Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
Aprender a perceber os efeitos
era aprendido tornava-se possível a emergência de uma concepção da droga como um objeto que podia
ser usado por prazer. Sem tal concepção, o uso da maconha era considerado sem sentido e não
prosseguia.
Aprender a perceber os efeitos
Mesmo depois que aprende a técnica adequada de fumar, o novo usuário pode não ter um barato e não
formar uma concepção da droga como algo que pode ser usado por prazer. Um comentário feito por um
usuário sugeriu a razão dessa dificuldade para ter um barato e indicou o passo seguinte no caminho que
leva alguém a se tornar usuário:
Na verdade, vi um cara que estava no maior barato e não sabia disso.
[Como assim, cara?]
Bom, é muito estranho, eu reconheço, mas eu vi. O sujeito ficou meu amigo, e afirmava que nunca tinha ficado no barato, um desses
caras, e ele ficou completamente doidão. E continuava insistindo que não estava no barato. Assim, tive de provar para ele que estava.
Que significa isso? Sugere que ter um barato consiste em dois elementos: a presença de sintomas
causados pelo uso da maconha e o reconhecimento desses sintomas e sua vinculação, pelo usuário, com o
uso da droga. Isto é, não basta que os efeitos estejam presentes; por si sós, eles não fornecem
automaticamente a experiência de estar no barato. Antes de ter essa experiência, o usuário precisa ser
capaz de mostrá-los para si mesmo e associá-los conscientemente ao fato de ter fumado maconha. De
outra maneira, quaisquer que sejam os efeitos reais produzidos, ele considera que a droga não teve efeito
algum sobre ele. “Achei que ela não tinha nenhum efeito sobre mim ou que os outros estavam exagerando
o efeito sobre eles, entende? Achei que provavelmente era psicológico, sabe.” Essas pessoas pensam que
a coisa toda é uma ilusão e que o desejo de entrar num barato leva o usuário a se enganar, acreditando
que alguma coisa está acontecendo quando de fato não está. Elas não continuam usando maconha,
sentindo que a droga “não faz nada” para elas.
De modo típico, porém, o noviço tem fé (desenvolvida a partir de sua observação de usuários que de
fato têm barato) de que a droga realmente produzirá alguma experiência nova, e continua a experiência
até que ela o faça. Seu malogro em ter um barato o preocupa, e é provável que ele interrogue usuários
mais experientes ou provoque comentários sobre isso. Nessas conversas, ele se dá conta de detalhes
específicos de sua experiência que talvez não tivesse notado, ou que talvez tivesse, mas não identificara
como sintomas do barato.
Não fiquei no barato na primeira vez…. Acho que não segurei a coisa tempo suficiente. Provavelmente soltei, sabe, a gente fica com um
pouco de medo. Na segunda vez eu não tive certeza, e ele [um companheiro de fumo] me disse, quando lhe perguntei sobre alguns dos
sintomas, e coisa e tal, como eu podia ficar sabendo, você sabe…. Então ele me disse para sentar num tamborete. Eu sentei — acho que
sentei num tamborete de bar —, e ele disse: “Deixe os pés pendurados”, e depois, quando desci, meus pés estavam muito frios, sabe.
E comecei a sentir a coisa, saca. Aquela foi a primeira vez. Depois, cerca de uma semana mais tarde, mais ou menos por aí, eu
realmente consegui. Essa foi a primeira vez que tive um grande ataque de riso, sabe como é. Então soube que realmente estava no
barato.
Um dos sintomas de estar no barato é sentir uma fome intensa. No caso seguinte, o noviço se dá conta
disso e entra no barato pela primeira vez:
Eles só morriam de rir de mim porque eu estava comendo tanto. Eu só mandava para dentro [devorava] um monte de comida, e eles
ficavam só rindo de mim, sacou? De vez em quando eu olhava para eles, pensando por que estariam rindo, entende, sem saber o que eu
estava fazendo. [Bom, mas eles não acabaram lhe contando por que estavam rindo?] Sim, sim, eu repetia: “Ei, cara, o que está
acontecendo?” Você sabe, eu perguntava: “O que está acontecendo?”, e de repente eu me senti esquisito, sabe. “Cara, você está no
maior barato, sabia? Você está doidão.” Eu respondi: “Não estou mesmo?” Como se eu não soubesse o que estava acontecendo.
O aprendizado pode ocorrer de maneiras mais indiretas:
Eu ouvia pequenos comentários feitos por outras pessoas. Alguém dizia: “Minhas pernas estão parecendo de borracha”, e não posso me
lembrar de todos os comentários que eram feitos porque estava muito atento, ouvindo todas aquelas dicas sobre como eu devia me sentir.
O noviço, então, ansioso por ter essa sensação, aprende com os outros usuários alguns referentes
concretos do termo “barato” e aplica essas noções à sua própria experiência. Os novos conceitos tornam
possível para ele localizar esses sintomas entre suas próprias sensações e indicar para si mesmo “algo
diferente” em sua experiência que associa com o uso da droga. É somente quando pode fazer isso que
entra no barato. No caso a seguir, o contraste entre duas experiências sucessivas de um usuário deixa
clara a importância crucial da consciência dos sintomas para se obter um barato e reenfatiza o importante
papel da interação com outros usuários na aquisição dos conceitos que tornam essa consciência possível:
[Você ficou no barato a primeira vez que fumou?] Fiquei, com certeza. Se bem que, pensando melhor, acho que não. Isto é, daquela
primeira vez foi mais ou menos como um porre leve. Fiquei feliz, acho, você sabe o que eu quero dizer. Mas eu realmente não sabia que
estava num barato, entende. Foi só depois da segunda vez que entrei num barato que me dei conta de que fiquei no barato na primeira
vez. Então eu soube que alguma coisa diferente estava acontecendo.
[Como soube?] Como soube? Se o que aconteceu comigo aquela noite acontecesse com você, você ia saber, acredite. Tocamos a
primeira música por quase duas horas — uma música! Imagine, cara! Subimos no estrado e tocamos essa única música, começamos às
9h. Quando acabamos, olhei meu relógio, eram 10h45. Quase duas horas numa música só. E não pareceu nada de mais.
Quero dizer, você sabe, ela faz isso com a gente. É como se você tivesse muito mais tempo, uma coisa assim. De qualquer maneira,
quando eu vi isso, cara, foi demais. Eu sabia que devia realmente estar no barato se uma coisa dessas podia acontecer. Então eles me
explicaram que era isso que ela fazia com a gente, você tinha uma percepção diferente do tempo e de tudo. Então me dei conta de que
era assim que a coisa funcionava. Então eu saquei. Na primeira vez, provavelmente eu me senti daquele jeito, mas não sabia o que estava
acontecendo.
É somente quando se torna capaz de ter um barato nesse sentido que o principiante continua a usar
maconha por prazer. Em todos os casos nos quais o uso prosseguiu, o usuário havia adquirido os
conceitos necessários com que expressar para si mesmo o fato de que experimentava novas sensações
causadas pela droga. Isto é, para que o uso continue, é necessário não apenas usar a droga de modo que
produza efeitos, mas também aprender a perceber esses efeitos quando eles ocorrem. Dessa maneira, a
maconha adquire sentido para o usuário como um objeto de que se pode lançar mão por prazer.
Com a crescente experiência, o usuário desenvolve uma maior percepção dos efeitos da droga;
continua aprendendo a ter um barato. Ele examina atentamente sucessivas experiências, pro curando
novos efeitos, certificando-se de que os antigos continuam presentes. A partir disso, desenvolve-se um
conjunto estável de categorias para a experimentação dos efeitos da droga cuja presença permite ao
usuário ter um barato com facilidade.
À medida que adquirem esse conjunto de categorias, os usuários se tornam connaisseurs. Como
especialistas em vinhos finos, são capazes de especificar onde uma planta particular foi cultivada e em
que época do ano foi colhida. Embora geralmente não seja possível saber se essas atribuições são
corretas, é verdade que eles distinguem entre lotes de maconha, não somente segundo a potência, mas
também com relação aos diferentes tipos de sintoma produzidos.
A capacidade de perceber os efeitos da droga deve ser mantida para que o uso continue; se for
perdida, o uso de maconha cessa. Dois tipos de evidência sustentam essa afirmação. Primeiro, pessoas
que se tornam usuários inveterados de álcool, barbitúricos ou drogas opiáceas não continuam a fumar
maconha, em grande parte porque perdem a capacidade de distinguir entre seus efeitos e os das outras
drogas.9 Elas não sabem mais se a maconha lhes dá barato. Segundo, naqueles poucos casos em que um
indivíduo usa maconha em quantidades tais que está sempre no barato, ele tende a sentir que a droga não faz efeito sobre ele, visto que falta o elemento essencial de uma diferença perceptível entre sentir-se no