Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 33 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

10: A teoria da rotulação reconsiderada

10

 

A teoria da rotulação reconsiderada a

 

Os fenômenos desviantes proporcionam há muito tempo um dos temas centrais do pensamento

sociológico. Nosso interesse teórico pela natureza da ordem social combina-se com o interesse prático

por ações consideradas prejudiciais aos indivíduos e à sociedade, dirigindo nossa atenção para a ampla

arena dos comportamentos que, segundo o caso, são chamados de crime, vício, inconformismo,

aberração, excentricidade ou loucura. Quer concebamos isso como um fracasso da socialização e do

sistema de sanções ou simplesmente como transgressão e mau comportamento, queremos saber por que

pessoas agem de maneiras desaprovadas.

Nos últimos anos, uma abordagem naturalística desses fenômenos1 passou a se concentrar numa

interação entre aqueles que são acusados de estar envolvidos na transgressão e os que fazem essa

acusação. Várias pessoas2 contribuíram para o desenvolvimento do que foi chamado de maneira infeliz

de “teoria da rotulação”. Desde as formulações iniciais, muitos criticaram, ampliaram e questionaram

esses esforços; outros contribuíram com importantes resultados de pesquisas.

Gostaria de reconsiderar esses desenvolvimentos e ver em que pé estamos.3 Que foi realizado? Que

críticas foram feitas? Que mudanças devemos fazer em nossas concepções? Três tópicos em especial

merecem discussão: a concepção do desvio como ação coletiva; a desmistificação do desvio; e os

dilemas morais da teoria do desvio. Em cada caso, pretendo que minhas considerações se apliquem à

pesquisa e à análise sociológica de maneira geral, reafirmando a fé de que o campo do desvio não é nada

especial, apenas mais um tipo de atividade humana a ser estudado e compreendido.

Eu poderia começar resolvendo de forma sumária algumas questões em aparência difíceis, de uma

maneira que deixará clara minha insatisfação com a expressão “teoria da rotulação”. Nunca pensei que as

formulações originais feitas por mim mesmo e por outros merecessem ser chamadas de teorias, pelo

menos não teorias do tipo inteiramente sistematizado — o que elas vêm sendo criticadas agora por não

ser. Muitos autores queixaram-se de que a teoria da rotulação não fornece uma explicação etiológica do

desvio,4 nem diz como as pessoas que cometem atos desviantes passam a fazê-lo — e especialmente por

que elas o fazem, enquanto outras à sua volta não. Por vezes os críticos sugerem que uma teoria foi

proposta, mas estava errada. Assim, alguns pensaram que a teoria tentava explicar o desvio pelas reações

que outros manifestavam com relação a ele. Depois que alguém era rotulado de desviante, segundo essa

paráfrase, começava a fazer coisas desviantes, mas não antes. Pode-se refutar facilmente essa teoria pela

referência a fatos da experiência cotidiana.

Os proponentes originais da posição, contudo, não apresentaram soluções para a questão etiológica.

Tinham objetivos mais modestos. Queriam ampliar a área abarcada pelo estudo dos fenômenos

desviantes, incluindo nela atividades de outros, além do ator pretensamente desviante. Supunham, é claro,

que ao fazê-lo, e à medida que novas fontes de variação fossem incluídas nos cálculos, todas as questões

que os estudiosos do desvio convencionalmente consideravam ganhariam um aspecto diferente.

Além disso, o ato de rotular, tal como praticado por empreendedores morais, embora importante, não

pode ser concebido como a única explicação para o que pretensos desviantes realmente fazem. Seria

tolice propor que assaltantes atacam simplesmente porque alguém os rotulou de assaltantes, ou que tudo

que um homossexual faz resulta do fato de alguém tê-lo chamado de homossexual. No entanto, uma das

contribuições mais importantes dessa abordagem foi centrar a atenção no modo como a rotulação põe o ator em circunstâncias que tornam mais difícil para ele levar adiante as rotinas normais da vida