Semana passada, fizeram o Curtis passar por uma avaliação de segurança a mais, apesar de o detector de metais não ter apitado quando ele passou. Eles alegaram que queriam ter “certeza”.
— Estou dizendo, o jeito como cuidam da segurança não é normal — diz Malik. — Minha mãe não trata as pessoas assim e ela lida com criminosos.
A mãe do Malik, a tia ’Chelle, é uma das seguranças do tribunal.
— Vocês perceberam que eles pioraram depois do ano passado, né? — pergunta Malik. — Ver aquele policial se safar de um assassinato deve ter feito eles acharem que são invencíveis também.
— Pode ser que você esteja certo, Malik X — diz Sonny.
Esse é o apelido que demos para o Malik desde as manifestações. A situação toda mexeu muito com ele. Mexeu comigo também, não posso mentir, mas o Malik está em outro nível, sempre fala de justiça social e lê sobre coisas como os Panteras Negras. Antes das manifestações, o único Pantera Negra com quem ele se importava era o T’Challa.
— A gente tem que fazer alguma coisa — diz ele. — Isso não está certo.
— É só ignorar — diz Sonny. — Eles falam mais do que agem.
Curtis passa pelo detector de metais sem problema. Depois Hana, Deon, os três alunos do primeiro ano, Zane. Depois o Sonny passa, seguido do Malik. Eu passo em seguida.
O detector de metais não apita, mas Long estica o braço na minha frente.
— Volta.
— Por quê? — pergunto.
— Porque ele mandou — diz Tate.
— Mas não apitou! — digo.
— Não quero saber — diz Long. — Eu mandei você passar de novo.
Tudo bem. Eu passo pelo detector de metais de novo. Não apita.
— Passa a bolsa — diz Long.
Ah, merda. Meu estoque de doces. Se eles encontrarem, posso ser suspensa por vender no campus. Considerando as vezes em que já fui suspensa por outras coisas, merda, eu posso ser expulsa.
— Passa. A. Bolsa — diz Long.
Eu engulo em seco.
— Eu não tenho que...
— Ah, tem alguma coisa aí que você quer esconder? — pergunta Long.
— Não!
— Desliga essa câmera! — diz Tate para Malik.
Ele começou a filmar virado para nós.
— Eu posso gravar se quiser!
— Passa a bolsa! — diz Long.
— Não!
— Quer saber...
Ele estica a mão para pegar a alça da minha mochila, mas eu afasto da mão dele. Pela expressão nos olhos dele, eu não devia ter feito isso.
Ele segura meu braço.
— Me dá essa mochila!
Eu puxo o braço.
— Tira a mão de mim!
Tudo acontece de repente.
Ele segura meu braço de novo e o empurra para as minhas costas. O outro vai parar nas costas também. Tento me soltar e puxar os braços, o que só torna o aperto mais forte. Antes que eu perceba, meu peito bate no chão, depois meu rosto é pressionado no piso frio. O joelho de Long aperta minhas costas enquanto Tate pega a minha mochila.
— Ei! Que porra é essa! — grita Sonny.
— Sai de cima dela! — diz Malik, a câmera apontada para nós.
— Tem coisa aqui, é? — diz Long. Ele enrola um plástico nos meus pulsos e aperta com força. — Era por isso que você não queria que a gente visse, é? Sua marginal. Cadê aquela boca que você tinha ontem?
Não posso dizer nada.
Ele não é policial.
Ele não tem uma arma.
Mas eu não quero acabar como aquele garoto.
Eu quero a minha mãe.
Eu quero o meu pai.
Eu quero ir pra casa.