Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
Músico e “quadrado”
1949, período em que músicos aproveitavam os benefícios previstos pelo G.I. Bill.a Assim, o fato de eu
freqüentar a universidade não me diferençava no meio musical. Trabalhei com muitas bandas de
diferentes tipos durante esse período e fiz amplas anotações sobre os eventos que ocorriam enquanto
estava com outros músicos. A maioria das pessoas que eu observava não sabia que eu estava fazendo um
estudo sobre músicos. Raramente eu realizava alguma entrevista formal, concentrando-me antes em ouvir
e registrar as conversas habituais que ocorriam entre os músicos. A maior parte de minhas observações
foi realizada no trabalho e até no palco, enquanto tocávamos. Conversas úteis para meus objetivos
ocorriam muitas vezes nos costumeiros “mercados de emprego”, nos escritórios do sindicato local, onde
músicos à procura de trabalho e líderes de banda à procura de homens para contratar se reuniam nas
tardes de segunda-feira e sábado.
O mundo do músico de casa noturna é extremamente diferenciado. Alguns tocam sobretudo em bares e
cafés, em bairros distantes ou na área central. Alguns tocam com bandas maiores, em salões de dança e
boates. Outros, em vez de trabalhar regularmente num lugar, atuam com bandas que tocam em bailes
privados e festas em hotéis e clubes campestres. Outros homens ainda tocam com bandas famosas,
nacionalmente conhecidas, ou trabalham em estúdios de rádio e televisão. Os que trabalham em cada tipo
de contexto têm problemas e atitudes característicos desse contexto. Eu tocava principalmente em bares e
cabarés, e ocasionalmente com vários tipos de banda que faziam apresentações avulsas. Mas tinha
bastante contato com membros dos outros grupos — por meio de encontros em serviços ocasionais e no
prédio do sindicato — para poder colher evidências de suas atitudes e atividades.
Quando completava a pesquisa, trabalhei como músico em dois outros lugares: uma pequena cidade
universitária (Champaign-Urbana, Illinois) e uma cidade grande, embora não tão grande quanto Chicago
(Kansas City, Missouri). Há disparidades na organização da profissão de músico associadas às
diferenças de tamanho das cidades. Em Chicago, é muito mais fácil para um músico especializar-se. Ele
pode ser músico de salão de dança, ou trabalhar somente em cabarés e boates (como eu fazia). Nas
cidades menores, nenhum desses tipos de trabalho existe em quantidade suficiente, e, além disso, há
menos músicos em proporção à população. Um músico, portanto, pode ser chamado para tocar em
qualquer um dos vários contextos que descrevi, seja porque tem pouca escolha quanto aonde tocar, seja
porque o líder de banda que procura alguém para trabalhar com ele tem pouca opção entre os músicos
disponíveis. Embora eu não tenha mantido registros formais de minhas experiências nesses outros
contextos, nenhum deles forneceu dados que exigissem mudanças nas conclusões a que cheguei com base
nos materiais de Chicago.
Músico e “quadrado”
O sistema de crenças sobre o que são os músicos e o que são os públicos é resumido em uma palavra
empregada pelos primeiros para se referir aos outsiders — “quadrado” [square]. Ela é utilizada como
substantivo e adjetivo, denotando tanto um tipo de pessoa quanto uma qualidade de comportamento e
objetos. Refere-se ao tipo de pessoa que é o oposto do que todo músico é, ou deveria ser; e uma maneira
de pensar, sentir e se comportar (com sua expressão em objetos materiais) oposta àquilo que os músicos
apreciam.
O músico é concebido como um artista que possui um misterioso dom artístico que o distingue de
todos os demais. Possuindo esse dom, ele deveria estar livre de controle por parte de outsiders que não o
detêm. O dom é algo que não pode ser adquirido pela instrução; o outsider jamais poderá, portanto,
tornar-se membro do grupo. Um trombonista disse: “Não se pode ensinar um sujeito a ter batida. Ou ele
tem ou não tem. Se não tem, você não pode lhe ensinar isso.”
O músico acha que em nenhuma circunstância se deveria permitir que um outsider lhe dissesse o que tocar ou como tocar. De fato, o elemento mais forte no código dos colegas é a proibição de criticar ou
tentar pressionar de qualquer maneira um outro músico na situação real de tocar “no trabalho”. Se não é
permitido nem a um colega influenciar o trabalho, é impensável que se permita que um outsider o faça.
Essa atitude é generalizada num sentimento de que os músicos são diferentes de outros tipos de gente
e melhores que eles, não devendo assim estar sujeitos ao controle de outsiders em qualquer esfera da
vida, em particular em suas atividades artísticas. O sentimento de ser alguém diferente que leva uma vida
diferente é arraigado, como indicam os seguintes comentários:
Estou lhe dizendo, os músicos são diferentes das outras pessoas. Falam de maneira diferente, agem de maneira diferente, parecem
diferentes. Simplesmente não são como as outras pessoas, só isso…. Sabe, é difícil deixar a profissão de músico porque a gente se sente
tão diferente dos outros.
Os músicos vivem uma vida exótica, como numa selva ou coisa parecida. Quando começam, são garotos comuns de cidades
pequenas — mas, depois que entram nessa vida, mudam. É como uma selva, com a diferença que a selva deles é um ônibus quente,
apinhado. Você vive esse tipo de vida durante um tempo e fica completamente diferente.
É ótimo ser músico, nunca vou me arrepender. Compreendo coisas que os quadrados nunca compreenderão.
Um extremo dessa concepção é a crença de que somente músicos são sensíveis e não-convencionais o
bastante para conseguir dar verdadeira satisfação sexual a uma mulher.
Fortemente imbuídos de sua diferença, os músicos acreditam também não ter qualquer obrigação de
imitar o comportamento convencional dos quadrados. Da idéia de que ninguém pode dizer a um músico
como tocar decorre logicamente a noção de que ninguém pode dizer a um músico como fazer coisa
alguma. Assim, o comportamento que zomba de normas sociais convencionais é muito admirado.
Histórias revelam essa admiração por atividades bastante individuais, espontâneas, alegremente
irresponsáveis; muitos dos mais famosos jazzmen são renomados como “personalidades”, e suas proezas
são amplamente recontadas. Por exemplo, um conhecido jazzman ficou famoso por ter saltado no cavalo
de um policial que estava parado em frente à boate em que trabalhava e ir cavalgando. O músico comum
gosta de contar histórias de coisas não-convencionais que fez:
Tocamos no baile e depois que o trabalho terminou fizemos as malas para entrar no velho ônibus e voltar a Detroit. A uma pequena
distância da cidade, o ônibus simplesmente se recusou a funcionar. Havia gasolina, mas ele simplesmente não andava. Uns caras
desceram e ficaram por ali resmungando. De repente alguém disse: “Vamos tacar fogo nele!” Então alguém tirou um pouco de gasolina
dos tanques e borrifou em volta, encostou um fósforo e… xispe! Simplesmente virou fumaça. Que experiência! O ônibus queimando e os
caras em volta gritando e batendo palmas. Foi realmente um espetáculo.
Isso é mais que idiossincrasia; é um valor ocupacional básico, como indicado pela seguinte
observação de um jovem músico: “Sabe, os maiores heróis no meio musical são os grandes excêntricos.
Quanto mais maluco um cara se mostra, maior ele é, e mais todos gostam dele.”
Assim como não desejam ser obrigados a viver em termos de convenções sociais, os músicos não
tentam impingir essas convenções aos outros. Por exemplo, um músico declarou que a discriminação
étnica é errada, já que todo mundo tem direito a agir como quiser e acreditar no que quiser:
Merda, não acredito em nenhuma discriminação desse tipo. As pessoas são pessoas, não importa que sejam latinas, judias, irlandesas,
polacas ou o quê. Só os tremendos quadrados se importam com a religião delas. Isso não significa porra nenhuma para mim. Cada um
tem direito a acreditar no que bem entende. É isso que eu acho. Claro, eu mesmo nunca vou à igreja, mas não critico quem vai. Tudo bem
se você gosta desse tipo de coisa.
O mesmo músico classificava de errado o comportamento sexual de um amigo, embora defendesse o
direito que o indivíduo tem de decidir o que é certo e errado para si mesmo.
Eddie trepa demais por aí; ele vai acabar se matando ou sendo morto por alguma garota. E depois ele tem uma ótima mulher também.
Não deveria tratá-la desse jeito. Mas foda-se, isso é problema dele. Se é assim que ele quer viver, se é feliz desse jeito, então é assim que
tem de ser.
Músicos tolerarão comportamento extraordinário num colega músico sem fazer tentativa alguma de
puni-lo ou coibi-lo. No incidente a seguir, o comportamento descontrolado de um baterista levou a banda
a perder um trabalho; no entanto, por mais furiosos que estivessem, emprestaram-lhe dinheiro e se
abstiveram de puni-lo de alguma maneira. Se alguém o repreendesse, teria sido uma quebra dos
costumes.
JERRY: Quando chegamos lá, a primeira coisa que aconteceu foi que a bateria dele não apareceu. O proprietário teve de sair e procurar
uma bateria em toda parte para ele, e nisso amassou um pára-lama. Vi no ato que não estávamos começando bem. E Jack! Cara, o
patrão é um latino velho, você sabe, não estava para conversa fiada, ele dirige uma casa de jogo; não aceita desaforo de ninguém. Então
ele disse a Jack: “O que você vai fazer sem bateria?” Jack respondeu: “Fica frio, papito, vai dar tudo certo, você vai ver.” Pensei que o
velho fosse perder as estribeiras. Que maneira de falar com o patrão. Cara, ele olhou em volta com fogo nos olhos. Eu sabia que não
iríamos ficar depois dessa. Ele me perguntou: “Esse baterista é bom da cabeça?” Eu respondi: “Não sei, nunca o vi antes.” E acabamos
contando para ele que vínhamos tocando juntos havia seis meses. Então isso ajudou também. Claro, quando Jack começou a tocar, foi o
fim. Tão alto! E não tocou uma batida de jeito algum. Só usava o bumbo para as batidas mais fortes. Que tipo de percussão era aquela?
Quanto ao mais, era uma boa turminha…. Era um bom trabalho. Poderíamos ter ficado lá para sempre…. Bom, depois que tocamos
umas duas seqüências, o patrão nos disse que estávamos fora.
BECKER: Que aconteceu depois que vocês foram despedidos?
JERRY: O patrão deu 20 paus para cada um e disse para voltarmos para casa. Como gastamos 17 dólares para o transporte de ida e
volta, faturamos três pelo trabalho. Claro, vimos muitas árvores. Três paus, merda, não faturamos nem isso. Emprestamos uns sete ou
oito para o Jack.
Desse modo, o músico vê a si e aos seus colegas como pessoas com um dom especial que as torna
diferentes de não-músicos e que não estão sujeitas a seu controle, seja no desempenho musical, seja no
comportamento social comum.
O quadrado, por outro lado, não possui esse dom especial nem qualquer compreensão da música ou
do modo de vida dos que o possuem. O quadrado é visto como uma pessoa ignorante e intolerante, que
deve ser temida, uma vez que produz as pressões que forçam o músico a tocar de maneira não artística. A
dificuldade do músico reside no fato de que o quadrado está em condições de impor sua vontade: se não
gostar do tipo de música tocado, não pagará para ouvi-la uma segunda vez.
Sem compreender nada de música, o quadrado a avalia segundo padrões estranhos aos músicos e não
respeitados por eles. Um saxofonista comercial comentou sarcasticamente:
Não faz a menor diferença o que tocamos, o modo como tocamos. É tão simples que qualquer um que tenha tocado por mais de um mês
consegue se virar. O cara toca um refrão no piano, ou coisa parecida, depois os saxes ou outros instrumentos repetem aquilo em
uníssono. É muito fácil. Mas as pessoas não se importam. Contanto que consigam ouvir o baterista está tudo bem. Elas ouvem a bateria,
assim sabem pôr o pé direito diante do esquerdo e o pé esquerdo diante do direito. E se conseguirem aprender a assoviar a melodia, ficam
felizes. Que mais poderiam querer?
A seguinte conversa ilustra a mesma atitude:
JOE: Se você saísse do estrado e andasse entre as mesas, alguém diria: “Rapaz, gosto muito da sua banda.” Só porque você tocava
suavemente e o saxofonista também tocava violino, ou coisa que o valha, os quadrados gostavam…
DICK: Foi como quando eu trabalhei no M. Club. Todos os caras que tinham sido meus colegas no ensino médio costumavam ir e curtir a
banda…. Foi uma das piores bandas em que já trabalhei, mas eles achavam uma maravilha.
JOE: Ah, é, eles são uma cambada de quadrados, de todo modo.
Considera-se que a “quadradice” penetra todos os aspectos do comportamento do quadrado, assim
como seu oposto, o “avanço” é evidente em tudo que o músico faz. O quadrado parece fazer tudo errado,
é risível e ridículo. O músico se diverte muito se sentando e observando os quadrados. Todos têm
histórias para contar sobre as tolices risíveis de quadrados. Um homem chegou a ponto de sugerir que os
músicos deviam trocar de lugar com as pessoas que estavam sentadas ao balcão do café onde trabalhava; afirmava que elas eram mais engraçadas e divertidas do que ele jamais conseguiria ser. Todos os itens do