Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
Sigilo
A instabilidade das fontes de fornecimento é um importante controle sobre o uso regular e reflete de
maneira indireta o emprego de sanções legais pela comunidade na prisão dos que traficam drogas. A
imposição da lei controla o consumo, não dissuadindo os usuários diretamente, mas tornando precárias as
fontes da droga e dificultando o acesso a elas.
Cada estágio de uso, da iniciação à rotina, tem portanto seu modo típico de fornecimento, o qual deve
estar presente para que esse nível ocorra. Assim, os mecanismos que operam para limitar a
disponibilidade da droga restringem também seu uso. No entanto, a participação em grupos em que a
maconha é consumida cria as condições nas quais os controles que limitam o acesso a ela deixam de
operar. Essa participação também envolve maior sensibilidade com relação aos controles do grupo
usuário, de modo que há forças pressionando em direção à utilização das novas fontes de fornecimento.
Conseqüentemente, pode-se dizer que mudanças na participação no grupo e no pertencimento a ele levam
a mudanças no nível de uso, ao afetar o acesso do indivíduo à maconha nas condições presentes, em que
a droga só está disponível por intermédio de distribuidores ilegais.
Sigilo
O uso da maconha é limitado também à medida que indivíduos a consideram inconveniente ou acreditam
que irão julgá-la como tal. Essa inconveniência, real ou presumida, provém do fato ou da crença de que,
se não-usuários descobrirem que alguém usa a droga, sanções de um tipo importante serão aplicadas. A
concepção que os usuários têm dessas sanções é vaga, porque poucos deles parecem ter passado por
alguma experiência desse tipo ou ter conhecido alguém que as viveu; em sua maioria, os usuários de
maconha são desviantes secretos. Embora eles não saibam o que esperar especificamente em matéria de
punição, as linhas gerais são claras: temem o repúdio por parte de pessoas de cujo respeito e aceitação
necessitam, tanto prática quanto emocionalmente. Isto é, supõem que suas relações com não-usuários
serão perturbadas e rompidas caso estes venham a descobrir, e limitam e controlam seu comportamento à
medida que essas relações com outsiders são importantes para ele.
Esse tipo de controle perde a força na interação com outros usuários e no desenvolvimento da
experiência com a droga, à proporção que o usuário percebe que, mesmo que lhe apliquem sanções, em
caso de descoberta pelos não-usuários, isso não precisa necessariamente ocorrer. Em cada nível de uso,
há um avanço nessa compreensão que torna possível o próximo estágio.
Para o iniciante, essas considerações são fundamentais e precisam ser superadas para que o uso seja
empreendido. Seus medos são contestados pela visão de outros — usuários mais experientes — que
aparentemente julgam haver pouco ou nenhum perigo e parecem se envolver na atividade impunemente.
Se alguém “experimenta uma vez”, pode aplacar seus temores com observações desse tipo. A interação
com outros consumidores proporciona, assim, ao iniciante racionalizações para fazer a primeira
tentativa.
Se persiste em fumar maconha, o noviço perceberá que pode consumi-la tantas vezes quantas quiser,
desde que seja cuidadoso e se assegure de que não haverá não-usuários presentes, nem haverá risco de
intromissão por parte deles. Esse tipo de perspectiva é um pré-requisito necessário para o consumo
ocasional, em que a droga é fumada quando outros usuários convidam alguém a se juntar a eles. Embora
permita esse estágio de uso, tal perspectiva não dá margem para o consumo regular, porque os mundos de
usuário e não-usuário, embora separados num grau que permite a persistência do padrão de uso
ocasional, não são completamente segregados. Os pontos de contato entre esses dois universos parecem
perigosos para o usuário ocasional, que deve, portanto, restringir o consumo àquelas ocasiões que tornam
improvável esse encontro.
O uso regular, por outro lado, implica um consumo sistemático e rotineiro da droga que não leva em conta essas possibilidades e planeja os períodos para seu consumo. É um modo que se baseia em outro
tipo de atitude em relação ao risco de ser descoberto por não-usuários, que se baseia na convicção de
que a maconha pode ser fumada debaixo do nariz de não-usuários; ou, alternativamente, na adoção de um
padrão de participação social que reduz quase a zero os contatos com não-usuários. Sem esse ajuste na
atitude, na interação ou em ambos, o consumidor é obrigado a permanecer no estágio do uso ocasional.
Esses ajustes podem ter lugar em termos de duas categorias de riscos envolvidos: primeiro, que não-
usuários descubram alguém em posse de maconha; segundo, que alguém seja incapaz de esconder os
efeitos da droga quando está na companhia de não-usuários.
As dificuldades do aspirante a usuário regular, no primeiro caso, são ilustradas pelos comentários de
um rapaz que fracassou na tentativa de fazer uso regular enquanto morava com os pais:
Eu não gostava de ter maconha pela casa, sabe? [Por quê?] Bom, pensava que talvez minha mãe pudesse achá-la, ou algo assim. [Que
acha que ela diria?] Ah, bem, você sabe…. Bom, eles nunca mencionam isso, sabe, nada sobre viciados em drogas ou qualquer coisa
desse tipo, mas seria realmente uma coisa ruim no meu caso, eu sei, por causa da grande família de que venho. E minhas irmãs e irmãos,
eles iriam me arrasar. [E você não quer que isso aconteça?] Não, acho que não.
Nesses casos, prever as conseqüências da descoberta do segredo impede a pessoa de manter a
provisão mínima para o uso regular. O consumo continua irregular, uma vez que depende de encontros
com outros usuários e não pode ocorrer sempre que o usuário deseja.
A menos que descubra um método para superar essa dificuldade, a pessoa só pode avançar para o uso
regular quando a relação que impede o consumo é rompida. As pessoas não costumam deixar seus lares e
suas famílias para fumar maconha regularmente. Mas se o fazem, não importa por que razão, o uso
regular, até então vetado, torna-se uma possibilidade. Usuários regulares confirmados muitas vezes
consideram seriamente o efeito do estabelecimento de novas relações sociais com não-usuários sobre seu
uso da droga:
Eu não me casaria com alguém que brigasse comigo se eu fizesse isso [fumasse maconha], sabe. Isto é, não me casaria com uma mulher
que fosse tão desconfiada a ponto de pensar que eu faria alguma coisa…. Isto é, você sabe, tipo fazer mal a mim mesmo ou tentar fazer
mal a alguém.
Se tais ligações são estabelecidas, o uso tende a retornar ao estágio ocasional:
[Este homem havia usado maconha bem intensamente, mas sua mulher era contra.] Claro, foi em grande parte por causa da minha
mulher que parei. Houve algumas ocasiões em que tive vontade … não fiquei realmente fissurado, mas ia gostar de fumar um pouco.
[Ele não pôde continuar usando a droga exceto irregularmente, naquelas ocasiões em que estava longe da presença e do controle da
mulher.]
Se a pessoa ingressa quase totalmente no grupo de usuários, o problema deixa de existir sob muitos
aspectos, e é possível que o consumo regular ocorra, exceto quando se faz uma nova conexão com o
mundo mais convencional.
Se uma pessoa fuma maconha de maneira regular e rotineira, é quase inevitável — uma vez que, numa
sociedade urbana, esses papéis não podem ser mantidos completamente separados — que um dia se veja
drogada na companhia de não-usuários de quem deseja esconder sua prática. Dada a variedade de
sintomas que a droga pode produzir, é natural que o usuário tema que possa revelar, pelo comportamento,
que está drogado, que possa ser incapaz de controlar os sintomas e, assim, revelar seu segredo. Esses
fenômenos, como a dificuldade em se concentrar e levar adiante uma conversa normal, geram na pessoa o
temor de que todos saibam exatamente por que ela está se comportando dessa maneira, de que o
comportamento seja interpretado de forma automática como um sinal de consumo de droga.
Os que avançam para o uso regular conseguem evitar esse dilema. Pode acontecer, como foi observado anteriormente, que eles passem a participar quase completamente do grupo subcultural em que
a prática tem lugar, de modo a estabelecer uma quantidade mínima de contato com não-usuários com cuja
opinião se importam. Como esse isolamento da sociedade convencional raramente é completo, o usuário
precisa aprender outro método de evitar o dilema, método que é o mais importante para aqueles cuja
participação nunca é tão completamente segregada. Ele consiste em aprender a controlar os efeitos da
droga quando está na companhia de não-usuários, de modo que estes possam ser enganados, e o segredo
mantido, mesmo que a pessoa continue em interação com eles. Se alguém não consegue aprender isso,
existem alguns grupos de situações em que não ousa ficar drogado e no qual o uso regular não é possível.
Sabe, cara, vou lhe contar uma coisa que realmente me arrasa, é realmente terrível. Alguma vez você entrou no barato e depois teve de
encarar sua família? Eu realmente tenho pavor disso. Como ter de falar com meu pai, minha mãe ou irmãos, cara, é realmente demais.
Eu realmente não consigo. Tenho a impressão de que estão me manjando [observando] e sabem que estou doidão. É uma sensação
horrível. Odeio isso.
A maioria dos usuários tem essas sensações e passa ao consumo regular — quando passa — somente
se ocorrer uma experiência da seguinte ordem, mudando sua concepção das possibilidades de detecção:
[Então você fazia isso muito, de início?] Não, não demais. Como eu disse, tinha um pouco de medo. Mas, finalmente, foi por volta de
1948 que realmente comecei a fumar para valer. [Do que você tinha medo?] Bom, eu tinha medo de ficar drogado e não ser capaz de me
desempenhar, entende, quer dizer, tinha medo de relaxar e ver o que iria acontecer. Especialmente no trabalho. Eu não podia confiar em
mim quando entrava no barato. Tinha medo de ficar doidão demais e perder completamente a consciência, ou fazer bobagem. Não queria
ficar perturbado demais.
[Como superou isso?] Bom, são essas coisas, cara. Uma noite eu puxei um fumo e de repente me senti realmente ótimo, relaxado,
você sabe, fiquei realmente numa boa. Desde então fui capaz de fumar tanto quanto queria sem ter nenhum problema com isso. Sempre
consigo controlar.
Na experiência típica, o usuário se vê numa posição em que deve fazer, quando drogado, algo que tem
certeza de não poder realizar nessa condição. Para sua surpresa, descobre que consegue se desempenhar
bem e ainda esconder dos outros o fato de estar sob influência da droga. Uma ou mais ocorrências desse
tipo permitem ao usuário concluir que pode continuar sendo um desviante secreto, que sua cautela foi
excessiva e baseada numa premissa falsa. Se ele deseja usar a droga regularmente, não será mais
dissuadido por esse medo, pois pode usar tal experiência para justificar a crença de que os não-usuários
nunca precisam saber.
[Sugeri que muitos usuários acham difícil realizar seu trabalho com eficiência quando drogados. O entrevistado, um mecânico, respondeu
com a história de como superou essa barreira.]
Isso não me incomoda tanto. Tive uma experiência uma vez que provou isso para mim. Eu tinha ido a uma festa do barulho na noite
anterior. Fiquei muito doido. Com maconha e bebida também. Fiquei tão alto que ainda estava baratinado quando fui para o trabalho no
dia seguinte. E eu tinha um serviço muito importante a fazer. Devia ser praticamente perfeito — negócio de precisão. O chefe andara até
me instruindo por vários dias, explicando como fazê-lo e tudo o mais.
[Ele foi para o trabalho maconhado e, até onde podia se lembrar, devia ter feito o serviço, embora não tivesse nenhuma lembrança
clara disso, já que continuava inteiramente drogado.]
Por volta de 15h45, finalmente caí em mim e pensei: “Meu Deus! O que estou fazendo?” Então tratei de parar e fui para casa.
Quase não dormi a noite toda, preocupado, pensando se tinha ferrado tudo naquele serviço ou não. Apareci na manhã seguinte, o chefe
verificou tudo, e eu tinha feito o maldito serviço com perfeição. Então, depois disso, realmente deixei de me preocupar. Já fui trabalhar
completamente doidão algumas manhãs. Não tive absolutamente problema algum.
O problema não é igualmente importante para todos os usuários. Alguns deles estão protegidos por
sua participação social; eles estão completamente integrados ao grupo desviante. Todos os seus
companheiros sabem que usam maconha e ninguém se importa, ao passo que seus contatos convencionais
são raros e sem importância. Além disso, algumas pessoas encontram soluções idiossincráticas que lhes
permitem agir quando drogadas sem que ninguém perceba.
Eles [os rapazes da vizinhança] nunca sabem se estou ou não drogado. Em geral estou, mas eles não sabem. Sempre tive fama, durante