Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 21 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Isolamento e auto-segregação

Eu estava fazendo uma apresentação-solo por uma noite no Y, na rua X. Que saco! Na segunda parte de “Sunny Side”, toquei o refrão e,

depois, um pouco de jazz. De repente o patrão se debruçou sobre o lado do balcão e gritou: “Viro mico de circo se alguém neste lugar

souber que música você está tocando!” E todo mundo no lugar escutou. Que quadradão! O que eu podia fazer? Não disse nada, só

continuei tocando. Claro que foi um saco.

 

Um tanto incoerentemente, o músico quer sentir que está alcançando o público, e que este obtém

algum prazer com seu trabalho, e isso também o leva a ceder a demandas do público. Um homem falou:

 

Gosto mais de tocar quando há alguém para ouvir. A gente tem a impressão de que não há muito sentido em tocar se não há ninguém

para nos ouvir. Isto é, afinal, música é para isso — para as pessoas ouvirem e terem prazer. É por isso que não me importo muito em

tocar música melosa. Se alguém gosta disso, então de certo modo isso me dá prazer. Acho que sou meio diletante. Mas gosto de deixar

as pessoas felizes dessa maneira.

 

Essa declaração é um tanto extrema; a maioria dos músicos, porém, é suficientemente sensível para

querer evitar o desagrado ativo do público. “É por isso que gosto de trabalhar com Tommy”, diz o

músico. “Pelo menos, quando você sai do palco, todo mundo no lugar não está odiando você. É um saco

trabalhar nessas condições, em que todo mundo no lugar simplesmente detesta a banda toda.”

 

Isolamento e auto-segregação

 

Os músicos são hostis a seus públicos, temerosos de ter de sacrificar seus padrões artísticos aos

quadrados. Eles exibem certos padrões de comportamento e crença que podem ser considerados ajustes a

essa situação. Esses padrões de isolamento e auto-segregação são expressos na situação real de execução

musical e na participação no intercurso social da comunidade mais ampla. A principal função desse

comportamento é proteger o músico da interferência do público quadrado e, por extensão, da sociedade

convencional. Sua principal conseqüência é intensificar o status do músico como um outsider, por meio

da operação de um ciclo de desvio crescente que, por sua vez, aumenta as possibilidades de dificuldades

adicionais.

Em regra, o músico está espacialmente isolado do público. Trabalha sobre uma plataforma, que

fornece uma barreira física e impede a interação direta. Esse isolamento é bem-vindo, porque o público,

composto de quadrados, é sentido como potencialmente perigoso. O músico teme que o contato direto

com o público só possa levar a interferência na execução musical. É mais seguro, portanto, estar isolado

e nada ter a ver com ele. Uma vez em que esse isolamento não foi proporcionado, um músico comentou:

 

Uma outra coisa sobre casamentos, cara. Você fica ali mesmo no chão, bem no meio das pessoas. Você não pode escapar delas. É

diferente se você toca num baile ou num bar. Num salão de dança você fica em cima de um palco, onde eles não podem lhe alcançar. A

mesmacoisa num salão de coquetel, você fica no alto atrás do balcão. Mas num casamento, cara, você fica bem no meio deles.

 

Quando desprovidos das barreiras físicas em geral fornecidas, os músicos muitas vezes improvisam

as suas próprias barreiras e segregam-se eficazmente de seu público.

 

Eu tinha um trabalho num casamento judaico sábado à noite…. Quando cheguei, o restante dos rapazes já estava lá. Como o casamento

atrasara, as pessoas estavam apenas começando a comer. Decidimos, depois que conversei com o noivo, tocar durante o jantar.

Sentamo-nos num canto afastado do salão. Jerry puxou o piano de modo que ele bloqueasse um pequeno espaço que ficou assim

separado do resto das pessoas. Tony instalou sua bateria nesse espaço, e Jerry e Johnny ficaram ali enquanto tocamos. Quis deslocar o

piano de modo que os rapazes pudessem ficar de pé diante dele e perto do público, mas Jerry disse, meio em tom de brincadeira: “Não,

cara. Preciso ter alguma proteção contra os quadrados.” Assim, deixamos as coisas como estavam….

Jerry teve de passar para a frente do piano, mas, de novo meio como brincadeira, teve de pôr duas cadeiras diante de si, que o

separavam do público. Quando um casal pegou as cadeiras para se sentar, Jerry pôs duas outras em seu lugar. Johnny perguntou: “Cara,

por que não nos sentamos nessas cadeiras?” Jerry respondeu: “Não, cara. Deixe-as aí. Isso é a barricada para me proteger dos

quadrados.”

Muitos músicos, de maneira quase reflexa, evitam estabelecer contato com integrantes do público.

Quando andam no meio deles, de hábito evitam olhar nos olhos dos quadrados, temendo que isso

estabeleça alguma relação a partir da qual o quadrado viria a solicitar músicas ou tentar influenciar a

execução musical de alguma outra maneira. Alguns estendem esse comportamento a sua atividade social

comum, fora de situações profissionais. Até certo ponto isso é inevitável, porque as condições de

trabalho — trabalho madrugadas adentro, grande mobilidade geográfica, e assim por diante — tornam

difícil a participação social fora do grupo profissional. Quando se trabalha enquanto os outros dormem, é

difícil ter uma interação social normal com as pessoas. Isso foi citado por um músico que havia deixado

a profissão, como uma explicação parcial de sua ação: “E é ótimo trabalhar em horários regulares,

também, quando você pode ver pessoas em vez de ir trabalhar toda noite.” Alguns músicos mais jovens

queixam-se de que os horários de trabalho tornam difícil para eles estabelecer contatos com garotas

“direitas”, uma vez que impedem o namoro convencional.

Grande parte da segregação, porém, se desenvolve a partir da hostilidade em relação aos quadrados.

A atitude é vista em seu limite entre os “X Avenue Boys”, um grupo de jazzmen radicais que rejeita a

cultura norte-americana in toto. A qualidade de seu sentimento em relação ao mundo externo é indicada

pelo título privado que um homem deu à sua música-tema: “Se vocês não gostam do meu jeito

abichalhado, fodam-se.”b A composição étnica do grupo era mais um indicador de que sua adoção de

atitudes artísticas e sociais extremas faziam parte de uma rejeição total da sociedade norte-americana

convencional. Com poucas exceções, os homens provinham de grupos nacionais mais antigos, mais

inteiramente assimilados: irlandeses, escandinavos, alemães e ingleses. Além disso, dizia-se que muitos

vinham de famílias ricas e das classes sociais mais altas. Em suma, sua rejeição ao comercialismo na

música e aos quadrados na vida social fazia parte do embargo a toda a cultura norte-americana erguido

por homens que gozavam de uma posição privilegiada, mas eram incapazes de conseguir um ajuste

pessoal satisfatório dentro dela.

Todos os interesses desse grupo enfatizavam seu isolamento dos padrões e interesses da sociedade

convencional. Eles se associavam quase exclusivamente com outros músicos e moças que cantavam ou

dançavam em boates na área de North Clark Street de Chicago, e tinham pouco ou nenhum contato com o

mundo convencional. Eram descritos politicamente da seguinte maneira: “Eles detestam esta forma de

governo de qualquer maneira e a consideram realmente ruim.” Eram infatigavelmente críticos das

empresas e dos trabalhadores, desiludidos da estrutura econômica e cínicos com relação ao processo

político e aos partidos políticos contemporâneos. Religião e casamento eram completamente rejeitados,

assim como as culturas americanas popular e séria, e sua leitura restringia-se exclusivamente aos

escritores e filósofos avant-garde mais herméticos. Em arte e música sinfônica, interessavam-se somente

pelos desenvolvimentos mais herméticos. Em todo caso, apressavam-se a indicar que seus interesses não

eram os da sociedade convencional, e que portanto se diferençavam dela. É razoável supor que a

principal função desses interesses fosse tornar essa diferenciação inequivocamente clara.

Embora encontrassem seu desenvolvimento mais extremo entre os “X Avenue Boys”, o isolamento e a

auto-segregação eram manifestados também por músicos menos desviantes. O sentimento de estar isolado

do restante da sociedade era com freqüência muito forte; a seguinte conversa, que teve lugar entre dois

jovens jazzmen, ilustra duas reações ao sentimento de isolamento.

 

EDDIE: Sabe, cara, detesto as pessoas. Não suporto estar no meio de quadrados. Eles me irritam tanto que simplesmente não consigo

suportá-los.

CHARLIE: Você não devia ser assim, cara. Não deixe que eles o irritem. Apenas ria deles. É o que eu faço. Simplesmente ria de tudo

que fazem. É a única maneira de conseguir suportar isso.

 

Um jovem músico judeu, que se identificava claramente com a comunidade judaica, sentia contudo

seu isolamento profissional com intensidade suficiente para fazer as seguintes declarações.

Sabe, um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa. Foi o que me aconteceu quando comecei a tocar. Eu realmente tinha a impressão

de que sabia demais. De certo modo, eu sabia, ou sentia, que todos os meus amigos do bairro eram verdadeiros quadrados e estúpidos….

Você sabe, é engraçado. Quando você se senta naquele estrado ali, sente-se diferente dos outros. Eu até consigo entender como os

gentios se sentem em relação aos judeus. Você vê essas pessoas se aproximarem, e elas parecem judias, ou têm um pouquinho de

sotaque, ou algo assim, e elas pedem uma rumba ou uma porcaria dessas, e eu realmente penso: “Que quadrados irritantes, esses judeus”,

exatamente como se eu mesmo fosse goy. É isso que quero dizer quando falo que a gente aprende demais sendo músico. Isto é, você vê

muitas coisas e adquire uma perspectiva tão ampla da vida que a pessoa comum simplesmente não tem.

 

Em outra ocasião, o mesmo homem observou:

 

Sabe, desde que saí para trabalhar realmente fiquei de tal jeito que posso conversar com alguns daqueles caras no bairro.

[Quer dizer que tinha dificuldade em falar com eles antes?]

Bom, eu simplesmente ficava por ali e não sabia o que dizer. Ainda tenho dificuldade para conversar com aqueles caras. Tudo que

eles dizem parece bobo e desinteressante.

 

O processo de auto-segregação é evidente em certas expressões simbólicas, em particular no uso de

uma gíria profissional que identifica rapidamente o homem que a pode usar adequadamente como alguém

que não é quadrado, e reconhecer c om igual rapidez, como outsider, a pessoa que a emprega

incorretamente ou não a utiliza. Algumas palavras se desenvolveram para designar problemas

profissionais e atitudes peculiares de músicos, e típico delas é “quadrado”. Essas expressões permitem

que os músicos discutam problemas e atividades para os quais a linguagem comum não fornece uma

terminologia adequada. Há, contudo, muitas palavras que são meros substitutos para expressões comuns,

sem acrescentar nenhum novo significado. Por exemplo, estes são sinônimos de dinheiro: loot, gold,

geetz e bread Empregos são chamados de gigs. Há inúmeros sinônimos para maconha, os mais comuns

sendo gage, pot, charge, tea e shit. A função desse comportamento é indicada por um jovem músico que

estava deixando a atividade:

 

Mas estou satisfeito por estar deixando a profissão. Estou enjoado de ficar no meio de músicos. Há tanto ritual e cerimônia sem sentido.

Eles têm de falar uma língua especial, se vestir de maneira diferente, usar um tipo diferente de óculos. E tudo isso não significa porcaria

alguma, a não ser: “Nós somos diferentes.”

 

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a G.I. Bill of Rights, ou The Servicemen’s Readjustment Act, lei sancionada em junho de 1944 que garantia aos militares veteranos uma ampla gama de benefícios, inclusive dinheiro para o pagamento de estudos universitários. (N.T.)

b No original, “If You Don’t Like my Queer Ways You Can Kiss My Fucking Ass”. (N.T.)