Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 18 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

A pesquisa

suas atividades desviantes e sobre suas relações com outros membros da sociedade. (Alguns atos

desviantes, claro, são cometidos isoladamente, e as pessoas que os cometem não têm oportunidade de

desenvolver uma cultura. Exemplos disso são o piromaníaco compulsivo ou o cleptomaníaco.4) Como

operam dentro da cultura da sociedade mais ampla, porém diferentemente dela, essas culturas são muitas

vezes chamadas de subculturas.

O músico de casa noturna, a cuja cultura ou subcultura este capítulo é dedicado, pode ser definido

simplesmente como alguém que toca música popular por dinheiro. Exerce uma ocupação do setor de

serviços e a cultura de que participa tem seu caráter determinado pelos problemas comuns desse tipo de

ocupação de serviço. Esses trabalhos distinguem-se em geral pelo fato de, neles, o trabalhador entrar em

contato mais ou menos direto e pessoal com o consumidor final do produto de seu trabalho, o cliente para

quem executa o serviço. Conseqüentemente, o cliente é capaz de dirigir ou tentar dirigir o trabalhador em

sua tarefa e de aplicar sanções de vários tipos, variando desde a pressão informal até a recusa do

serviço, que passa a ser solicitado a outras das muitas pessoas que o executam.

Ocupações de serviço reúnem uma pessoa cuja atividade em tempo integral está centrada nesse ofício

— e cujo eu está profundamente envolvido nele — e outra cuja relação com o serviço prestado é muito

mais casual. Talvez seja inevitável que as duas tenham visões amplamente diferentes a respeito de como

o serviço deve ser realizado. De modo típico, membros de ocupações no setor de serviços consideram o

cliente incapaz de julgar o valor próprio do serviço e se ressentem amargamente das tentativas que ele

faz para exercer controle sobre o trabalho. Em conseqüência, surgem conflitos e hostilidades, os métodos

de defesa contra a interferência externa tornam-se uma preocupação dos membros do grupo, e uma

subcultura se desenvolve em torno desse conjunto de problemas.

Os músicos acham que a única música que vale a pena tocar é o que chamam de “jazz”, termo que

pode ser parcialmente definido como aquela música produzida sem referência às demandas de outsiders.

No entanto, eles têm de suportar a incessante interferência no que tocam por parte de patrões e do

público. O problema mais árduo na carreira do músico médio, como iremos ver, é a necessidade de

escolher entre sucesso convencional e seus padrões artísticos. Para alcançar sucesso, ele sente

necessidade de se “tornar comercial”, isto é, tocar de acordo com os desejos dos não-músicos para quem

trabalha; ao fazê-lo, sacrifica o respeito de outros músicos e, assim, na maioria dos casos, seu auto-

respeito. Se continuar fiel a seus padrões, estará em geral condenado ao fracasso na sociedade mais

ampla. Os músicos se classificam de acordo com o grau em que cedem aos outsiders; o continuum varia

desde o músico de “jazz”, num extremo, até o músico “comercial”, no outro.

Focalizarei adiante os seguintes pontos: (1) as concepções que os músicos têm de si mesmos e dos

não-músicos com quem trabalham e os conflitos que lhes parecem inerentes a essa relação; (2) o

consenso básico subjacente às reações de músicos comerciais e de jazz diante desse conflito; e (3) os

sentimentos de isolamento que os músicos experimentam em relação à sociedade mais ampla, e o modo

como se segregam do público e da comunidade. Os problemas que surgem da diferença entre a maneira

como os músicos definem seu trabalho e aquelas como as pessoas para quem trabalham os concebem

podem ser considerados um protótipo dos problemas que os desviantes enfrentam ao lidar com outsiders

que têm uma visão diferente de suas atividades desviantes.5

 

A pesquisa

 

Colhi o material deste estudo por meio de observação participante, interagindo com músicos na

variedade de situações que compõem suas vidas de trabalho e lazer. Na época em que fiz a pesquisa, eu

era pianista profissional há alguns anos e atuava em círculos musicais de Chicago. Isso foi em 1948 e