Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 37 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Conclusão

descuido. Se as ações são repreensíveis, as autoridades superiores, de uma maneira ou de outra, têm

parte da culpa. Mesmo que nenhum general tenha jamais sido levado a julgamento pelo massacre em My

Lai, aqueles acontecimentos abalaram a confiança que as pessoas podiam ter na correção moral da ação

militar no Vietnã e de seus responsáveis de nível mais alto. De maneira semelhante, quando

compreendemos como os psiquiatras de escola operam como agentes das autoridades escolares, e não de

seus pacientes,46 perdemos parte da fé que temos nas instituições da psiquiatria convencional. A rapidez

com que porta-vozes oficiais, nos níveis mais altos, se movem para se opor a análises de corrupção,

incompetência ou injustiça, mesmo quando envolvem os níveis mais baixos, deveria nos deixar ver, pelo

menos tão claramente quanto eles, o grau em que essas análises atacam as instituições tanto quanto seus

agentes, e os superiores tanto quanto seus subordinados. Esse tipo de pesquisa tem especial contundência

moral quando nos permite inspecionar a prática de uma instituição à luz de seus próprios objetivos

expressos e das descrições que gostam de fazer a respeito de sua ação. Em razão disso, nosso trabalho

tem invariavelmente uma tendência crítica quando produz algo que pode ser interpretado como uma

avaliação das operações de uma sociedade ou de qualquer de suas partes.

 

Conclusão

 

A abordagem interacionista do desvio serviu para elucidar os fenômenos que foram convencionalmente

estudados sob essa rubrica, mas também para complicar a visão moral que temos deles. A abordagem

interacionaista inicia essa dupla tarefa de elucidação e complicação pondo os sociólogos a par de que

devem incluir um conjunto mais amplo de pessoas e eventos em seus estudos dos fenômenos desviantes,

sensibilizando-os para a importância de um conjunto mais amplo de fatos. Estudamos todos os

participantes desses dramas morais, tanto acusadores quanto acusados, não oferecendo uma isenção

convencional de nossas indagações profissionais a ninguém, por mais respeitáveis ou altamente situados

que sejam. Examinamos cuidadosamente as atividades reais em questão, tentando compreender as

contingências da ação para todos os envolvidos. Não aceitamos a invocação de nenhuma força misteriosa

em ação no drama do desvio, respeitando aquela versão do senso comum que concentra nossa atenção no

que podemos ver claramente, bem como naqueles eventos e interesses que demandam mais sutileza na

coleta dos dados e na análise teórica.

Num segundo nível, a abordagem interacionista mostra aos sociólogos que um elemento importante

em todos os aspectos do drama do desvio é a imposição de definições — de situações, atos e pessoas —

por aqueles poderosos o bastante ou legitimados o bastante para tanto. Uma plena compreensão exige o

estudo completo daquelas definições e dos processos pelos quais elas se desenvolvem, adquirem

legitimidade e são consideradas óbvias.

Esses dois níveis de análise dão à abordagem interacionista, nas atuais circunstâncias, um caráter

radical. Ao fazer de empreendedores morais (bem como daqueles a quem eles procuram controlar)

objetos de estudo, essas análises violam a hierarquia de credibilidade da sociedade. Elas questionam o

monopólio da verdade e “toda a história” sustentada pelos que ocupam posições de poder e autoridade.

Sugerem que precisamos descobrir por nós mesmos a verdade sobre fenômenos supostamente desviantes,

em vez de confiar em relatos oficiais certificados que deveriam ser suficientes para qualquer bom

cidadão. Adotam uma postura relativística diante das acusações e definições de desvio levantadas por

pessoas respeitáveis e autoridades constituídas, tratando-as como a matéria-prima de análise da ciência

social, e não como afirmações de verdades morais inquestionáveis.

As análises interacionistas dos fenômenos desviantes tornam-se radicais num último sentido, ao

serem tratadas como radicais por autoridades convencionais. Quando autoridades — políticas e outras — exercem poder em parte por meio de ocultamento e mistificação, uma ciência que torna as coisas mais

claras ataca inevitavelmente as bases desse poder. As autoridades cujas instituições e jurisdições

tornam-se o objeto de análises interacionistas atacam essas análises por sua “tendenciosidade”, a não-

aceitação da sabedoria e dos valores tradicionais, seu efeito destrutivo sobre a ordem pública.47

Essas conseqüências da análise interacionista complicam nossa posição moral como cientistas pelo

próprio fato de elucidar o que está se passando em arenas morais como tribunais, hospitais, escolas e

prisões. Elas tornam impossível ignorar as implicações morais de nosso trabalho. Mesmo que queiramos

fazer isso, essas autoridades que se sentem sob ataque destroem a ilusão de uma ciência neutra ao insistir

que somos responsáveis por essas implicações — como, claro, de fato somos.

Essa discussão de desenvolvimentos recentes na teoria do desvio constitui o início de uma

consideração da significação moral da sociologia contemporânea. Podemos fazer maiores progressos

com relação a esse intricado problema por meio de exames similares em outros campos da sociedade,

como o estudo de instituições educacionais, serviços de saúde, as forças armadas, a indústria e o

comércio — de fato, em todas as outras áreas em que o estudo sociológico esclarece as atividades de

pessoas e instituições, influenciando, assim, as avaliações morais que fazemos delas.

 

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a Este artigo foi apresentado pela primeira vez na reunião da British Sociological Association, Londres, em abril de 1971. Vários amigos fizeram comentários úteis sobre um rascunho anterior. Quero agradecer especialmente a Eliot Freidson, Blanche Geer, Irving Louis Horowitz e John I. Kitsuse.

b No original, from left field. Trata-se de uma metáfora tirada do jogo de beisebol, sem referência ao campo político. A melhor tradução foi discutida com o autor, optando-se por utilizar a expressão consagrada no Brasil por uma música de Raul Seixas. (N.R.T.)