Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

Howard S. Becker · Capítulo 15 de 41

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Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio

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A instabilidade das fontes de fornecimento é um importante controle sobre o uso regular e reflete de

maneira indireta o emprego de sanções legais pela comunidade na prisão dos que traficam drogas. A

imposição da lei controla o consumo, não dissuadindo os usuários diretamente, mas tornando precárias as

fontes da droga e dificultando o acesso a elas.

Cada estágio de uso, da iniciação à rotina, tem portanto seu modo típico de fornecimento, o qual deve

estar presente para que esse nível ocorra. Assim, os mecanismos que operam para limitar a

disponibilidade da droga restringem também seu uso. No entanto, a participação em grupos em que a

maconha é consumida cria as condições nas quais os controles que limitam o acesso a ela deixam de

operar. Essa participação também envolve maior sensibilidade com relação aos controles do grupo

usuário, de modo que há forças pressionando em direção à utilização das novas fontes de fornecimento.

Conseqüentemente, pode-se dizer que mudanças na participação no grupo e no pertencimento a ele levam

a mudanças no nível de uso, ao afetar o acesso do indivíduo à maconha nas condições presentes, em que

a droga só está disponível por intermédio de distribuidores ilegais.

 

Sigilo

 

O uso da maconha é limitado também à medida que indivíduos a consideram inconveniente ou acreditam

que irão julgá-la como tal. Essa inconveniência, real ou presumida, provém do fato ou da crença de que,

se não-usuários descobrirem que alguém usa a droga, sanções de um tipo importante serão aplicadas. A

concepção que os usuários têm dessas sanções é vaga, porque poucos deles parecem ter passado por

alguma experiência desse tipo ou ter conhecido alguém que as viveu; em sua maioria, os usuários de

maconha são desviantes secretos. Embora eles não saibam o que esperar especificamente em matéria de

punição, as linhas gerais são claras: temem o repúdio por parte de pessoas de cujo respeito e aceitação

necessitam, tanto prática quanto emocionalmente. Isto é, supõem que suas relações com não-usuários

serão perturbadas e rompidas caso estes venham a descobrir, e limitam e controlam seu comportamento à

medida que essas relações com outsiders são importantes para ele.

Esse tipo de controle perde a força na interação com outros usuários e no desenvolvimento da

experiência com a droga, à proporção que o usuário percebe que, mesmo que lhe apliquem sanções, em

caso de descoberta pelos não-usuários, isso não precisa necessariamente ocorrer. Em cada nível de uso,

há um avanço nessa compreensão que torna possível o próximo estágio.

Para o iniciante, essas considerações são fundamentais e precisam ser superadas para que o uso seja

empreendido. Seus medos são contestados pela visão de outros — usuários mais experientes — que

aparentemente julgam haver pouco ou nenhum perigo e parecem se envolver na atividade impunemente.

Se alguém “experimenta uma vez”, pode aplacar seus temores com observações desse tipo. A interação

com outros consumidores proporciona, assim, ao iniciante racionalizações para fazer a primeira

tentativa.

Se persiste em fumar maconha, o noviço perceberá que pode consumi-la tantas vezes quantas quiser,

desde que seja cuidadoso e se assegure de que não haverá não-usuários presentes, nem haverá risco de

intromissão por parte deles. Esse tipo de perspectiva é um pré-requisito necessário para o consumo

ocasional, em que a droga é fumada quando outros usuários convidam alguém a se juntar a eles. Embora

permita esse estágio de uso, tal perspectiva não dá margem para o consumo regular, porque os mundos de

usuário e não-usuário, embora separados num grau que permite a persistência do padrão de uso

ocasional, não são completamente segregados. Os pontos de contato entre esses dois universos parecem

perigosos para o usuário ocasional, que deve, portanto, restringir o consumo àquelas ocasiões que tornam

improvável esse encontro.

O uso regular, por outro lado, implica um consumo sistemático e rotineiro da droga que não leva em conta essas possibilidades e planeja os períodos para seu consumo. É um modo que se baseia em outro

tipo de atitude em relação ao risco de ser descoberto por não-usuários, que se baseia na convicção de

que a maconha pode ser fumada debaixo do nariz de não-usuários; ou, alternativamente, na adoção de um

padrão de participação social que reduz quase a zero os contatos com não-usuários. Sem esse ajuste na

atitude, na interação ou em ambos, o consumidor é obrigado a permanecer no estágio do uso ocasional.

Esses ajustes podem ter lugar em termos de duas categorias de riscos envolvidos: primeiro, que não-

usuários descubram alguém em posse de maconha; segundo, que alguém seja incapaz de esconder os

efeitos da droga quando está na companhia de não-usuários.

As dificuldades do aspirante a usuário regular, no primeiro caso, são ilustradas pelos comentários de

um rapaz que fracassou na tentativa de fazer uso regular enquanto morava com os pais:

 

Eu não gostava de ter maconha pela casa, sabe? [Por quê?] Bom, pensava que talvez minha mãe pudesse achá-la, ou algo assim. [Que

acha que ela diria?] Ah, bem, você sabe…. Bom, eles nunca mencionam isso, sabe, nada sobre viciados em drogas ou qualquer coisa

desse tipo, mas seria realmente uma coisa ruim no meu caso, eu sei, por causa da grande família de que venho. E minhas irmãs e irmãos,

eles iriam me arrasar. [E você não quer que isso aconteça?] Não, acho que não.

 

Nesses casos, prever as conseqüências da descoberta do segredo impede a pessoa de manter a

provisão mínima para o uso regular. O consumo continua irregular, uma vez que depende de encontros

com outros usuários e não pode ocorrer sempre que o usuário deseja.

A menos que descubra um método para superar essa dificuldade, a pessoa só pode avançar para o uso

regular quando a relação que impede o consumo é rompida. As pessoas não costumam deixar seus lares e

suas famílias para fumar maconha regularmente. Mas se o fazem, não importa por que razão, o uso

regular, até então vetado, torna-se uma possibilidade. Usuários regulares confirmados muitas vezes

consideram seriamente o efeito do estabelecimento de novas relações sociais com não-usuários sobre seu

uso da droga:

 

Eu não me casaria com alguém que brigasse comigo se eu fizesse isso [fumasse maconha], sabe. Isto é, não me casaria com uma mulher

que fosse tão desconfiada a ponto de pensar que eu faria alguma coisa…. Isto é, você sabe, tipo fazer mal a mim mesmo ou tentar fazer

mal a alguém.

 

Se tais ligações são estabelecidas, o uso tende a retornar ao estágio ocasional:

 

[Este homem havia usado maconha bem intensamente, mas sua mulher era contra.] Claro, foi em grande parte por causa da minha

mulher que parei. Houve algumas ocasiões em que tive vontade … não fiquei realmente fissurado, mas ia gostar de fumar um pouco.

[Ele não pôde continuar usando a droga exceto irregularmente, naquelas ocasiões em que estava longe da presença e do controle da

mulher.]

 

Se a pessoa ingressa quase totalmente no grupo de usuários, o problema deixa de existir sob muitos

aspectos, e é possível que o consumo regular ocorra, exceto quando se faz uma nova conexão com o

mundo mais convencional.

Se uma pessoa fuma maconha de maneira regular e rotineira, é quase inevitável — uma vez que, numa

sociedade urbana, esses papéis não podem ser mantidos completamente separados — que um dia se veja

drogada na companhia de não-usuários de quem deseja esconder sua prática. Dada a variedade de

sintomas que a droga pode produzir, é natural que o usuário tema que possa revelar, pelo comportamento,

que está drogado, que possa ser incapaz de controlar os sintomas e, assim, revelar seu segredo. Esses

fenômenos, como a dificuldade em se concentrar e levar adiante uma conversa normal, geram na pessoa o

temor de que todos saibam exatamente por que ela está se comportando dessa maneira, de que o

comportamento seja interpretado de forma automática como um sinal de consumo de droga.

Os que avançam para o uso regular conseguem evitar esse dilema. Pode acontecer, como foi observado anteriormente, que eles passem a participar quase completamente do grupo subcultural em que

a prática tem lugar, de modo a estabelecer uma quantidade mínima de contato com não-usuários com cuja

opinião se importam. Como esse isolamento da sociedade convencional raramente é completo, o usuário

precisa aprender outro método de evitar o dilema, método que é o mais importante para aqueles cuja

participação nunca é tão completamente segregada. Ele consiste em aprender a controlar os efeitos da

droga quando está na companhia de não-usuários, de modo que estes possam ser enganados, e o segredo

mantido, mesmo que a pessoa continue em interação com eles. Se alguém não consegue aprender isso,

existem alguns grupos de situações em que não ousa ficar drogado e no qual o uso regular não é possível.

 

Sabe, cara, vou lhe contar uma coisa que realmente me arrasa, é realmente terrível. Alguma vez você entrou no barato e depois teve de

encarar sua família? Eu realmente tenho pavor disso. Como ter de falar com meu pai, minha mãe ou irmãos, cara, é realmente demais.

Eu realmente não consigo. Tenho a impressão de que estão me manjando [observando] e sabem que estou doidão. É uma sensação

horrível. Odeio isso.

A maioria dos usuários tem essas sensações e passa ao consumo regular — quando passa — somente

se ocorrer uma experiência da seguinte ordem, mudando sua concepção das possibilidades de detecção:

 

[Então você fazia isso muito, de início?] Não, não demais. Como eu disse, tinha um pouco de medo. Mas, finalmente, foi por volta de

1948 que realmente comecei a fumar para valer. [Do que você tinha medo?] Bom, eu tinha medo de ficar drogado e não ser capaz de me

desempenhar, entende, quer dizer, tinha medo de relaxar e ver o que iria acontecer. Especialmente no trabalho. Eu não podia confiar em

mim quando entrava no barato. Tinha medo de ficar doidão demais e perder completamente a consciência, ou fazer bobagem. Não queria

ficar perturbado demais.

[Como superou isso?] Bom, são essas coisas, cara. Uma noite eu puxei um fumo e de repente me senti realmente ótimo, relaxado,

você sabe, fiquei realmente numa boa. Desde então fui capaz de fumar tanto quanto queria sem ter nenhum problema com isso. Sempre

consigo controlar.

 

Na experiência típica, o usuário se vê numa posição em que deve fazer, quando drogado, algo que tem

certeza de não poder realizar nessa condição. Para sua surpresa, descobre que consegue se desempenhar

bem e ainda esconder dos outros o fato de estar sob influência da droga. Uma ou mais ocorrências desse

tipo permitem ao usuário concluir que pode continuar sendo um desviante secreto, que sua cautela foi

excessiva e baseada numa premissa falsa. Se ele deseja usar a droga regularmente, não será mais

dissuadido por esse medo, pois pode usar tal experiência para justificar a crença de que os não-usuários

nunca precisam saber.

 

[Sugeri que muitos usuários acham difícil realizar seu trabalho com eficiência quando drogados. O entrevistado, um mecânico, respondeu

com a história de como superou essa barreira.]

Isso não me incomoda tanto. Tive uma experiência uma vez que provou isso para mim. Eu tinha ido a uma festa do barulho na noite

anterior. Fiquei muito doido. Com maconha e bebida também. Fiquei tão alto que ainda estava baratinado quando fui para o trabalho no

dia seguinte. E eu tinha um serviço muito importante a fazer. Devia ser praticamente perfeito — negócio de precisão. O chefe andara até

me instruindo por vários dias, explicando como fazê-lo e tudo o mais.

[Ele foi para o trabalho maconhado e, até onde podia se lembrar, devia ter feito o serviço, embora não tivesse nenhuma lembrança

clara disso, já que continuava inteiramente drogado.]

Por volta de 15h45, finalmente caí em mim e pensei: “Meu Deus! O que estou fazendo?” Então tratei de parar e fui para casa.

Quase não dormi a noite toda, preocupado, pensando se tinha ferrado tudo naquele serviço ou não. Apareci na manhã seguinte, o chefe

verificou tudo, e eu tinha feito o maldito serviço com perfeição. Então, depois disso, realmente deixei de me preocupar. Já fui trabalhar

completamente doidão algumas manhãs. Não tive absolutamente problema algum.

 

O problema não é igualmente importante para todos os usuários. Alguns deles estão protegidos por

sua participação social; eles estão completamente integrados ao grupo desviante. Todos os seus

companheiros sabem que usam maconha e ninguém se importa, ao passo que seus contatos convencionais

são raros e sem importância. Além disso, algumas pessoas encontram soluções idiossincráticas que lhes

permitem agir quando drogadas sem que ninguém perceba.

 

Eles [os rapazes da vizinhança] nunca sabem se estou ou não drogado. Em geral estou, mas eles não sabem. Sempre tive fama, durante