Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
4: Uso de maconha e controle social
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Uso de maconha e controle social
Aprender a gostar de maconha é uma condição necessária mas não suficiente para que uma pessoa
desenvolva um padrão estável de uso da droga. Ela precisa lutar ainda com as poderosas forças de
controle social que fazem o ato parecer inconveniente, imoral ou ambos.
Quando um comportamento desviante ocorre numa sociedade — comportamento que zomba de suas
normas e de seus valores básicos —, um elemento de sua emergência é um colapso dos controles sociais
que usualmente operam para manter a forma valorizada de comportamento. Em sociedades complexas, o
processo pode ser muito complicado, uma vez que os colapsos do controle social são muitas vezes
conseqüência do ingresso de pessoas num grupo cuja cultura e controles sociais próprios operam em
sentido contrário aos da sociedade mais ampla. Fatores importantes na gênese do comportamento
desviante, portanto, podem ser procurados nesse processo pelo qual pessoas são emancipadas dos
controles da sociedade e tornam-se sensíveis àqueles de um grupo restrito.
Os controles sociais afetam o comportamento individual, em primeiro lugar, pelo uso do poder, a
aplicação de sanções. O comportamento valorizado é recompensado, e o comportamento negativamente
valorizado é punido. Como seria difícil manter o controle caso a imposição se tornasse sempre
necessária, surgem mecanismos mais sutis que desempenham a mesma função. Entre eles está o controle
do comportamento, obtido influenciando-se as concepções que as pessoas têm da atividade a ser
controlada e da possibilidade ou exeqüibilidade de se envolver nela. Essas concepções surgem em
situações sociais em que elas são comunicadas por pessoas consideradas respeitáveis e validadas pela
experiência. Tais situações podem ser ordenadas de tal maneira que os indivíduos passam a conceber a
atividade como desagradável, inconveniente ou imoral, não devendo portanto ser praticada.
Essa perspectiva nos convida a analisar a gênese do comportamento desviante em termos de eventos
que tornam as sanções ineficazes, e de experiências que alteram as concepções, de modo que o
comportamento se torna uma possibilidade concebível para a pessoa. Neste capítulo analiso esse
processo no caso do uso de maconha. Minha questão básica é: qual é a seqüência de eventos e
experiências pela qual uma pessoa se torna capaz de levar adiante o uso de maconha, apesar dos
elaborados controles sociais que funcionam para evitar tal comportamento?
Muitas forças poderosas operam para controlar o uso de maconha nos Estados Unidos. O ato é ilegal
e passível de punições severas. Sua ilegalidade torna o acesso à droga difícil, erguendo obstáculos
imediatos diante de qualquer um que deseje usá-la. O uso efetivo pode ser perigoso, pois prisão e
encarceramento são sempre conseqüências possíveis. Além disso, caso a família, os amigos ou o patrão
de um usuário descubram que ele utiliza maconha, eles podem lhe atribuir as características acessórias
que de hábito estão supostamente associadas ao uso de drogas. Acreditando que o fumante é
irresponsável e incapaz de controlar o próprio comportamento, que talvez até esteja louco, podem puni-
lo com vários tipos de sanções informais, mas extremamente eficazes, como o ostracismo ou a retirada de
afeto. Finalmente, desenvolveu-se um conjunto de idéias tradicionais definindo a prática como uma
violação de imperativos morais, como um ato que leva à perda do autocontrole, à paralisia da vontade e,
por fim, à escravidão à droga. Essas idéias, que são triviais, constituem forças eficazes na prevenção do
uso de maconha.
A carreira do usuário de maconha pode ser dividida em três estágios, cada qual representando uma mudança distinta em sua relação com os controles sociais da sociedade mais ampla e com aqueles da