Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 6 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

2: Tipos de desvio: um modelo seqüencial

2

 

Tipos de desvio:

 

um modelo seqüencial

 

Não é minha intenção aqui afirmar que somente atos considerados desviantes por outros são “realmente”

desviantes. Mas é preciso reconhecer que esta é uma dimensão importante, que deve ser levada em conta

em qualquer análise de comportamento desviante. Combinando essa dimensão com outra — se um ato

adequa-se ou não a uma regra particular —, podemos construir o seguinte conjunto de categorias para a

discriminação de diferentes tipos de desvio.

Dois desses tipos demandam muito pouca explicação. Comportamento apropriado é simplesmente

aquele que obedece à regra e que outros percebem como tal. No outro extremo, o tipo desviante puro de

comportamento é aquele que desobedece à regra e é percebido como tal.a

 

Tipos de comportamento desviante

 

Comportamento Comportamento infrator

Percebido como desviante Falsamente acusado Desviante puro Não percebido como desviante Apropriado Desviante secreto

 

As duas outras possibilidades são de interesse mais amplo. A situação falsamente acusado é aquela

a que criminosos muitas vezes se referem como “bum rap”.b A pessoa é vista pelos outros como se

tivesse cometido uma ação imprópria, embora de fato não o tenha feito. Falsas acusações ocorrem mesmo

em tribunais, onde a pessoa é protegida por regras processuais e de prova. Provavelmente ocorrem com

muito maior freqüência em contextos não legais, em que salvaguardas processuais não estão disponíveis.

Um tipo de caso ainda mais interessante é encontrado no outro extremo, o desvio secreto. Aqui, um

ato impróprio é cometido, mas ninguém o percebe ou reage a ele como uma violação das regras. Como no

caso da falsa acusação, ninguém sabe realmente em que medida o fenômeno existe, mas estou convencido

de que a quantidade é bastante grande, muito mais do que pensamos. Uma breve observação me convence

de que isso é verdade. A maioria das pessoas provavelmente vê o fetichismo (e o fetichismo

sadomasoquista em particular) como uma perversão rara e exótica. Vários anos atrás, no entanto, tive

ocasião de examinar o catálogo de um vendedor de fotografias pornográficas destinadas exclusivamente a

devotos dessa especialidade. O catálogo não continha nenhuma foto de nus, nenhuma foto de qualquer

versão do ato sexual. Em contrapartida, continha páginas e mais páginas de fotos de moças vestindo

camisas-de-força, usando botas com saltos de 15 centímetros de altura, empunhando chicotes, algemadas

e espancando-se umas às outras. Cada página servia de amostra para nada menos que 120 fotos estocadas

pelo vendedor. Um cálculo rápido revelou que o catálogo anunciava para venda imediata algo entre 15 e

20 mil diferentes fotografias. O próprio catálogo era dispendiosamente impresso, e esse fato, ao lado do

número de fotos à venda, indicava que o vendedor tinha um negócio florescente e uma clientela bem

grande. No entanto, não topamos com fetichistas sadomasoquistas a toda hora. Obviamente, eles são

capazes de manter em segredo sua perversão (“Todas as encomendas enviadas num envelope simples”).1

Observações semelhantes foram feitas por estudiosos da homossexualidade, relatando que muitos homossexuais são capazes de ocultar seu desvio de companheiros não desviantes. E muitos usuários de