Na hora da virada
Dezessete
— Droga — eu sussurro baixinho. — Vem cortar minha vibe tão cedo assim.
— Sua vibe está errada! — grita ela do corredor.
Não posso dizer porra nenhuma nessa casa.
Eu me levanto, mas tenho vontade de voltar para debaixo do cobertor quase na mesma hora. Aquela primeira sensação do frio no ar é sempre a pior. O movimento ajuda.
As damas do hip-hop assistem a tudo da parede ao lado da minha cama. Tem um pouco de todo mundo, desde MC Lyte a Missy Elliott e Nicki Minaj e Rapsody... a lista não termina. O que penso é que, se eu quero ser rainha, as rainhas deviam tomar conta de mim enquanto eu durmo.
Visto o moletom do Vader e calço meus não-Timberlands. Pois é, não são os de verdade. Os verdadeiros custam uma conta de água. Esses custaram vinte pratas num bazar de trocas. Eu tento andar com eles como se fossem Timbs, só que...
— Merda — sussurro. Uma parte do “couro” preto de um se desgastou, revelando o tecido branco. Isso aconteceu com o outro na semana passada. Pego uma caneta permanente preta e começo a trabalhar. É horrendo, mas a gente faz o que tem que fazer.
Em breve vou comprar umas botas Timberland de verdade. Estou guardando o dinheiro que ganho vendendo guloseimas. Tia Pooh compra meu estoque e me deixa ficar com o lucro das vendas. É o mais perto que Jay chega de deixar que ela me dê dinheiro. Graças aos alunos da Midtown, estou na metade do valor de um par de Timberlands novinhos. Tecnicamente, a gente não pode vender nada na escola, mas consegui me safar até agora, nem sei como. Viva Michelle Obama. Aquela onda saudável dela fez a escola tirar as coisas boas das máquinas de lanches, o que tornou meu negócio muito lucrativo.
Uma buzina soa lá fora. São sete e quinze, então deve ser o sr. Watson, o motorista do ônibus. Ele alega que vai chegar na hora mesmo depois que morrer. Se ele aparecer com cara de zumbi no ônibus um dia, eu que não vou entrar.
— Tô saindo — eu grito para Jay. A porta do quarto do Trey está fechada. Ele deve estar apagado. Ele chega em casa do trabalho quando eu já quase fui para a cama, e sai para o trabalho quando estou na escola.
Tem um ônibus amarelo pequeno esperando na porta de casa. Minha escola fica no bairro de Midtown, onde as pessoas vivem em condomínios bonitos e casas antigas e caras. Eu moro na região da escola Garden High, mas Jay diz que tem merda demais e pouca gente dedicada lá. Uma escola particular não cabe no nosso orçamento, então a Escola de Artes Midtown é a melhor alternativa. Alguns anos atrás, começaram a aceitar alunos de toda a cidade. Chamaram de “iniciativa de diversidade”. Jay chama de iniciativa de quem “precisava de subsídios que ninguém queria dar pra um bando de alunos brancos”. Tem alunos ricos do lado norte, alunos de classe média do centro e de Midtown, e alunos do gueto como eu. Somos só quinze do Garden em Midtown. Então mandam um micro-ônibus pra nós.
O sr. Watson está com o gorro de Papai Noel e cantarola junto com a versão de “Silent Night” dos Temptations, que está tocando no celular dele. Ainda faltam duas semanas para o Natal, mas o sr. Watson entrou no clima há meses.
— Oi, sr. Watson — eu digo.
— Oi, Brianna! Que tal esse frio todo?
— Está frio demais .
— Ah, isso não existe. Esse clima é perfeito!
Para quê, ficar com a bunda congelada?
— Se o senhor diz — eu murmuro, e vou para o fundo do ônibus. Sou a terceira que ele busca. Hana está cochilando na frente, a cabeça mal tocando na janela. Ela não vai estragar o coque, mesmo com sono. Todas as dançarinas do segundo ano parecem exaustas atualmente.
Deon me cumprimenta do banco nos fundos, o estojo do saxofone de pé do lado. Deon também é do segundo ano, mas como está no programa de música, eu só o vejo no ônibus.
— Oi, Bri. Quero um Snickers.
Eu me sento duas fileiras à frente.
— Você tem grana pra um Snickers?
Ele joga para mim uma nota de um dólar enrolada. Eu jogo a barra de chocolate para ele.
— Obrigado. Você arrasou no Ringue.
— Você ficou sabendo?
— Fiquei. Eu vi a batalha no YouTube. Meu primo me mandou mensagem na hora. Ele disse que sua vez chegou.
Caramba, as pessoas estão falando assim? Eu fiz as pessoas do Ringue comentarem. Mal consegui sair de lá ontem à noite sem que me dissessem o quanto eu era insana. Foi a primeira vez que percebi que posso fazer isso.
Querer fazer uma coisa é diferente de achar que é possível. O rap é meu sonho desde sempre, mas sonhos não são reais. Ou a gente acorda ou a realidade faz com que pareçam idiotas. Pode acreditar, todas as vezes que minha geladeira está quase vazia, todos os meus sonhos parecem idiotas. Mas entre a minha vitória e o contrato do Dee-Nice, tudo parece possível agora. Ou talvez eu esteja desesperada por mudanças.
O Garden passa pela minha janela. As pessoas mais velhas estão molhando as flores ou tirando o lixo. Dois carros tocam música alta. Parece normal, mas as coisas não estão normais desde as manifestações. O bairro não parece seguro. Não que o Garden já tivesse sido uma utopia, de jeito nenhum, mas antes eu só me preocupava com os GDs e os Crowns. Agora também tenho que ter medo da polícia? Sim, as pessoas morrem aqui, e não, nem sempre é pelas mãos da polícia, mas Jay diz que era como se um estranho entrasse na sua casa, roubasse um dos seus filhos e botasse a culpa em você por ter uma família disfuncional enquanto o mundo todo critica você por ficar chateada.