Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
2: Tipos de desvio: um modelo seqüencial
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Tipos de desvio:
um modelo seqüencial
Não é minha intenção aqui afirmar que somente atos considerados desviantes por outros são “realmente”
desviantes. Mas é preciso reconhecer que esta é uma dimensão importante, que deve ser levada em conta
em qualquer análise de comportamento desviante. Combinando essa dimensão com outra — se um ato
adequa-se ou não a uma regra particular —, podemos construir o seguinte conjunto de categorias para a
discriminação de diferentes tipos de desvio.
Dois desses tipos demandam muito pouca explicação. Comportamento apropriado é simplesmente
aquele que obedece à regra e que outros percebem como tal. No outro extremo, o tipo desviante puro de
comportamento é aquele que desobedece à regra e é percebido como tal.a
Tipos de comportamento desviante
Comportamento Comportamento infrator
Percebido como desviante Falsamente acusado Desviante puro Não percebido como desviante Apropriado Desviante secreto
As duas outras possibilidades são de interesse mais amplo. A situação falsamente acusado é aquela
a que criminosos muitas vezes se referem como “bum rap”.b A pessoa é vista pelos outros como se
tivesse cometido uma ação imprópria, embora de fato não o tenha feito. Falsas acusações ocorrem mesmo
em tribunais, onde a pessoa é protegida por regras processuais e de prova. Provavelmente ocorrem com
muito maior freqüência em contextos não legais, em que salvaguardas processuais não estão disponíveis.
Um tipo de caso ainda mais interessante é encontrado no outro extremo, o desvio secreto. Aqui, um
ato impróprio é cometido, mas ninguém o percebe ou reage a ele como uma violação das regras. Como no
caso da falsa acusação, ninguém sabe realmente em que medida o fenômeno existe, mas estou convencido
de que a quantidade é bastante grande, muito mais do que pensamos. Uma breve observação me convence
de que isso é verdade. A maioria das pessoas provavelmente vê o fetichismo (e o fetichismo
sadomasoquista em particular) como uma perversão rara e exótica. Vários anos atrás, no entanto, tive
ocasião de examinar o catálogo de um vendedor de fotografias pornográficas destinadas exclusivamente a
devotos dessa especialidade. O catálogo não continha nenhuma foto de nus, nenhuma foto de qualquer
versão do ato sexual. Em contrapartida, continha páginas e mais páginas de fotos de moças vestindo
camisas-de-força, usando botas com saltos de 15 centímetros de altura, empunhando chicotes, algemadas
e espancando-se umas às outras. Cada página servia de amostra para nada menos que 120 fotos estocadas
pelo vendedor. Um cálculo rápido revelou que o catálogo anunciava para venda imediata algo entre 15 e
20 mil diferentes fotografias. O próprio catálogo era dispendiosamente impresso, e esse fato, ao lado do
número de fotos à venda, indicava que o vendedor tinha um negócio florescente e uma clientela bem
grande. No entanto, não topamos com fetichistas sadomasoquistas a toda hora. Obviamente, eles são
capazes de manter em segredo sua perversão (“Todas as encomendas enviadas num envelope simples”).1
Observações semelhantes foram feitas por estudiosos da homossexualidade, relatando que muitos homossexuais são capazes de ocultar seu desvio de companheiros não desviantes. E muitos usuários de