Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 35 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

A desmistificação do desvio

Fazendo uso de nosso resultado anterior, vemos que um ato poderia não ser secretamente desviante em t1

porque nenhum procedimento então em uso produziria evidências de um ato que juízes competentes

considerariam desviante. E poderia ser secretamente desviante em t , porque, como se criou uma nova 2

regra nesse ínterim, agora existe um procedimento que permite essa determinação.

A última formulação nos lembra o importante papel que o poder desempenha em teorias

interacionistas do desvio.22 Em que circunstâncias fazemos e impomos regras ex post facto? Penso que a

investigação empírica mostrará que isso ocorre quando um participante numa relação é

desproporcionalmente poderoso, de modo que pode fazer sua vontade prevalecer acima das objeções de

outros, mas deseja manter uma aparência de justiça e racionalidade. Isso ocorre, caracteristicamente, na

relação entre pais e filhos, e em arranjos similarmente paternalistas, como funcionários de obras sociais

e beneficiários, ou professor e aluno.

Ao se considerar o desvio uma forma de atividade coletiva, a ser investigada, em todas as suas

facetas, como qualquer outra atividade coletiva, vemos que o objeto de nosso estudo não é um ato

isolado cuja origem devemos descobrir. Em vez disso, o ato que alegadamente ocorreu, quando ocorreu,

tem lugar numa rede complexa de atos envolvendo outros, e assume parte dessa complexidade por causa

da maneira como diferentes pessoas e grupos o definem. A lição se aplica a nossos estudos de todas as

outras áreas da vida social. Aprender isso não nos livrará por completo do erro, contudo, pois nossas

próprias teorias e nossos métodos apresentam persistentes fontes de dificuldades.

 

A desmistificação do desvio

 

Os sociólogos criaram dificuldades para si mesmos com seu hábito praticamente indefectível de tornar

eventos e experiências comuns misteriosos. Lembro-me — uma de minhas primeiras experiências na pós-

graduação — de Ernest Burgess alertando nossa turma de noviços para o perigo de se deixar seduzir pelo

senso comum. Ao mesmo tempo, Everett Hughes nos recomendava prestar rigorosa atenção ao que

podíamos ver e ouvir com nossos próprios olhos e ouvidos. Alguns de nós pensamos que haveria uma

contradição entre os dois imperativos, mas reprimimos nossa inquietação para preservar a sanidade.

Ambas as injunções têm um substancial cerne de verdade. O senso comum, em um de seus sentidos,

pode nos enganar. Esse senso comum é a sabedoria tradicional da tribo, a mistura das “coisas que todo

mundo sabe”, que as crianças aprendem à medida que crescem, os estereótipos da vida cotidiana. Ele

inclui generalizações da ciência social sobre a natureza dos fenômenos sociais, correlações entre

categorias sociais (por exemplo, entre raça e crime, ou classe e inteligência) e a etiologia de condições

sociais problemáticas, como pobreza e guerra. As generalizações de senso comum assemelham-se às da

ciência social em sua estrutura formal; diferem amplamente em sua imunidade a observações

contraditórias. As generalizações da ciência social, em princípio e muitas vezes de fato, mudam quando

novas observações mostram que são incorretas. As generalizações de senso comum, não. Esse tipo de

senso comum, em particular porque seus erros não são aleatórios, favorece as instituições estabelecidas.

Outro significado de senso comum sugere que o homem comum, com a cabeça não estorvada por

teorias extravagantes e noções professorais abstratas, pode ao menos ver o que está ali bem debaixo do

seu nariz. Filosofias tão diversas quanto o pragmatismo e o zen-budismo cultuam o respeito pela

capacidade que o homem comum tem, como Sancho Pança, de ver que um moinho de vento é realmente

um moinho de vento. Pensar que se trata de um cavaleiro montado em seu cavalo é, seja como você o

considere, um erro real.

Os sociólogos muitas vezes ignoram as injunções dessa versão do senso comum. Não podemos transformar moinhos de vento em cavaleiros. Freqüentemente, porém, transformamos atividade coletiva

— pessoas fazendo coisas juntas — em substantivos abstratos com os quais a ligação com pessoas

fazendo coisas juntas é tênue. Assim, de modo típico, perdemos o interesse pelas coisas mais comuns que

as pessoas realmente fazem. Ignoramos o que vemos porque não é abstrato, e perseguimos as “forças” e

as “condições” invisíveis que aprendemos a pensar que são tudo que interessa à sociologia.

Sociólogos noviços com freqüência têm muita dificuldade em fazer pesquisa de campo porque não

reconhecem a sociologia, tal como a leram, na atividade humana que vêem por toda parte. Passam oito

horas observando uma fábrica ou uma escola, e retornam com duas páginas de anotações e a explicação

de que “não aconteceu nada de importante”. Querem dizer que não observaram nenhum caso de anomia,

estratificação, burocracia ou qualquer outro dos demais tópicos sociológicos convencionais. Não vêem

que inventamos esses termos para lidar de forma conveniente com vários casos de pessoas fazendo

coisas juntas que concluímos serem suficientemente semelhantes de maneiras específicas para que os

tratemos como iguais para fins de análise. Desdenhando o senso comum, os noviços ignoram o que

acontece à sua volta. Deixando de registrar os detalhes da vida cotidiana em suas anotações, não os

podem usar para estudar abstrações como anomia, ou outras que eles próprios poderiam construir. Um

importante problema metodológico é sistematizar o procedimento pelo qual avançamos de uma

apreciação de detalhes etnográficos para conceitos úteis na consideração de problemas com que

chegamos à nossa pesquisa ou de que nos demos conta desde então.

Inversamente, as pessoas que os sociólogos estudam muitas vezes têm dificuldade em reconhecer a si

mesmas e às suas atividades nos relatos sociológicos escritos sobre elas. Deveríamos nos preocupar com

isso mais do que o fazemos. Não deveríamos esperar que leigos fizessem nossas análises para nós. Mas

tampouco deveríamos ignorar aquelas questões que os leigos habitualmente levam em conta quando

descrevemos o modo como desempenham suas atividades ou fazemos suposições a esse respeito. Muitas

teorias do desvio postulam, implícita ou explicitamente, que um conjunto particular de atitudes é

subjacente ao cometimento de algum ato em potencial transgressor, mesmo que a teoria se baseie em

dados (como registros oficiais) que nada podem revelar sobre isso. Considere as descrições do estado

de espírito do ator encontradas nas teorizações sobre anomia, de Durkheim a Cloward e Ohlin, passando

por Merton. Se as pessoas estudadas não podem se reconhecer nessas descrições sem serem instruídas,

deveríamos prestar atenção.

Não são somente as descrições de seus próprios estados mentais que os atores não conseguem

reconhecer. Muitas vezes não conseguem reconhecer os atos em que supostamente se envolveram, porque

o sociólogo não os observou com cuidado, ou não prestou atenção alguma a seus detalhes quando o fez. A

omissão tem sérios resultados. Torna impossível para nós inserir as reais contingências da ação em

nossas teorias, fazê-las levar em conta os constrangimentos e as oportunidades de fato presentes.

Podemos nos ver teorizando sobre atividades que nunca ocorrem da maneira como as imaginamos.

Se olharmos com atenção para o que observamos, veremos muito provavelmente as questões para as

quais a teoria interacionista chama a atenção. Veremos que pessoas que se envolvem em atos

convencionalmente considerados desviantes não são motivadas por forças misteriosas, incognoscíveis.

Elas fazem o que fazem mais ou menos pelas mesmas razões que justificam as atividades mais comuns.

Veremos que regras sociais, longe de serem fixas e imutáveis, são continuamente reconstruídas em cada

situação, para que se ajustem à conveniência, à vontade e à posição de poder de vários participantes.

Veremos que atividades consideradas desviantes exigem muitas vezes redes elaboradas de cooperação

que dificilmente poderiam ser sustentadas por pessoas que sofressem de dificuldades mentais

incapacitantes. A teoria interacionista pode ser uma conseqüência quase inevitável de submetermos

nossas teorias do desvio à correção da observação atenta das coisas de que elas pretendem tratar.

À medida que tanto o senso comum quanto a ciência nos recomendam olhar atentamente para as coisas antes de começarmos a teorizar sobre elas, a obediência à recomendação produz uma teoria