Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
5: A cultura de um grupo desviante: o músico de casa noturna
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A cultura de um grupo desviante:
o músico de casa noturna
Embora o comportamento desviante seja com freqüência proscrito por lei — rotulado de criminoso se
praticado por adultos, ou de delinqüente, se praticado por jovens —, aqui este não é necessariamente o
caso. Os músicos de casa noturna, cuja cultura investigamos neste e no próximo capítulo, são um exemplo
pertinente. Embora suas atividades estejam formalmente dentro da lei, sua cultura e o modo de vida são
suficientemente extravagantes e não-convencionais para que eles sejam rotulados de outsiders pelos
membros mais convencionais da comunidade.
Muitos grupos desviantes, entre os quais os músicos de casa noturna, são estáveis e duradouros.
Como todos os grupos estáveis, desenvolvem um modo de vida característico. Para compreender o
comportamento de alguém que é membro de um grupo desse tipo é necessário entender tal modo de vida.
Robert Redfield expressou a concepção de cultura do antropólogo da seguinte maneira:
Ao falar de “cultura”, temos em mente os entendimentos convencionais, manifestos em ato e artefato que caracterizam as sociedades.
Os “entendimentos” são os significados atribuídos a atos e objetos. Os significados são convencionais, e portanto culturais, à medida que
se tornaram típicos para os membros dessa sociedade em razão da intercomunicação entre si. Uma cultura é, por conseguinte, uma
abstração: é o conjunto de tipos ao qual tendem a se conformar os significados que os diferentes membros da sociedade atribuem a um
mesmo ato ou objeto. Os significados são expressos em ações e nas produções de ações, a partir dos quais os inferimos; podemos assim
identificar também a “cultura” como a medida que o comportamento convencional dos membros da sociedade é o mesmo para todos.1
Hughes observou que a concepção antropológica da cultura parece ser mais adequada para a
sociedade homogênea, a sociedade primitiva com a qual o antropólogo trabalha. Mas o termo, no sentido
de uma organização de entendimentos comuns aceitos por um grupo, é igualmente aplicável aos grupos
menores que compõem uma sociedade moderna complexa, grupos étnicos, religiosos, regionais,
ocupacionais. É possível mostrar que cada um desses grupos tem certos tipos de entendimento comuns e,
portanto, uma cultura.
Sempre que um grupo de pessoas tem parcialmente uma vida comum com um pequeno grau de isolamento em relação a outras pessoas,
uma mesma posição na sociedade, problemas comuns e talvez alguns inimigos comuns, ali se constitui uma cultura. Pode ser a cultura
fantástica dos infelizes que, tendo se tornado viciados em heroína, partilham um prazer proibido, uma tragédia e uma batalha contra o
mundo convencional. Pode ser a cultura de um par de crianças que, enfrentando os mesmos pais poderosos e arbitrários, criam uma
linguagem e um conjunto de costumes próprios que persiste mesmo quando elas se tornam grandes e poderosas como os pais. Pode ser a
cultura de um grupo de estudantes que, desejosos de se tornar médicos, vêem-se diante dos mesmos cadáveres, testes, pacientes
complicados, professores e orientadores.2
Muitos sugeriram que cultura surge essencialmente em resposta a um problema enfrentado em comum
por um grupo de pessoas, à medida que elas são capazes de interagir e se comunicar entre si de maneira
eficaz.3 Pessoas que se envolvem em atividades consideradas desviantes enfrentam tipicamente o
problema de que sua concepção a respeito do que fazem não é partilhada por outros membros da
sociedade. O homossexual acha que sua vida sexual é adequada, mas os outros não pensam isso. O ladrão
julga que é apropriado para ele roubar, mas ninguém mais acha isso. Quando pessoas que se envolvem
em atividades desviantes têm oportunidade de interagir, é provável que desenvolvam uma cultura
constituída em torno dos problemas decorrentes das diferenças entre sua definição do que fazem e a definição adotada por outros membros da sociedade. Elas desenvolvem perspectivas sobre si mesmas e