Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 27 de 40

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Na hora da virada

Vinte e cinco

Não.

Não.

— A creche da igreja sofreu durante as manifestações e a companhia de seguro não vai cobrir os danos — diz ela. — O pastor e os mais antigos do comitê tiveram que ajustar o orçamento pra pagar os consertos e por isso me demitiram.

Merda.

Não sou burra. Jay tenta agir como se tudo estivesse bem, mas nós estamos com dificuldades. Já não temos gás. Mês passado, recebemos aviso de despejo. Jay usou boa parte do salário pra cobrir o aluguel e comemos só sanduíche até o pagamento seguinte.

Mas, se ela perdeu o emprego, não vamos ter mais pagamento.

Se ela não tiver pagamento, talvez não voltemos a ter gás.

Nem comida.

Nem casa.

E se...

— Não se preocupe, Bri — diz Jay. — Deus vai cuidar de nós, flor.

O mesmo Deus que deixou que ela fosse demitida de uma igreja ?

— Estou fazendo algumas entrevistas — diz ela. — Saí de uma pra buscar você. Além do mais, já me inscrevi no seguro desemprego. Não é muito, mas é alguma coisa.

Ela já se inscreveu?

— Há quanto tempo você está desempregada?

— Isso não é importante.

— É, sim.

— Não é, não. Trey e eu estamos cuidando das coisas.

— Trey sabia?

Ela abre e fecha a boca algumas vezes.

— Sabia.

Faz sentido. Quando o gás foi cortado, Trey sabia que ia acontecer. Eu descobri quando acordei na casa gelada. O aviso de despejo? Trey sabia. Eu descobri quando ouvi os dois conversando. Queria que isso não me incomodasse, mas incomoda. Parece que Jay não confia em mim o suficiente pra me contar as coisas importantes. Como se me achasse nova demais para suportar.

Eu aguentei a ausência dela durante anos. Posso aguentar um pouco mais do que ela pensa.

Ela estaciona na porta de casa, atrás do Honda Civic velho de Trey, e se vira para mim, mas estou olhando pela janela.

Tudo bem, talvez eu seja um pouco imatura. Sei lá.

— Sei que você está preocupada — diz ela. — As coisas andam difíceis há um tempo. Mas vão melhorar. De alguma forma, de algum jeito. Nós temos que acreditar nisso, flor.

Ela estica a mão para a minha bochecha.

Eu me afasto e abro a porta.

— Vou andar um pouco.

Jay segura o meu braço.

— Brianna, espera.

Estou tremendo. Aqui estou eu, preocupada com problemas reais, e ela quer que eu “acredite”?

— Por favor, me solta.

— Não. Não vou deixar que você fuja em vez de falar comigo. Hoje foi pesado, flor.

— Estou bem.

Ela passa o polegar pelo meu braço, como se estivesse tentando atrair as lágrimas para saírem de mim.

— Não está, não. E tudo bem se não estiver. Você sabe que não tem que ser forte o tempo todo, não sabe?

Talvez não o tempo todo, mas tenho que ser agora. Eu me solto dela.

— Estou bem.

— Brianna...

Jogo o capuz na cabeça e ando pela calçada.

Às vezes, eu sonho que estou me afogando. É sempre em um mar grande e azul profundo demais para ver o fundo. Mas digo para mim mesma que não vou morrer, por mais água que entre nos meus pulmões, e por mais que eu afunde, eu não vou morrer.

Não vou.

De repente, consigo respirar embaixo da água. Consigo nadar. O mar não é mais tão assustador. É até legal. E aprendo a controlá-lo.

Mas estou acordada, estou me afogando e não sei como controlar nada disso.