Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 4 de 40

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Na hora da virada

Quatro

Eu nunca consegui chegar aos pés do Trey aqui na Midtown. Ainda estão expostos os programas e os recortes de jornal da época em que ele estrelou A Raisin in the Sun . Fico surpresa por não terem mudado o nome da escola para “Escola de Artes Trey Jackson Porque Amamos Muito Aquele Cuzão”.

Enfim.

— Uma vez, ele passou de nota 10 para nota 7 — disse a professora Murray —, mas conseguiu recuperar. Agora, olha ele. Se formou em Markham com honras.

É... mas ele voltou a morar na nossa casa no verão. Não conseguiu arrumar nenhum emprego decente e, há três semanas, faz pizzas e recebe um salário mínimo. Não é algo que me deixe com expectativas.

Não o estou menosprezando. Nem um pouco. É demais ele ter se formado. Ninguém na família da nossa mãe tem diploma universitário, e a vovó, a mãe do nosso pai, adora contar para todo mundo que o neto dela se formou “magnum cum laude”. (Não é assim que se diz, mas boa sorte se você for dizer isso pra vovó.)

Só que a professora Murray não quer saber de nada disso.

— Vou melhorar minhas notas, juro — digo para ela. — Só preciso participar dessa batalha e ver o que vai acontecer.

Ela assente.

— Eu entendo. Sei que sua mãe vai entender também.

Ela joga meu celular para mim.

Poooooooorra.

Vou para o corredor. Sonny e Malik estão encostados nos armários. Sonny está digitando no celular. Malik está mexendo na câmera. Ele está sempre no modo cineasta. A uns poucos metros, os seguranças da escola, Long e Tate, ficam de olho neles. Aqueles dois sempre arrumam alguma confusão. Ninguém quer dizer, mas se você tem a pele preta ou marrom, é mais provável que vá parar no radar deles, apesar de o próprio Long ser negro.

Malik ergue o olhar do celular.

— Tudo bem, Bri?

— Podem ir agora — avisa Long. — Não vão ficar enrolando aqui.

— Caramba, a gente não pode conversar por um segundo? — pergunto.

— Vocês ouviram — diz Tate, apontando para a porta com o polegar. Ele tem cabelo louro oleoso. — Saiam daqui.

Eu abro a boca, mas Sonny fala primeiro.

— Vamos embora, Bri.

Tudo bem. Sigo Sonny e Malik na direção da porta e olho para o celular.

São 16h45 e o Hype ainda não ligou.

Um trajeto de ônibus e uma caminhada até em casa e nada.

Chego em casa exatamente às 17h09.

O Jeep Cherokee da Jay está na entrada da nossa casa. Tem música gospel tocando lá dentro. É uma daquelas músicas animadas que levam a uma pausa na igreja e faz a vovó correr pelo templo, gritando. É constrangedor demais.

Jay só costuma botar esse tipo de música aos sábados, quando é dia de faxina, pra forçar a mim e ao Trey a nos levantarmos e ajudarmos. É difícil xingar alguém que está cantando sobre Jesus, então eu me levanto e ajudo na faxina sem dizer nada.

Por que será que ela está ouvindo essa música agora?

Sinto um arrepio assim que entro em casa. Não está tão frio quanto do lado de fora, dá até pra tirar o casaco e ficar só de moletom. Nosso gás foi cortado semana passada e, sem gás, não temos aquecimento. Jay colocou um aquecedor elétrico no corredor, mas só afasta um pouco do frio do ar. Nós temos que esquentar água em panelas no fogão elétrico se quisermos tomar banho quente e precisamos dormir com mais cobertores na cama. Mamãe e Trey se enrolaram com algumas contas, e ela teve que pedir uma extensão de prazo para a companhia de gás. Depois, teve que pedir outra. E outra. Eles se cansaram de esperar o dinheiro e cortaram tudo.

Acontece.

— Cheguei — eu grito da sala.

Estou prestes a jogar a mochila e o casaco no sofá, mas Jay grita de onde está:

— Pendura esse casaco e guarda a mochila no seu quarto!

Caramba, como ela sabe o que estou fazendo? Obedeço e sigo a música até a cozinha.

Jay tira dois pratos de um armário, um para mim e outro para ela. Trey vai demorar pra chegar. Ainda está com o visual de “Jay de Jesus”, necessário para sua função de secretária da igreja: rabo de cavalo, saia até os joelhos, blusa de mangas compridas para esconder as tatuagens e as cicatrizes do vício. É quinta-feira, e ela tem aulas hoje para conseguir o diploma de serviço social que tanto quer; o plano é oferecer aos outros a ajuda que não teve quando usava drogas. Nos últimos meses, ela voltou a estudar e faz aulas várias noites por semana. Ela costuma ter tempo apenas para comer ou trocar de roupa, nunca para as duas coisas. Parece que hoje ela escolheu comer.

— Oi, Li’l Bit — diz ela, toda fofa, como se não tivesse acabado de gritar comigo. Típico. — Como foi seu dia?

São 17h13. Eu me sento à mesa.

— Ele ainda não ligou.

Jay coloca um prato na minha frente e outro ao meu lado.