Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
Aprender a gostar dos efeitos
barato e sentir-se normal. Nessa situação, o uso tende a ser abandonado por completo, mas de forma
temporária, de modo que o usuário possa novamente ser capaz de perceber a diferença.
Aprender a gostar dos efeitos
Mais um passo é necessário para que o usuário que já aprendeu a ter um barato continue a usar maconha.
Ele deve aprender a gostar dos efeitos que acaba de aprender a experimentar. As sensações produzidas
pela maconha não são automática ou necessariamente agradáveis. O gosto por tal experiência é
socialmente adquirido, de gênero não diferente do gosto adquirido por ostras ou dry martíni. O usuário
sente-se tonto, sedento; seu couro cabeludo formiga; ele avalia mal o tempo e as distâncias. Essas coisas
são agradáveis? Ele não tem certeza. Para que continue a usar maconha, deve concluir que são. De outra
maneira, ter um barato, ainda que seja uma experiência bastante real, será uma experiência desagradável
que ele preferiria evitar.
Os efeitos da droga, quando percebidos pela primeira vez, podem ser fisicamente desagradáveis ou
pelo menos ambíguos:
Comecei a sentir o efeito e não sabia o que estava acontecendo, sacou? O que era aquilo? E fiquei muito enjoado. Andei pela sala, fiquei
andando pela sala tentando me livrar; de início aquilo me deixou apenas assustado, sabe. Eu não estava acostumado com aquele tipo de
sensação.
Além disso, a interpretação ingênua que o noviço dá para o que está acontecendo pode confundi-lo e
amedrontá-lo ainda mais, em particular se ele conclui, como muitos fazem, que está ficando louco:
Achei que estava louco, sabe. Tudo que as pessoas me faziam só me alvoroçava. Não conseguia manter uma conversa, minha cabeça
divagava, e eu ficava pensando sem parar, ah, não sei, coisas estranhas, como ouvir música diferente…. Fico com a sensação de que não
posso falar com ninguém. Vou virar um completo mané.
Dadas essas primeiras experiências tipicamente assustadoras e desagradáveis, o iniciante não dará
continuidade ao uso, a menos que aprenda a redefinir as sensações como agradáveis:
Ofereceram o bagulho para mim e eu experimentei. Vou lhe dizer uma coisa. Jamais gostei disso, de jeito nenhum. Isto é, não era uma
coisa de que eu pudesse gostar. [Bom, você ficava no barato quando fumava?] Ah, ficava, eu tinha sensações muito claras. Mas não
gostava delas. Quer dizer, eu tinha uma porção de reações, mas eram sobretudo reações de medo. [Você ficava amedrontado?] Ficava.
Eu não gostava daquilo. Não tinha a impressão de relaxar com aquilo, você sabe. Se você não consegue relaxar com uma coisa, você não
consegue gostar dela, acho que não.
Em outros casos, as primeiras experiências foram também claramente desagradáveis, mas a pessoa
tornou-se usuária de maconha. Isso só aconteceu, no entanto, depois que uma experiência posterior lhe
permitiu redefinir as sensações como agradáveis.
[A primeira experiência deste homem foi extremamente desagradável, envolvendo distorção de relações espaciais e sonoras, sede
violenta e pânico produzido por esses sintomas.] Depois da primeira vez, eu diria que não fumei durante cerca de dez meses a um ano….
Não era uma coisa moral; era porque eu tinha ficado assustado com um barato tão grande. E não queria passar por aquilo de novo, isto é,
minha reação era: “Bom, se é isso que eles chamam de barato, não curto isso.” … Por isso não fumei durante quase um ano, por causa
disso….
Meus amigos começaram, e conseqüentemente eu comecei de novo. Mas não tive mais, não tive aquela mesma reação inicial depois
que comecei a fumar de novo.
[Em interação com seus amigos, ele se tornou capaz de encontrar prazer nos efeitos da droga e finalmente tornou-se usuário regular.]
Em nenhum caso o uso continua sem uma redefinição dos efeitos como agradáveis.
Essa redefinição ocorre tipicamente em interação com usuários mais experientes que, de diversas
maneiras, ensinam o noviço a encontrar prazer nessa experiência a princípio tão assustadora.10 Podem
tranqüilizá-lo quanto ao caráter temporário das sensações desagradáveis e minimizar sua gravidade,
chamando atenção ao mesmo tempo para os aspectos mais prazerosos. Um usuário experiente descreve
como lida com recém-chegados ao uso de maconha:
Bom, às vezes eles entram num grande barato. A pessoa comum não está preparada para isso, e é um pouco amedrontador para eles, às
vezes. Isto é, eles já ficaram de porre, entram num barato mais forte que qualquer coisa que consumiram antes e não sabem o que está
acontecendo com eles. Porque pensam que o barato vai continuar aumentando, aumentando, até que eles percam a cabeça ou comecem
a agir de maneira esquisita, essas coisas. Você tem meio que tranqüilizar eles, explicar que não estão realmente ficando malucos nem
nada, que vão ficar bem. Você tem de convencer a não ter medo. Ficar falando com eles, tranqüilizando, dizendo que está tudo bem. E
contar sua própria história, você sabe: “A mesma coisa aconteceu comigo. Você vai passar a gostar disso depois de um tempo.”
Continuar falando desse jeito; logo a gente consegue fazer eles deixarem de ficar apavorados. Além disso, eles vêem a gente fazendo
isso, e nada de horrível está acontecendo com a gente, e isso lhes dá mais confiança.
O usuário mais experiente pode também ensinar o noviço a regular a quantidade com maior cuidado,
de modo a evitar qualquer sintoma severamente desconfortável, conservando ao mesmo tempo os
agradáveis. Finalmente, ensina ao novo usuário que ele pode “passar a gostar disso depois de um tempo”.
Ensina-lhe a considerar agradáveis essas experiências ambíguas antes definidas como desagradáveis. O
usuário mais antigo no incidente a seguir é uma pessoa cujos gostos mudaram dessa maneira, e seus
comentários têm o efeito de ajudar os outros a fazer uma redefinição semelhante:
Uma nova usuária teve sua primeira experiência dos efeitos da maconha e ficou amedrontada e histérica. Ela “teve a impressão de que
estava meio dentro e meio fora da sala” e experimentou vários sintomas físicos alarmantes. Um dos usuários mais experientes que estava
lá comentou: “Ela está chateada por estar num barato desses. Eu daria tudo para entrar num barato igual. Faz anos que não tenho um
desses.”
Em suma, o que antes foi amedrontador e desagradável torna-se, depois que um gosto pela maconha é
desenvolvido, prazeroso, desejado e procurado. O prazer é introduzido pela definição favorável da
experiência que uma pessoa adquire de outras. Sem isso, o uso não prosseguirá, porque a maconha não
será, para o usuário, um objeto de que ele pode lançar mão por prazer.
Além de ser um passo necessário para que alguém se torne um usuário, isso representa uma
importante condição para a utilização constante. É muito comum que os experientes tenham subitamente
uma vivência desagradável ou assustadora, que não podem definir como prazerosa, seja porque
consumiram uma quantidade maior de maconha do que a habitual, seja porque a maconha que usaram se
revela de qualidade mais potente do que esperavam. O usuário tem sensações que vão além de qualquer
concepção que tem do que é ficar no barato e vê-se numa situação muito semelhante à do noviço, inquieto
e assustado. Pode pôr a culpa numa dose excessiva, ou simplesmente ser mais cuidadoso no futuro. Mas
talvez faça disso uma ocasião para repensar sua atitude em relação à droga e decidir que ela não pode
mais lhe dar prazer. Quando isso ocorre, e não é seguido por uma redefinição da droga como capaz de
produzir prazer, o uso cessará.
A probabilidade de que tal redefinição ocorra depende do grau da interação do indivíduo com outros
usuários. Quando essa interação é intensa, o indivíduo é rapidamente demovido de seu sentimento contra
o uso de maconha. No caso a seguir, por outro lado, a experiência foi muito perturbadora, e as
conseqüências do incidente reduziram a interação da pessoa com outros usuários a quase zero. O uso foi
interrompido por três anos e só recomeçou quando uma combinação de circunstâncias, principalmente a
retomada de relações com outros usuários, tornou possível uma redefinição da natureza da droga:
Foi demais, eu tinha dado só umas quatro tragadas e não conseguia nem tirar aquilo da boca, tão grande era o meu barato, e fiquei
realmente maluco. No porão, saca, eu não consegui mais ficar lá. Meu coração batia muito forte, eu estava ficando fora de mim; pensei
que estava perdendo a cabeça por completo. Então fui embora depressa daquele porão, e um outro sujeito, um cara fora de si, me disse:
“Não, não me deixe, cara. Fique aqui.” E não consegui.
Saí caminhando, estava cinco abaixo de zero, eu pensei que ia morrer e abri o sobretudo; estava suando, estava transpirando. Minhas
entranhas estavam todas, … e caminhei uns dois quarteirões e desmaiei atrás de um arbusto. Não sei quanto tempo fiquei deitado ali.
Acordei e estava me sentindo pior, não posso descrever aquilo de jeito nenhum, então fui para uma pista de boliche, cara, e tentei agir
normalmente, fui tentar jogar sinuca, saca, tentei agir normalmente, e não conseguia ficar deitado, não conseguia ficar de pé, não
conseguia ficar sentado. Subi e me deitei onde alguns caras que marcam os pinos se deitam, e aquilo não me ajudou, e fui para o
consultório de um médico. Ia entrar lá e dizer ao médico que me tirasse do meu tormento, … porque meu coração batia tão forte, você
sabe…. Então, depois, todo fim de semana eu começava a ficar maluco, vendo coisas ali e sofrendo o diabo, sabe, todo tipo de coisas
anormais…. Eu realmente abandonei por um longo tempo naquela época.
[Ele foi a um médico que definiu seus sintomas como os de um colapso causado por “nervosismo” e “ansiedade”. Embora não
estivesse mais usando maconha, teve algumas recorrências dos sintomas que o levaram a suspeitar que “eram só os seus nervos”.] Então
parei de me preocupar, sabe; foi mais ou menos uns 36 meses mais tarde que comecei de novo. Eu só dava uns tapinhas, sabe? [Ele
retomou o ritmo de uso inicial na companhia do mesmo usuário-amigo com quem estivera envolvido no incidente original.]
Uma pessoa, portanto, não pode começar a usar maconha por prazer, ou continuar seu uso por prazer,
a menos que aprenda a definir seus efeitos como agradáveis, a menos que a maconha se torne e continue a
ser um objeto que ela considere capaz de produzir prazer.
Em resumo, um indivíduo só será capaz de fumar maconha por prazer quando atravessa um processo
de aprendizagem para concebê-la como um objeto que pode ser usado dessa maneira. Ninguém se torna
usuário sem (1) aprender a fumar a droga de uma maneira que produza efeitos reais; (2) aprender a
reconhecer os efeitos e associá-los ao uso da droga (aprender, em outras palavras, a ter um barato); e (3)
aprender a gostar das sensações que percebe. No curso desse processo, o sujeito desenvolve uma
disposição ou motivação para usar maconha que não estava e não poderia estar presente quando
começou, pois envolve concepções da droga que só seria possível formar a partir do tipo de experiência
real antes detalhado, e depende delas. Ao concluir esse processo, ele está desejoso e é capaz de usar
maconha por prazer.
Ele aprendeu, em suma, a responder “Sim” à pergunta: “É agradável?” A direção que seu uso da
droga assume a partir disso depende de sua capacidade de responder “Sim” a essa pergunta, e, ademais,
de sua capacidade de responder “Sim” a outras perguntas que surgem à medida que toma consciência das
implicações do fato de que a sociedade reprova a prática: “É conveniente?” “É moral?” Depois que a
pessoa adquiriu a capacidade de obter prazer pelo uso da droga, esse uso continuará possível para ela.
Considerações de moralidade e conveniência, ocasionadas por reações da sociedade, podem interferir no
uso e inibi-lo, mas este continua a ser uma possibilidade em termos da concepção que a sociedade tem da
droga. O ato só se torna impossível quando se perde a capacidade de desfrutar a experiência de estar no
barato, por uma mudança na concepção do usuário sobre a droga, ocasionada por certos tipos de
experiência que viveu com ela.
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a No original, tea-pad. A expressão é definida no próprio relatório como um quarto ou apartamento em que pessoas se reúnem para fumar maconha. (N.T.)