Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
8: Empreendedores morais
8
Empreendedores morais
As regras são produto da iniciativa de alguém e podemos pensar nas pessoas que exibem essa iniciativa
como empreendedores morais. Duas espécies relacionadas — criadores de regras e impositores de
regras — ocuparão a nossa atenção.
Criadores de regras
O protótipo do criador de regras, mas não a única variedade, como veremos, é o reformador cruzado. Ele
está interessado no conteúdo das regras. As existentes não o satisfazem porque há algum mal que o
perturba profundamente. Ele julga que nada pode estar certo no mundo até que se façam regras para
corrigi-lo. Opera com uma ética absoluta; o que vê é total e verdadeiramente mal sem nenhuma
qualificação. Qualquer meio é válido para extirpá-lo. O cruzado é fervoroso e probo, muitas vezes
hipócrita.
É apropriado pensar em reformadores como cruzados porque eles acreditam tipicamente que sua
missão é sagrada. O defensor da Lei Seca proporciona um excelente exemplo, assim como a pessoa que
quer eliminar o vício e a delinqüência sexual, ou aquela que quer extirpar o jogo.
Esses exemplos sugerem que o cruzado moral é um intrometido, interessado em impor sua própria
moral aos outros. Mas esta é uma visão unilateral. Muitos cruzados morais têm fortes motivações
humanitárias. O cruzado não está interessado apenas em levar outras pessoas a fazerem o que julga certo.
Ele acredita que se fizerem o que é certo será bom para elas. Ou pode pensar que sua reforma evitará
certos tipos de exploração de uma pessoa por outra. Os defensores da Lei Seca não pensavam que
estavam simplesmente impondo sua moral aos outros, mas que criavam condições para melhorar o modo
de viver das pessoas impedidas pelo álcool de gozar de uma vida realmente boa. Os abolicionistas não
estavam simplesmente tentando impedir os donos de escravos de fazer a coisa errada; buscavam ajudar
os escravos a obter uma vida melhor. Em razão da importância do motivo humanitário, os cruzados
morais (apesar da devoção relativamente obcecada à sua causa particular) muitas vezes emprestam seu
apoio a outras cruzadas humanitárias. Joseph Gusfield salientou:
O movimento norte-americano da temperança durante o século XIX foi parte de um esforço geral em prol da valorização do ser humano
por meio de uma melhoria da moralidade e das condições econômicas. A mistura de religioso, igualitário e humanitário foi uma faceta
importante do reformismo moral de muitos movimentos. Os adeptos da temperança formavam uma ampla parcela de movimentos como o
sabatarianismo, a abolição, os direitos da mulher, o agrarianismo e tentativas humanitárias de melhorar o destino dos pobres….
Em seus objetivos secundários, a União Cristã de Mulheres pela temperança (wctu, na sigla em inglês) revelava um grande interesse
pela melhoria do bem-estar das classes baixas. Era ativa nas campanhas em prol da reforma penal, pela redução da jornada de trabalho e
salários mais altos para os trabalhadores, pela abolição do trabalho infantil e por muitas outras atividades humanitárias e igualitárias. Nos
anos 1880 a wctu trabalhou pela introdução de leis para a proteção de moças trabalhadoras contra a exploração por homens.1
Como diz Gusfield,2 “o reformismo moral desse tipo sugere um modo de aproximação de uma classe
dominante com relação aos menos favoravelmente situados na estrutura econômica e social”. Cruzados
morais querem, de modo típico, ajudar os que estão abaixo deles a alcançar um melhor status. Outra
questão é saber se os que estão abaixo deles gostam sempre dos meios propostos para sua salvação. Mas esse fato — que as cruzadas morais são em geral dominadas por aqueles situados nos níveis superiores
da estrutura social — significa que eles acrescentam ao poder que extraem da legitimidade de sua
posição moral o poder que extraem de sua posição superior na sociedade.
Naturalmente, muitas cruzadas morais obtêm apoio de pessoas cujos motivos são menos puros que os
dos cruzados. Assim, alguns industrialistas apoiavam a Lei Seca por pensarem que ela lhes forneceria
uma força de trabalho mais manejável.3 De maneira semelhante, corre por vezes o rumor de que os
interesses do jogo em Nevada apóiam a oposição à legalização do jogo na Califórnia, porque isso
afetaria gravemente seu negócio, que depende, numa medida substancial, da população do sul da
Califórnia.4
O cruzado moral, no entanto, está mais preocupado com fins do que com meios. Quando se trata de
redigir regras específicas (tipicamente na forma de legislação a ser proposta a uma Assembléia estadual
ou ao Congresso Federal), ele com freqüência recorre ao conselho de especialistas. Advogados e juristas
muitas vezes desempenham esse papel. Agências governamentais em cuja jurisdição o problema recai
podem também ter o conhecimento necessário, como a Agência Federal de Narcóticos, no caso do
problema da maconha.
À medida que a ideologia psiquiátrica se torna cada vez mais aceitável, contudo, aparece um novo
especialista — o psiquiatra. Sutherland, em sua discussão sobre a história natural das leis a respeito do
psicopata sexual, chamou atenção para a influência do psiquiatra.5 Ele sugere o seguinte como condições
necessárias para que se adote a lei do psicopata sexual, estipulando que uma pessoa “diagnosticada como
psicopata sexual pode ser confinada por um período indefinido num hospital estadual para insanos”:6
Primeiro, essas leis são usualmente promulgadas depois que um estado de medo foi despertado na comunidade por alguns crimes sexuais
graves cometidos em rápida sucessão. Isso é ilustrado em Indiana, onde uma lei foi aprovada após três ou quatro ataques sexuais em
Indianápolis, com assassinatos em dois. Chefes de família compraram armas e cães de guarda, e o estoque de cadeados e correntes nas
lojas de ferragens da cidade foi completamente esgotado….
Um segundo elemento no processo de desenvolvimento de leis sobre o psicopata sexual é a atividade agitada da comunidade em
conexão com o medo. A atenção da comunidade está concentrada em crimes sexuais, as pessoas vêem perigo nas mais variadas
situações e sentem a necessidade e a possibilidade de controlá-las….
A terceira fase no desenvolvimento dessas leis relativas ao psicopata sexual foi a designação de um comitê. Este reúne as muitas
recomendações conflitantes de pessoas e grupos de pessoas, tenta determinar “fatos”, estuda procedimentos em outros estados e faz
recomendações, que geralmente incluem projetos de lei. Embora o temor geral de hábito se reduza em alguns dias, o comitê tem o dever
formal de perseverar em seus esforços até que se tomem medidas positivas. O terror que não resulta num comitê tem muito menor
probabilidade de resultar numa lei.7
No caso das leis sobre o psicopata sexual, em geral não há nenhuma agência governamental
encarregada de lidar com desvios sexuais de maneira especializada. Por isso, quando surge a
necessidade de conselho especializado na formulação da legislação, as pessoas muitas vezes se voltam
para o grupo profissional mais estreitamente associado a esses problemas:
Em alguns estados, quando o desenvolvimento de lei sobre o psicopata sexual está no estágio do comitê, os psiquiatras desempenharam
um importante papel. Os psiquiatras, mais que quaisquer outros, foram o grupo de interesse por trás das leis. Um comitê de psiquiatras e
neurologistas em Chicago redigiu o projeto que se tornou a lei sobre a psicopatia sexual de Illinois; o projeto foi patrocinado pela Ordem
dos Advogados de Chicago e pelo procurador estadual de Cook County, e foi promulgado com pouca oposição na sessão seguinte da
Assembléia Legislativa estadual. Em Minnesota, todos os membros do comitê do governador, exceto um, eram psiquiatras. Em Wisconsin,
a Milwaukee Neuropsychiatric Society participou da pressão sobre a Milwaukee Crime Commission pela promulgação de uma lei. Em
Indiana, o comitê do procurador-geral recebeu da American Psychiatric Association cópias de todas as leis sobre o psicopata sexual
promulgadas em outros estados.8
A influência de psiquiatras em outras esferas do direito criminal aumentou nos últimos anos.
De qualquer forma, o importante neste exemplo não é que os psiquiatras estejam se tornando cada vez
mais influentes, mas que o cruzado moral, em algum momento do desenvolvimento de sua cruzada, requer muitas vezes os serviços de um profissional capaz de formular as regras apropriadas de forma adequada.