Na hora da virada
Dezoito
Zane, um aluno do terceiro ano com piercing no nariz, sobe no ônibus. Ele é muito metido. Sonny diz que Zane se acha lindo, mas Sonny e eu concordamos que ele é lindo mesmo. É uma luta interior ficar irritada pela presunção dele e hipnotizada pelo seu rosto.
E, se for para falar a verdade, hipnotizada pela bunda. Que retaguarda esse garoto tem!
Ele nunca fala comigo, mas hoje diz:
— Sua batalha foi insana, cara!
Caramba.
— Obrigada.
Quantas pessoas viram?
Aja, aluna do nono ano, viu. Ela me elogia assim que sobe no ônibus. Keyona, Nevaeh e Jabari, todos alunos do primeiro ano, também viram. Antes que eu me dê conta, sou o assunto do micro-ônibus.
— Você é boa, Bri!
— Fiquei surtando o tempo todo!
— Duvido que ela ganhasse de mim numa batalha. Juro por Deus, mano.
Esse comentário é do Curtis Brinkley, um garoto baixo de cabelo ondulado e pele marrom que conta muitas mentiras e jura por Deus, mano . No quinto ano, ele alegou que a Rihanna era prima dele e que a mãe dele estava em turnê com ela, trabalhando como cabeleireira. No sexto ano, ele disse que a mãe estava em turnê com a Beyoncé como cabeleireira. Na verdade, a mãe dele estava na prisão. Ainda está.
O sr. Watson para na frente das casas de Sonny e Malik. Eles são vizinhos de porta, mas os dois saem pela porta do Malik.
Eu tiro o boné. Minhas raízes ainda precisam ser acertadas, mas hoje arrumei da melhor forma possível. Passei gloss labial também. É uma idiotice, mas espero que Malik repare.
Eu reparo em muita coisa nele. Tipo como os olhos às vezes ficam com um brilho que me faz pensar que ele sabe todos os segredos que existem sobre mim e não se importa com nenhum. Tipo o fato de ele ser lindo e o fato de não perceber que é lindo, o que o deixa mais lindo ainda. Tipo o jeito como meu coração acelera cada vez que ele diz “Brisa”. Ele é o único que me chama assim e, quando fala, ele estica a palavra de leve, de um jeito que ninguém consegue imitar. Como se quisesse que o nome pertencesse só a ele.
Todos esses sentimentos começaram quando nós tínhamos 10 anos. Tenho uma lembrança clara de nós dois lutando no jardim na frente da casa do Malik. Eu era o The Rock e ele era John Cena. Nós éramos obcecados por vídeos de luta livre no YouTube. Eu imobilizei o Malik, e enquanto estava sentada em cima dele, senti uma vontade repentina de beijá-lo.
Fiquei apavorada.
Eu dei um soco nele e disse com a minha melhor voz imitando o The Rock:
— Vou detonar sua bunda mole!
Basicamente, tentei ignorar meu despertar sexual imitando o The Rock.
Fiquei muito assustada com a coisa toda. E os sentimentos não passaram. Mas eu disse para mim mesma várias vezes que ele é o Malik. O melhor amigo do mundo, o Luke da minha Leia.
Mas aqui estou eu, usando o celular para ver como está meu gloss labial Perseguição Pink (quem inventa esses nomes?), torcendo para ele me ver com outros olhos. Patético.
— Por que você não admite que eu arrasei? — pergunta Sonny quando eles sobem no ônibus.
— Como eu falei, meu controle estava esquisito — alega Malik. — A gente tem que fazer uma revanche.
— Tudo bem. Vou arrasar com a sua... Briiiii!
Sonny dança pelo corredor com uma batida que ninguém escuta. Quando chega perto, ele se curva como se estivesse me idolatrando.
— Um viva para a rainha do Ringue.
Dou uma gargalhada.
— Não sou rainha.
— Bom, você arrasou, Yoda. — Nós batemos na palma da mão do outro e terminamos com a saudação de Wakanda. Wakanda para sempre.
Malik dá de ombros.
— Não vou dizer eu te disse. Mas também não vou não dizer que eu te disse.
— Isso não faz sentido — digo.
Sonny se senta no banco na minha frente.
— Não!
Malik se senta ao meu lado.
— É uma dupla negativa.
— Hum, não, sr. Futuro Cineasta — eu digo. — Como aluna das artes literárias, posso garantir que foi só uma confusão danada. Você basicamente disse que não vai dizer que me disse.