Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 12 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Aprender a gostar dos efeitos

barato e sentir-se normal. Nessa situação, o uso tende a ser abandonado por completo, mas de forma

temporária, de modo que o usuário possa novamente ser capaz de perceber a diferença.

 

Aprender a gostar dos efeitos

 

Mais um passo é necessário para que o usuário que já aprendeu a ter um barato continue a usar maconha.

Ele deve aprender a gostar dos efeitos que acaba de aprender a experimentar. As sensações produzidas

pela maconha não são automática ou necessariamente agradáveis. O gosto por tal experiência é

socialmente adquirido, de gênero não diferente do gosto adquirido por ostras ou dry martíni. O usuário

sente-se tonto, sedento; seu couro cabeludo formiga; ele avalia mal o tempo e as distâncias. Essas coisas

são agradáveis? Ele não tem certeza. Para que continue a usar maconha, deve concluir que são. De outra

maneira, ter um barato, ainda que seja uma experiência bastante real, será uma experiência desagradável

que ele preferiria evitar.

Os efeitos da droga, quando percebidos pela primeira vez, podem ser fisicamente desagradáveis ou

pelo menos ambíguos:

 

Comecei a sentir o efeito e não sabia o que estava acontecendo, sacou? O que era aquilo? E fiquei muito enjoado. Andei pela sala, fiquei

andando pela sala tentando me livrar; de início aquilo me deixou apenas assustado, sabe. Eu não estava acostumado com aquele tipo de

sensação.

 

Além disso, a interpretação ingênua que o noviço dá para o que está acontecendo pode confundi-lo e

amedrontá-lo ainda mais, em particular se ele conclui, como muitos fazem, que está ficando louco:

 

Achei que estava louco, sabe. Tudo que as pessoas me faziam só me alvoroçava. Não conseguia manter uma conversa, minha cabeça

divagava, e eu ficava pensando sem parar, ah, não sei, coisas estranhas, como ouvir música diferente…. Fico com a sensação de que não

posso falar com ninguém. Vou virar um completo mané.

 

Dadas essas primeiras experiências tipicamente assustadoras e desagradáveis, o iniciante não dará

continuidade ao uso, a menos que aprenda a redefinir as sensações como agradáveis:

 

Ofereceram o bagulho para mim e eu experimentei. Vou lhe dizer uma coisa. Jamais gostei disso, de jeito nenhum. Isto é, não era uma

coisa de que eu pudesse gostar. [Bom, você ficava no barato quando fumava?] Ah, ficava, eu tinha sensações muito claras. Mas não

gostava delas. Quer dizer, eu tinha uma porção de reações, mas eram sobretudo reações de medo. [Você ficava amedrontado?] Ficava.

Eu não gostava daquilo. Não tinha a impressão de relaxar com aquilo, você sabe. Se você não consegue relaxar com uma coisa, você não

consegue gostar dela, acho que não.

 

Em outros casos, as primeiras experiências foram também claramente desagradáveis, mas a pessoa

tornou-se usuária de maconha. Isso só aconteceu, no entanto, depois que uma experiência posterior lhe

permitiu redefinir as sensações como agradáveis.

 

[A primeira experiência deste homem foi extremamente desagradável, envolvendo distorção de relações espaciais e sonoras, sede

violenta e pânico produzido por esses sintomas.] Depois da primeira vez, eu diria que não fumei durante cerca de dez meses a um ano….

Não era uma coisa moral; era porque eu tinha ficado assustado com um barato tão grande. E não queria passar por aquilo de novo, isto é,

minha reação era: “Bom, se é isso que eles chamam de barato, não curto isso.” … Por isso não fumei durante quase um ano, por causa

disso….

Meus amigos começaram, e conseqüentemente eu comecei de novo. Mas não tive mais, não tive aquela mesma reação inicial depois

que comecei a fumar de novo.

[Em interação com seus amigos, ele se tornou capaz de encontrar prazer nos efeitos da droga e finalmente tornou-se usuário regular.]

 

Em nenhum caso o uso continua sem uma redefinição dos efeitos como agradáveis.

Essa redefinição ocorre tipicamente em interação com usuários mais experientes que, de diversas

maneiras, ensinam o noviço a encontrar prazer nessa experiência a princípio tão assustadora.10 Podem

tranqüilizá-lo quanto ao caráter temporário das sensações desagradáveis e minimizar sua gravidade,

chamando atenção ao mesmo tempo para os aspectos mais prazerosos. Um usuário experiente descreve

como lida com recém-chegados ao uso de maconha:

 

Bom, às vezes eles entram num grande barato. A pessoa comum não está preparada para isso, e é um pouco amedrontador para eles, às

vezes. Isto é, eles já ficaram de porre, entram num barato mais forte que qualquer coisa que consumiram antes e não sabem o que está

acontecendo com eles. Porque pensam que o barato vai continuar aumentando, aumentando, até que eles percam a cabeça ou comecem

a agir de maneira esquisita, essas coisas. Você tem meio que tranqüilizar eles, explicar que não estão realmente ficando malucos nem

nada, que vão ficar bem. Você tem de convencer a não ter medo. Ficar falando com eles, tranqüilizando, dizendo que está tudo bem. E

contar sua própria história, você sabe: “A mesma coisa aconteceu comigo. Você vai passar a gostar disso depois de um tempo.”

Continuar falando desse jeito; logo a gente consegue fazer eles deixarem de ficar apavorados. Além disso, eles vêem a gente fazendo

isso, e nada de horrível está acontecendo com a gente, e isso lhes dá mais confiança.

 

O usuário mais experiente pode também ensinar o noviço a regular a quantidade com maior cuidado,

de modo a evitar qualquer sintoma severamente desconfortável, conservando ao mesmo tempo os

agradáveis. Finalmente, ensina ao novo usuário que ele pode “passar a gostar disso depois de um tempo”.

Ensina-lhe a considerar agradáveis essas experiências ambíguas antes definidas como desagradáveis. O

usuário mais antigo no incidente a seguir é uma pessoa cujos gostos mudaram dessa maneira, e seus

comentários têm o efeito de ajudar os outros a fazer uma redefinição semelhante:

 

Uma nova usuária teve sua primeira experiência dos efeitos da maconha e ficou amedrontada e histérica. Ela “teve a impressão de que

estava meio dentro e meio fora da sala” e experimentou vários sintomas físicos alarmantes. Um dos usuários mais experientes que estava

lá comentou: “Ela está chateada por estar num barato desses. Eu daria tudo para entrar num barato igual. Faz anos que não tenho um

desses.”

 

Em suma, o que antes foi amedrontador e desagradável torna-se, depois que um gosto pela maconha é

desenvolvido, prazeroso, desejado e procurado. O prazer é introduzido pela definição favorável da

experiência que uma pessoa adquire de outras. Sem isso, o uso não prosseguirá, porque a maconha não

será, para o usuário, um objeto de que ele pode lançar mão por prazer.

Além de ser um passo necessário para que alguém se torne um usuário, isso representa uma

importante condição para a utilização constante. É muito comum que os experientes tenham subitamente

uma vivência desagradável ou assustadora, que não podem definir como prazerosa, seja porque

consumiram uma quantidade maior de maconha do que a habitual, seja porque a maconha que usaram se

revela de qualidade mais potente do que esperavam. O usuário tem sensações que vão além de qualquer

concepção que tem do que é ficar no barato e vê-se numa situação muito semelhante à do noviço, inquieto

e assustado. Pode pôr a culpa numa dose excessiva, ou simplesmente ser mais cuidadoso no futuro. Mas

talvez faça disso uma ocasião para repensar sua atitude em relação à droga e decidir que ela não pode

mais lhe dar prazer. Quando isso ocorre, e não é seguido por uma redefinição da droga como capaz de

produzir prazer, o uso cessará.

A probabilidade de que tal redefinição ocorra depende do grau da interação do indivíduo com outros

usuários. Quando essa interação é intensa, o indivíduo é rapidamente demovido de seu sentimento contra

o uso de maconha. No caso a seguir, por outro lado, a experiência foi muito perturbadora, e as

conseqüências do incidente reduziram a interação da pessoa com outros usuários a quase zero. O uso foi

interrompido por três anos e só recomeçou quando uma combinação de circunstâncias, principalmente a

retomada de relações com outros usuários, tornou possível uma redefinição da natureza da droga:

 

Foi demais, eu tinha dado só umas quatro tragadas e não conseguia nem tirar aquilo da boca, tão grande era o meu barato, e fiquei

realmente maluco. No porão, saca, eu não consegui mais ficar lá. Meu coração batia muito forte, eu estava ficando fora de mim; pensei

que estava perdendo a cabeça por completo. Então fui embora depressa daquele porão, e um outro sujeito, um cara fora de si, me disse:

“Não, não me deixe, cara. Fique aqui.” E não consegui.

Saí caminhando, estava cinco abaixo de zero, eu pensei que ia morrer e abri o sobretudo; estava suando, estava transpirando. Minhas

entranhas estavam todas, … e caminhei uns dois quarteirões e desmaiei atrás de um arbusto. Não sei quanto tempo fiquei deitado ali.

Acordei e estava me sentindo pior, não posso descrever aquilo de jeito nenhum, então fui para uma pista de boliche, cara, e tentei agir

normalmente, fui tentar jogar sinuca, saca, tentei agir normalmente, e não conseguia ficar deitado, não conseguia ficar de pé, não

conseguia ficar sentado. Subi e me deitei onde alguns caras que marcam os pinos se deitam, e aquilo não me ajudou, e fui para o

consultório de um médico. Ia entrar lá e dizer ao médico que me tirasse do meu tormento, … porque meu coração batia tão forte, você

sabe…. Então, depois, todo fim de semana eu começava a ficar maluco, vendo coisas ali e sofrendo o diabo, sabe, todo tipo de coisas

anormais…. Eu realmente abandonei por um longo tempo naquela época.

[Ele foi a um médico que definiu seus sintomas como os de um colapso causado por “nervosismo” e “ansiedade”. Embora não

estivesse mais usando maconha, teve algumas recorrências dos sintomas que o levaram a suspeitar que “eram só os seus nervos”.] Então

parei de me preocupar, sabe; foi mais ou menos uns 36 meses mais tarde que comecei de novo. Eu só dava uns tapinhas, sabe? [Ele

retomou o ritmo de uso inicial na companhia do mesmo usuário-amigo com quem estivera envolvido no incidente original.]

 

Uma pessoa, portanto, não pode começar a usar maconha por prazer, ou continuar seu uso por prazer,

a menos que aprenda a definir seus efeitos como agradáveis, a menos que a maconha se torne e continue a

ser um objeto que ela considere capaz de produzir prazer.

Em resumo, um indivíduo só será capaz de fumar maconha por prazer quando atravessa um processo

de aprendizagem para concebê-la como um objeto que pode ser usado dessa maneira. Ninguém se torna

usuário sem (1) aprender a fumar a droga de uma maneira que produza efeitos reais; (2) aprender a

reconhecer os efeitos e associá-los ao uso da droga (aprender, em outras palavras, a ter um barato); e (3)

aprender a gostar das sensações que percebe. No curso desse processo, o sujeito desenvolve uma

disposição ou motivação para usar maconha que não estava e não poderia estar presente quando

começou, pois envolve concepções da droga que só seria possível formar a partir do tipo de experiência

real antes detalhado, e depende delas. Ao concluir esse processo, ele está desejoso e é capaz de usar

maconha por prazer.

Ele aprendeu, em suma, a responder “Sim” à pergunta: “É agradável?” A direção que seu uso da

droga assume a partir disso depende de sua capacidade de responder “Sim” a essa pergunta, e, ademais,

de sua capacidade de responder “Sim” a outras perguntas que surgem à medida que toma consciência das

implicações do fato de que a sociedade reprova a prática: “É conveniente?” “É moral?” Depois que a

pessoa adquiriu a capacidade de obter prazer pelo uso da droga, esse uso continuará possível para ela.

Considerações de moralidade e conveniência, ocasionadas por reações da sociedade, podem interferir no

uso e inibi-lo, mas este continua a ser uma possibilidade em termos da concepção que a sociedade tem da

droga. O ato só se torna impossível quando se perde a capacidade de desfrutar a experiência de estar no

barato, por uma mudança na concepção do usuário sobre a droga, ocasionada por certos tipos de

experiência que viveu com ela.

 

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a No original, tea-pad. A expressão é definida no próprio relatório como um quarto ou apartamento em que pessoas se reúnem para fumar maconha. (N.T.)