Na hora da virada
Oito
— Droga, é sério? — diz ela, e era de se pensar que isso dispararia os alarmes dela também, mas ela só diz: — Por que você não trouxe um prato pra mim?
Eu aperto os olhos.
— Gulosa. Ela só compra Popkenchurch quando tem alguma coisa errada, tia Pooh.
— Que nada, cara. Você está especulando demais. Essa batalha te deixou muito nervosa.
Eu mordo o lábio.
— Pode ser.
— Com certeza. Vamos para o Ringue, pra você mostrar pra esses idiotas como se faz. — Ela mostra a palma da mão para mim. — O céu é o limite?
Esse é o nosso lema, tirado de uma música do Biggie que é mais velha do que eu e quase tão velha quanto a tia Pooh. Eu bato na mão dela.
— O céu é o limite.
— Vamos ver os otários lá do alto. — Ela cita uma parte da música e beija minha testa. — Mesmo com você usando esse moletom nerd.
Tem o Darth Vader na frente. Jay encontrou no bazar de trocas algumas semanas atrás.
— Como é que é? Vader é foda!
— Não tô nem aí, é uma merda nerd!
Eu reviro os olhos. Quando você tem uma tia que só tinha 10 anos quando você nasceu, às vezes ela age como uma tia e outras, como uma irmã mais velha irritante. Principalmente porque Jay ajudou a criá-la; a mãe delas morreu quando a tia Pooh tinha um ano, e o pai morreu quando ela tinha nove. Jay sempre tratou Pooh como a terceira filha.
— Hum, merda nerd? — eu digo para ela. — Está mais pra uma porra irada. Você precisa expandir seus horizontes.
— E você precisa parar de fazer compras no SyFy Channel.
Tecnicamente, Star Wars não é ficção-ci... deixa pra lá. A capota do Cutlass está abaixada, e pulo a porta para entrar. Tia Pooh puxa a calça larga antes de sentar. Qual é o sentido de usar a calça larga lá embaixo se você vai ter que ficar puxando para cima o tempo todo? E ela quer criticar as minhas escolhas de moda.
Ela reclina o assento e vira a cabeça para cima. É, ela pode baixar a capota, mas essa combinação de ar frio da noite e calor do aquecedor é perfeita.
— Preciso pegar um dos meus negocinhos.
Ela enfia a mão no porta-luvas. Tia Pooh parou de usar maconha e passou a chupar pirulitos Blow Pop. Acho que ela prefere ter diabetes a ficar chapada o tempo todo.
Meu celular vibra no bolso do moletom. Mandei uma mensagem para Sonny e Malik com as mesmas duas palavras que mandei pra tia Pooh, e eles estão surtando.
Eu também deveria estar surtando, ou pelo menos me concentrando, mas não consigo afastar a sensação de que o mundo virou de cabeça pra baixo.
E a qualquer segundo, pode me virar também.
O estacionamento do Jimmy está quase lotado, mas nem todo mundo está tentando entrar. O agito , já começou. É a festa do lado de fora que acontece todas as noites de quinta depois da batalha final no Ringue. Há quase um ano, o pessoal usa o Jimmy como local de festa, como fazem na Magnolia Avenue nas noites de sexta. Ano passado, um garoto foi morto por um policial a poucas ruas da casa dos meus avós. Ele não estava armado, mas o grande júri decidiu não indiciar o policial. Houve protestos durante semanas. Metade do comércio do Garden foi queimado de propósito por baderneiros ou por casualidades da guerra. O Club Envy, o local tradicional das noites de quinta, foi uma casualidade.
O estacionamento não é minha praia (fazer uma festa no frio? Não mesmo), mas é legal ver as pessoas exibindo as rodas novas ou a suspensão hidráulica, carros balançando para cima e para baixo como se não tivessem comprometimento nenhum com a gravidade. A viatura da polícia passa o tempo todo, mas isso já virou uma coisa normal no Garden. Era para ser algo do tipo “Oi, sou o policial simpático do bairro que não vai atirar em você”, mas a mensagem que passa é “Estamos de olho nesse bando de negros”.
Sigo tia Pooh até a entrada. Tem música vindo do ginásio, e os leões de chácara revistam as pessoas e passam detectores de metal portáteis pelos corpos. Se alguém estiver armado, o segurança coloca a arma em um balde ali perto e devolve quando o Ringue acabar.
— A campeã chegou! — avisa tia Pooh quando nos aproximamos da fila. — Melhor até já colocar a coroa nela!
Isso basta para nós duas ganharmos tapas nas mãos e acenos de cabeça.
— E aí, Li’l Law — dizem algumas pessoas. Apesar de estarmos tecnicamente furando fila, está tudo bem. Faço parte da realeza graças ao meu pai.
Mas também ganho umas risadinhas debochadas. Deve ser engraçado uma adolescente de 16 anos com moletom do Darth Vader achar que tem chance no Ringue.
Os leões de chácara batem na mão da tia Pooh.