Na hora da virada
Dezenove
As sobrancelhas se unem e a boca se abre um pouco. Malik fica tão fofo confuso.
— O quê?
— Exatamente. Melhor você ficar com os filmes mesmo, cara.
— Concordo — diz Sonny. — Olha, aquela batalha foi surreal, Bri. Menos a parte em que você ficou paralisada na primeira rodada. Eu estava prestes a fazer a Mariah Carey e dizer “Eu não conheço ela”.
Dou um soco no braço dele. Idiota .
— Mas, falando sério, você arrasou — diz Sonny. — Já o Milez, por outro lado, tem que parar de fazer rap.
Malik assente.
— Ele Jar Jar Binksou total.
Malik insiste que Jar Jar Binks deveria ser verbo, adjetivo e advérbio para descrever coisas horríveis. Porque o Jar Jar Binks é o pior personagem do universo Star Wars.
— Mano, você sabe que isso nunca vai pegar, né? — pergunta Sonny.
— Mas faz sentido! Quer dizer que uma coisa é horrível? É só chamar de Jar Jar Binks.
— Tudo bem. Você é um Jar Jar Binks — diz Sonny. — Entendi.
Malik dá um peteleco na testa do Sonny. Sonny dá um soco no ombro do Malik. Eles ficam um batendo no outro.
Perfeitamente normal. Na verdade, uma briga entre Sonny e Malik é daquelas poucas certezas da vida, junto com a morte, os impostos e as polêmicas do Kanye West.
O celular do Sonny apita, e de repente o Malik não existe mais para ele. O rosto dele se ilumina quase tanto quanto a tela.
Eu estico o pescoço.
— Está mandando mensagem pra quem?
— Credo, mulher. Deixa de ser curiosa.
Eu me estico mais um pouco e tento ver o nome, mas o Sonny escurece a tela e não consigo. Só vejo o emoji com olhos de coração ao lado do nome. Eu levanto as sobrancelhas.
— Quer me contar sobre alguém, senhor?
Sonny olha em volta quase como se tivesse medo de alguém ter me ouvido. Mas todo mundo está conversando. Mesmo assim, ele diz:
— Depois, Bri.
Considerando o tanto que ele ficou tenso, deve ser um cara. Quando nós tínhamos 11 anos, Sonny saiu do armário pra mim. A gente estava vendo o Justin Bieber se apresentar em uma premiação. Eu achava que ele era fofo, mas não era obcecada por ele como o Sonny era. E o Sonny disse de repente: “Acho que só gosto de garotos.”
Foi do nada. Mais ou menos. Havia umas coisinhas aqui e outras ali que me faziam suspeitar. Tipo que ele imprimia fotos do Bieber e as levava pra todo lado escondido. Como ele agia com meu irmão; se Trey gostava de alguma coisa, Sonny de repente amava a mesma coisa, se Trey falava com ele, Sonny ficava vermelho, e se Trey arrumasse uma namorada, Sonny agia como se fosse o fim do mundo.
Mas não posso mentir, eu não soube mesmo o que dizer na hora. Então só disse “Tudo bem” e deixei por isso mesmo.
Ele contou para o Malik não muito tempo depois e perguntou se eles poderiam continuar sendo amigos. Aparentemente, Malik disse alguma coisa do tipo “Só se a gente puder continuar jogando Playstation”. Sonny também contou aos pais, e eles sempre aceitaram numa boa. Mas acho que às vezes ele tem medo de como outras pessoas vão reagir se souberem.
O ônibus para em um cruzamento, ao lado de um grupo de garotos com olhos embaçados. A respiração deles vira fumaça enquanto esperam o ônibus da Garden High.
Curtis abre a janela.
— Ei, Básicos. Podem repetir aquela merda que vocês estavam dizendo ontem!
O orgulho da escola nos transforma em gangues. Nós chamamos os alunos de Garden Heights de Básicos porque dizemos que eles estudam só coisas “básicas pra caramba”. Eles nos chamam de nerds do micro-ônibus.
— Cara, que se foda sua bunda de pirulito — diz um garoto de colete acolchoado. — Aposto que você não tem coragem de sair desse ônibus e dizer isso na minha cara.
Eu dou um sorrisinho. O Keandre não mente.
Ele olha para mim.
— Ei, Bri! Você deu um show naquele Ringue, garota!
Eu abro a janela. Alguns outros garotos assentem ou dizem:
— E aí, Bri?
Se o orgulho da escola nos transforma em gangues, sou neutra graças ao meu pai.
— Viu a batalha? — eu pergunto a Keandre.
— Claro que vi! Parabéns, rainha.
Viu? No bairro, sou da realeza. Todos gostam de demonstrar seu amor por mim.