Na hora da virada
Vinte e sete
— Fui suspensa — eu conto à tia Pooh.
— De novo? Por quê?
Eu me sento no carro ao lado do Scrap.
— Uma merda aí.
Conto tudo, que os seguranças visam os alunos de pele preta e marrom e que me jogaram no chão. Os GDs balançam a cabeça. Tia Pooh fica com sangue nos olhos. Jojo alega que teria “dado uma surra nos guardas”, o que faz todo mundo rir, menos eu.
— Você não teria feito nada, garoto — eu digo.
— Pela minha mãe. — Tia Pooh bate palmas a cada palavra. — Juro pela minha mãe que eles se meteram com a pessoa errada. Mostre quem são e dou um jeito nos otários.
Tia Pooh não vai de zero a cem; ela vai de tranquila a pronta pra matar. Mas não quero que ela seja presa por causa de Long e Tate.
— Eles não valem isso, tia.
— Quantos dias você pegou, Bri? — pergunta Scrap.
Droga. Ele fala como se eu tivesse ido para a prisão.
— Três dias.
— Até que não é ruim — diz ele. — Pegaram seus doces?
— Não. Por quê?
— Então me dá um Starbursts.
— Custa um dólar — eu digo para ele.
— Não tenho grana. Mas posso pagar amanhã.
Eu que não sou trouxa.
— Então você pode comprar o Starbursts amanhã.
— Porra, é só um dólar — diz Scrap.
— Porra, são só 24 horas — eu digo com a minha melhor imitação do Scrap. Tia Pooh e os outros morrem de rir. — Eu não vendo fiado. É contra os Dez Mandamentos dos Doces, mano.
— O quê? — diz ele.
— Yo! Cacete! — Tia Pooh bate no meu braço. — Galera, ela recriou os “Dez Mandamentos do Crack” do Big. É maneiro. Bri, recita aí.
É sempre assim. Eu deixo a tia Pooh ouvir umas rimas que escrevi e ela fica tão pilhada que me pede para cantar rap para os amigos. Pode acreditar, se você for ruim, um membro de gangue vai ser o primeiro a dizer.
— Tudo bem. — Eu coloco o capuz. Tia Pooh faz uma batida no capô do carro. Mais gente no pátio se aproxima.
Eu balanço a cabeça. De repente, estou no clima.