Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 23 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

“Panelinhas” e sucesso

“Panelinhas”a e sucesso

 

O músico concebe o sucesso como um movimento através de uma hierarquia de empregos disponíveis.

Ao contrário do trabalhador industrial ou dos funcionários de colarinho-branco, ele não identifica sua

carreira com um empregador; espera mudar de emprego com freqüência. Um ranqueamento informalmente

reconhecido desses empregos — levando em conta a renda envolvida, as horas de trabalho e o grau

percebido de reconhecimento da realização pela comunidade — constitui a escala pela qual um músico

avalia seu sucesso segundo o tipo de emprego que de hábito tem.

No nível mais baixo dessa escala está o homem que toca esporadicamente em pequenos bailes,

recepções de casamento e atividades semelhantes, e tem sorte quando recebe pela tabela do sindicato. No

nível seguinte estão aqueles homens que têm empregos estáveis em “espeluncas” — bares e boates de

classe inferior, pequenos cabarés etc. — onde a remuneração é baixa e o reconhecimento da comunidade

é ainda mais baixo. O nível seguinte é compreendido por aqueles homens que têm empregos estáveis em

bandas locais de salões de baile de bairro e pequenas boates e salões de coquetel “respeitáveis” em

áreas melhores da cidade. Esses lugares pagam mais que as espeluncas, e quem trabalha neles pode

esperar ser reconhecido como bem-sucedido em sua comunidade. Aproximadamente equivalentes a estes

são aqueles que trabalham nas chamadas “orquestras famosas de classe B”, a segunda classe das

orquestras de dança nacionalmente conhecidas. O nível seguinte consiste em homens que trabalham em

bandas “famosas de classe A” e em orquestras locais que tocam nas melhores boates, hotéis, grandes

convenções etc. Os salários são bons, os horários são leves, e os homens esperam ser reconhecidos como

bem-sucedidos dentro e fora da profissão. As posições mais altas nessa escala são ocupadas por homens

que pertencem ao staff de estações de rádio, televisão e teatros. Os salários são altos, os horários

folgados, e os empregos são reconhecidos como o epítome da realização no mundo da música local e

como atividades de alto nível de respeitabilidade por parte dos outsiders.

Uma rede de “panelinhas” informais, interligadas, distribui os empregos disponíveis num dado

momento. Para obter trabalho em qualquer nível, ou para avançar até os empregos num novo nível, a

posição que uma pessoa ocupa na rede é de grande importância. As “panelinhas” são unidas por laços de

obrigação, os membros apadrinham-se uns aos outros na obtenção de empregos, seja contratando-se uns

aos outros quando têm poder para tanto, seja recomendando-se uns aos outros para aqueles que fazem as

contratações para uma orquestra. A recomendação é de grande importância, pois é assim que indivíduos

disponíveis tornam-se conhecidos pelos que contratam; a pessoa desconhecida não será contratada, e o

pertencimento a essas “panelas” assegura a um músico que ele tem muitos amigos que o recomendarão

para as pessoas certas.

Assim, o pertencimento às “panelas” proporciona emprego estável ao indivíduo. Um homem

explicou:

 

Veja, funciona assim. Minha mão direita aqui, são cinco músicos. Minha mão esquerda, são mais cinco. Agora um destes rapazes aqui

consegue um emprego. Ele escolhe os homens para ele apenas entre os sujeitos deste grupo. Sempre que um deles consegue um

emprego, naturalmente contrata esse sujeito. Você vê, portanto, como a coisa funciona. Eles nunca contratam ninguém que não esteja na

panela. Se um deles trabalha, todos trabalham.

 

O músico estabelece e cimenta essas relações conseguindo empregos para outros homens e

obrigando-os a retribuir o favor.

 

Havia uns sujeitos nesta banda para quem eu tinha conseguido bons empregos, e eles continuavam a ocupá-los desde então. Como um

daqueles trombonistas. Eu o coloquei numa boa banda. Um dos trompetistas também…. Você sabe como isso funciona. Um líder lhe

pede um homem. Se ele gostar do sujeito que você lhe arranja, toda vez que precisar de um, vai lhe pedir. Desse modo você consegue

empregar todos os seus amigos.

 

A segurança vem do número e da qualidade das relações assim estabelecidas. Para ter uma carreira, é

preciso trabalhar; para gozar da segurança de emprego estável, é preciso ter muitos “contatos”:

 

Você tem de fazer contatos desse tipo pela cidade inteira, até que se crie uma situação na qual quando qualquer pessoa quiser alguém ela

o chame. Então você nunca ficará sem trabalho.

 

Convém observar certa semelhança com a organização informal da prática médica. Os músicos

cooperam entre si recomendando-se uns aos outros para empregos de maneira muito parecida com a que

membros da “fraternidade interna” médica cooperam entre si encaminhando pacientes uns aos outros.5 Os

dois complexos institucionais diferem, contudo, pelo fato de que a prática médica (a não ser nas maiores

cidades) tende a girar em torno de alguns grandes hospitais que uma ou poucas dessas fraternidades

podem controlar. Na música, o número de focos possível é muito maior, com uma proliferação

proporcionalmente maior da organização; por conseguinte, cada indivíduo tem melhores condições de

estabelecer os contatos certos para si, e, portanto, há uma redução do poder de qualquer “panelinha”

particular.

Além de um grau de garantia de trabalho para seus integrantes, as “panelinhas” fornecem ainda rotas

pelas quais uma pessoa pode se deslocar ao longo dos níveis de empregos. Em várias “panelas”

observadas, os participantes provinham de mais de um nível da hierarquia; assim, homens de posição

inferior podiam se associar a homens de um nível mais alto. Quando um emprego se torna disponível num

plano mais alto da escala, um homem do nível inferior pode ser apadrinhado por alguém de categoria

mais alta, que o recomenda, ou contrata, e se responsabiliza pela qualidade de seu desempenho. Um

músico que pertencia ao staff de uma rádio descreveu o processo nesses termos:

 

A outra maneira de ser um sucesso é ter uma porção de amigos. Você deve tocar bem, mas precisa ter amigos em diferentes bandas, e

quando alguém sai de uma banda, eles se esforçam para encaixar você. Uma pessoa leva muito tempo para se firmar dessa maneira. Eu

levei uns dez anos para conseguir o emprego que tenho agora.

 

Se o homem assim apadrinhado tiver um bom desempenho, poderá estabelecer outras relações

informais no novo nível, e nele conseguir mais empregos. O bom desempenho no trabalho é necessário

para que ele se estabeleça plenamente no novo nível, e os padrinhos exibem grande ansiedade com

relação ao desempenho de seus protegidos. O apadrinhamento múltiplo descrito nesse incidente, em

minhas anotações de campo, ilustra que essa ansiedade tem origem nas obrigações com relação a

colegas:

 

Um amigo meu me perguntou se eu iria trabalhar aquela noite. Quando lhe disse que não, ele me levou até um outro sujeito que, por sua

vez, me levou até um velho com forte sotaque italiano. Esse homem me perguntou: “Então, você toca piano?” Respondi: “Toco.” “Mas

toca bem?” Eu disse: “Sim.” Ele falou: “Toca bem? Lê bastante bem?” Eu respondi: “Razoavelmente. De que se trata?” Ele disse: “É um

clube aqui no Loop. É das 21h às 4h30, paga US$2,50 a hora. Tem certeza de que é capaz?” Respondi: “Certamente!” Ele tocou meu

ombro e disse: “Certo. É que eu tenho de lhe fazer estas perguntas. Isto é, eu não sei, não sei como você toca, realmente tenho de

perguntar, entende?” Respondi: “Claro.” Ele falou: “Você sabe, preciso ter certeza, é um lugar no centro. Bom, aqui está. Ligue para este

número e diga-lhes que Mantuno mandou você ligar… Mantuno. Entenda, preciso ter certeza de que vai se sair bem, do contrário estou

frito. Vá, ligue para eles agora. Lembre-se, Mantuno lhe disse para você ligar.”

Ele me deu o número. Liguei e consegui o emprego. Quando saí da cabine, meu amigo, que tinha originado a transação, se aproximou

e falou: “Tudo certo? Conseguiu o emprego?” Respondi: “Sim, muitíssimo obrigado.” Ele disse: “Tudo bem. Ouça, faça um bom trabalho.

Isto é, se for música comercial, toque música comercial. Que diabo! Quer dizer, se você não fizer isso, eu é que estarei com o traseiro na

reta, você sabe. E não é nem só o meu, é o do Tony e o daquele outro cara. São quatro traseiros diferentes.”

 

Em suma, a obtenção desses empregos melhores requer da pessoa tanto competência quanto constituição de relações informais de obrigação mútua com homens que podem indicá-los para eles. Sem

o mínimo necessário de competência, a pessoa não pode ter um bom desempenho no novo nível, mas essa

competência só resultará no tipo apropriado de trabalho caso se tenha feito os contatos apropriados. Para

os padrinhos, como indica a citação anterior, o sistema opera no sentido de levar homens disponíveis à

atenção daqueles que têm empregos a preencher, e de lhes fornecer recrutas de quem se pode esperar um

desempenho adequado.

A carreira bem-sucedida pode ser vista como uma série desses passos, cada qual uma seqüência de

apadrinhamento, desempenho satisfatório e estabelecimento de relações a cada novo nível.

Observei uma semelhança entre a carreira do músico e carreiras na medicina e na indústria, revelada

no fato de que o funcionamento bem-sucedido e a mobilidade profissional são funções da relação do

indivíduo com uma rede de organizações informais composta por seus colegas. Passarei agora à variação

nessa forma social típica criada pela forte ênfase dos músicos na manutenção de sua liberdade para tocar

sem a interferência de não-músicos, vistos como pessoas que não dispõem da compreensão e da

apreciação dos misteriosos dons artísticos. Como é difícil (se não impossível) alcançar a liberdade

desejada, a maioria dos homens considera necessário sacrificar os padrões de sua profissão em algum

grau, de modo a satisfazer as demandas de públicos e daqueles que controlam as oportunidades de

emprego. Isso cria uma outra dimensão de prestígio profissional, baseada no grau em que uma pessoa se

recusa a modificar seu desempenho em deferência a demandas externas — de um extremo, de “tocar o

que você sente”, ao outro, de “tocar o que as pessoas querem ouvir”. O jazzman toca o que sente,

enquanto o músico comercial atende ao gosto do público; a melhor síntese do ponto de vista comercial é

uma declaração atribuída a um músico comercial de muito sucesso: “Faço qualquer coisa por um dólar.”

Como salientei anteriormente, os músicos sentem que há um conflito inerente a essa situação, e que

não se pode agradar ao público e manter ao mesmo tempo a própria integridade artística. A seguinte

citação, tomada de uma entrevista com um músico do staff de uma estação de rádio, ilustra o tipo de

pressão que gera esses conflitos nos empregos de nível mais alto:

 

O importante no estúdio é não cometer nenhum erro, entende? Eles não se importam se você toca uma coisa bem ou não, contanto que

toque todas as notas e não erre. É claro, você se importa se a coisa não soa bem, mas eles não estão interessados nisso…. Não se

importam em como você soa quando passa por aquele microfone, estão interessados só no lado comercial. Isto é, você pode ter algum

orgulho pessoal nisso, mas eles não se importam…. É isso que você tem de fazer. Dê a ele aquilo de que já sabe que ele gosta.

 

O emprego com maior prestígio é, portanto, aquele em que o músico tem de sacrificar sua

independência artística e o conseqüente prestígio em termos profissionais. Um músico comercial de

muito sucesso professou respeito pela independência artística ao mesmo tempo que enfatizava seu efeito

negativo sobre o desenvolvimento da carreira:

 

Eu sei, você provavelmente gosta de tocar jazz. Claro que entendo. Eu costumava me interessar por jazz, mas descobri que não

compensava. As pessoas não gostavam de jazz. Elas gostam de rumbas. Afinal, isto é um negócio, não é mesmo? Se você está nele para

ganhar a vida, não pode jogar jazz em cima das pessoas o tempo todo, elas não vão aceitar. Então você tem de tocar o que elas querem,

são elas que pagam as contas. Isto é, não me entenda mal. Se um sujeito consegue ganhar a vida tocando jazz, ótimo. Mas eu gostaria de

conhecer o sujeito que consegue fazer isso. Se você quiser chegar a algum lugar, tem de ser comercial.

 

Os jazzmen, por outro lado, se queixam da baixa posição dos empregos disponíveis para eles em

termos de renda e outras coisas além do prestígio artístico.

Assim, as “panelas” cujo acesso uma pessoa deve conquistar para alcançar sucesso e segurança são

compostas por homens indiscutivelmente comerciais em sua orientação. As maiores recompensas da

profissão são controladas por pessoas que abriram mão de alguns dos padrões profissionais mais

básicos, e é preciso fazer sacrifício semelhante para ter alguma chance de chegar às posições desejáveis:

Veja, se você toca música comercial desse tipo, consegue entrar nessas “panelinhas” que têm todos os bons empregos, e pode realmente

se dar bem. Toquei em alguns dos melhores empregos da cidade — o Q. Club e lugares assim —, e é isso que tem de fazer. Toque desse

jeito e fique amigo desses caras, depois você nunca terá de se preocupar. Pode ter certeza de faturar aquela grana toda semana, e é isso

que importa.

 

As “panelinhas” compostas por jazzmen não oferecem nada a seus integrantes além do prestígio de

manter a integridade artística; as “panelas” comerciais fornecem segurança, mobilidade, renda e prestígio

social.

Esse conflito é um grande problema para o músico, e o desenvolvimento de sua carreira depende de

sua reação a ele. Embora eu não tenha colhido nenhum dado sobre esse ponto, parece razoável supor que

a maioria dos homens entra na música com um grande respeito pelo jazz e a liberdade artística. Num

certo ponto do desenvolvimento da carreira (que varia de um indivíduo para outro), o conflito torna-se

aparente, e o músico se dá conta de que é impossível alcançar o tipo de sucesso que deseja e manter a

independência de seu desempenho musical. Quando a incompatibilidade dessas metas torna-se óbvia,

algum tipo de escolha deve ser feito, ainda que por omissão, determinando assim o futuro curso da

carreira.

Uma resposta para o dilema é evitá-lo, abandonando a profissão. Incapaz de encontrar uma solução

satisfatória para o problema, o indivíduo interrompe sua carreira. A justificativa desse passo é revelada

na seguinte declaração de alguém que o deu:

 

É melhor pegar um emprego com o qual você sabe que ficará deprimido, no qual você espera ficar arrasado, que ter um emprego na

música, que poderia ser excelente, mas não é. Por exemplo, você entra no comércio, mas não sabe nada sobre isso. Então imagina que

vai ser uma amolação e espera por isso. Mas a música pode ser tão legal que, quando não é, torna-se uma grande decepção. Então, é

melhor ter algum outro tipo de emprego, que não deixe você arrasado dessa maneira.

 

Vimos a gama das respostas para esse dilema por parte daqueles que permanecem na profissão. O

jazzman ignora as demandas do público para se ater aos padrões artísticos, enquanto o músico comercial

faz o oposto, ambos sentindo a pressão das duas forças. Meu interesse aqui é discutir a relação dessas

respostas com as perspectivas da carreira.

O homem que opta por ignorar pressões comerciais vê-se efetivamente impedido de ter acesso a

empregos de maior prestígio e renda, e de ingressar naquelas “panelas” que lhe proporcionariam

segurança e a oportunidade de desfrutar essa mobilidade. Poucas pessoas estão dispostas a adotar uma

posição tão extrema ou são capazes disso; a maioria transige em algum grau. O padrão de movimento

envolvido nessa transigência é um fenômeno comum de carreira, muito conhecido entre os músicos e

considerado praticamente inevitável:

 

Estive com K.E. Eu disse: “Você não pode me conseguir alguns contratos para tocar?” Ele respondeu, imitando um dos “velhos”: 6 “Não,

meu filho, quando você criar juízo e virar comercial, vou poder lhe ajudar, mas não agora.” Com a voz normal, continuou: “Por que você

não se moderniza? Meu Deus, acho que estou liderando a tendência rumo ao comercialismo. Eu certamente escolhi isso com muita

intensidade, não foi?”

 

Nesse ponto decisivo de sua carreira, o indivíduo julga necessário fazer uma mudança radical em sua

auto-imagem; tem de aprender a pensar em si mesmo de uma nova maneira, a se ver como um tipo

diferente de pessoa:

 

Acho que esse negócio comercial realmente me pegou. Você sabe, mesmo quando tenho um trabalho em que se espera que a gente

toque jazz, em que a gente pode se soltar e tocar qualquer coisa, eu penso em ser comercial, em tocar o que as pessoas ali querem ouvir.

Eu costumava ir para um trabalho com a idéia de tocar o melhor que pudesse, só isso, só tocar da melhor maneira possível. E agora vou

para um trabalho e penso automaticamente: “O que essas pessoas vão querer ouvir? Será que elas querem ouvir o estilo Kenton, ou algo

tipo Dizzy Gillespie [orquestras de jazz], ou algo tipo Guy Lombardo [orquestra comercial], ou o quê?” Não consigo deixar de pensar isso

com meus botões. Eles realmente meteram isso em mim, acho que me dominaram.

Mudança mais drástica da auto-imagem relacionada a esse dilema de carreira está presente na

seguinte declaração:

 

Vou lhe dizer, concluí que a única coisa a fazer é realmente virar comercial — tocar o que as pessoas querem ouvir. Acho que há um

bom lugar para o cara que dá a eles exatamente o que querem. A melodia, só isso. Nenhuma improvisação, nada de técnica — só a pura

melodia. Vou lhe dizer, por que eu não deveria tocar desse jeito? Afinal, vamos parar de nos enganar. Na maioria, não somos realmente

músicos, somos apenas instrumentistas. Isto é, penso em mim mesmo como uma espécie de trabalhador comum, sabe. Não faz sentido

tentar me enganar. A maioria desses caras é só instrumentista, eles não são músicos de verdade, de maneira alguma, deveriam parar de

tentar se enganar achando que são.

 

Uma tomada de decisão como esta e a passagem por uma mudança como esta de auto-imagem abrem

caminho para um movimento rumo aos níveis mais altos da hierarquia de empregos e criam as condições

nas quais o sucesso completo é possível, se a pessoa for capaz de tirar proveito da oportunidade

estabelecendo e mantendo os contatos apropriados.

Um modo de ajustar-se às realidades do trabalho sem sacrificar o auto-respeito é adotar a orientação

do artesão. O músico que faz isso não está mais preocupado com o tipo de música que toca. O que o

interessa é unicamente se a toca corretamente, se possui as habilidades necessárias para fazer o trabalho

como deve ser feito. Encontra seu orgulho e auto-respeito na capacidade de “tirar de letra” qualquer tipo

de música, em ter sempre um desempenho adequado.

As habilidades necessárias para manter essa orientação variam com o tipo de lugar em que o músico

toca. O homem que trabalha em bares com grupos pequenos se orgulhará de conhecer centenas (ou até

milhares) de músicas e ser capaz de tocá-las em qualquer tom. O homem que trabalha numa grande banda

se orgulhará de sua sonoridade e do virtuosismo técnico. O homem que trabalha numa boate ou num

estúdio de rádio se gaba de sua capacidade de ler à primeira vista qualquer tipo de música com

fidelidade e precisão. Como esse tipo de orientação tende a produzir exatamente o que o empregador

quer e num nível superior de qualidade, levará provavelmente ao sucesso ocupacional.

É mais fácil manter a orientação do artesão nos principais centros musicais do país: Chicago, Nova

York, Los Angeles. Nessas cidades, o volume de trabalho disponível é grande o bastante para permitir

uma especialização, e um músico pode se dedicar resolutamente a aperfeiçoar um único tipo de

competência técnica. Encontram-se músicos de assombroso virtuosismo nesses centros. Em cidades

menores, em contraposição, não há trabalho suficiente de tipo algum para que o músico se especialize, e

eles são chamados a fazer um pouco de tudo. Embora as habilidades necessárias se superponham — a

sonoridade, por exemplo, é sempre importante —, cada qual tem áreas em que é apenas minimamente

competente. Um trompetista pode tocar excelente jazz e se sair bem em pequenos grupos, mas ler mal e

ter um desempenho bem pior quando trabalha com uma grande banda. É difícil manter o orgulho como

artesão quando se é continuamente confrontado com trabalhos para os quais se tem apenas as habilidades

mínimas.

Em resumo, a ênfase que os músicos dão em estar livres da interferência inevitável em seu trabalho

cria uma nova dimensão do prestígio profissional que de tal maneira entra em conflito com o prestígio do

emprego anteriormente, uma vez discutido que não se pode ocupar ao mesmo tempo uma posição elevada

nos dois. As maiores recompensas estão nas mãos daqueles que abriram mão de sua independência

artística e pedem sacrifício semelhante daqueles que recrutam para essas posições mais altas. Isso cria

um dilema para o músico, e sua resposta determina o curso futuro de sua carreira. A recusa a se sujeitar

significa que toda esperança de conseguir empregos de prestígio e renda elevados deve ser abandonada,

enquanto ceder às pressões comerciais lhe abre o caminho do sucesso. (Estudos de outras ocupações

deveriam dedicar atenção a esses aspectos das contingências de carreira que também se ligam aos

problemas colocados pelas relações de trabalho com clientes ou fregueses.)