Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 14 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Fornecimento

subcultura em que se verifica o uso de maconha. O primeiro estágio é representado pelo iniciante, a

pessoa que fuma maconha pela primeira vez; o segundo, pelo usuário ocasional, cujo consumo é

esporádico e depende de fatores fortuitos; e o terceiro, pelo usuário regular, para quem fumar se torna

uma rotina sistemática, em geral diária.

Consideremos primeiro o processo pelo qual vários tipos de controle social tornam-se

progressivamente menos eficazes à medida que o usuário passa de um estágio a outro, ou,

alternativamente, o modo como os controles impedem esse movimento, permanecendo eficazes. Os

principais tipos de controle a serem considerados são: (a) controle pela limitação do fornecimento da

droga e do acesso a ela; (b) controle pela necessidade de evitar que não-usuários descubram que a

pessoa é usuária; (c) controle pela definição do ato como imoral. A anulação da eficácia desses

controles, nos níveis e nas combinações a serem descritos, pode ser considerada uma condição essencial

para o uso constante e aumentado de maconha.

 

Fornecimento

 

O uso da maconha é limitado, em primeiro lugar, por leis que tornam a posse ou a venda da droga

passíveis de severas punições. Isso restringe sua distribuição a fontes ilícitas não facilmente acessíveis à

pessoa comum. Para começar a fumar maconha, uma pessoa deve participar de algum grupo por

intermédio do qual essas fontes de fornecimento se tornem acessíveis para ela, em geral um grupo

organizado em torno de valores e atividades opostos aos da sociedade convencional mais ampla.

Nesses círculos não-convencionais, em que a maconha já é usada, aparentemente trata-se apenas de

uma questão de tempo até que surja a situação na qual é dada ao recém-chegado uma chance de fumá-la:

 

Eu estava com aqueles caras que conhecia da escola, e um tinha um pouco, e eles foram puxar fumo e acharam que eu puxava também,

não me perguntaram, eu não quis ficar chupando o dedo, então não disse nada e fui até os fundos desse lugar com eles. Eles estavam

enrolando uns baseados.

 

Em outros grupos a maconha não está imediatamente presente, mas a participação no grupo propicia

relações com outros em que ela está disponível:

 

Mas o problema era que a gente não sabia onde descolar algum. Nenhum de nós sabia onde conseguir ou como descobrir onde conseguir.

Bom, havia aquela garota lá…. Ela tinha umas amigas negras e tinha puxado fumo antes com elas. Talvez uma ou duas vezes. Mas sabia

um pouco mais sobre isso que qualquer um de nós. Ela conseguiu descolar um pouco, por meio dessas amigas negras, e uma noite trouxe

alguns baseados.

 

Nos dois casos, tal participação fornece as condições em que a maconha se torna disponível para um

primeiro uso. Ela propicia também as condições para o estágio seguinte de uso ocasional, em que o

indivíduo fuma maconha de maneira esporádica e irregular. Quando uma pessoa chegou, por experiências

anteriores, a um ponto em que é capaz de fumar maconha por prazer, o uso, de início, tende a ser uma

função da disponibilidade. A pessoa usa a droga quando está com outras que têm um fornecimento;

quando esse não é o caso, o uso cessa. Ela tende, portanto, a flutuar em termos das condições de

disponibilidade criadas por sua interação com outros usuários. Um músico nesse estágio disse:

 

Eu puxo fumo sobretudo quando trabalho tocando. E não tenho tocado quase nada ultimamente…. Veja, estou casado há 12 anos agora, e

realmente não toquei muito desde então. Tive de arranjar um serviço diurno, você sabe, e não pude tocar muito. Não tive muitos trampos,

então realmente não puxei muito fumo.

É como eu digo, a única hora em que realmente entro nessa é quando estou trabalhando com jazzistas que fumam, então também

fumo. É como eu digo, fazia talvez uns seis meses que não puxava fumo. Não puxei fumo esse tempo todo. Depois, desde que comecei a

tocar aqui, faz três semanas, tenho fumado toda sexta-feira e todo sábado. É assim que a coisa funciona comigo.

[Observado durante um período de semanas, este homem mostrou-se completamente dependente de outros membros da orquestra

em que trabalhava ou de músicos que apareciam no bar para obter qualquer maconha.]

 

Se um usuário ocasional começa a se mover em direção a um modo de consumo mais regular e

sistemático, isso só será possível se ele encontrar uma fonte de fornecimento mais estável que os

encontros fortuitos com outros usuários, e isso significa estabelecer conexões com pessoas que se

dedicam a traficar narcóticos. Embora compras em grandes quantidades sejam necessárias para o uso

regular, elas geralmente não são feitas com essa intenção; mas, uma vez feitas, tornam de fato esse uso

possível, coisa que não era antes. Essas compras tendem a ser feitas quando o usuário se torna mais

sensível aos controles do grupo que usa drogas:

 

Eu estava andando com todo aquele bando de gente que puxava fumo naquela época. E eles estavam sempre me abastecendo, você

sabe, até que aquilo ficou embaraçoso. Eu estava realmente constrangido por nunca ter nenhum, por não poder retribuir … Então andei

perguntando onde podia conseguir, e comprei pela primeira vez.

 

Além disso, comprar de um traficante é mais econômico, visto que não há intermediários, e o

comprador de quantidades maiores obtém, como no mundo usual dos negócios, um preço menor.

No entanto, para fazer essas compras, o usuário precisa ter um “contato” — conhecer alguém que se

dedica ao tráfico de drogas. Os traficantes operam ilicitamente, e para fazer negócios com eles a pessoa

precisa saber onde os encontrar e se identificar para eles de tal modo que não hesitem em fazer venda.

Isso é bastante difícil no caso de pessoas que estão apenas casualmente envolvidas com grupos que usam

drogas. Mas, à medida que a pessoa se torna mais identificada com esses grupos, e é vista como mais

digna de confiança, o conhecimento necessário e as apresentações a traficantes tornam-se disponíveis

para ela. Ao ser definido como integrante de um grupo, um indivíduo é também classificado como alguém

que pode ser seguramente considerado capaz de comprar drogas sem pôr os outros em perigo.

Mesmo quando a oportunidade se torna acessível para eles, muitos não se aproveitam. O perigo de

prisão inerente a tal ato os impede de tentar:

 

Se ela fosse livremente distribuída, acho que eu provavelmente a teria à mão o tempo todo. Mas… [Você quer dizer, se não fosse contra

a lei?] É. [Bem, então isso significa que você não quer se envolver…] Bem, eu não quero ficar envolvido demais, você sabe. Não quero

chegar perto demais das pessoas que traficam, que estão muito metidas nisso. Nunca tive nenhuma dificuldade em conseguir algum

bagulho. Eu só, … alguém sempre tem um pouco e a gente pode conseguir quando quer. Por que, exatamente por que eu nunca entrei

nesses contatos mais ou menos diretos, os traficantes, acho que você explicaria isso com base no fato de que nunca senti necessidade de

garimpar, de correr atrás.

 

Esses temores entram em ação somente enquanto a tentativa não é feita, porque, depois que ela foi

realizada com sucesso, o indivíduo é capaz de usar a experiência para reavaliar o perigo envolvido; a

noção de perigo não impede mais a compra. Em vez disso, o ato é abordado com uma cautela realista que

reconhece a possibilidade de prisão sem exagerá-la. O comprador se sente seguro, contanto que observe

precauções elementares, de senso comum. Embora muitos dos entrevistados tivessem comprado, apenas

poucos relataram qualquer dificuldade de tipo legal, que eles atribuíram à falta das devidas precauções.

Para aqueles que estabelecem conexões, o uso regular é muitas vezes interrompido pela prisão ou

desaparecimento do homem de quem compram sua provisão. Nessas circunstâncias, o uso regular só

pode prosseguir se o usuário for capaz de encontrar uma nova fonte de fornecimento. Este rapaz teve de

abandonar o uso por algum tempo quando:

 

Bom, o Tom foi para a cadeia, eles o prenderam. Depois o Cramer. Como foi mesmo que aconteceu? … Ah, sim, eu meio que devia

algum dinheiro para ele, e não o vi durante um bom tempo; quando tentei vê-lo ele tinha se mudado, e não consegui descobrir para onde o

sujeito tinha ido. Então isso, foi esse contato…. [Então você realmente não sabia onde conseguir?] Não. [Então parou?] Parei.