Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 24 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Pais e esposas

 

Observei que os músicos estendem seu desejo de liberdade de interferência externa em seu trabalho a um

sentimento generalizado de que não deveriam ser tolhidos pelas convenções comuns da sociedade. O

ethos da profissão fomenta uma admiração pelo comportamento espontâneo e individualista e um desdém

pelas regras da sociedade em geral. É de esperar que os membros de uma ocupação com esse ethos

tenham problemas de conflito quando entrarem em contato mais próximo com essa sociedade. Um ponto

de contato está no trabalho, em que o público é a fonte de problemas. O efeito dessa área de problemas

sobre a carreira foi descrito anteriormente.

Outra área de contato entre profissão e sociedade é a família. O pertencimento a famílias vincula o

músico a pessoas quadradas, outsiders que se atêm às convenções sociais cuja autoridade o músico não

reconhece. Essas relações encerram germes de conflito que podem se manifestar com conseqüências

desastrosas para a carreira e/ou a relação familiar. Esta seção explicará em detalhe a natureza desses

conflitos e seu efeito sobre a carreira.

A família do indivíduo tem grande influência sobre sua escolha de ocupação pelo seu poder de

patrocinar e ajudar o neófito na carreira que escolheu. Hall, em sua discussão dos estágios iniciais da

carreira médica, observa que:

 

Na maioria dos casos, a família ou os amigos desempenharam um importante papel imaginando o perfil da carreira e reforçando os

esforços do recruta. Proporcionaram esse reforço encorajando, ajudando a estabelecer as rotinas apropriadas, propiciando a privacidade

necessária, desestimulando o comportamento anômalo e definindo as recompensas do dia-a-dia.7

 

Os pais do músico em geral não ajudam o desenvolvimento de sua carreira dessa maneira. Ao

contrário, como um homem observou: “Meu Deus, a maioria dos caras tem uma briga terrível com os pais

quando decide entrar na profissão de músico.” A razão é clara: seja qual for a classe de que ele

provenha, é óbvio para a família do possível músico que ele está ingressando numa profissão que

estimula seu rompimento com os padrões convencionais de comportamento do seu meio social. Famílias

de classe baixa parecem ficar extremamente aflitas com a irregularidade do emprego no meio musical,

embora haja evidências de que algumas estimularam esse tipo de carreira, vendo-a como uma possível

rota de mobilidade. Na família de classe média, a escolha da música em casas noturnas como ocupação é

vista como um movimento rumo à vida boêmia, envolvendo uma possível perda de prestígio tanto para o

indivíduo como para a família, sendo por isso vigorosamente combatida. Considerável pressão é feita

sobre a pessoa para que desista de sua escolha:

 

Sabe, todo mundo achou horrível quando decidi ser músico…. Lembro que me formei na escola secundária numa quinta-feira e deixei a

cidade na segunda-feira para pegar um trabalho. Meus pais ficaram discutindo comigo e todos os meus parentes também. Eles me

fizeram passar um mau bocado…. Teve um tio meu que foi drástico, dizendo que aquela não era uma vida normal, que eu nunca poderia

me casar, e toda aquela conversa.

 

O conflito tem dois efeitos típicos sobre a carreira. Primeiro, o possível músico pode, em face da

pressão da família, desistir da música como profissão. Um ajuste como esse é bastante comum no estágio

inicial da carreira. Por outro lado, o jovem músico pode ignorar os desejos da sua família e continuar sua

carreira, caso em que muitas vezes é privado do apoio familiar mais cedo do que em outras

circunstâncias, e deve começar a “batalhar por conta própria”, abrindo seu caminho sem o patrocínio

nem a ajuda financeira que de outro modo poderiam estar disponíveis. Na música, portanto, a carreira

começa usualmente — se é que começa — sem a ajuda e o incentivo da família típicos de carreiras em

muitas outras ocupações.

Depois que se casa e estabelece a própria família, o músico entra numa relação em que as convenções da sociedade lhe são apresentadas de maneira imediata e poderosa. Sua mulher, em geral

não-música, espera que ele, como marido, seja um companheiro e provedor. Em algumas ocupações não

há nenhum conflito entre as demandas do trabalho e da família. Em outras, há conflito, mas existem

soluções socialmente sancionadas aceitas por ambos os cônjuges, como, por exemplo, na prática médica.

Em ocupações desviantes, como a profissão de músico, as expectativas profissionais não se coadunam

em absoluto com as expectativas leigas, com conseqüentes dificuldades para o músico.

Os músicos acham que os imperativos de seu trabalho devem ter precedência sobre os de suas

famílias, e agem em conformidade com isso:

 

Cara, minha mulher é uma garota excelente, mas não há jeito de ficarmos juntos, não enquanto eu estiver trabalhando como músico.

Nenhum jeito, nenhum jeito mesmo. Logo que nos casamos, era ótimo. Eu estava trabalhando na cidade, ganhando uma boa grana, todo

mundo estava feliz. Mas quando esse trabalho acabou, fiquei sem nada. Então recebi uma oferta para viajar. Bem, que diabo, eu

precisava do dinheiro, aceitei. Sally disse: “Não, quero você na cidade, comigo.” Ela preferia que eu fosse trabalhar numa fábrica! Bom,

foi uma grande merda. Então fui embora com a banda. Que diabo, gosto demais da profissão. Não vou abrir mão dela por Sally ou por

qualquer outra mulher.

 

É provável que o casamento se torne uma luta permanente em torno dessa questão; o desfecho da luta

determina a interrupção ou a continuidade da carreira musical do marido, como ilustra o seguinte

incidente retirado de minhas anotações de campo:

 

Os rapazes do Z. Club estão tentando convencer Jay Marlowe a voltar a trabalhar lá em horário integral. Ele está dividindo a semana

com alguém agora. Conseguiu um emprego diurno no mesmo escritório em que a mulher dele trabalha, fazendo contabilidade ou algum

pequeno serviço de escritório. Os rapazes estão tentando convencê-lo a deixar isso. Ao que parece, a mulher dele é totalmente contra.

Jay foi músico a vida inteira, pelo que sei; provavelmente é a primeira vez que tem um emprego diurno. Gene, o baterista do Z. Club,

me disse: “É bobagem dele ter um emprego diurno. Quanto pode ganhar ali? Provavelmente não fatura mais de 30, 35 por semana. Ele

fatura isso em três noites aqui. É claro, a mulher dele queria que deixasse a profissão. Ela não gostava da idéia de todas essas

madrugadas, e as garotas que fazem ponto nos bares, esse tipo de coisa. Mas, afinal, quando um cara pode fazer alguma coisa e ganhar

mais dinheiro, por que haveria de pegar um emprego triste e trabalhar por uma ninharia? Não faz sentido. Além disso, por que vai se

deprimir assim? Ele preferiria estar tocando, e é uma amolação para ele ter a porcaria desse emprego diurno, então, por que deveria se

agarrar a ele?” Johnny, o saxofonista, disse: “Sabe por quê? Porque a mulher dele o obriga a se agarrar ao emprego.” Gene falou: “Ele

não devia deixar que ela mandasse nele desse jeito. Pelo amor de Deus, minha patroa não me diz o que fazer. Ele não deveria tolerar

essa merda.”

Eles começaram a fazer alguma coisa em relação ao caso. Andaram convidando Jay para ir à pista de corridas com eles nos dias de

semana, e ele andou faltando ao trabalho para ir. Depois de uma dessas ocasiões, Gene disse: “Cara! A mulher dele ficou enlouquecida!

Ela não quer que ele dê uma mancada e perca esse emprego, e sabe que estamos metidos nisso. Acha que somos más influências. Bom,

acho que somos mesmo, do ponto de vista dela.”

[Algumas semanas depois Marlowe deixou seu emprego diurno e voltou à música.]

 

Para outros músicos que sentem mais fortemente suas responsabilidades familiares a situação não é

tão simples. A insegurança econômica da profissão de músico torna difícil ser um bom provedor e pode

obrigar o indivíduo a abandonar a profissão, um dos padrões típicos de resposta a essa situação:

 

Não, não tenho trabalhado muito. Acho que vou pegar um maldito emprego diurno. Você sabe, quando você é casado é um pouco

diferente. Antes era diferente. Eu trabalhava, não trabalhava, dava no mesmo. Se precisava de dinheiro, pedia cinco emprestados a

minha mãe. Agora aquelas contas simplesmente não esperam. Quando você é casado, tem de estar sempre trabalhando, ou não dá conta

do recado.

 

Mesmo que a carreira não seja interrompida dessa maneira, as demandas do casamento exercem uma

pressão muito forte que impele o músico a se tornar comercial:

 

Se você quiser continuar trabalhando, tem de suportar um pouco de merda de vez em quando…. Eu não me importo. Tenho uma mulher

e quero continuar trabalhando. Se algum quadrado se aproxima e me pede para tocar “Beer Barrel Polka”, eu apenas sorrio e toco a

música.

O casamento pode, assim, acelerar a obtenção de sucesso ao forçar uma decisão que proporciona,

embora não garanta, a oportunidade de ingresso naquelas “panelinhas” comercialmente orientadas que

são mais capazes de manter seus integrantes em trabalho permanente.

A família, portanto, como uma instituição que exige do músico que ele se comporte

convencionalmente, cria-lhe problemas de pressões, lealdades e auto-imagens conflitantes. Sua resposta

a esses problemas tem um efeito decisivo sobre a duração e a direção de sua carreira.

 

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a No original, cliques. (N.T.)