Na hora da virada
Três
— Está tudo bem em casa? — pergunta a professora Murray.
— Você parece a sra. Collins. — Essa é a orientadora jovem e loura que é legal, mas se esforça demais. Todas as vezes que sou enviada pra sala dela, ela faz perguntas que parecem ter vindo de algum manual com um título “Como falar com crianças negras típicas de estatísticas que sempre vão parar na sua sala”.
Como está a vida em casa? (Não é da sua conta.)
Você testemunhou algum evento traumático ultimamente, como um tiroteio? (Não é porque eu moro no “gueto” que eu desvio de balas todos os dias.)
Você está tendo dificuldade de aceitar o assassinato do seu pai? (Meu pai morreu há doze anos. Eu mal me lembro dele.)
Você está tendo dificuldade de aceitar o vício da sua mãe? (Ela está limpa há oito anos. Só é viciada em novelas atualmente.)
O que anda rolando, mana, sabe comé? (Tá, ela não disse isso, mas é só uma questão de tempo.)
A professora Murray abre um sorrisinho.
— Só estou tentando entender o que está acontecendo com você. O que te deixou tão distraída hoje que fez você jogar no lixo meu tempo e o dinheiro suado da sua mãe?
Dou um suspiro. Ela só vai me dar o telefone quando eu falar. Tudo bem. Vou falar.
— Estou esperando o DJ Hype me dizer que posso participar da batalha no Ringue dele hoje.
— Ringue?
— É. O Ringue de Boxe do Jimmy. Ele recebe batalhadores freestyle todas as quintas. Mandei meu nome pra ver se consigo uma chance de batalhar hoje.
— Ah, eu sei o que é o Ringue. Só estou surpresa de você participar.
O jeito como ela diz “você” embrulha meu estômago, como se fizesse mais sentido que qualquer outra pessoa no mundo participasse do Ringue, menos eu.
— Por que você está surpresa?
Ela levanta as mãos.
— Eu não quis dizer nada. Sei que você tem talento. Já li suas poesias. Só não sabia que você queria ser rapper.
— Muita gente não sabe.
E esse é o problema. Eu faço rap desde os 10 anos, mas nunca me expus. Tudo bem que o Sonny e o Malik sabem, e a minha família também. Mas vamos ser realistas: ouvir da mãe que você é uma boa rapper é a mesma coisa que ouvir sua mãe dizer que você está linda quando na verdade você está toda desgrenhada. Elogios assim são parte das obrigações que ela assumiu quando me expulsou do útero.
Talvez eu seja boa, não sei. Eu estava esperando o momento certo.
Esta noite pode ser o momento certo, e o Ringue é o lugar perfeito. É um dos pontos mais sagrados de Garden Heights, só atrás do Templo de Cristo. Ninguém pode se dizer rapper se não tiver batalhado no Ringue.
É por isso que eu tenho que arrasar. Se vencer hoje, ganho uma vaga na escalação do Ringue, e se conseguir uma vaga na escalação do Ringue, posso participar de mais batalhas, e se participar de mais batalhas, vou fazer meu nome. Quem sabe o que pode acontecer depois?
A expressão da professora Murray se suaviza.
— Está seguindo os passos do seu pai, é?
É estranho. Sempre que as pessoas falam dele, é como se estivessem confirmando que ele não é uma pessoa imaginária de quem só lembro de uma coisa ou outra. E quando o chamam de meu pai e não de Lawless, a lenda underground do rap, é como se estivessem me lembrando de que sou dele e ele é meu.
— Acho que sim. Estou me preparando para o Ringue há um tempão. É difícil me preparar pra uma batalha , mas uma vitória poderia dar um empurrão na minha carreira, sabe?
— Me deixa ver se entendi — diz ela, se sentando mais ereta.
Alarmes imaginários disparam na minha mente. Aviso: sua professora vai acabar com você, droga.
— Você está tão concentrada no rap que suas notas caíram drasticamente este semestre. Esqueceu que as notas do segundo ano são vitais para a admissão na faculdade. Esqueceu que me disse uma vez que quer entrar na Markham ou em Howard.
— Sra. Murray...
— Não, pense nisso por um segundo. A faculdade é seu objetivo, certo?
— Acho que é.
— Você acha?
Eu dou de ombros.
— A faculdade não é pra todo mundo, sabe?
— Talvez não. Mas e o ensino médio? É essencial. Agora foi um 5, mas esse 5 pode virar 3 se você continuar assim. Tive uma conversa parecida com seu irmão uma vez.
Tento não revirar os olhos. Não é nada contra o Trey nem contra a professora Murray, mas quando você tem um irmão mais velho que teve um ótimo desempenho, se você não se equipara à grandiosidade dele, as pessoas sempre têm alguma coisa a dizer.