Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 29 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

O destino das cruzadas morais

O próprio cruzado muitas vezes não está preocupado com esses detalhes. Para ele basta assegurar o

ponto principal; e deixa sua implementação para outros.

Ao deixar a redação da regra específica nas mãos de outros, o cruzado abre a porta para muitas

influências imprevistas. Pois os que redigem legislação para os cruzados têm seus próprios interesses,

que podem afetar a lei que preparam. É provável que as leis sobre o psicopata sexual redigidas por

psiquiatras contenham muitos traços nunca pretendidos pelos cidadãos que encabeçaram as campanhas

para “fazer alguma coisa com relação aos crimes sexuais”, traços que refletem, contudo, os interesses

profissionais da psiquiatria organizada.

 

O destino das cruzadas morais

 

Uma cruzada pode alcançar notável sucesso, como aconteceu ao movimento pela Lei Seca com a

aprovação da 18ª Emenda. Pode fracassar completamente, como ocorreu na campanha para eliminar o

uso do tabaco ou o movimento antivivissecção. Pode alcançar grande sucesso, mas apenas para ver seus

ganhos gradualmente reduzidos por mudanças na moralidade pública e crescentes restrições impostas a

ele por interpretações judiciais; esse foi o caso da cruzada contra a literatura pornográfica.

Uma conseqüência importante de uma cruzada bem-sucedida, claro, é o estabelecimento de uma nova

regra ou conjunto de regras, em geral concomitante à criação do mecanismo apropriado de imposição.

Irei considerar essa conseqüência em algum momento adiante. Outro resultado do sucesso de uma

cruzada, porém, merece atenção.

Quando um indivíduo obtém sucesso na empreitada de promover o estabelecimento de uma nova

regra — ao encontrar, por assim dizer, seu Graal —, ele perde uma ocupação. A cruzada que absorveu

tanto de seu tempo, energia e paixão está encerrada. É provável que, ao iniciar sua cruzada, fosse um

amador, alguém que se envolveu nela pelo seu interesse na questão, pelo conteúdo da regra que queria

ver estabelecida. Kenneth Burke observou certa vez que a ocupação de um homem pode se tornar sua

preocupação. A equação funciona também ao contrário. A preocupação de um homem pode se tornar sua

ocupação. O que começou como um interesse amador por uma questão moral pode se tornar um trabalho

de tempo integral; de fato, para muitos reformadores, torna-se exatamente isso. O sucesso da cruzada,

portanto, deixa o cruzado sem uma vocação. Esse homem, confuso, pode generalizar seu interesse e

descobrir algo novo para encarar com alarme, um novo mal acerca do qual algo deve ser feito. Torna-se

um descobridor profissional de erros a serem corrigidos, de situações que demandam novas regras.

Quando a cruzada produziu uma grande organização dedicada à sua causa, funcionários da

organização têm maior probabilidade que o cruzado individual de procurar novas causas para esposar.

Esse processo ocorreu de maneira dramática no campo dos problemas de saúde, quando a Fundação

Nacional para a Paralisia Infantil pôs fim à sua própria missão ao descobrir uma vacina que eliminava a

poliomielite epidêmica. Adotando o nome menos restritivo de A Fundação Nacional, os funcionários

rapidamente descobriram novos problemas de saúde aos quais a organização podia dedicar energias e

recursos.

A cruzada malsucedida, seja aquela que descobre que sua missão não atrai mais adeptos, seja a que

alcança sua meta somente para perdê-la de novo, pode seguir dois cursos. Por um lado, pode

simplesmente desistir de sua missão original e concentrar-se na preservação do que resta da organização

construída. Esse, de acordo com um estudo, foi o destino do Movimento Townsend.9 Por outro, o

movimento malogrado pode aderir rigidamente a uma missão cada vez menos popular, como fez o

movimento pela Lei Seca. Gusfield descreveu atuais integrantes da wctu como “moralizadoras