Na hora da virada
Colofon
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
— Hã?
— Antigamente, quando eu usava camisa xadrez vermelha e preta. — Ela puxa a camisa xadrez por baixo do meu colete acolchoado enquanto cita o Biggie. — Um boné na cabeça e, por baixo, uma camiseta. — Ela mexe no meu boné de caçador. — Finalmente aprendeu a ter estilo com sua titia, né?
Ela consegue dar um jeito de levar crédito por tudo de bom que eu faço.
— Se você aprender a manter a calça cobrindo a bunda, podemos conversar.
A garagem é toda pichada. Tia Pooh bate na porta lateral. Pés se arrastam, e alguém grita:
— Quem é?
— P. — Isso é tudo que tia Pooh diz.
Várias trancas são giradas e, quando a porta é aberta, parece aquele momento no Pantera Negra em que eles passam pelo holograma e entram na verdadeira Wakanda. Parece que passamos por um holograma que mostrava para todo mundo uma casa de drogados e entramos no estúdio.
Não é o mais chique, mas é melhor do que eu esperava. As paredes são cobertas de suporte de copos de papelão que os restaurantes dão quando você tem que carregar várias bebidas. Isolamento acústico. Tem vários monitores de computador em cima da mesa, com baterias eletrônicas, teclados e alto-falantes por perto. Há um microfone em um suporte de pé no canto.
E tem um cara barrigudo e barbudo de regata sentado à mesa.
— E aí, P? — diz ele, cheio de ouro na boca. As palavras dele saem lentas, como se alguém tivesse diminuído a velocidade da voz.
— E aí, Doc? — Tia Pooh bate na mão dele e dos outros caras. São uns seis ou sete. — Bri, esse é o Doc, o produtor — diz tia Pooh. Doc assente para mim. — Doc, essa é a Bri, minha sobrinha. Ela vai detonar essa batida que você fez pra ela.
— Espera aí, você fez aquilo pra essa garotinha? — pergunta um cara no sofá. — O que ela vai fazer, cantar pra gente dormir?
Lá vêm os sorrisinhos e as risadinhas.
Essas são as babaquices previsíveis sobre as quais tia Pooh me avisou quando contei que queria ser rapper. Ela disse que eu teria que fazer o dobro do trabalho para conquistar metade do respeito. Além disso, tenho que ser implacável e não posso mostrar fraqueza. Basicamente, tenho que ser igual aos caras e mais um pouco para sobreviver.
Eu encaro o cara no sofá.
— Não. Mas você já devia ter ido dormir, meu velho.
— Aah — dois caras dizem, e um ou dois deles batem na minha mão enquanto morrem de rir. E assim eu passo a ser uma deles.
Doc ri.
— Ele queria que a batida fosse pra ele, só isso. Olha só.
Ele clica em algumas coisas em um dos computadores e uma batida rápida e animada toca nos alto-falantes.
Nossa. É muito boa. Penso em soldados marchando, não sei por quê.
Ou nas mãos de um segurança de escola, me revistando em busca das drogas que eu não tinha.
Rat-tat-tat-tat ta-ta-tat-tat.
Rat-tat-tat-tat ta-ta-tat-tat.
Pego meu caderno e dou uma olhada. Merda. Nada que eu tenha parece se encaixar na batida. Vou precisar de uma coisa nova. Uma coisa sob medida.
Tia Pooh se balança nos calcanhares.
— Uau! Vai ser a nossa hora da virada quando essa sair.
Hora da virada.
— Ta-ta-ta-da, na hora da virada — eu murmuro. — Ta-ta-ta-da, na hora da virada.
Eu fecho os olhos. As palavras estão ali, eu juro. Só estão esperando que eu as encontre.
Vejo Long me jogando o chão. Um movimento em falso teria acabado com as minhas chances de virada.
— Mas você não me segura na hora da virada — eu murmuro. — Você não me segura na hora da virada.
Eu abro os olhos. Todas as pessoas presentes estão me olhando.
— Você não me segura na hora da virada — eu digo, mais alto. — Você não me segura na hora da virada. Você não me segura na hora da virada. Não me segura, não, não.
Sorrisos se formam lentamente e cabeças assentem e balançam.
— Você não me segura na hora da virada — ecoa Doc. — Você não me segura na hora da virada.
Um a um, eles cantam junto. Lentamente, cabeças assentem com mais vigor, e essas poucas palavras viram um coro.
— Yo! É isso! — Tia Pooh sacode meu ombro. — É essa merda que...
O celular dela toca. Ela olha a tela e o enfia no bolso.
— Tenho que ir.
Espera aí, o quê?
— Achei que você fosse ficar comigo.
— Tenho uns negócios pra resolver. Scrap vai ficar.
Ele assente para minha tia, como se fosse um acordo que eles já tivessem feito.
Então é por isso que ele veio. Que merda.
— Isso é pra ser nosso negócio — eu digo.
— Eu volto depois, Bri. Tudo bem?
Ela sai como se a conversa tivesse acabado.
— Com licença — eu digo para os outros e saio rapidamente. Tenho que correr para alcançar a tia Pooh. Ela abre a porta do carro, mas eu a seguro e a fecho antes que ela possa entrar. — Aonde você vai?
— Como falei, tenho uns negócios pra resolver.
Negócios é o código dela para venda de drogas desde que eu tinha 7 anos e perguntei como ela ganhava dinheiro para comprar tênis caros.
— Você é minha agente. Não pode ir agora.
— Bri. Sai — diz ela entre dentes.
— Você tem que ficar comigo! Você tem que...
Deixar tudo de lado. Mas a verdade é que ela nunca disse que faria isso. Eu supus.
— Bri, sai — repete ela.
Eu chego para o lado.
Momentos depois, o Cutlass desaparece na rua, e fico no escuro e sem agente. Pior, sem a minha tia.
Olhos curiosos me esperam no estúdio. Mas não posso demonstrar fraqueza. Ponto. Eu limpo a garganta.
— Tudo bem.
— Que bom — diz Doc. — Você tem que ir com tudo nessa. É sua apresentação para o mundo, entendeu? O que você quer que o mundo saiba?
Eu dou de ombros.
Ele chega mais perto de mim na cadeira de rodinhas, se inclina para a frente e pergunta:
— O que o mundo fez a você ultimamente?
Botou minha família numa situação difícil.
Me derrubou no chão.
Me chamou de marginal.
— Fez um monte de coisas — respondo.
Doc se encosta com um sorriso.
— Conta pra todo mundo o que você está sentindo, então.
Eu me sento em um canto com meu caderno e minha caneta. Doc está com a batida tocando sem parar. Faz o chão pulsar, balançar de leve embaixo de mim.
Fecho os olhos e tento absorver o som, mas, cada vez que faço isso, Long e Tate me olham com desprezo.
Se eu fosse a tia Pooh, teria dado uma surra neles, sem brincadeira. Qualquer coisa só pra fazer aqueles covardes se arrependerem de olhar para mim duas vezes.
Mas não sou a tia Pooh. Sou a fraca e impotente Bri, que não teve escolha além de ficar deitada no chão. Mas, se eu fosse a tia Pooh, eu diria...
— Vem pra cima de mim e vai levar porrada — eu murmuro e escrevo. Porrada. Sabe o que é bom? Muita coisa rima com porrada. O ruim? Muita coisa rima com porrada. Eu bato com a caneta na palma da mão.
Do outro lado da garagem, Scrap mostra a Doc e aos amigos dele suas duas armas. Uma tem silenciador, e os caras quase babam em cima. Tia Pooh diz que Scrap tem mais fogo do que uma fornalha...
Espera.
— Vem pra cima de mim e vai levar porrada. Minha galera tem mais fogo que uma fornalha — eu murmuro enquanto escrevo. — Silenciador é tudo, não escutam o que a gente fala.
A gente fala.
Ninguém ouve o que a gente fala aqui. Como a dra. Rhodes. E todos aqueles políticos que vieram ao bairro depois das manifestações. Eles fizeram um monte de discursos falando para “acabar a violência das armas”, como se nós fôssemos os culpados pela morte do garoto. Eles não se importavam que não era nossa culpa.
— E ainda jogam assassinato na nossa cara — eu digo baixinho.
Scrap aponta a Glock para a porta para a exibir. Ele até a engatilha. Se eu tivesse uma, teria mirado e engatilhado.
— Essa Glock, isso aí, eu engatilho e aponto — eu escrevo. Espera, não tem que vir alguma coisa antes disso. Aponto. Pronto. Monto... Desaponto.
A verdade é que, se eu tivesse aquela Glock, Tate e Long teriam mais um motivo para me chamar de marginal, de bandida. Ah, quer saber?
— Você me acha bandida, admito, não desaponto — eu murmuro. — Essa Glock, isso aí, eu engatilho e aponto. É isso que você quer? Então pronto. Você pintou a imagem, eu apenas monto.
Moleza.
Meia hora depois, vou até o microfone e coloco os fones nos ouvidos.
— Está pronta? — diz Doc nos fones.
— Estou.
A música começa. Eu fecho os olhos de novo.
Querem me chamar de marginal?
Tudo bem.
Vou ser a marginal então.
Você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Não me segura, não, não.
Você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Não me segura, não, não.
Vem pra cima de mim e vai levar porrada.
Minha galera tem mais fogo que uma fornalha.
Silenciador é tudo, não escutam o que a gente fala. E ainda jogam assassinato na nossa cara.
Você me acha bandida, admito, não desaponto.
Essa Glock, isso aí, eu engatilho e aponto.
É isso que você quer? Então pronto.
Você pintou a imagem, eu apenas monto.
Eu chego, você olha, sou uma ameaça.
Acha que sou a pior bandida dessa praça.
A polícia corrupta causa o ruído
E não se arrepende do corpo estendido.
Mas você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Não me segura, não, não.
Você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Não me segura, não, não.
Me jogou no chão, cara, maior cagada.
Me denunciou, juntou galera, fiquei toda errada Se eu fizesse o que queria e te desse uma porrada, Sua cara já estaria apodrecida e enterrada.
Tem caras de uniforme por toda a região.
Acham que nosso lugar é no camburão.
Se reagimos, atacamos, eles surgem e dizem não Trazem tropas usam botas pelo bem da nação.
Mas preciso ser sincera, eu te garanto,
Se a polícia me agredir, aqui não vai ter pranto. Como meu pai, sem medo. Meu acalanto
É meu gueto que acolhe e amplia meu canto.
Porque você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Não me segura, não, não.
Sou rainha, não preciso de cinza pra provar.
Arraso com a coroa e ninguém vai me tirar.
Tenho sangue azul, é coisa de família.
Venho da nobreza. Do rei eu sou a filha.
Os caras confundem mochila com pistola.
Acham que levo cartuchos pra minha escola.
Se me acham uma assassina, que eu sou perigosa, Eu devia explodir a porra toda, furiosa.
Odeio que minha mãe se mata diariamente.
As contas, a comida, um sufoco que é frequente. Mas juro pra você o meu sucesso é iminente.
Minha mãe ainda vai viver como gente.
Então você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Você não me segura na hora da virada.
Não me segura, não, não.
NOVE
Tia Pooh não voltou. Scrap andou comigo até em casa.
Deixei recados na caixa-postal, mandei mensagens de texto, tudo. Isso foi ontem, e ainda não tive resposta dela. A namorada dela, Lena, também não teve notícias. Mas a tia Pooh faz isso às vezes. Some um pouco e aparece do nada, agindo como se estivesse tudo bem. Se você perguntar o que ela estava fazendo, ela vai dizer “Não esquenta a cabeça” e vai fazer outra coisa.
Sinceramente, é melhor assim. Olha, eu sei que minha tia faz coisas erradas, tá? Mas prefiro vê-la como heroína a vê-la como vilã de alguém. Só não posso mentir, estou puta da vida por ela ter me abandonado daquele jeito.
Eu fiz a música, Doc aprimorou, botou em um pen-drive para mim e pronto. Sem problemas. Mas tia Pooh devia estar lá. Era ela que tinha que me avisar se algum verso estivesse ruim e me elogiar quando estivesse bom. Ela tem que me dizer o que fazer.
Não coloquei a música online ainda. Primeiro, não sei o que fazer com ela. Como eu divulgo? Eu não quero ser aquela pessoa aleatória no Twitter que invade threads e solta links do Dat Cloud que ninguém pediu.
Segundo, por mais idiota que pareça, estou com medo. Para mim, é como botar nudes na internet. Tá, posso estar exagerando um pouco, mas é como exibir uma parte de mim que não vou poder esconder de novo.
Já tem uma parte de mim exposta que não tenho como esconder. Alguém da escola fez upload de um vídeo do Long e do Tate me segurando no chão. Não mostra quando eles me derrubaram e nem nada que aconteceu antes. Quem gravou chamou de “Traficante pega na Midtown”.
Traficante. Uma palavra.
Como acham que sou traficante,
Ninguém está dando a
Mínima.
O vídeo quase não teve visualizações. É horrível e estou feliz de ninguém estar vendo.
Trey espia no banheiro.
— Caraca, não está pronta ainda?
— Treeey! — eu resmungo. Só estou passando gel nas raízes, mas quem quer o irmão mais velho dividindo esse momento? — Você sabe o que é privacidade?
— Você sabe o que é pontualidade? — Ele olha para o relógio. — O culto começa em vinte minutos, Bri. Mamãe está pronta.
Eu prendo os fios de cabelo menores.
— Não sei por que estamos indo para a igreja.
Pra ser direta, seria preciso o próprio Jesus aparecer para me fazer voltar à mesma igreja que me deixou partir. De verdade. E, ainda assim, eu diria: “Preciso pensar um pouco.”
— Também não sei por que a mamãe quer ir — diz Trey. — Mas ela quer. Então, anda.
Isso não faz sentido, eu juro. Trey sai, e vou logo atrás. Jay já está no Jeep.
— Tudo bem, pessoal — diz ela. — Vocês já sabem que as pessoas vão falar de eu ter perdido o emprego. Tentem ignorar e nada de responder, tá?
Ela olha diretamente para mim pelo retrovisor.
— Por que você está me olhando?
— Ah, você sabe por quê. — Ela dá ré no carro. — Você tem a boca do seu pai.
E a dela também. Mas tudo bem.
A Templo de Cristo fica a cinco minutos de carro. O estacionamento está tão cheio que tem carros parados no terreno de cascalho ao lado que pertence à igreja. É lá que vamos parar em vez de na vaga de secretária da igreja que Jay usava. Tiraram a placa.
Do lado de dentro, Jay cumprimenta as pessoas com um sorriso que parece que nada aconteceu. Ela até abraça o pastor Eldridge. Ele abre os braços para mim. Dou um aceno de E aí e sigo em frente. Trey faz a mesma coisa. Nosso rancor não discrimina.
Temos um banco perto dos fundos que é como se tivesse nosso nome. Daqui, podemos ver um pouco de tudo. O culto ainda não começou, mas tem pessoas em todo o santuário, conversando em grupinhos. Tem as “mães” mais velhas, como são chamadas, na fileira da frente com os chapéus grandes.
Alguns dos diáconos estão de lado, inclusive o diácono Turner com o penteado Jheri curl. Olho com uma cara muito feia para ele. Alguns meses atrás, ele foi para a frente da congregação e ficou falando que os pais não devem abraçar e beijar os filhos porque eles viram gays. Os pais do Sonny disseram que aquela falação foi “um monte de baboseira”. Eles não levaram Sonny e a irmã para a igreja depois disso. Mostrei o dedo do meio para o diácono Turner todas as vezes que tive oportunidade desde então.
Como agora. Mas ele não está usando os óculos, o que explica por que só acena para mim. Então ofereço meu especial duplo de dedos do meio.
Trey empurra minha mão para baixo. Seus ombros tremem de tanto rir.
Vovó está lá na frente com o grupo do comitê de decoração. O chapéu dela é o maior de todos. Ela diz alguma coisa para as amigas, que olham para nós.
— Espero que a vaca não esteja falando de mim — diz Jay. — Com aquele horror sintético na cabeça. Aquela peruca parece um animal morto atropelado.
— Mãe! — diz Trey. Eu sufoco uma risada.
Vovô se aproxima pelo corredor central. Ele não pode dar um passo sem alguém dizer “Bom dia, diácono Jackson!” Esse é o único lugar onde as pessoas não o chamam de “Jackson pai”. A barriga redonda parece que vai explodir pelo colete. A gravata e o lenço roxos combinam com o vestido e o chapéu da vovó. Meus avós sempre combinam. E não só aos domingos. Eles apareciam nos jogos de futebol americano da Markham de conjuntos esportivos iguais para ver Trey. Ele não jogava, era líder da banda, mas a banda é tão importante quanto o time de futebol americano nas Faculdades e Universidades Historicamente Negras. Nossa, mais importante até.
— Muito bem, pessoal — diz o vovô para nós.
Esse é o jeito dele de dizer bom-dia. Ele se inclina sobre o banco e beija a bochecha de Jay.
— Bom ver que vocês conseguiram vir hoje.
— Claro, sr. Jackson — diz Jay. — Nada poderia me impedir de comparecer à casa do Senhor. Oh, Glória!
Eu olho para ela de lado. Não que Jay não ame o Senhor, mas ela fica extracristã quando estamos na igreja. Como ela, tia Gina e tia ‘Chelle estavam dançando ontem à noite na nossa sala. Menos de 24 horas depois, uma a cada duas palavras que saem da boca de Jay é “glória” ou “aleluia”. Duvido até que Jesus fale assim.
Vovô se inclina na minha direção e aponta para a bochecha. Eu a beijo. É gorda e com covinhas, como era a do meu pai.
— Sempre preciso do açúcar da minha Li’l Bit — diz ele com um sorriso. Ele olha para Trey e o sorriso some. — Garoto, você sabe que precisa ir a um barbeiro. Tem mais cabelo aí do que um branco que se perdeu na selva.
Eu dou um sorrisinho. Só o vovô.
— Já vai começar logo de manhã? — pergunta Trey.
— É... você que vai ter animais selvagens correndo na cabeça. Está tudo bem, Jayda?
Ele sabe. Não está surpreso. Como diácono-chefe, o vovô descobre tudo.
— Sim, senhor — alega Jay. — Nós vamos ficar bem.
— Não estou perguntando se vão ficar, estou perguntando como estão agora .
— Estou cuidando de tudo — diz Trey.
— Com aquele negócio que você chama de emprego? — pergunta vovô.
O vovô acha que Trey deveria arrumar um “emprego de verdade”. Semana passada começou um papo de que “essa nova geração não quer dar duro” e que fazer pizza “não é emprego de homem”. O vovô foi funcionário da manutenção da cidade por quarenta anos. Foi um dos primeiros negros a ter emprego lá. No ponto de vista dele, se Trey não chega em casa suado e sujo, ele não está dando duro o bastante.
— Eu disse que estou cuidando de tudo — diz Trey.
— Sr. Jackson, nós estamos bem — diz Jay. — Obrigada por perguntar.
Vovô pega a carteira.
— Me deixe pelo menos dar alguma coisa a vocês.
— Não posso aceitar...
Ele conta duas notas de vinte e coloca na mão de Jay.
— Pare com essa tolice. Júnior ia querer que eu fizesse isso.
Júnior é o meu pai e a chave para encerrar qualquer discussão com a minha mãe.
— Não — diz Jay. — Se ele estivesse aqui, estaria dando dinheiro para o senhor .
Vovô ri.
— Aquele garoto era generoso, não era? Outro dia, eu estava olhando o relógio que ele me deu e comecei a pensar. — Ele bate no relógio de ouro que fica no pulso o tempo todo. — Foi a última coisa que ele me deu e eu quase não aceitei. Eu teria me arrependido se soubesse...
Vovô faz silêncio. A dor não passou para os meus avós. Esconde-se nas sombras e espera os momentos certos para aparecer.
— Fique com o dinheiro, Jayda — diz o vovô. — Não quero ouvir mais nada sobre isso, escutou?
Vovó se aproxima.
— Só não vá desperdiçar.
Jay revira os olhos.
— Oi para a senhora também, sra. Jackson.
Vovó olha para ela da cabeça aos pés e repuxa os lábios.
— Aham.
Sou a primeira a dizer que minha avó é metida. Desculpa, mas ela é. O motivo principal para ela não gostar de Jay é por ela ser de Maple Grove. Ela já chamou Jay de aquela “rata de gueto do conjunto habitacional” várias vezes. Por outro lado, Jay já a chamou de “vaca velha e arrogante” muitas outras.
— Espero que você use esse dinheiro com os meus netinhos e não com alguma outra confusão em que você deve estar metida — diz a vovó.
— Como? — diz Jay. — Que outra confusão?
— Louise, pare com isso — diz o vovô.
Vovô suga os dentes e me olha.
— Brianna, amorzinho, não quer se sentar conosco?
É a mesma pergunta todos os domingos. Felizmente, já tenho um sistema para lidar com isso. A cada dois domingos eu me sento com meus avós. Assim, a vovó não fica decepcionada por eu escolher mais Jay do que ela, e Jay não fica decepcionada de eu ter escolhido meus avós em vez de ficar com ela. Basicamente, é guarda compartilhada: edição banco da igreja.
É complicado, mas é a minha vida. Então, como fiquei com Jay no domingo anterior, esse domingo é dos meus avós.
— Sim, senhora.
— Essa é a minha garota — diz vovó, toda arrogante. Ela ainda não percebeu meu esquema. — E você, Lawrence?
Ela está falando de Trey. Ele é Lawrence Marshall Jackson III. Vovó raramente usa o apelido.
Trey passa o braço em volta da nossa mãe.
— Está bom aqui.
É a resposta dele todas as semanas.
Vovó repuxa os lábios.
— Tudo bem. Vamos, Brianna.
Jay aperta minha mão de leve quando passo.
— Até mais tarde, florzinha.
Ela sabe que eu divido os domingos. Disse que não preciso fazer isso. Mas faço qualquer coisa pra manter a paz.
Sigo a vovó na direção da frente do templo. Ela e o vovô têm um lugar na segunda fila que pertence a eles. A primeira fila é das pessoas que querem se exibir. A segunda fila é das pessoas que querem se exibir, mas preferem agir de forma mais sutil.
Vovó aperta os olhos e me examina de cima a baixo.
— Você parece cansada. Com olheiras e tudo. Aquela mulher está deixando você ficar acordada até tarde, não é?
Primeiro de tudo, que grosseria. Segundo:
— Eu vou dormir em um horário decente. — Às vezes. Não é culpa de Jay. É mais do meu PlayStation.
— Hum! Até parece. E você está parecendo meio seca.
Seca de magra, coisa que não estou. É o jeito do interior de falar. Por mais burguesa que minha avó queira parecer, de acordo com o vovô ela tem “um pé na floresta e um dedo na ignorância”.
— Eu estou comendo bem, vovó — digo.
— Aham. Não parece. Ela nem deve cozinhar, não é? Essas mães jovens vivem comprando comida. Deve te dar hambúrguer todas as noites. Um horror!
Eu nem digo nada, só resmungo.
Vovó implica com meu cabelo.
— E por que ela sempre fica botando você de trancinhas? Você tem cabelo bom! Não precisa ficar esse horror.
O que quer dizer cabelo “bom”? E o que é cabelo “ruim”?
— Senhor, aquela mulher não sabe cuidar de você — continua ela. — Você sabe que pode voltar para o seu lar, não é?
Para ela, a casa dela e do vovô sempre vai ser meu “lar”. Falando sério, ela age como se eu só estivesse visitando Jay. Não posso mentir, antes eu também queria voltar para eles. Quando sua mãe é só sua mãe nos fins de semana e nos feriados, ela está a um passo de se tornar uma estranha. Morar com ela era novidade.
Mas agora, sei o quanto ela lutou para ficar conosco e o quanto a magoaria se fôssemos embora. É por isso que eu digo para a vovó:
— Eu sei. Mas quero ficar com a minha mãe.
Vovó faz “Hum!” como se duvidasse.
A irmã Daniels se aproxima. Ela é outra integrante da equipe “salva e burguesa”. Quer agir como se não deitasse a cabeça no conjunto habitacional Maple Grove todas as noites. Vovó a abraça e sorri na cara dela, sabendo que fala mal da irmã Daniels sempre que pode. Na verdade, foi a vovó que espalhou o boato de que ela tem problemas com baratas. É por isso que o comitê de alimentos nunca mais pede para a irmã Daniels cozinhar nos eventos, e agora pede para a minha avó.
— Garota, você está chique hoje! — declara a irmã Daniels.
Eu praticamente vejo a cabeça da minha avó inchar. Mas é preciso tomar cuidado com cumprimentos de igreja. A pessoa deve estar pensando o oposto do que falou, mas diz uma coisa legal para o caso de Jesus estar ouvindo.
— Obrigada, garota — diz vovó. — Minha sobrinha comprou este em um dos shoppings de ponta de estoque que ela conhece.
— Deu para perceber.
Ah, que constrangimento. Pelo olhar rápido que surge no rosto da minha avó, ela também sabe.
Ela ajeita a saia.
— O que você está fazendo aqui, garota? — Isso é o jeito de igreja de dizer “É melhor você sair da minha frente”.
— Ah, eu queria falar com Brianna — diz a irmã Daniels. — Curtis me contou o que aconteceu na escola. Você está bem, amorzinho?
Eu olho para o outro lado do corredor. Curtis me olha com o maior sorriso do mundo.
Curtis é o único neto da irmã Daniels. Com a mãe dele na prisão, ele mora com a avó e sempre conta tudo para ela. No quinto ano, ele disse uma coisa que me irritou, e eu lhe dei um soco na boca. Ele correu e contou para a avó. A avó dele contou para a minha, e eu levei uma surra. Dedo-duro.
Vovó se vira para mim.
— O que aconteceu na escola, Brianna?
Eu não queria contar para ela. Vai fazer um milhão de perguntas sobre as quais não quero pensar.
— Nada, vovó.
— Ah, não foi nada — diz a irmã Daniels. — Curtis disse que os seguranças jogaram ela no chão.
Vovó ofega. A irmã Daniels se alimenta de ruídos como esse.
— Jogou? — diz a vovó. — Por que fizeram isso?
— Acharam que ela estava com drogas — diz a irmã Daniels antes que eu possa responder.
Outro ofego. Eu fecho os olhos e boto a mão na testa.
— Brianna, o que você está fazendo com drogas? — pergunta a vovó.
— Eu não estava com drogas, vovó — resmungo.
— Claro que não — diz a irmã Daniels. — Ela vende doces. Curtis diz que os guardas adoram arrumar confusão. A culpa é deles, mas Brianna foi quem acabou suspensa.
Ora, eu nem preciso contar a história. É só deixar a irmã Daniels assumir. Na verdade, por que eu não deixo ela escrever logo minha biografia, se ela sabe tanto?
— Te deram três dias, não foi, amorzinho? — pergunta ela.
— Três dias? — grita vovó.
Que drama. Eu apoio o queixo na mão.
— É.
— Por que você estava vendendo doces? — pergunta a vovó.
— Provavelmente pra ajudar a mãe — diz a especialista na vida de Bri. Surpresa! Parece que não sou eu.
— Senhor, eu sabia que você não estava bem — diz a vovó. — Você não agia assim quando morava conosco.
— Carol e eu estávamos conversando — a irmã Daniels baixa a voz —, e essa coisa toda é estranha, não é? O pastor preferia pagar um salário do próprio bolso para não deixar alguém ficar sem trabalho. Ele não despede as pessoas com facilidade. A não ser que...
Ela levanta as sobrancelhas, como se houvesse uma mensagem escondida nelas.
— Hum! — diz vovó.
— Aham.
Hum, hã?
— A não ser que o quê? — pergunto.
— Eu não ficaria surpresa — diz a vovó enquanto elas olham para Jay. — Você sabe o que dizem, as pessoas nunca se livram completamente depois que se metem com aquilo.
Espera, o quê?
— Meniiiina — diz a irmã Daniels. — É melhor você ficar de olhos e ouvidos abertos, Louise. Pelo bem dos seus netos.
Eu estou sentada bem ali.
— Minha mãe não está usando drogas.
A irmã Daniels apoia a mão no quadril.
— Tem certeza disso?
O “sim” está na ponta da minha língua, mas fica lá por um segundo.
Quer dizer... eu acho que não está.
Primeiro, oito anos é muito tempo para se estar limpa. Segundo, Jay não voltaria para aquela vida. Ela sabe o quanto faz mal a nós. Ela não nos faria passar por aquilo de novo.
Mas.
Ela já nos fez passar por aquilo.
O coral ocupa a arquibancada e a banda começa uma música animada. As pessoas batem palmas.
A irmã Daniels bate no joelho da vovó de leve.
— Fique de olho, Louise. Só estou dizendo isso.
Quatro horas depois, o culto acaba.
O Espírito Santo esqueceu o conceito de tempo; quer dizer, o Espírito Santo acertou o pastor Eldridge com tudo. Ele bufou e soprou até um louvor sair. Vovó saiu correndo, como sempre, e aquela peruca saiu voando, como sempre. Vovô a guardou embaixo do braço e ficou parecendo que ele tinha pelos demais na axila.
Depois que o culto acaba, todos vão para o porão da igreja para a “confraria”. Não consigo evitar um leve tremor cada vez que venho aqui. Parece que o lugar é assombrado. Tem retratos de todos os pastores velhos e mortos nas paredes. Nenhum deles sorri, como se eles estivessem nos julgando por não termos contribuído o suficiente com nosso dízimo e com as ofertas. Não ajuda o fato de que o local é decorado como uma funerária. Estou convencida de que um dia Jesus vai pular de um canto e me matar de susto.
Pergunta: Se Jesus te dá um susto, você chama por ele? Você diz “Ah, meu Deus”?
Coisas para ponderar.
A confraria na Templo de Cristo significa rango, e rango significa frango frito ou assado, salada de batata, vagem, bolo e refrigerante. Acho que as pessoas da igreja não sabem fazer um “lanchinho”.
A vovó e duas amigas servem a comida, inclusive a sra. Daniels. Elas usam luvas de plástico e redes de plástico na cabeça que parecem finas demais para a germefobia da minha avó. Vovô e alguns diáconos conversam no canto. O vovô toma um refrigerante diet. Qualquer coisa diferente de diet e a vovó pega no pé dele por não controlar o consumo de açúcar. Trey foi encurralado por dois outros diáconos não muito longe. Ele parece preferir ser invisível. Jay está conversando com o pastor Eldridge e ri e sorri como se não houvesse nada de errado.
Ainda estou na fila para pegar comida. Existe uma regra tácita que é: quando seus avós estão servindo, você tem que ir para o fim da fila. Não estou reclamando. Vovó está servindo o frango e vai guardar um pedaço grande para mim. E vai mandar a irmã Grant me dar o pedaço do canto da torta de pêssego. Torta de pêssego é o amor da minha vida, e o cantinho é a perfeição.
Alguém entra atrás de mim. O hálito roça no meu ouvido quando a pessoa diz:
— Você não ficou encrencada demais com a sua avó, ficou, Princesa?
Sem hesitação, empurro o cotovelo direto na barriga dele. O “ai!” me faz sorrir.
Curtis me chama de “Princesa” desde que tínhamos 7 anos. Ele disse que era porque as pessoas chamam meu pai de “rei do Garden”. Sempre me irritou. Não tanto por ser chamada de princesa (a verdade é que eu seria uma princesa fodona), mas o jeito como ele fala. Princesa , como se fosse uma piada interna, que só ele entende.
Espero que ele “entenda” a cotovelada.
— Droga — diz ele. Eu me viro, e ele está curvado para a frente. — Que violenta.
— Que dedo-duro — eu digo, entre dentes. — Tinha que ir correndo contar pra vovó o que aconteceu, né? Você sabia que ela ia fazer fofoca.
— É, eu só contei pra ela o que aconteceu na escola, como um bom neto deve fazer. Não é culpa minha ela sair contando pra todo mundo que você foi jogada no chão.
— Uau. Você acha que o que fizeram comigo foi engraçado?
O sorrisinho desaparece.
— Não. Não acho mesmo.
— Até parece que não.
— Falando sério, Bri. Não acho. É errado. Estou de saco cheio de ficarem tirando conclusões sobre nós.
Sinto isso na alma. Tem mais gente fazendo suposições sobre quem eu sou do que pessoas que realmente me conhecem.
— Por Deus, mana — diz Curtis —, aqueles guardas vão ter o que merecem um dia. Por Deus.
Desta vez, não acho que ele esteja mentindo para Deus.
— Não faça nenhuma burrice, Curtis.
— Olha isso. A princesa está preocupada com o insignificante eu ?
— Rá! Não mesmo. Mas se você acha que eles são ruins agora, espera alguma coisa acontecer. Vamos ter sorte se nos deixarem entrar de novo.
Vamos falar a verdade: nós somos adolescentes negros de um dos piores bairros da cidade. Basta um de nós fazer besteira e todos fizeram besteira. Eu já devo ter piorado a situação.
— Você está certa — admite Curtis. — Eu perguntaria como você está depois daquilo, mas é uma pergunta idiota. Os boatos na escola não devem estar ajudando, né?
— Que boatos?
— De que você vende drogas e de que foi por isso que Long e Tate foram atrás de você.
Então a pessoa que postou o vídeo não é a única.
— Mas que merda. Como concluíram isso?
— Você sabe como é. De alguma forma, passou de você entregar doces pras pessoas nos corredores pra vender erva nos corredores.
— Uaaaaau.
— Olha, ignora essas besteiras — diz Curtis. — Só lembra que você não fez nada de errado.
Agora eu estou achando graça.
— Olha isso. Você está agindo como se realmente se importasse comigo.
Ele morde o lábio e me olha por um longo e constrangedor momento, de um jeito que nunca me olhou antes. Finalmente, diz:
— Eu me importo com você, Bri.
O quê?
Curtis estica a mão para trás de mim, o braço roçando no meu, e pega um prato de isopor na mesa. Seus olhos se encontram com os meus.
— Brianna, amorzinho — diz a irmã Daniels. É minha vez na fila. — O que você quer, salada verde ou de batata?
Mas meu olhar ainda está grudado no de Curtis.
Ele se empertiga com um sorrisinho.
— Vai ficar encarando ou vai pegar comida?
DEZ
— Você acha o Curtis fofo?
Sonny me olha como se eu tivesse duas cabeças.
— Que Curtis?
Eu indico com a cabeça.
— Aquele Curtis.
É quarta-feira, meu primeiro dia depois da suspensão. Curtis está em um dos bancos da frente no ônibus. Um brinco de “diamante” brilha em uma das orelhas e o boné combina com os tênis. Ele se gaba da pontuação em um videogame de basquete com Zane, o do piercing no nariz. Alto como sempre e atribuindo a “juro por Deus, mano” que venceria Zane no jogo, como sempre.
Sonny aperta os olhos. Inclina a cabeça para um lado e depois para o outro.
— Até que é. Mas não é meu bebê, o Michael B. Jordan.
Senhor. Desde Pantera Negra , Sonny jura que Michael B. Jordan é a definição da gostosura. Mas entendo por quê. Quando ele tirou a camisa no filme, Sonny e eu nos olhamos e falamos “Meu Deus!”. Durante a cena toda, Sonny ficou apertando a minha mão e dizendo “Bri... Bri!”
Foi um grande momento.
— Ninguém é Michael B. Jordan, Sonny — eu lembro a ele.
— Você está certa. Ele é único mesmo. Mas acho que o Curtis é fofo do mesmo jeito que roedores são estranhamente adoráveis. Sabe quando você vê um ratinho bebê e pensa “Ai, que fofo!”. Até que o filho da puta invade seu armário e come os doces de Halloween que você escondeu das suas irmãzinhas.
— Isso é estranhamente específico.
— Hum, você me perguntou se o Curtis é fofo. A única estranha aqui é você, Bri.
Touché . A pergunta está me incomodando desde o domingo. Será que ele é meio bonitinho? Ele é baixo e meio atarracado, coisa que eu gosto, não posso mentir, e tem uns lábios bem carnudos que ele morde muito, principalmente quando está sorrindo. Seus olhos são mais suaves do que se esperaria, tipo, apesar de falar muita besteira, ele é como um ursinho de pelúcia. Ele não é um garoto lindo, mas eu não suporto garotos lindos. Eles costumam agir como quem sabe que é maravilhoso. Ele tem a quantidade certa de fofura que pode ser considerada bonita.
Mas é o Curtis.
Curtis.
Sonny olha para o celular e o guarda no bolso do casaco. Ele entrou no ônibus sozinho hoje. Malik queria trabalhar no documentário no laboratório antes da aula começar.
— O que fez você começar a pensar na boa aparência do Curtis ou na falta dela? — pergunta Sonny. — Ter sido suspensa te deixou tão desesperada assim?
Eu o empurro com tanta força que ele cai para o lado rindo.
Sonny se senta novamente.
— Vi-o-len-ta. Falando sério, de onde veio isso?
— Nós conversamos na igreja sobre a minha suspensão e ele até que foi legal.
— Caramba, Bri. Ele falou com você como um ser humano e agora de repente você está doida por ele? Que tipo de baboseira heterossexual é essa?
Eu aperto os lábios.
— Não foi isso que eu quis dizer, Sonny. Só estou dizendo... que a conversa me fez olhar para ele de um jeito meio diferente, só isso.
— Como falei, seus padrões são tão baixos que agora você de repente está se apaixonando por ele?
— Eu não me apaixonei, muito obrigada.
— Você vê aquele troll como mais do que um troll. Isso já é bem ruim — diz Sonny. — Aff, criança. O gueto.
Eu reviro os olhos. Sonny só assiste a Real Housewives of Atlanta para pegar as citações de NeNe, assim como assiste a Empire pelas citações de Cookie, e vive pelos momentos em que pode usá-las.
— Você nem me contou como foi no estúdio — disse ele. — Gravou uma música?
— Gravei.
Sonny levanta as sobrancelhas.
— Posso ouvir ou não?
— Humm...
Preciso de todas as minhas forças para dizer “Não!” Eu me tornei uma pessoa nova quando parei na frente do microfone; acontece sempre que eu canto rap. Mas quando Sonny ouvir “Na hora da virada”, ele não vai ouvir Bri, a rapper. Vai ouvir Bri, sua melhor amiga.
Eu devia estar acostumada com isso, pois deixo que ele e Malik ouçam as rimas que escrevi, mas sempre fico com medo de mostrar esse outro lado meu às pessoas que me conhecem. E se elas não gostarem?
— Por favor, Bri — pede Sonny, unindo as mãos. — Por favoooooor.
Quer saber? Tudo bem. Ou ele vai me encher o dia todo.
— Tudo bem.
Por algum motivo, minhas mãos tremem, mas consigo abrir “Na hora da virada” no celular. Aperto o play e desejo poder pular do ônibus.
Não sei como os rappers fazem. Quando parei na frente do microfone, éramos só eu e ele. Não pensei no que Sonny ia pensar, nem ninguém. Só falei o que a rapper Bri queria dizer.
Porra. Por que fiz aquilo?
Mas a boa notícia é que Sonny balança a cabeça com a batida e abre um sorriso largo.
— Briiii! — Ele balança meu ombro. — Que irado!
— Pra cacete — acrescenta Deon atrás de nós. Ele também assente. — É você, Bri?
Meu coração está quase pulando do peito.
— É.
Ele solta um assobio.
— Isso aí é quente.
— Aumenta essa porra! — diz Sonny. O garoto pega meu celular e aumenta o volume, o suficiente para todo mundo, sim, todo mundo no ônibus ouvir.
Conversas param, pessoas balançam as cabeças com a batida e se viram.
— Ei, de quem é essa música? — pergunta Zane.
— Da Bri! — responde Deon.
— Caramba, como se chama? — pergunta Aja, o calouro.
Estou suando. Sério.
— “Na hora da virada.”
— Você não me segura na hora da virada . — Sonny dança da melhor forma que consegue sentado. — Não me segura, não, não.
Ouvir a música na voz dele a faz parecer diferente; como se fosse uma música de verdade, e não só uma coisinha que eu fiz.
Me jogou no chão, cara, maior cagada.
Me denunciou, juntou galera, fiquei toda errada Se eu fizesse o que queria e te desse uma porrada, Sua cara já estaria apodrecida e enterrada.
— Ah, meeeerda — diz Curtis, o punho na boca. — Princesa, você falou do Long e do Tate?
— Ah, falei. Eles tinham que saber.
Pela reação das pessoas no ônibus, parecia que todo mundo tinha descoberto que ia ganhar mil dólares. Deon se deita no banco, agindo como se eu o tivesse matado.
— Você... fez... isso! — diz Sonny. — Ah, meu Deus, você fez isso!
Estou sorrindo muito. Já botaram a música duas vezes, tenho certeza de que estou flutuando.
Até que o ônibus para na frente da Midtown.
Todo mundo desce sem hesitar. O recesso de Natal começa amanhã e acho que todos estão prontos pra encarar logo o dia e acabar com ele. Eu fico no meu lugar e olho para o prédio. Queria que a última vez que estive ali fosse realmente a minha última vez ali, mas hoje de manhã Jay me mandou “entrar lá de cabeça erguida”.
Ela só não me disse como fazer isso.
— Tudo bem? — pergunta Sonny.
Eu dou de ombros.
— Não se preocupe com aqueles dois — diz ele. — Como eu falei, eles não vieram nenhuma vez esta semana.
Long e Tate. Sonny e Malik me mandaram uma mensagem na segunda-feira e me contaram que eles tinham sumido. Não estou preocupada com eles. Não tem como eles voltarem. São os sussurros, os olhares e os boatos que me incomodam.
— Estou do seu lado — diz Sonny. Ele estica o braço para mim. — Vamos, minha dama?
Dou um sorriso.
— Vamos.
Passo o braço pelo de Sonny e descemos do ônibus juntos.
Metade da escola está na frente, como sempre. Os olhares e sussurros começam assim que descemos do ônibus. Uma pessoa cutuca outra e me olha, e logo as duas estão olhando, até que todo mundo também está.
Não foi isso que eu quis dizer quando falei que queria ser visível.
— Então — diz Sonny. — Tem um cara com quem ando conversando...
Viro a cabeça para ele rapidamente.
— Nome completo, data de nascimento e número do CPF.
— Caraca, Bri. Posso terminar?
— Não. — Se o plano dele era me distrair de ser o assunto da escola, deu certo. — Onde vocês se conheceram?
— Nós não nos conhecemos. Só conversamos online.
— Qual é o nome dele?
— Só sei o nome de usuário dele.
— Quantos anos ele tem?
— Dezesseis, como eu.
— Como ele é?
— Eu ainda não vi fotos.
Eu levanto as sobrancelhas.
— Tem certeza de que existe um cara?
— Absoluta. Estamos conversando há semanas...
Eu boto a mão no peito.
— Jackson Emmanuel Taylor, tem um cara com quem você está conversando há semanas e só estou sabendo agora ?
Ele revira os olhos.
— Você é tão dramática. E xereta. E não consegue guardar segredo. Então, é, você só está sabendo agora .
Dou um soco no braço dele, o que ele devolve com um sorriso.
— Eu também te amo. O problema é que só sei o nome de usuário dele, Rapid_One, e... o que você está fazendo?
Eu pego o celular.
— Stalkeando. Continua.
— Nojenta. Ele me mandou uma mensagem algumas semanas atrás. Ele faz fotografia e me mandou uma foto do meu punho com arco-íris no parque Oak.
Sonny faz grafite no Garden e posta no Instagram com o codinome “Sonn__Shine”. Malik e eu somos as únicas pessoas que sabem que é ele.
— Aah! Ele mora aqui! Qual é o endereço dele?
— Tenho certeza de que você vai descobrir, Olivia Pope de araque.
Sonny e eu éramos obcecados por Scandal . Kerry Washington é uma musa.
— Olha, eu me senti elogiada.
— Claro. Então, ele disse que sentiu uma conexão com o grafite e veio falar comigo. Estamos trocando mensagens todos os dias agora.
Ele abre um sorriso tímido e nada característico quando subimos a escada.
— Ah, meu Deus, você gosta dele! — eu digo.
— Mas é claro que sim. Acho que ele gosta de mim também, mas tecnicamente nós não nos conhecemos , Bri. Não trocamos nem fotos. Quem faz isso?
— Duas pessoas que nasceram na geração das redes sociais e que, apesar de serem rotuladas como rasas e vaidosas, na verdade são superantenadas e preferem se esconder atrás de avatares a se revelarem.
Sonny só fica me olhando.
Eu dou de ombros.
— Vi no Instagram.
Sonny inclina a cabeça.
— Não sei se você me atacou ou não. Eu li há pouco tempo um livro sobre dois caras que se apaixonam por e-mail. Quando li, fiquei pensando: “Caramba. Talvez possa dar certo pra nós também.”
— Mas? — eu pergunto. Obviamente tem um mas.
— Não posso me distrair. Tem coisa demais em jogo.
— Se você está falando das coisas preparatórias pra faculdade...
— Coisas preparatórias pra vida , Bri. Minhas pontuações no ACT e no SAT vão me botar em uma boa faculdade de artes, vão me ajudar a conseguir uma bolsa. Vão me tirar do Garden. Eu sei, nada é garantido, mas, caramba, por pelo menos quatro anos eu talvez possa morar em outro lugar que não seja o nosso bairro e toda aquela merda. Em um lugar onde eu não precise me preocupar com cores, balas perdidas. Com homofóbicos.
Eu entendo... e não entendo. Já tive vislumbres de coisas que Sonny e tia Pooh enfrentam no bairro, mas nunca vou saber de verdade porque não passo por elas.
— Além do mais, tenho que dar o exemplo pras minhas irmãs — diz Sonny. — Elas precisam me ver conseguir, senão vão achar que não conseguem.
— As pessoas vão pra faculdade e têm relacionamentos, Sonny.
— É, mas não posso correr o risco, Bri. Por sorte, o Rapid entende. Estamos indo devagar, sei lá. Acho que não contei pra você e o Malik sobre ele porque é legal não ter que explicar nada e só... existir, sabe?
O que quer dizer que ele não acha que consiga “só existir” comigo e com o Malik. Mas acho que entendo. É como o rap dentro de mim. Eu não quero ter que explicar porra nenhuma. Só quero existir.
Eu beijo a bochecha dele.
— Bom, estou feliz que você tenha encontrado alguém.
Sonny me olha de lado.
— Não vai ficar melosa pra cima de mim, vai?
— Nunca.
— Tem certeza? Isso aí pareceu bem meloso.
— Não foi meloso.
— Acho que foi, sim.
— Isso é meloso? — Eu mostro o dedo do meio.
— Ah. Essa é a minha Bri.
Idiota.
Nós entramos na fila da segurança. Tem uma mulher e um homem que nunca vi, instruindo as pessoas a passarem pelos detectores de metais um de cada vez.
De repente, fico enjoada.
Não tinha nada comigo naquele dia. Não tem nada comigo hoje. Nem doces. Não vou mais vender aquela merda porque faz as pessoas acharem que eu sou traficante.
Mas estou tremendo como se eu realmente fosse traficante. É como quando vou a uma loja em Midtown (o bairro) e os funcionários me observam com atenção ou me seguem. Sei que não estou roubando, mas fico com medo de acharem que estou roubando.
Não quero que esses novos guardas também façam suposições. Principalmente porque consigo ver o local exato onde Long e Tate me seguraram no chão. Não tem sangue lá nem nada, mas é uma daquelas coisas que nunca vou esquecer. Eu conseguiria botar o rosto no mesmo lugar sem pensar duas vezes.
É mais difícil respirar.
Sonny toca nas minhas costas.
— Está tudo bem.
A mulher faz sinal para eu passar pelo detector de metais. Não apita e estou liberada para seguir em frente. O mesmo acontece com Sonny.
— Sua primeira aula é poesia, não é? — pergunta ele, como se eu não tivesse acabado de quase ter um ataque de pânico.
Eu engulo em seco.
— É. Você tem história?
— Não. Pré-cálculo. Como se eu precisasse saber aquelas merdas pra...
— Libertem Long e Tate!
Nós dois nos viramos. Tem um cara ruivo levantando o punho e olhando para nós. Os amigos morrem de rir.
Sempre há aquele garoto branco que diz idiotices só para fazer os amigos rirem. Eles costumam ser encontrados falando merda no Twitter. Nós acabamos de ver um solto na natureza.
— Que tal você libertar minhas bolas pra você e seus ancestrais da klan? — pergunta Sonny, com a mão na virilha.
Eu seguro o braço dele.
— Ignora.
Eu o puxo pelo corredor na direção dos nossos armários. Malik enfia os livros no armário já lotado. Ele faz milagre todas as vezes. Ele e Sonny batem mãos e terminam com a saudação de Wakanda.
— Tudo bem com vocês? — pergunta Malik, mas olha para mim quando fala.
— Tudo — respondo.
— Mais do que bem — diz Sonny. — Bri deixou a galera no ônibus ouvir a música dela. Aquela porra é foda.
— É legal — eu digo.
— Legal? Tá de brincadeira — diz Sonny. — É muito melhor do que aquele lixo “Chocrível” do Milez.
Dou um sorrisinho.
— Isso não diz muito.
Malik me encara com olhos brilhantes.
— Não estou surpreso.
O sorriso dele... meu bom Senhor, deixa um nó no meu cérebro.
Mas é o Malik.
É o Malik.
Droga, é o Malik.
— Obrigada.
— Quando vou poder ouvir? — pergunta ele.
Perto dessas pessoas que já estão me olhando? Definitivamente, agora não.
— Mais tarde.
Ele inclina a cabeça, as sobrancelhas erguidas.
— Mais tarde quando?
Eu também inclino a cabeça.
— Mais tarde quando me der na telha.
— Isso não é específico o suficiente. Que tal mais tarde na hora do almoço?
— Almoço? — eu digo.
— É. Quer ir ao Sal’s?
Acho que tenho uns dois dólares pra pagar uma pizza.
— Quero. Nos encontramos aqui ao meio-dia?
— Eu, não — avisa Sonny. — Tenho preparatório para o SAT.
— É — diz Malik, como se já soubesse. — Achei que a gente podia sair juntos, Bri.
Espera. Isso...
Ele está me chamando para sair?
Tipo, num encontro?
— Hum, tá. — Não sei como consegui formar uma palavra. — Claro.
— Legal, legal. — Malik sorri sem mostrar os dentes. — A gente se encontra aqui ao meio-dia?
— Isso. Meio-dia.
— Tudo bem, beleza.
O sinal toca. Sonny bate na nossa mão e vai para a ala de artes visuais. Malik e eu seguimos em direções opostas. Na metade do corredor, ele se vira.
— Ah, e quer saber, Brisa? — diz ele enquanto caminha de costas. — Tenho certeza de que a música é irada.
ONZE
Minha cabeça está em qualquer lugar, menos onde deveria estar.