Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 5 de 40

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Na hora da virada

Cinco

— Quem?

— O DJ Hype. Eu me inscrevi pra uma vaga no Ringue, lembra?

— Ah, isso.

Isso , como se não fosse nada de mais. Jay sabe que eu gosto de fazer rap, mas acho que não se dá conta de que quero fazer rap. Ela age como se fosse o jogo de videogame que estou curtindo no momento.

— Dê um tempo a ele — diz ela. — Como foi a aula preparatória do ACT? Vocês fizeram simulados hoje, né?

— É. — Ela só liga pra isso agora, pra porcaria do exame.

— E aí? — diz ela, como se estivesse esperando mais informações. — Como você foi?

— Acho que bem.

— Estava difícil? Fácil? Você teve dificuldade em alguma parte?

Lá vamos nós com o interrogatório.

— É só um simulado.

— Que vai nos dar uma boa ideia de como você vai se sair no exame de verdade — diz Jay. — Bri, isso é sério.

— Eu sei. — Ela já falou um milhão de vezes.

Jay coloca um pedaço de frango em cada prato. Do Popeyes. É dia quinze. Ela acabou de receber, então estamos comendo bem. Se bem que Jay jura que o Popeyes não é tão bom aqui quanto em Nova Orleans. Foi lá que ela e a tia Pooh nasceram. Ainda consigo ouvir Nova Orleans na voz da Jay às vezes. Tipo, quando ela diz “florzinha”, parece que escorreu melado na palavra e ela acaba partida em mais sílabas do que deveria.

— Se nós quisermos que você entre em uma boa faculdade, você tem que levar isso mais a sério — diz ela.

Se nós quisermos? Quem quer é ela .

Não é que eu não queira fazer faculdade. Na verdade, não sei. O principal é que quero fazer o rap acontecer. Se eu fizer isso, vai ser melhor do que qualquer bom emprego que um diploma de faculdade pode me dar.

Eu pego o celular. São 17h20. Nada de ligação.

Jay suga os dentes.

— Aham.

— O quê?

— Estou vendo onde sua cabeça está. Não deve ter conseguido nem se concentrar no simulado de tanto pensar nessa coisa do Ringue.

Sim.

— Não.

— Humm. Que horas o Hype tinha que ligar, Bri?

— Tia Pooh disse que era entre 16h30 e 17h30.

— Pooh? Você não pode achar que nada do que ela diz é lei. É a mesma pessoa que alegou que alguém de Garden capturou um alienígena e escondeu no porão.

Verdade.

— Mesmo que ele ligue entre 16h30 e 17h30, você ainda tem tempo — declara ela.

— Eu sei, só estou...

— Impaciente. Como seu pai.

Se deixarmos Jay falar, ela vai dizer que sou teimosa como meu pai, tenho a boca ferina do meu pai e a cabeça quente do meu pai. Como se ela não fosse todas essas coisas e mais um pouco. Ela diz que o Trey e eu nos parecemos com ele. O mesmo sorriso, mas sem as coroas de ouro nos dentes. Temos as mesmas covinhas nas bochechas, a mesma pele clara que faz as pessoas nos chamarem de “pardos” e “moreninhos”, os mesmos grandes olhos escuros. Não tenho as maçãs proeminentes da Jay nem os olhos mais claros, e só fico com a cor de pele dela se passar o dia no sol. Às vezes, eu a vejo me olhando como se estivesse se procurando. Ou como se visse o papai e não conseguisse afastar o olhar.

Como ela está me olhando agora.

— O que foi? — eu pergunto.

Ela sorri, mas é um sorriso fraco.

— Nada. Seja paciente, Bri. Se ele ligar, vai ao ginásio, faz sua batalhazinha...

Batalha zinha ?

— ...e volta logo pra casa. Não fica por lá com aquele pessoal da Pooh.

Tia Pooh está me levando ao Ringue há semanas para sentir como são as coisas. Vi vários vídeos no YouTube antes disso, mas estar lá é diferente. Jay não se importou de eu ir; meu pai batalhou lá, e o sr. Jimmy não tolera besteira. Mas não gostou que fosse com a tia Pooh. E não gostou nada da tia Pooh dizendo que era a minha agente. De acordo com ela, “aquela idiota não é agente!”.

— Como você pode falar mal da sua irmã assim? — pergunto.

Ela coloca arroz cajun nos pratos.

— Eu sei em que ela está metida. Você sabe em que ela está metida.

— É, mas ela não vai deixar nada acontecer...

Uma pausa.

Jay coloca quiabo frito nos pratos. E milho cozido. Termina com pãezinhos macios e fofinhos. Podem dizer o que quiserem sobre os pãezinhos do Popeyes, mas eles não são nem macios e nem fofinhos.

Isso é Popkenchurch.

Popkenchurch é quando você compra frango frito e arroz cajun do Popeyes, pãezinhos do KFC e quiabo frito e milho cozido do Church’s. Trey chama de “pré-parada cardíaca”.