Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
6: Carreiras num grupo ocupacional desviante: o músico de casa noturna
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Carreiras num grupo ocupacional
desviante: o músico de casa noturna
Já discuti — em particular ao considerar o desenvolvimento do uso de maconha — a carreira desviante
(isto é, o desenvolvimento de um padrão de comportamento desviante). Gostaria de examinar agora os
tipos de carreira que desenvolve, entre músicos de casa noturna, um grupo de “outsiders” que se
considera “diferente”, e é assim considerado pelos outros. Mas em vez de me concentrar na gênese de
modos desviantes de comportamento, vou perguntar quais são as conseqüências, para a carreira
ocupacional de uma pessoa, produzidas pelo fato de o grupo ocupacional em que ela faz essa carreira ser
um grupo desviante.
Ao usar o conceito de carreira para estudar o destino do indivíduo dentro de organizações
ocupacionais, Hughes definiu-a como:
Objetivamente, … uma série de status e funções claramente definidos, … seqüências típicas de posição, realização, responsabilidade e
até de aventura…. Subjetivamente, uma carreira é uma perspectiva móvel em que uma pessoa vê sua vida como um todo e interpreta o
significado de seus vários atributos, ações e as coisas que lhe acontecem.1
A discussão dos estágios da carreira médica desenvolvida por Hall concentra-se mais
especificamente na carreira como uma série de ajustamentos à “rede de instituições, organizações
formais e relações informais” em que a profissão é praticada.2
Os perfis de carreiras característicos de uma ocupação ganham sua forma a partir dos problemas
peculiares a ela. Estes, por sua vez, são uma função da posição da ocupação vis-à-vis outros grupos na
sociedade. Os principais problemas dos músicos, como vimos, giram em torno da manutenção de sua
liberdade diante do controle sobre seu comportamento artístico. O controle é exercido pelos outsiders
para quem o músico trabalha, que usualmente julgam seu desempenho e reagem a ele com base em
padrões muito diferentes. A relação antagônica entre músicos e outsiders molda a cultura do músico e
produz também as principais contingências e os pontos de crise em sua carreira.
Estudos de ocupações mais convencionais como a medicina mostraram que o sucesso ocupacional
(tal como definido por membros da ocupação) depende de se encontrar uma posição para si naquele
grupo ou naqueles grupos que controlam as recompensas dentro da ocupação, e que as ações e os gestos
de colegas desempenham um grande papel na decisão do resultado da carreira de qualquer indivíduo.3 Os
músicos não são exceção a essa proposição, e começarei considerando suas definições de sucesso
ocupacional e o modo como o desenvolvimento de carreiras musicais depende da integração bem-
sucedida na organização da profissão de músico.
Mas a história da carreira do músico não se resume a isso. O problema da liberdade em face do
controle externo cria certas contingências de carreira adicionais que acrescentam algumas complicações
à estrutura da ocupação; considerarei esses aspectos em seguida.
Por fim, a família do músico (tanto aquela em que ele nasceu quanto a que ele cria ao se casar) tem
um importante efeito sobre sua carreira.4 Pais e esposas são tipicamente não-músicos e, como outsiders,
muitas vezes não compreendem a natureza da ligação do músico com seu trabalho. As incompreensões e
divergências que surgem freqüentemente alteram a direção da carreira de um músico e, em alguns casos, provocam seu encerramento.