Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 8 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Carreiras desviantes

que um dos passos na formação de um padrão habitual de uso de drogas — disposição para experimentar

a droga — seja realmente resultado de uma variável de personalidade ou de orientação pessoal, como a

alienação de normas convencionais. A variável da alienação pessoal, contudo, só produzirá uso de

drogas em pessoas que estão em condições de experimentá-las porque participam de grupos em que elas

estão disponíveis; pessoas alienadas e para as quais as drogas não estão disponíveis não podem iniciar a

experimentação e, por conseguinte, não podem se tornar usuárias, por mais alienadas que sejam. A

alienação poderia, portanto, ser uma causa necessária do uso de drogas, mas só é critério de prisão entre

usuários e não-usuários num estágio particular do processo.

Uma concepção útil no desenvolvimento de modelos seqüenciais de vários tipo de comportamento

desviante é a de carreira.3 Originalmente desenvolvido em estudos de ocupações, o conceito se refere à

seqüência de movimentos de uma posição para outra num sistema ocupacional, realizados por qualquer

indivíduo que trabalhe dentro desse sistema. Além disso, inclui a noção de “contingência de carreira”,

aqueles fatores dos quais depende a mobilidade de uma posição para outra. Contingências de carreira

incluem tanto fatos objetivos de estrutura social quanto mudanças nas perspectivas, motivações e desejos

do indivíduo. Em geral, no estudo de ocupações, usamos o conceito para distinguir entre os que têm uma

carreira “bem-sucedida” (quaisquer que sejam os termos em que o sucesso é definido dentro da

ocupação) e aqueles que não têm. Ele pode ser usado também para discernir diversas variedades de

resultados de carreiras, ignorando a questão do “sucesso”.

O modelo pode ser facilmente transformado para o estudo de carreiras desviantes. Ao modificá-lo

dessa maneira, não deveríamos restringir nosso interesse àqueles que seguem uma carreira que os leva a

desvios cada vez maiores, àqueles que, em última análise, assumem uma identidade e um modo de vida

extremamente desviantes. Deveríamos considerar também os que têm um contato mais fugaz com o

desvio, cujas carreiras os afasta dele rumo a maneiras de viver convencionais. Assim, por exemplo,

estudos de delinqüentes que não se tornam criminosos adultos poderiam nos ensinar mais que os de

delinqüentes que progridem no crime.

Irei considerar a seguir as possibilidades inerentes à abordagem do desvio como carreira. Depois

passarei a um estudo de um tipo particular de desvio: o uso de maconha.

 

Carreiras desviantes

 

O primeiro passo na maioria das carreiras desviantes é o cometimento de um ato não apropriado, um ato

que infringe algum conjunto particular de regras. Como explicar o primeiro passo?

As pessoas usualmente pensam em atos desviantes como motivados. Acreditam que a pessoa que

comete um ato desviante, mesmo pela primeira vez (e talvez especialmente pela primeira vez), pratica-o

de propósito. Seu propósito pode ser ou não inteiramente consciente, mas há uma força motivacional por

trás dele. Logo passaremos à consideração de casos de não-conformidade intencional, mas primeiro

quero salientar que muitos atos não apropriados são cometidos por pessoas que não têm intenção alguma

de fazê-lo; estes demandam claramente uma explicação diferente.

Atos não intencionais de desvio provavelmente são explicados de maneira relativamente simples.

Eles implicam uma ignorância da existência de regra, ou do fato de que ela é aplicável nesse caso, ou a

essa pessoa particular. Mas é necessário explicar a falta de conhecimento. Como pode alguém saber que

seu ato é impróprio? Pessoas profundamente envolvidas numa subcultura particular (como uma subcultura

religiosa ou étnica) podem simplesmente não ter consciência de que nem todos agem “daquela maneira” e

assim cometer uma impropriedade. Pode, de fato, haver áreas estruturadas de ignorância de regras

particulares. Mary Haas salientou o interessante caso dos tabus vocabulares interlinguais.4 Palavras

perfeitamente apropriadas numa língua podem ter um sentido “grosseiro” em outra. Assim, a pessoa que

usa uma palavra comum em sua própria língua descobre que chocou e horrorizou seus ouvintes que vêm

de uma cultura diferente.

Ao analisar casos de não-conformidade intencional, as pessoas geralmente perguntam sobre a

motivação: por que a pessoa quer fazer a coisa desviante que faz? A pergunta pressupõe que a diferença

básica entre os desviantes e os que se conformam reside no caráter de sua motivação. Foram propostas

muitas teorias para explicar por que alguns têm motivações desviantes e outros não. Teorias psicológicas

encontram a causa de motivações e atos desviantes nas primeiras experiências do indivíduo, produzindo

necessidades inconscientes que devem ser satisfeitas para que ele mantenha seu equilíbrio. Teorias

sociológicas procuram fontes socialmente estruturadas de “tensão” na sociedade, posições sociais

sujeitas a tais demandas conflitantes, de modo que o indivíduo busca uma maneira ilegítima de resolver

os problemas que sua posição lhe apresenta. (A famosa teoria da anomia de Merton se encaixa nessa

categoria.)5

Mas os pressupostos em que essas abordagens se fundam podem ser inteiramente falsos. Não há razão

para se supor que somente aqueles que finalmente cometem um ato desviante têm o impulso de fazê-lo. É

muito mais provável que a maioria das pessoas experimente impulsos desviantes com freqüência. Pelo

menos em fantasia, as pessoas são muito mais desviantes do que parecem. Em vez de perguntar por que

desviantes querem fazer coisas reprovadas, seria melhor que perguntássemos por que as pessoas

convencionais não se deixam levar pelos impulsos desviantes que têm.

Uma espécie de resposta para essa pergunta pode ser encontrada no processo de compromisso pelo

qual a pessoa “normal” torna-se progressivamente envolvida em instituições e comportamento

convencionais. Ao falar em compromisso, refiro-me ao processo através do qual vários tipos de

interesses tornam-se ligados de modo restrito a certas linhas de comportamento às quais são formalmente

alheios.6 O que acontece é que o indivíduo, em conseqüência de ações que praticou no passado ou da

operação de várias rotinas institucionais, descobre que deve aderir a certas linhas de comportamento,

porque muitas outras atividades que não aquela em que está envolvido de forma direta serão

adversamente afetadas se não o fizer. O jovem de classe média não deve abandonar a escola porque seu

futuro profissional depende do grau de instrução. A pessoa convencional não deve satisfazer seus

interesses por narcóticos, por exemplo, porque está em jogo muito mais que a busca de prazer imediato;

talvez julgue que o emprego, a família e a reputação na vizinhança dependem de que continue a evitar a

tentação.

De fato, o desenvolvimento normal das pessoas em nossa sociedade (e provavelmente em qualquer

sociedade) pode ser visto como uma série de compromissos progressivamente crescentes com normas e

instituições convencionais. A pessoa “normal”, quando descobre em si um impulso desviante, é capaz de

controlá-lo pensando nas múltiplas conseqüências que ceder a ele lhe produziria. Já apostou demais em

continuar a ser normal para se permitir ser dominada por impulsos não-convencionais.

Isso sugere que ao examinar casos de não-conformidade intencional, devemos perguntar como a

pessoa consegue evitar o impacto de compromissos convencionais. Ela pode fazê-lo de duas maneiras.

Antes de mais nada, no curso de seu desenvolvimento, a pessoa pode ter evitado de algum modo alianças

embaraçosas com a sociedade convencional. Assim, é possível que esteja livre para seguir seus

impulsos. A pessoa que não tem uma reputação a zelar ou um emprego convencional a conservar pode

seguir seus impulsos. Não apostou nada em continuar a parecer convencional.

A maioria das pessoas, contudo, permanece sensível a códigos de conduta convencionais e tem de

lidar com suas sensibilidades para se envolver num ato desviante pela primeira vez. Sykes e Matza

sugeriram que os delinqüentes realmente sentem fortes impulsos para cumprir a lei, e lidam com eles mediante técnicas de neutralização: “Justificações para o desvio que são vistas como válidas pelo

delinqüente, mas não pelo sistema legal ou pela sociedade em geral.” Eles distinguem várias técnicas

para neutralizar a força dos valores de aceitação da ordem.

 

À medida que se pode definir o delinqüente como aquele que carece de responsabilidade por suas ações desviantes, a reprovação dele

mesmo ou de outros é claramente reduzida em eficácia como a influência repressora…. O delinqüente se aproxima de uma concepção

de si como uma “bola de bilhar”, vê a si mesmo como irremediavelmente impelido para novas situações…. Aprendendo a se ver mais

como objeto de ação do que como agente, o delinqüente prepara o caminho para o desvio em relação ao sistema normativo dominante

sem a necessidade de um ataque frontal às próprias normas….

Uma segunda técnica importante de neutralização centra-se no dano ou prejuízo envolvido no ato delinqüente…. Para o delinqüente,

… a transgressão pode ser uma questão de ter alguém sido ou não claramente prejudicado por seu desvio, e isso é passível de uma

variedade de interpretações…. O roubo de automóvel pode ser visto como “empréstimo”, e luta de gangues como uma disputa privada,

um duelo como disputa travada de comum acordo entre dois grupos, sem importância, portanto, para a comunidade em geral….

Sua própria indignação moral ou a dos outros pode ser neutralizada por uma insistência em que o dano não está errado à luz das

circunstâncias. O dano, pode-se afirmar, não é realmente um dano; é antes uma forma de legítima retaliação ou punição…. Ataques a

homossexuais ou a pessoas suspeitas de homossexualidade, investidas contra integrantes de grupos minoritários que teriam sido

apanhados “fora de lugar”, vandalismo como vingança contra uma autoridade escolar ou professor injusto, roubos de um lojista trapaceiro

— tudo pode ser, aos olhos do delinqüente, danos infligidos a um transgressor….

Uma quarta técnica de neutralização parece envolver uma condenação dos condenadores…. Seus condenadores, pode ele afirmar,

são hipócritas, desviantes disfarçados, ou impelidos por despeito pessoal…. Com esse ataque aos outros, a transgressão de seu próprio

comportamento é mais facilmente reprimida ou ignorada….

Controles internos e externos podem ser neutralizados sacrificando-se as exigências da sociedade mais ampla diante das imposições

dos grupos sociais menores a que o delinqüente pertence, como os “irmãos”, a gangue, a turma de amigos…. O aspecto mais importante

é que o desvio em relação a certas normas pode ocorrer não porque as normas sejam rejeitadas, mas porque outras normas, consideradas

mais prementes ou envolvendo maior lealdade, ganham precedência.7

 

Em alguns casos, é possível que um ato não apropriado pareça necessário ou conveniente para uma

pessoa em geral cumpridora da lei. Empreendido na busca de interesses legítimos, o ato desviante se

torna, se não de todo apropriado, pelo menos não de todo impróprio. Encontramos um bom exemplo num

romance que trata de um jovem médico ítalo-americano.8 O rapaz, recém-saído da escola de medicina,

gostaria de ter uma clientela que não se fundasse em sua nacionalidade. Sendo italiano, porém, tem

dificuldade em ganhar aceitação de profissionais ianques de sua comunidade. Um dia é subitamente

solicitado por um dos maiores cirurgiões a tratar de um caso para ele, e pensa que finalmente será

admitido no sistema de recomendações dos melhores médicos da cidade. Quando o paciente chega a seu

consultório, porém, constata que se trata de um caso de aborto ilegal. Vendo, de maneira equivocada, a

recomendação como o primeiro passo numa relação regular com o cirurgião, ele realiza a operação. Esse

ato, embora impróprio, é considerado necessário para a construção de sua carreira.

Mas estamos menos interessados na pessoa que comete um ato desviante apenas uma vez do que

naquela que mantém um padrão de desvio por um longo período de tempo, faz do desvio uma maneira de

viver, organiza sua identidade em torno de um padrão de comportamento desviante. Não é sobre os que

fazem experiências casuais com a homossexualidade (e que apareceram em números tão

surpreendentemente expressivos no Relatório Kinsey) que queremos saber, mas sobre a pessoa que segue

um padrão de atividade homossexual durante toda a sua vida adulta.

Um dos mecanismos que levam da experimentação casual a um padrão mais permanente de atividade

desviante é o desenvolvimento de motivos e interesses desviantes. Examinaremos esse processo em

detalhe mais adiante, quando considerarmos a carreira do usuário de maconha. Aqui é suficiente dizer

que muitos tipos de atividade desviante provêm de motivos socialmente aprendidos. Antes de se

envolver na atividade em bases mais ou menos regulares, a pessoa não tem noção dos prazeres que dela

podem ser obtidos; toma conhecimento deles no curso da interação com desviantes mais experientes.

Aprende a ter consciência de novos tipos de experiência e a pensar neles como prazerosos. O que

certamente pode ter sido um impulso aleatório de experimentar algo novo torna-se um gosto estabelecido

por algo já conhecido e experimentado. Os vocabulários nos quais motivações desviantes são expressas revelam que seus usuários os adquirem na interação com outros desviantes. O indivíduo aprende, em

suma, a participar de uma subcultura organizada em torno da atividade desviante particular.

As motivações desviantes têm um caráter social mesmo quando a maior parte da atividade é realizada

de uma forma privada, secreta e solitária. Nesses casos, vários meios de comunicação podem assumir o

lugar da interação face a face na introdução do indivíduo à cultura. As fotografias pornográficas que

mencionei anteriormente eram descritas para possíveis compradores em linguagem estilizada. Palavras

comuns eram usadas numa terminologia técnica destinada a despertar paladares específicos. A palavra

“servidão”, por exemplo, era empregada repetidas vezes para aludir a fotos de mulheres algemadas ou

presas em camisas-de-força. Não se adquire gosto por “fotos de servidão” sem ter aprendido o que são e

como podem ser apreciadas.

Um dos passos mais decisivos no processo de construção de um padrão estável de comportamento

desviante talvez seja a experiência de ser apanhado e rotulado publicamente de desviante. Se alguém dá

ou não esse passo, depende menos do que ele faz do que daquilo que outras pessoas fazem, do fato de

elas imporem ou não a regra que ele violou. Vou considerar em detalhe, adiante, as circunstâncias nas

quais a imposição tem lugar, mas duas observações são necessárias. Antes de mais nada, ainda que

ninguém descubra a impropriedade ou imponha as regras contra ela, o indivíduo que cometeu a

impropriedade pode agir ele próprio como impositor. Pode marcar a si mesmo como desviante em razão

do que fez e punir-se de uma maneira ou de outra por seu comportamento. Esse não é sempre ou

necessariamente o caso, mas pode acontecer. Segundo, pode haver casos como aqueles descritos por

psicanalistas em que o indivíduo realmente quer ser apanhado e perpetra seu ato desviante de tal maneira

que quase certamente será.

Em qualquer dos casos, ser apanhado e marcado como desviante tem importantes conseqüências para

a participação social mais ampla e a auto-imagem do indivíduo. A mais importante é uma mudança

drástica em sua identidade pública. Cometer o ato impróprio e ser apanhado lhe confere um novo status.

Ele revelou-se um tipo de pessoa diferente do que supostamente era. É rotulado de “bicha”, “viciado”,

“maluco” ou “doido”,c e tratado como tal.

Ao analisar as conseqüências da adoção de uma identidade desviante, vamos fazer uso da distinção

que Hughes estabelece entre traços de status principais e auxiliares.9 Hughes observa que a maioria dos

status tem um traço-chave que serve para distinguir entre os que os possuem ou não. Assim, o médico,

não importa o que mais possa ser, é alguém que tem um certificado afirmando que preencheu certos

requisitos e está licenciado para praticar a medicina; esse é o traço principal. Como Hughes mostra, na

sociedade norte-americana presume-se também informalmente que um médico tenha vários traços

auxiliares: a maioria das pessoas espera que ele seja da classe média alta, branco, do sexo masculino e

protestante. Se não for assim, tem-se a impressão de que de certo modo não preencheu os requisitos. De

maneira semelhante, embora a cor da pele seja o traço principal para determinar quem é negro e quem é

branco, espera-se informalmente que os negros tenham certos traços de status, e não tenham outros; as

pessoas ficam surpresas e vêem como anomalia o fato de um negro ser um médico ou professor

universitário. As pessoas freqüentemente possuem o traço de status principal, mas carecem de algumas

das características auxiliares informalmente esperadas; por exemplo, alguém pode ser médico, mas do

sexo feminino ou negro.

Hughes lida com esse fenômeno em relação a status que são bem vistos, desejados ou desejáveis

(observando que se pode possuir as qualificações formais para ingressar num status, e ainda assim ter o

pleno acesso negado pela falta dos traços auxiliares apropriados), mas o mesmo processo ocorre no caso

de status desviantes. A posse de um traço desviante pode ter um valor simbólico generalizado, de modo

que as pessoas dão por certo que seu portador possui outros traços indesejáveis presumivelmente

associados a ele.

Para ser rotulado de criminoso só é necessário cometer um único crime, isso é tudo a que o termo

formalmente se refere. No entanto a palavra traz consigo muitas conotações que especificam traços

auxiliares característicos de qualquer pessoa que carregue o rótulo. Presume-se que um homem

condenado por arrombamento, e por isso rotulado de criminoso, seja alguém que irá assaltar outras

casas; a polícia, ao recolher delinqüentes conhecidos para investigação após um crime, opera com base

nessa premissa. Além disso, considera-se provável que ele cometa também outros tipos de crime, porque

se revelou uma pessoa sem “respeito pela lei”. Assim, a detenção por um ato desviante expõe uma

pessoa à probabilidade de vir a ser encarada como desviante ou indesejável em outros aspectos.

Há outro elemento na análise de Hughes que podemos tomar emprestado com proveito: a distinção

entre status principal e subordinado.10 Alguns status, em nossa sociedade como em outras, sobrepõem-se

a todos os outros e têm certa prioridade. Raça é um deles. O pertencimento à raça negra, tal como

socialmente definida, irá sobrepujar a maior parte das outras considerações na maioria das outras

situações; o fato de alguém ser médico, ou de classe média ou do sexo feminino não o protegerá contra o

fato de ser tratado em primeiro lugar como negro, e depois como qualquer um desses aspectos. O status

de desviante (dependendo do tipo de desvio) é esse tipo de status principal. Uma pessoa recebe o status

como resultado da violação de uma regra, e a identificação prova-se mais importante que a maior parte

das outras. Ela será identificada primeiro como desviante, antes que outras identificações sejam feitas.

Formula-se a pergunta: “Que tipo de pessoa infringiria uma regra tão importante?” E a resposta é dada:

“Alguém que é diferente de nós, que não pode ou não quer agir como um ser humano moral, sendo

portanto capaz de infringir outras regras importantes.” A identificação desviante torna-se a dominante.

Tratar uma pessoa como se ela fosse em geral, e não em particular, desviante produz uma profecia

auto-realizadora. Ela põe em movimento vários mecanismos que conspiram para moldar a pessoa

segundo a imagem que os outros têm dela.11 Em primeiro lugar, após ser identificada como desviante, ela

tende a ser impedida de participar de grupos mais convencionais, num isolamento que talvez as

conseqüências específicas da atividade desviante nunca pudessem causar por si mesmas caso não

houvesse o conhecimento público e a reação a ele. Por exemplo, ser homossexual pode não afetar a

capacidade que uma pessoa tem de realizar serviços de escritório, mas ser conhecido como homossexual

num escritório talvez torne impossível continuar trabalhando ali. De maneira semelhante, ainda que os

efeitos de drogas opiáceas possam não prejudicar a capacidade de trabalho de uma pessoa, ser conhecida

como viciada provavelmente a fará perder o emprego. Nesse caso, o indivíduo encontra dificuldade em

se conformar a outras regras que não tem intenção ou desejo de infringir, e se descobre forçosamente

desviante também nessas áreas. O homossexual privado de um emprego “respeitável” pela descoberta de

seu desvio pode ser levado a assumir ocupações não-convencionais, marginais, em que isso não faz tanta

diferença. O viciado em drogas se vê impelido para outros tipos de atividade ilegítima, como roubo e

furto, porque os empregadores respeitáveis se recusam a tê-lo por perto.

Quando apanhado, o desviante é tratado de acordo com o diagnóstico popular que descreve sua

maneira de ser, e esse tratamento pode, ele mesmo, de maneira semelhante, produzir um desvio crescente.

O viciado, popularmente visto como um indivíduo sem força de vontade, que não consegue se privar dos

prazeres indecentes que lhe são fornecidos pelas drogas opiáceas, é tratado de forma repressiva.

Proíbem-no de usar drogas. Como não consegue obter drogas legalmente, tem de obtê-las ilegalmente.

Isso impele o mercado para a clandestinidade e empurra o preço das drogas para cima, muito além do

legítimo preço de mercado corrente, para um nível que poucos têm condições de pagar com um salário

comum. Portanto, o tratamento do desvio do drogado situa-o numa posição em que será provavelmente

necessário recorrer a fraude e crime para sustentar seu hábito.12 O comportamento é uma conseqüência da

reação pública ao desvio, não um efeito das qualidades inerentes ao ato desviante.

Expressa de maneira mais geral, a questão é que o tratamento dos desviantes lhes nega os meios comuns de levar adiante as rotinas da vida cotidiana acessíveis à maioria das pessoas. Em razão dessa

negação, o desviante deve necessariamente desenvolver rotinas ilegítimas. A influência da reação

pública pode ser direta — como nos casos antes considerados — ou indireta — conseqüência do caráter

integrado da sociedade em que o desviante vive.

As sociedades são integradas no sentido de que os arranjos sociais numa esfera de atividade se

enredam com outros arranjos em outras esferas de maneiras particulares e dependem da existência desses

outros arranjos. Certo tipo de vida no trabalho pressupõe determinado tipo de vida familiar, como

veremos quando considerarmos o caso do músico de casa noturna.

Muitas variedades de desvio criam dificuldades ao não se coadunar com expectativas em outras áreas

da vida. A homossexualidade é um bom exemplo. Os homossexuais têm dificuldades em qualquer área de

atividade social em que os interesses sexuais normais e as tendências para se casar são vistos como

inquestionáveis. Em organizações de trabalho estáveis, como grandes organizações comerciais ou

industriais, há com freqüência momentos nos quais o homem que quer obter sucesso deveria se casar; se

não o fizer, tornará difícil para ele fazer as coisas necessárias para ter sucesso na organização e frustrará

suas ambições. A necessidade do casamento muitas vezes cria problemas bastante difíceis para o homem

normal, e põe o homossexual em situação quase impossível. De maneira semelhante, em alguns grupos de

trabalho masculinos, em que se exigem proezas heterossexuais para se conservar a estima no grupo, o

homossexual encontra-se em óbvias dificuldades. A não-correspondência à expectativa dos outros pode

obrigar o indivíduo a tentar maneiras desviantes de alcançar resultados automáticos para a pessoa

normal.

É evidente que nem todos aqueles apanhados em ato desviante e rotulados de desviantes se

encaminham de modo inevitável para um desvio maior, como já foi sugerido em minhas observações

anteriores. As profecias nem sempre se confirmam, os mecanismos nem sempre funcionam. Que fatores

tendem a tornar mais lento ou deter o movimento rumo a um desvio crescente? Em que circunstâncias eles

entram em jogo?

Uma sugestão sobre como a pessoa pode se imunizar contra a progressão do desvio encontra-se num

recente estudo acerca de delinqüentes juvenis que procuram homossexuais.13 Esses meninos agem como

prostitutos homossexuais para homossexuais adultos confirmados. No entanto, eles próprios não se

tornam homossexuais. Vários fatores contribuem para a suspensão desse tipo de desvio sexual. Em

primeiro lugar, os meninos estão protegidos contra a ação da polícia pelo fato de serem menores. Se

forem detidos num ato homossexual, serão tratados como crianças exploradas, embora de fato sejam eles

os exploradores; a lei torna o adulto culpado. Em segundo lugar, eles encaram os atos sexuais em que se

envolvem simplesmente como um meio de ganhar dinheiro mais seguro e rápido que o roubo ou

atividades semelhantes. Em terceiro, os padrões de seu grupo de iguais, embora permita a prostituição

homossexual, tolera-a apenas como uma atividade, proibindo os menores de obter qualquer prazer

especial com ela ou de favorecer qualquer expressão de carinho por parte do adulto com que eles têm

relações. Infrações dessas regras, ou outros desvios em relação à atividade heterossexual normal, são

severamente punidas pelos companheiros do menino.

A prisão pode não levar ao desvio crescente se a situação na qual o indivíduo é detido pela primeira

vez ocorrer num momento em que ainda lhe é possível escolher entre linhas alternativas de ação.

Confrontado pela primeira vez com as possíveis conseqüências finais e drásticas do que está fazendo,

talvez decida que não quer tomar o caminho desviante, e volte atrás. Se fizer a escolha certa, será bem

recebido na comunidade convencional; mas se der o passo errado, será rejeitado e iniciará um ciclo

progressivo de desvio.

Ray mostrou, no caso de viciados em drogas, como pode ser difícil reverter um ciclo desviante.14 Ele

salienta que os viciados freqüentemente tentam se curar, e que a motivação subjacente a essas tentativas é um esforço para mostrar a não drogados cujas opiniões respeitam que não são realmente tão maus quanto

se pensa. Quando conseguem se livrar de seu hábito, descobrem, para sua consternação, que as pessoas

continuam a tratá-los como se fossem drogados (com base, aparentemente, na premissa de que “uma vez

drogado, sempre drogado”).

Um passo final na carreira de um desviante é o ingresso num grupo desviante organizado. Quando

uma pessoa faz um movimento definido para entrar num grupo organizado — ou quando percebe e aceita

o fato de que já o fez —, isso tem forte impacto sobre sua concepção de si mesma. Certa vez uma viciada

me contou que o momento em que se sentiu realmente viciada foi aquele no qual percebeu que não tinha

mais nenhum amigo que não fosse viciado em drogas.

Membros de grupos desviantes organizados têm, claro, algo em comum: o desvio. Ele lhes dá um

sentimento de destino comum, de estar no mesmo barco. A partir desse sentimento de destino comum, da

necessidade de enfrentar os mesmos problemas, desenvolve-se uma cultura desviante: um conjunto de

perspectivas e entendimentos sobre como é o mundo e como se deve lidar com ele — e um conjunto de

atividades rotineiras baseadas nessas perspectivas. O pertencimento a um grupo desse tipo solidifica a

identidade desviante.

O ingresso num grupo organizado tem várias conseqüências para a carreira do desviante. Antes de

mais nada, os grupos desviantes tendem, mais que indivíduos desviantes, a racionalizar sua posição. Num

extremo, eles desenvolvem uma justificativa histórica, legal e psicológica muito complicada para a

atividade desviante. A comunidade homossexual é um bom exemplo. Revistas e livros publicados por

homossexuais para homossexuais incluem artigos sobre homossexuais famosos na história. Contêm

artigos sobre a biologia e a fisiologia do sexo, destinados a mostrar que a homossexualidade é uma

resposta sexual “normal”. Incluem artigos jurídicos, reivindicando liberdades civis para os

homossexuais.15 Tomado em conjunto, esse material fornece uma filosofia operacional para o

homossexual, explicando-lhe por que ele é como é, que outras pessoas também foram assim, e por que

está certo ser assim.

A maior parte dos grupos desviantes tem uma fundamentação autojustificadora (ou “ideologia”),

embora raramente tão bem elaborada quanto a dos homossexuais. Ao mesmo tempo que esses argumentos

atuam, como foi mostrado anteriormente, para neutralizar as atitudes convencionais que os desviantes

ainda podem encontrar em si mesmos em relação a seu próprio comportamento, desempenham também

uma outra função. Fornecem ao indivíduo razões que parecem sólidas para levar adiante a linha de

atividade que iniciou. Uma pessoa que aplaca suas próprias dúvidas adotando a racionalização passará a

apresentar um tipo de desvio baseado em princípios e coerente do que lhe seria possível antes de adotá-

la.

A segunda coisa que acontece quando alguém ingressa num desses grupos é que aprende como levar

adiante sua atividade desviante com um mínimo de contratempo. Todos os problemas que enfrenta para

escapar da imposição da regra que está infringindo foram enfrentados antes por outros. Soluções foram

encontradas. Assim, o jovem ladrão encontra-se com ladrões mais velhos, mais experientes, que lhe

explicam como se livrar de mercadoria roubada sem correr o risco de ser apanhado. Cada grupo

desviante tem um grande repertório de conhecimento sobre assuntos desse tipo, e o novo recruta o

aprende rapidamente.

Assim, o desviante que ingressa num grupo desviante organizado e institucionalizado tem mais

probabilidade que nunca de continuar nesse caminho. Ele aprendeu, por um lado, como evitar problemas;

por outro, assimilou uma fundamentação para continuar.

Outro fato merece atenção. As fundamentações dos grupos desviantes tendem a conter um repúdio

geral às regras morais da convenção, às instituições convencionais e a todo o mundo convencional.

Examinaremos uma subcultura desviante adiante, ao considerar o caso do músico de casa noturna.

_______________

a Convém lembrar que essa classificação deve sempre ser usada da perspectiva de um dado conjunto de regras; ela não leva em conta as complexidades, já discutidas, que aparecem quando há mais de um conjunto de regras disponível para ser usado pelas mesmas pessoas ao definir o mesmo ato. Além disso, a classificação se refere a dois tipos de comportamento, e não a tipos de pessoa, a atos e não a personalidades. O comportamento de uma mesma pessoa pode obviamente ser apropriado em algumas atividades e desviante em outras.

b Acusação ou punição injustas feitas sem base em evidências – algo equivalente à polícia prender alguém “suspeito” para averiguação. (N.R.T.)

c No original, fairly, dope friend, nut e lunatic. (N.T.)