Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 9 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

3: Tornando-se um usuário de maconha

3

 

Tornando-se um

 

usuário de maconha

 

Um número desconhecido mas provavelmente muito grande de pessoas nos Estados Unidos usa maconha.

Elas fazem isso embora fumar maconha seja ao mesmo tempo ilegal e reprovado.

O fenômeno do uso da maconha recebeu muita atenção, em particular de psiquiatras e agentes da lei.

A pesquisa feita — como freqüentemente ocorre com pesquisas sobre comportamentos considerados

desviantes — diz respeito sobretudo à questão: por que fazem isso? Tentativas de explicar o uso da

maconha apóiam-se com firmeza na premissa de que a presença de qualquer tipo particular de

comportamento num indivíduo pode ser mais bem explicada como resultado de algum traço que o

predispõe ou motiva a se envolver nesse comportamento. No caso do uso de maconha, esse traço é de

hábito identificado como psicológico, como uma necessidade de devanear e fugir de problemas

psicológicos que o indivíduo não é capaz de enfrentar.1

Não me parece que essas teorias possam explicar adequadamente o uso de maconha. Esse uso é um

caso interessante para as teorias do desvio, porque ilustra a maneira como motivos desviantes realmente

se desenvolvem no curso da experiência com a atividade desviante. Para reduzir uma argumentação

complexa a poucas palavras: ao invés de os motivos desviantes levarem a comportamento desviante,

ocorre o contrário; o comportamento desviante acaba por produzir a motivação desviante. Impulsos e

desejos vagos — neste caso, provavelmente com maior freqüência, uma curiosidade acerca do tipo de

experiência que a droga induz — são transformados em padrões definidos de ação por meio da

interpretação social de uma experiência física em si mesma ambígua. O uso de maconha é uma função da

concepção que o indivíduo tem dela e dos usos a que ela se presta, e essa concepção se desenvolve à

medida que aumenta a experiência do indivíduo com a droga.2

A pesquisa relatada neste capítulo e no seguinte diz respeito à carreira do usuário de maconha. Neste,

examinamos o desenvolvimento da experiência física imediata do indivíduo com a maconha. No próximo,

consideramos o modo como ele reage aos vários controles sociais que se desenvolveram em torno do

emprego da droga. O que tentamos compreender aqui é a seqüência de mudanças na atitude e na

experiência que leva ao uso de maconha por prazer. Essa maneira de formular o problema requer uma

pequena explicação. A maconha não produz adição, pelo menos não no mesmo sentido em que o álcool e

as drogas opiáceas. O usuário não experimenta nenhuma síndrome de abstinência e não exibe qualquer

ânsia inextirpável pela droga.3 O padrão mais freqüente de uso poderia ser denominado “recreativo”.

Lança-se mão da droga ocasionalmente pelo prazer que o usuário encontra nela, um tipo de

comportamento relativamente casual em comparação com aquele associado ao uso de drogas que geram

dependência. O relatório do Comitê sobre Maconha da Prefeitura da Cidade de Nova York enfatiza esse

aspecto:

 

Uma pessoa pode ser fumante confirmado por um período prolongado e abandonar a droga voluntariamente sem experimentar ânsia por

ela ou exibir sintomas de abstinência. Pode, em algum momento posterior, retornar ao uso. Outros podem permanecer usuários

infreqüentes do cigarro, fumando-o apenas uma ou duas vezes por semana, ou apenas quando o “contexto social” requer participação.

Ocasionalmente um de nossos investigadores associou-se a um usuário de maconha. O investigador trazia à baila o assunto do fumo. Isso

levava invariavelmente à sugestão de que obtivessem alguns cigarros de maconha. Procuravam um lugar onde maconheiros costumavam

se reunira e, se ele estivesse fechado, o fumante e nosso investigador retomavam calmamente sua atividade anterior, como a discussão da

vida em geral ou um jogo de sinuca. Não havia aparentemente qualquer sinal indicativo de frustração no fumante por não ter podido

satisfazer seu desejo da droga. Consideramos este ponto extremamente significativo, uma vez que é em tudo contrário à experiência de

usuários de outros narcóticos. A ocorrência de uma situação semelhante com um usuário de morfina, cocaína ou heroína resultaria numa

atitude compulsiva da parte do viciado em drogas para obter a droga. Se não conseguisse obtê-la, haveria as óbvias manifestações físicas

e mentais de frustração. Isso pode ser considerado como uma presumível evidência de que não há verdadeira adição no sentido médico

associada ao uso de maconha.4

 

Ao usar a expressão “uso por prazer”, pretendo enfatizar o caráter não compulsivo e casual do

comportamento. (Pretendo também eliminar de consideração aqui aqueles poucos casos em que a

maconha é fumada unicamente por seu valor de prestígio, como um símbolo de certo tipo de pessoa, sem

que absolutamente nenhum prazer derive de seu uso.)

A pesquisa que estou prestes a relatar não foi planejada de modo a constituir um teste decisivo das

teorias que relacionam o uso de maconha a algum traço psicológico do usuário. Ela mostra, no entanto,

que explicações psicológicas não são em si suficientes para indicar a razão do uso de maconha e que

talvez não sejam mesmo necessárias. Pesquisas que tentam provar essas teorias psicológicas depararam

com duas grandes dificuldades, nunca satisfatoriamente resolvidas, que a teoria aqui apresentada evita.

Em primeiro lugar, teorias baseadas na existência de algum traço psicológico de predisposição têm

dificuldade de explicar aquele grupo de usuários que aparece em números bastante grandes em todos os

estudos5 e que não exibe o traço ou os traços considerados causadores do comportamento. Em segundo,

teorias psicológicas encontram dificuldade de explicar a grande variabilidade do comportamento de um

dado indivíduo com relação à droga ao longo do tempo. A mesma pessoa que, num momento, é incapaz

de usar a droga por prazer, num estágio posterior será capaz e estará desejosa de fazê-lo, e, mais tarde

ainda, se tornará de novo incapaz de usá-la dessa maneira. Tais mudanças, difíceis de explicar a partir de

uma teoria baseada nas necessidades de “fuga” do usuário, são facilmente compreensíveis como

conseqüências de mudanças em sua concepção da droga. De maneira semelhante, se pensarmos no

usuário de maconha como alguém que aprendeu a vê-la como algo que pode lhe dar prazer, não teremos

dificuldade alguma em compreender a existência de usuários psicologicamente “normais”.

Ao fazer o estudo, lancei mão do método da indução analítica. Tentei chegar a uma formulação geral

da seqüência de mudanças na atitude e experiência individual que sempre ocorriam quando o indivíduo

tornava-se desejoso e capaz de usar maconha por prazer, e nunca ocorria ou não era permanentemente

mantida quando a pessoa não estava disposta a usar maconha por prazer. O método requer que todos os

casos colhidos na pesquisa comprovem a hipótese. Se for encontrado um caso que não a comprove, o

pesquisador é obrigado a alterar a hipótese para que corresponda ao caso que provou que sua idéia

original estava errada.6

Para desenvolver e testar minha hipótese sobre a gênese do uso de maconha por prazer, realizei 50

entrevistas com usuários da droga. Eu havia sido músico profissional de casa noturna durante alguns anos

quando fiz o estudo, e minhas primeiras entrevistas foram com pessoas que havia conhecido no meio

musical. Pedi-lhes que me pusessem em contato com outros usuários que estivessem dispostos a discutir

suas experiências comigo. Colegas que trabalhavam num estudo de usuários de drogas opiáceas

colocaram à minha disposição algumas entrevistas que continham, além de material sobre drogas

opiáceas, material suficiente sobre o uso de maconha que fornecesse um teste de minha hipótese.7

Embora, por fim, metade das 50 entrevistas tivessem sido feitas com músicos, a outra metade cobria uma

ampla variedade de pessoas, incluindo operários, mecânicos e profissionais liberais. A amostra,

evidentemente, não é de maneira alguma “aleatória”; não seria possível obter uma amostra aleatória, uma

vez que ninguém conhece a natureza do universo do qual ela deveria ser extraída.

Ao entrevistar usuários, focalizei na história da experiência da pessoa com a maconha, procurando

mudanças importantes em sua atitude com relação a ela e no seu uso efetivo, e as razões dessas

mudanças. Quando foi possível e apropriado, usei o jargão do próprio usuário.