Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 22 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

6: Carreiras num grupo ocupacional desviante: o músico de casa noturna

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Carreiras num grupo ocupacional

 

desviante: o músico de casa noturna

 

Já discuti — em particular ao considerar o desenvolvimento do uso de maconha — a carreira desviante

(isto é, o desenvolvimento de um padrão de comportamento desviante). Gostaria de examinar agora os

tipos de carreira que desenvolve, entre músicos de casa noturna, um grupo de “outsiders” que se

considera “diferente”, e é assim considerado pelos outros. Mas em vez de me concentrar na gênese de

modos desviantes de comportamento, vou perguntar quais são as conseqüências, para a carreira

ocupacional de uma pessoa, produzidas pelo fato de o grupo ocupacional em que ela faz essa carreira ser

um grupo desviante.

Ao usar o conceito de carreira para estudar o destino do indivíduo dentro de organizações

ocupacionais, Hughes definiu-a como:

 

Objetivamente, … uma série de status e funções claramente definidos, … seqüências típicas de posição, realização, responsabilidade e

até de aventura…. Subjetivamente, uma carreira é uma perspectiva móvel em que uma pessoa vê sua vida como um todo e interpreta o

significado de seus vários atributos, ações e as coisas que lhe acontecem.1

 

A discussão dos estágios da carreira médica desenvolvida por Hall concentra-se mais

especificamente na carreira como uma série de ajustamentos à “rede de instituições, organizações

formais e relações informais” em que a profissão é praticada.2

Os perfis de carreiras característicos de uma ocupação ganham sua forma a partir dos problemas

peculiares a ela. Estes, por sua vez, são uma função da posição da ocupação vis-à-vis outros grupos na

sociedade. Os principais problemas dos músicos, como vimos, giram em torno da manutenção de sua

liberdade diante do controle sobre seu comportamento artístico. O controle é exercido pelos outsiders

para quem o músico trabalha, que usualmente julgam seu desempenho e reagem a ele com base em

padrões muito diferentes. A relação antagônica entre músicos e outsiders molda a cultura do músico e

produz também as principais contingências e os pontos de crise em sua carreira.

Estudos de ocupações mais convencionais como a medicina mostraram que o sucesso ocupacional

(tal como definido por membros da ocupação) depende de se encontrar uma posição para si naquele

grupo ou naqueles grupos que controlam as recompensas dentro da ocupação, e que as ações e os gestos

de colegas desempenham um grande papel na decisão do resultado da carreira de qualquer indivíduo.3 Os

músicos não são exceção a essa proposição, e começarei considerando suas definições de sucesso

ocupacional e o modo como o desenvolvimento de carreiras musicais depende da integração bem-

sucedida na organização da profissão de músico.

Mas a história da carreira do músico não se resume a isso. O problema da liberdade em face do

controle externo cria certas contingências de carreira adicionais que acrescentam algumas complicações

à estrutura da ocupação; considerarei esses aspectos em seguida.

Por fim, a família do músico (tanto aquela em que ele nasceu quanto a que ele cria ao se casar) tem

um importante efeito sobre sua carreira.4 Pais e esposas são tipicamente não-músicos e, como outsiders,

muitas vezes não compreendem a natureza da ligação do músico com seu trabalho. As incompreensões e

divergências que surgem freqüentemente alteram a direção da carreira de um músico e, em alguns casos, provocam seu encerramento.