Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 16 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Moralidade

todo o ensino médio, de ser meio pateta, sabe, então não importa o que eu faça, ninguém presta muita atenção. Posso ficar drogado

impunemente quase em qualquer lugar.

 

Em suma, as pessoas limitam seu uso de maconha em proporção ao grau de medo que sentem, real ou

não, de que não-usuários importantes para eles descubram que consomem drogas e reajam de maneira

punitiva. Esse tipo de controle perde a força quando o usuário descobre que seus medos são excessivos e

irreais, quando passa a conceber a prática como algo que pode ser mantido em segredo com relativa

facilidade. Cada estágio de uso só pode ocorrer depois que a pessoa reviu sua concepção dos perigos

envolvidos nele.

 

Moralidade

 

Noções convencionais de moralidade são outro meio pelo qual o uso de maconha é controlado. Os

imperativos morais básicos que operam aqui são os que exigem que o indivíduo seja responsável por seu

próprio bem-estar, e capaz de controlar seu comportamento racionalmente. O estereótipo do viciado em

drogas retrata uma pessoa que viola esses imperativos. Uma recente descrição do usuário de maconha

ilustra os principais traços desse estereótipo:

 

Nos primeiros estágios de intoxicação a força de vontade é destruída, e inibições e restrições são liberadas; as barreiras morais são

derrubadas, o que resulta muitas vezes em devassidão e sexualidade. Onde a instabilidade mental é inerente, o comportamento é em geral

violento. Um egoísta gozará de delírios de grandeza, o indivíduo tímido sofrerá de ansiedade, e o agressivo muitas vezes desejará recorrer

a atos de violência e crime. Tendências latentes são liberadas, e embora o sujeito possa saber o que está acontecendo, tornou-se

impotente para evitá-las. O uso constante produz incapacidade para o trabalho e desorientação da vontade.1

 

Temos de acrescentar a isso, claro, a idéia de que o usuário se torna um escravo da droga, de que se

rende voluntariamente a um hábito para o qual não há saída. A pessoa que leva esse estereótipo a sério

confronta-se com um obstáculo ao uso da droga. Ela não começará, manterá ou aumentará seu uso de

maconha a menos que possa neutralizar sua sensibilidade ao estereótipo, aceitando uma visão alternativa

da prática. De outro modo, irá, como o faria a maior parte dos membros da sociedade, condenar a si

mesma como um outsider desviante.

O iniciante partilhou em algum momento a visão convencional. No curso de sua participação num

segmento não-convencional da sociedade, contudo, é suscetível de adquirir uma visão mais

“emancipada” dos padrões morais implícitos na caracterização habitual do usuário de drogas, pelo

menos a ponto de não rejeitar sumariamente atividades porque são condenadas por convenção. Talvez a

observação de outros consumidores o leve a aplicar sua rejeição dos padrões convencionais ao caso

específico do uso de maconha. Essa interação, portanto, tende a fornecer as condições que permitem ao

noviço escapar da influência das normas — pelo menos o bastante para que ele arrisque uma primeira

experiência com a droga.

No curso de uma maior experiência com grupos que usam a droga, o noviço adquire uma série de

racionalizações e justificativas com as quais pode responder a objeções quanto ao uso ocasional, caso

decida envolver-se nele. Se ele mesmo suscitar as objeções da moralidade convencional, encontrará

respostas prontas disponíveis no folclore dos grupos que fumam maconha.

Uma das racionalizações mais comuns é que as pessoas convencionais entregam-se a práticas muito

mais nocivas, e que um vício comparativamente pequeno como fumar maconha não pode ser errado

quando coisas como o uso de álcool são tão aceitas:

 

[Então você não curte álcool?] Não, não curto nem um pouco. [Por que não?] Não sei. Realmente não curto. Bom, veja, o negócio é o

seguinte. Antes que eu chegasse à idade em que os garotos começam a beber, já estava puxando fumo e via as vantagens disso, sabe,

isto é, não havia nenhum enjôo e era muito mais barato. Essa foi uma das primeiras coisas que aprendi, cara. Para que você quer beber?

Beber é bobeira, sabe. É tão mais barato puxar um fumo e a gente não tem enjôo, não é sujo e toma menos tempo. E ela realmente

passou a ser a coisa, sabe. Então eu puxei fumo antes de beber, saca …

[Que quer dizer com “essa foi uma das primeiras coisas que aprendeu”?] Bom, quero dizer, é como eu digo, eu estava começando a

trabalhar como músico quando comecei a puxar fumo, e estava também em condições de beber no trabalho, sabe. E aqueles caras me

mostraram que era bobagem beber. Eles também não bebiam.

 

Racionalizações adicionais permitem ao usuário sugerir para si mesmo que os efeitos da droga, ao

invés de nocivos, são de fato benéficos:

 

Já fumei alguns que fizeram eu me sentir … muito revigorado, e me dá também um ótimo apetite. Deixa a gente com muita fome. Isso

provavelmente é bom para algumas pessoas que estão magras demais.

 

Finalmente, o usuário, nesse estágio, não está usando a droga o tempo todo. Seu uso é planejado;

considera-o apropriado em certas ocasiões, não em outras. A própria existência desse planejamento lhe

permite assegurar a si mesmo que controla a droga, e ela torna-se um símbolo da inocuidade da prática.

Ele não se considera um escravo da droga porque é capaz de se ater ao seu plano — e se atém —, seja

qual for a quantidade que se proponha consumir. O fato de haver ocasiões em que, a princípio, ele não

usa a droga, pode lhe servir como uma prova para si mesmo de sua liberdade com relação a ela.

 

Gosto de puxar fumo e puxo principalmente quando estou relaxando, fazendo alguma coisa de que gosto, como ouvir música clássica

realmente boa, ou talvez ver um filme ou algo assim, ou ouvir um programa de rádio. Alguma coisa que eu goste de fazer, não

participando em… como…. Jogo golfe durante o verão, sabe, e uns caras com quem eu jogo puxaram fumo enquanto estavam jogando,

eu não pude entender isso porque, você sabe, quando a gente está participando de uma coisa, quer que a cabeça esteja naquilo e nada

mais, e se você estiver, … porque eu acho, eu sei que ela faz a gente relaxar e … não acho que você possa fazer isso também.

 

O indivíduo que aceita essas idéias pode adotar um modo de utilização ocasional porque reorganizou

suas noções morais de maneira a permiti-lo, sobretudo ao adquirir a concepção de que os valores morais

convencionais sobre drogas não se aplicam a esta droga que ele consome, e que, de todo modo, o uso que

faz dela não se tornou excessivo.

Se a utilização progride até o ponto de se tornar regular e sistemática, podem ressurgir questões

morais para o usuário, pois ele passa agora a parecer, para si mesmo e para os outros, o “viciado em

drogas” da mitologia popular. Ele precisa se convencer de novo — para que o uso regular possa

continuar — de que não cruzou essa linha. O problema e a possível solução são apresentados na

declaração de um usuário regular:

 

Sei que não está se tornando um hábito, mas eu fiquei um pouco preocupado em saber se seria fácil parar, então tentei. Estava fumando o

tempo todo, então simplesmente parei por uma semana inteira para ver o que iria acontecer. Não aconteceu nada. Então fiquei sabendo

que estava tudo legal. Desde então tenho usado tanto quanto quero. Claro, não gostaria de ser um escravo disso ou nada desse gênero,

mas não acho que isso aconteceria, a menos que eu fosse neurótico ou coisa parecida, e não acho que seja, não a tal ponto.

 

A racionalização anterior, de que a droga tem efeitos benéficos, permanece inalterada e pode até

sofrer um considerável desenvolvimento. Mas a questão suscitada na última citação prova-se mais

perturbadora. Em vista do consumo aumentado e regular da droga, o usuário não tem certeza de ser

realmente capaz de controlá-lo, de que não se tornou talvez escravo de um hábito vicioso. Testes são

feitos — o uso é abandonado e as conseqüências aguardadas —, e, quando nada de adverso ocorre, o

usuário é capaz de concluir que não há o que temer.

O problema, contudo, é difícil para alguns dos usuários mais sofisticados, que extraem suas normas

morais menos do pensamento convencional que da “teoria” psiquiátrica popular. O uso os preocupa, não

em termos convencionais, mas pelo que pode indicar acerca de sua saúde mental. Aceitando o

pensamento corrente sobre as causas do uso de drogas, eles raciocinam que ninguém iria usar drogas em grandes quantidades a menos que houvesse “algo” de “errado” com ele, a menos que houvesse algum

desajuste neurótico que tornasse as drogas necessárias. Fumar maconha torna-se um símbolo de fraqueza

psíquica e, em última análise, de fraqueza moral. Isso predispõe a pessoa contra a continuação do uso

regular e causa um retorno ao consumo ocasional, a menos que uma nova justificação seja descoberta.

 

Bom, eu me pergunto se o melhor é não tomar coisa nenhuma. Isso é o que dizem. Se bem que já ouvi psiquiatras dizerem: “Puxe todo o

fumo que quiser, mas não toque em heroína.”

[Bom, parece sensato.] É, mas quantas pessoas conseguem isso? Não há muitas…. Acho que 75% ou talvez uma porcentagem

ainda maior das pessoas que puxam fumo têm um padrão de comportamento que as levaria a puxar cada vez mais fumo e a se distanciar

cada vez mais das coisas. Acho que eu mesmo tenho esse padrão. Mas acho que tenho consciência disso, então acho que posso

combatê-lo.

 

A noção de que ter consciência de um problema é resolvê-lo constitui uma autojustificativa na

circunstância anterior. Quando não é possível encontrar explicações, o consumo continua em bases

ocasionais, e o usuário explica suas razões em termos da concepção que tem da teoria psiquiátrica:

 

Bom, acredito que as pessoas que se entregam ao consumo de narcóticos, álcool e bebida, qualquer estimulante desse tipo, nesse nível,

provavelmente estão procurando a fuga de um estado mais sério que o do usuário mais ou menos ocasional. Não acho que eu esteja

fugindo de nada. Acho que, apesar disso, percebo que ainda tenho muito o que me ajustar…. Então, não posso dizer que tenha nenhuma

doença neurótica ou ineficiência séria com que esteja tentando lidar. Mas no caso de certos conhecidos meus, pessoas que são

alcoólatras crônicas ou viciadas em narcóticos, ou fumantes muito habituais, tenho visto, acompanhando essa condição, alguns desajustes

em suas personalidades também.

 

Certas concepções de cunho moral sobre a natureza do consumo da droga e os usuários influenciam,

assim, o fumante de maconha. Se ele for incapaz de invalidar ou ignorar essas concepções, o uso não

ocorrerá de maneira alguma; e o grau de uso parece estar relacionado com o grau em que as concepções

deixam de ter influência, substituídas por racionalizações e justificativas correntes entre usuários.

Em suma, uma pessoa se sentirá livre para usar maconha à medida que passe a considerar as

concepções convencionais sobre ela como as idéias mal fundamentadas de outsiders e as substitua pela

visão “inside” que adquiriu por meio de sua experiência com a droga na companhia de outros usuários.