Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 20 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Reações ao conflito

vestuário, fala e comportamento que diferem daqueles do músico são considerados novas evidências da

insensibilidade e ignorância inerentes do quadrado. Como os músicos têm uma cultura hermética, essas

evidências são muitas e servem apenas para fortalecer sua convicção de que músicos e quadrados são

dois tipos diferentes de pessoa.

Mas também teme-se o quadrado, uma vez que é visto como a fonte máxima da pressão comercial. É

a ignorância do quadrado que obriga o músico a tocar o que considera música ruim a fim de ter sucesso.

 

BECKER: Como você se sente em relação às pessoas para quem toca, o público?

DAVE: Eles são um saco.

BECKER: Por que diz isso?

DAVE: Bom, porque, se você está numa banda comercial, eles gostam, e assim você tem de tocar mais coisas melosas. Se você está

trabalhando numa banda boa, eles não gostam, e isso é um saco. Se você está trabalhando numa banda boa e eles gostam, é um saco

também. A gente os detesta de qualquer maneira, porque sabe que eles não conhecem nada. Eles são simplesmente um grande saco.

 

A última afirmação revela que aqueles que tentam evitar ser quadrados ainda são considerados como

tal, porque ainda lhes falta a compreensão apropriada, que só um músico pode ter — “eles não conhecem

nada”. Assim, o fã de jazz não é mais respeitado que os outros quadrados. Sua apreciação do jazz não

está baseada numa compreensão e ele age exatamente como os outros quadrados. Pedirá músicas e tentará

influenciar a execução do músico, exatamente como outros quadrados.

O músico se vê assim como um artista criativo que deveria estar livre de controle externo, uma

pessoa melhor que aqueles outsiders que chama de quadrados — que não compreendem sua música nem

seu modo de vida, por cuja causa, no entanto, ele deve tocar de maneira contrária a seus ideais de

profissão.

 

Reações ao conflito

 

Músicos de jazz e comerciais concordam fundamentalmente em sua atitude em relação ao público,

embora variem na maneira como expressam esse consenso básico. Dois temas conflitantes constituem a

base da concordância: (1) o desejo de auto-expressão de acordo com as crenças do grupo de músicos e

(2) o reconhecimento de que pressões externas podem forçar o músico a se privar de satisfazer esse

desejo. O jazzman tende a enfatizar o primeiro, o músico comercial o segundo; mas ambos reconhecem e

sentem a força de cada uma dessas influências. Comum às atitudes de ambos os tipos de músico é um

intenso desprezo e desapreço pelo público quadrado, por cuja culpa os músicos devem “se tornar

comerciais” para ter sucesso.

O músico comercial, embora considere o público quadrado, opta por sacrificar o auto-respeito e o

respeito de outros músicos (as recompensas do comportamento artístico) pelas recompensas mais

substanciais do trabalho estável, a renda maior e o prestígio desfrutado pelo homem que se torna

comercial. Um músico comercial comentou:

 

Eles têm um ótimo tipo de gente aqui, também. É claro que são quadrados. Não estou tentando negar isso. Sem dúvida são um bando de

quadrados fodidos, mas, porra, quem paga as contas? Eles pagam, então você tem de tocar o que eles querem. Isto é, que merda, você

não pode ganhar a vida se não tocar para os quadrados. Quantas porras de pessoas você pensa que não são quadrados? De 100 pessoas,

você teria sorte se 15% não fossem quadrados. Isto é, talvez os profissionais liberais — médicos, advogados, esse pessoal —, eles podem

não ser quadrados, mas a pessoa média não passa de um maldito quadrado. Claro, o pessoal do cinema não é assim. Mas, fora o pessoal

do cinema e os profissionais, são todos uns grandes quadrados.6 Não sabem nada.

Vou lhe contar. Isso é uma coisa que aprendi uns três anos atrás. Se você quiser faturar algum, tem de agradar aos quadrados. São

eles que pagam as contas, e você tem de tocar para eles. Um bom músico não consegue arranjar emprego. Você tem de tocar um monte

de merda. Mas, que diabo, vamos encarar. Quero viver bem. Quero ganhar algum dinheiro; quero ter um carro, saca. Por quanto tempo a

gente consegue se opor a isso? …

Não me entenda mal. Se você consegue ganhar dinheiro tocando jazz, ótimo. Mas quantos caras conseguem isso? … Se você puder

tocar jazz, ótimo, como eu disse. Mas se você está na porcaria de um emprego ruim, não tem como evitar, tem de ser comercial. Quer

dizer, os quadrados estão pagando o seu salário, então o melhor é você se acostumar com isso, é a eles que você tem de agradar.

 

Observe que este músico admite que é mais “respeitável” ser independente dos quadrados e

manifesta desprezo pelo público, cuja “quadradice” é responsável por toda a situação.

Esses homens expressam o problema principalmente em termos econômicos.

 

Quero dizer, merda, se você está tocando para um bando de quadrados, está tocando para um bando de quadrados. Que porra você vai

fazer? Você não pode empurrar isso pela goela deles abaixo. Bom, acho que você pode fazer eles engolirem isso, mas, afinal, eles estão

lhe pagando.

 

O jazzman sente a necessidade de satisfazer a audiência com igual intensidade, embora sustentando

que não se deve ceder a ela. Os jazzmen, como outros, apreciam empregos estáveis e bons, e sabem que

precisam satisfazer o público para consegui-los, como a seguinte conversa entre dois jovens jazzmen

ilustra:

 

CHARLIE: Não há nenhum emprego em que você possa tocar jazz. Você tem de tocar rumbas, canções populares e tudo o mais. Você

não consegue nada tocando jazz. Cara, não quero brigar a minha vida inteira.

EDDIE: Bem, você quer se divertir, não quer? Você não seria feliz tocando coisas comerciais. Você sabe disso.

CHARLIE: Acho que não há meio de um sujeito ser feliz. Porque sem dúvida é um saco tocar música comercial, mas é um horror nunca

fazer nada e tocar jazz.

EDDIE: Meu Deus, por que você não pode ser bem-sucedido tocando jazz? … Isto é, você poderia ter um grupinho ótimo e ainda tocar

arranjos, mas bons, saca.

CHARLIE: Você nunca conseguiria arranjar emprego para uma banda assim.

EDDIE: Bem, você poderia ter uma putinha sexy para ficar de pé na frente, cantar e rebolar o traseiro para os caretas [quadrados].

Assim conseguiria emprego. E ainda poderia tocar muito bem quando ela não estivesse cantando.

CHARLIE: Bem, não era assim que era a banda de Q? Você gostava daquilo? Gostava do jeito que ela cantava?

EDDIE: Não, cara, mas a gente tocava jazz, sabe.

CHARLIE: Você gostava do tipo de jazz que tocavam? Era meio comercial, não era?

EDDIE: Era, mas poderia ter sido ótimo.

CHARLIE: É, mas se tivesse sido ótimo vocês não teriam continuado trabalhando. Acho que vou ser sempre infeliz. É assim que as

coisas são. O sujeito vai sempre estar mal consigo mesmo…. Nunca haverá nenhum tipo de emprego realmente bom para um músico.

 

Além da pressão para agradar ao público que emana do desejo que o músico tem de maximizar

salário e renda, há pressões mais imediatas. Muitas vezes é difícil sustentar uma atitude independente.

Por exemplo:

 

Trabalhei num casamento italiano no Southwest Side ontem à noite, com Johnny Ponzi. Tocamos meia hora, fazendo os arranjos especiais

que eles usam, que são muito pouco comerciais. Então um velho italiano (o sogro do noivo, como descobrimos mais tarde) começou a

gritar: “Toquem umas polcas, toquem um pouco de música italiana. Ah, vocês não prestam, vocês são ruins.” Johnny sempre tenta evitar

o inevitável nesses casamentos, adiando a execução de música popular enquanto pode. Eu perguntei: “Cara, por que não tocamos um

pouco dessas coisas agora e acabamos com isso?” Tom respondeu: “Acho que se começarmos a fazer isso, vamos ter de fazer a noite

inteira.” Johnny disse: “Ouçam, Howard, o noivo, é um sujeito realmente excelente. Ele nos disse para tocar o que quiséssemos e não dar

nenhuma atenção ao que as pessoas dizem, por isso não se preocupem.”

O velho continuou gritando e logo o noivo chegou e disse: “Ouçam, companheiros. Sei que vocês não querem tocar nada dessas

merdas, e não quero que toquem, mas é meu sogro, entendem. Só não quero deixar minha mulher sem graça por causa dele, por isso

toquem um pouco de música latina para manter o velho sossegado, certo?” Johnny correu os olhos sobre nós e fez um gesto de

resignação.

Ele disse: “Certo, vamos tocar a ‘Beer Barrel Polka’.” Tom disse: “Que merda! Lá vamos nós.” Tocamos isso e depois tocamos uma

dança italiana, a “Tarantella”.

 

Às vezes o empregador faz uma pressão que leva até um jazz-man intransigente a ceder, pelo menos

enquanto dura o trabalho.