Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
10: A teoria da rotulação reconsiderada
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A teoria da rotulação reconsiderada a
Os fenômenos desviantes proporcionam há muito tempo um dos temas centrais do pensamento
sociológico. Nosso interesse teórico pela natureza da ordem social combina-se com o interesse prático
por ações consideradas prejudiciais aos indivíduos e à sociedade, dirigindo nossa atenção para a ampla
arena dos comportamentos que, segundo o caso, são chamados de crime, vício, inconformismo,
aberração, excentricidade ou loucura. Quer concebamos isso como um fracasso da socialização e do
sistema de sanções ou simplesmente como transgressão e mau comportamento, queremos saber por que
pessoas agem de maneiras desaprovadas.
Nos últimos anos, uma abordagem naturalística desses fenômenos1 passou a se concentrar numa
interação entre aqueles que são acusados de estar envolvidos na transgressão e os que fazem essa
acusação. Várias pessoas2 contribuíram para o desenvolvimento do que foi chamado de maneira infeliz
de “teoria da rotulação”. Desde as formulações iniciais, muitos criticaram, ampliaram e questionaram
esses esforços; outros contribuíram com importantes resultados de pesquisas.
Gostaria de reconsiderar esses desenvolvimentos e ver em que pé estamos.3 Que foi realizado? Que
críticas foram feitas? Que mudanças devemos fazer em nossas concepções? Três tópicos em especial
merecem discussão: a concepção do desvio como ação coletiva; a desmistificação do desvio; e os
dilemas morais da teoria do desvio. Em cada caso, pretendo que minhas considerações se apliquem à
pesquisa e à análise sociológica de maneira geral, reafirmando a fé de que o campo do desvio não é nada
especial, apenas mais um tipo de atividade humana a ser estudado e compreendido.
Eu poderia começar resolvendo de forma sumária algumas questões em aparência difíceis, de uma
maneira que deixará clara minha insatisfação com a expressão “teoria da rotulação”. Nunca pensei que as
formulações originais feitas por mim mesmo e por outros merecessem ser chamadas de teorias, pelo
menos não teorias do tipo inteiramente sistematizado — o que elas vêm sendo criticadas agora por não
ser. Muitos autores queixaram-se de que a teoria da rotulação não fornece uma explicação etiológica do
desvio,4 nem diz como as pessoas que cometem atos desviantes passam a fazê-lo — e especialmente por
que elas o fazem, enquanto outras à sua volta não. Por vezes os críticos sugerem que uma teoria foi
proposta, mas estava errada. Assim, alguns pensaram que a teoria tentava explicar o desvio pelas reações
que outros manifestavam com relação a ele. Depois que alguém era rotulado de desviante, segundo essa
paráfrase, começava a fazer coisas desviantes, mas não antes. Pode-se refutar facilmente essa teoria pela
referência a fatos da experiência cotidiana.
Os proponentes originais da posição, contudo, não apresentaram soluções para a questão etiológica.
Tinham objetivos mais modestos. Queriam ampliar a área abarcada pelo estudo dos fenômenos
desviantes, incluindo nela atividades de outros, além do ator pretensamente desviante. Supunham, é claro,
que ao fazê-lo, e à medida que novas fontes de variação fossem incluídas nos cálculos, todas as questões
que os estudiosos do desvio convencionalmente consideravam ganhariam um aspecto diferente.
Além disso, o ato de rotular, tal como praticado por empreendedores morais, embora importante, não
pode ser concebido como a única explicação para o que pretensos desviantes realmente fazem. Seria
tolice propor que assaltantes atacam simplesmente porque alguém os rotulou de assaltantes, ou que tudo
que um homossexual faz resulta do fato de alguém tê-lo chamado de homossexual. No entanto, uma das
contribuições mais importantes dessa abordagem foi centrar a atenção no modo como a rotulação põe o ator em circunstâncias que tornam mais difícil para ele levar adiante as rotinas normais da vida