Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
A desmistificação do desvio
Fazendo uso de nosso resultado anterior, vemos que um ato poderia não ser secretamente desviante em t1
porque nenhum procedimento então em uso produziria evidências de um ato que juízes competentes
considerariam desviante. E poderia ser secretamente desviante em t , porque, como se criou uma nova 2
regra nesse ínterim, agora existe um procedimento que permite essa determinação.
A última formulação nos lembra o importante papel que o poder desempenha em teorias
interacionistas do desvio.22 Em que circunstâncias fazemos e impomos regras ex post facto? Penso que a
investigação empírica mostrará que isso ocorre quando um participante numa relação é
desproporcionalmente poderoso, de modo que pode fazer sua vontade prevalecer acima das objeções de
outros, mas deseja manter uma aparência de justiça e racionalidade. Isso ocorre, caracteristicamente, na
relação entre pais e filhos, e em arranjos similarmente paternalistas, como funcionários de obras sociais
e beneficiários, ou professor e aluno.
Ao se considerar o desvio uma forma de atividade coletiva, a ser investigada, em todas as suas
facetas, como qualquer outra atividade coletiva, vemos que o objeto de nosso estudo não é um ato
isolado cuja origem devemos descobrir. Em vez disso, o ato que alegadamente ocorreu, quando ocorreu,
tem lugar numa rede complexa de atos envolvendo outros, e assume parte dessa complexidade por causa
da maneira como diferentes pessoas e grupos o definem. A lição se aplica a nossos estudos de todas as
outras áreas da vida social. Aprender isso não nos livrará por completo do erro, contudo, pois nossas
próprias teorias e nossos métodos apresentam persistentes fontes de dificuldades.
A desmistificação do desvio
Os sociólogos criaram dificuldades para si mesmos com seu hábito praticamente indefectível de tornar
eventos e experiências comuns misteriosos. Lembro-me — uma de minhas primeiras experiências na pós-
graduação — de Ernest Burgess alertando nossa turma de noviços para o perigo de se deixar seduzir pelo
senso comum. Ao mesmo tempo, Everett Hughes nos recomendava prestar rigorosa atenção ao que
podíamos ver e ouvir com nossos próprios olhos e ouvidos. Alguns de nós pensamos que haveria uma
contradição entre os dois imperativos, mas reprimimos nossa inquietação para preservar a sanidade.
Ambas as injunções têm um substancial cerne de verdade. O senso comum, em um de seus sentidos,
pode nos enganar. Esse senso comum é a sabedoria tradicional da tribo, a mistura das “coisas que todo
mundo sabe”, que as crianças aprendem à medida que crescem, os estereótipos da vida cotidiana. Ele
inclui generalizações da ciência social sobre a natureza dos fenômenos sociais, correlações entre
categorias sociais (por exemplo, entre raça e crime, ou classe e inteligência) e a etiologia de condições
sociais problemáticas, como pobreza e guerra. As generalizações de senso comum assemelham-se às da
ciência social em sua estrutura formal; diferem amplamente em sua imunidade a observações
contraditórias. As generalizações da ciência social, em princípio e muitas vezes de fato, mudam quando
novas observações mostram que são incorretas. As generalizações de senso comum, não. Esse tipo de
senso comum, em particular porque seus erros não são aleatórios, favorece as instituições estabelecidas.
Outro significado de senso comum sugere que o homem comum, com a cabeça não estorvada por
teorias extravagantes e noções professorais abstratas, pode ao menos ver o que está ali bem debaixo do
seu nariz. Filosofias tão diversas quanto o pragmatismo e o zen-budismo cultuam o respeito pela
capacidade que o homem comum tem, como Sancho Pança, de ver que um moinho de vento é realmente
um moinho de vento. Pensar que se trata de um cavaleiro montado em seu cavalo é, seja como você o
considere, um erro real.
Os sociólogos muitas vezes ignoram as injunções dessa versão do senso comum. Não podemos transformar moinhos de vento em cavaleiros. Freqüentemente, porém, transformamos atividade coletiva
— pessoas fazendo coisas juntas — em substantivos abstratos com os quais a ligação com pessoas
fazendo coisas juntas é tênue. Assim, de modo típico, perdemos o interesse pelas coisas mais comuns que
as pessoas realmente fazem. Ignoramos o que vemos porque não é abstrato, e perseguimos as “forças” e
as “condições” invisíveis que aprendemos a pensar que são tudo que interessa à sociologia.
Sociólogos noviços com freqüência têm muita dificuldade em fazer pesquisa de campo porque não
reconhecem a sociologia, tal como a leram, na atividade humana que vêem por toda parte. Passam oito
horas observando uma fábrica ou uma escola, e retornam com duas páginas de anotações e a explicação
de que “não aconteceu nada de importante”. Querem dizer que não observaram nenhum caso de anomia,
estratificação, burocracia ou qualquer outro dos demais tópicos sociológicos convencionais. Não vêem
que inventamos esses termos para lidar de forma conveniente com vários casos de pessoas fazendo
coisas juntas que concluímos serem suficientemente semelhantes de maneiras específicas para que os
tratemos como iguais para fins de análise. Desdenhando o senso comum, os noviços ignoram o que
acontece à sua volta. Deixando de registrar os detalhes da vida cotidiana em suas anotações, não os
podem usar para estudar abstrações como anomia, ou outras que eles próprios poderiam construir. Um
importante problema metodológico é sistematizar o procedimento pelo qual avançamos de uma
apreciação de detalhes etnográficos para conceitos úteis na consideração de problemas com que
chegamos à nossa pesquisa ou de que nos demos conta desde então.
Inversamente, as pessoas que os sociólogos estudam muitas vezes têm dificuldade em reconhecer a si
mesmas e às suas atividades nos relatos sociológicos escritos sobre elas. Deveríamos nos preocupar com
isso mais do que o fazemos. Não deveríamos esperar que leigos fizessem nossas análises para nós. Mas
tampouco deveríamos ignorar aquelas questões que os leigos habitualmente levam em conta quando
descrevemos o modo como desempenham suas atividades ou fazemos suposições a esse respeito. Muitas
teorias do desvio postulam, implícita ou explicitamente, que um conjunto particular de atitudes é
subjacente ao cometimento de algum ato em potencial transgressor, mesmo que a teoria se baseie em
dados (como registros oficiais) que nada podem revelar sobre isso. Considere as descrições do estado
de espírito do ator encontradas nas teorizações sobre anomia, de Durkheim a Cloward e Ohlin, passando
por Merton. Se as pessoas estudadas não podem se reconhecer nessas descrições sem serem instruídas,
deveríamos prestar atenção.
Não são somente as descrições de seus próprios estados mentais que os atores não conseguem
reconhecer. Muitas vezes não conseguem reconhecer os atos em que supostamente se envolveram, porque
o sociólogo não os observou com cuidado, ou não prestou atenção alguma a seus detalhes quando o fez. A
omissão tem sérios resultados. Torna impossível para nós inserir as reais contingências da ação em
nossas teorias, fazê-las levar em conta os constrangimentos e as oportunidades de fato presentes.
Podemos nos ver teorizando sobre atividades que nunca ocorrem da maneira como as imaginamos.
Se olharmos com atenção para o que observamos, veremos muito provavelmente as questões para as
quais a teoria interacionista chama a atenção. Veremos que pessoas que se envolvem em atos
convencionalmente considerados desviantes não são motivadas por forças misteriosas, incognoscíveis.
Elas fazem o que fazem mais ou menos pelas mesmas razões que justificam as atividades mais comuns.
Veremos que regras sociais, longe de serem fixas e imutáveis, são continuamente reconstruídas em cada
situação, para que se ajustem à conveniência, à vontade e à posição de poder de vários participantes.
Veremos que atividades consideradas desviantes exigem muitas vezes redes elaboradas de cooperação
que dificilmente poderiam ser sustentadas por pessoas que sofressem de dificuldades mentais
incapacitantes. A teoria interacionista pode ser uma conseqüência quase inevitável de submetermos
nossas teorias do desvio à correção da observação atenta das coisas de que elas pretendem tratar.
À medida que tanto o senso comum quanto a ciência nos recomendam olhar atentamente para as coisas antes de começarmos a teorizar sobre elas, a obediência à recomendação produz uma teoria