Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio
Problemas morais
complexa que leva em conta as ações e reações de todos os envolvidos em episódios de desvio. Ela
deixa para a determinação empírica (em vez do estabelecimento por suposição) questões como a real
ocorrência ou não dos atos alegados e a precisão ou não dos relatórios oficiais, e em que grau. Em
conseqüência (e esta é uma fonte de grande dificuldade para estilos mais antigos de pesquisa sobre o
desvio), surge uma grande dúvida com relação à utilidade das várias séries estatísticas e dos registros
oficiais que os pesquisadores se acostumaram a usar. Não reenumerarei as principais críticas aos
registros oficiais, as defesas que foram feitas deles e os novos usos sugeridos para eles, mas observarei
simplesmente que um exame mais atento de pessoas agindo juntas nos mostrou que registros também são
produzidos por pessoas que agem juntas, e devem ser compreendidos nesse contexto.23
A ligação entre uma teoria interacionista do desvio e a confiança na intensa observação de campo
como importante método de coleta de dados dificilmente pode ser acidental. Por outro lado, penso que
não é uma ligação necessária. A teoria interacionista se desenvolve a partir de uma disposição de
espírito que leva o lugar-comum a sério e não se contentará com forças invisíveis e misteriosas como
mecanismos explanatórios. Essa disposição de espírito floresce indubitavelmente quando alguém se
defronta de modo contínuo com os detalhes das coisas que se propõe a explicar com toda sua
complexidade. É mais fácil construir infratores míticos, e atribuir-lhes aquelas qualidades que mais se
harmonizam com nossas explicações hipotéticas, se tivermos apenas fragmentos de fatos como os que
poderíamos encontrar num arquivo oficial ou nas respostas a um questionário. Como Galtung sugeriu em
outra conexão,24 constructos míticos não podem se defender contra o ataque dos fatos produzidos pelo
conhecimento íntimo.
Algumas pessoas notaram que uma ênfase excessiva na observação de primeira mão pode levar a nos
limitarmos, de maneira não intencional, àqueles grupos e lugares a que podemos ter acesso facilmente,
deixando assim de estudar as pessoas e grupos poderosos que podem se defender contra nossas
incursões. Dessa maneira, a preferência por uma técnica observacional poderia trabalhar contra a
recomendação teórica de estudar todos os participantes do drama do desvio e anular algumas das
vantagens de uma abordagem interacionista. Podemos nos proteger contra esse perigo variando nossos
métodos ou sendo mais engenhosos em nosso uso de técnicas observacionais. Mills,25 entre outros,
demonstra a variedade de métodos que podem ser usados para estudar os poderosos, em especial o
estudo daqueles documentos que se tornam públicos por inadvertência, em virtude do mecanismo interno
de agências governamentais, ou porque os poderosos por vezes lutam entre si e por isso nos fornecem
dados. De maneira semelhante, podemos fazer uso de técnicas de entrada discreta e acesso acidental para
colher dados observacionais diretos.26 (Problemas relevantes de acesso e amostragem são discutidos em
vários artigos em Habenstein.27)
Os sociólogos têm sido em geral relutantes em fazer o exame atento do que se encontra debaixo de
seus narizes, e que recomendei aqui. Essa relutância contaminou especialmente os estudos do desvio. Sua
superação produziu o mesmo ganho em estudos do desvio que movimentos similares produziram em
estudos da indústria, da educação e de comunidades. Aumentou também a complexidade moral de nossas
teorias e pesquisas, e passo agora a esses problemas.
Problemas morais
Problemas morais surgem em toda pesquisa sociológica, mas são suscitados de maneira especialmente
provocativa por teorias interacionistas do desvio. Críticas morais vieram do centro e da direita política;
da esquerda política e dos “malucos-beleza”.b Teorias interacionistas foram acusadas de dar ajuda e
conforto ao inimigo, quer esse inimigo fossem aqueles que perturbam a estabilidade da ordem existente, quer fosse o establishment. Elas foram acusadas de esposar abertamente normas não-convencionais, de se
recusar a apoiar posições contrárias ao establishment e a crítica maluco-beleza de parecer apoiar causas
contrárias ao establishment — ao mesmo tempo que sutilmente favorece o status quo.
As teorias interacionistas como subversivas. Muitos críticos (não necessariamente conservadores,
embora alguns sejam) acreditam que as teorias interacionistas do desvio atacam aberta ou
dissimuladamente a moralidade convencional, recusando-se de modo deliberado a aceitar sua definição
do que é ou não desviante, e questionando as suposições com base nas quais as organizações
convencionais que lidam com desvios operam. Lemert, por exemplo, diz:
À primeira vista, a sociologia do desvio parece propor uma maneira relativamente neutra ou científica de estudar certos tipos de
problemas sociais. No entanto, sua disposição, o tom e a escolha de temas de pesquisa revelam uma postura crítica forte e determinada
em relação à ideologia, aos valores e métodos de agências de controle social dominadas pelo Estado. Em afirmações extremas, o desvio é
descrito como pouco mais que o resultado de uma tomada de decisão arbitrária, fortuita ou tendenciosa, a ser compreendido como um
processo sociopsicológico pelo qual grupos procuram criar condições para perpetuar valores estabelecidos e modos de comportamento,
ou aumentar o poder de grupos especiais. Uma impressão deixada é que as agências de controle social são descritas e analisadas de
modo a expor seus malogros no que tentam fazer e a violação incidental de “direitos inalienáveis” e da “liberdade”. Vista desse modo, a
sociologia do desvio é mais crítica social que ciência. Oferece pouco para facilitar e promover aqueles tipos de decisões e controles
efetivamente necessários para a manutenção da qualidade única de nossa sociedade — a liberdade de escolha.28
Esses críticos pensam que a determinação ética de tratar pontos de vista oficiais e convencionais
como coisas a serem estudadas, em vez de aceitá-los como fatos ou verdades evidentes, é um ataque
daninho à ordem social.29
Consideremos de novo a crítica de que a “teoria da rotulação” confunde irremediavelmente o que se
propunha a esclarecer com sua explicação. Se ela trata o desvio apenas como uma questão de definição
por parte daqueles que reagem a ele, mas postula ao mesmo tempo um “algo desviante a que eles
reagem”, então o desvio deve existir de algum modo antes da reação. Alguns críticos não se concentram
nas reais dificuldades lógicas que considerei anteriormente, mas insistem antes que deve haver alguma
qualidade de ato que pode ser considerado desviante, independentemente da reação de quem quer que
seja. Eles em geral encontram essa qualidade na violação, pelo ato, de uma regra aceita.30 Consideram
perversos os teóricos que não admitem que alguns atos são realmente desviantes, pelo menos no sentido
da violação de uma regra.
Mas teóricos interacionistas, nada especialmente perversos, enfatizaram a independência de ato e
reação, criando um espaço de propriedades de quatro células mediante a combinação do cometimento ou
não-cometimento de um ato em potencial desviante com uma reação definidora de desvio ou sua
ausência. O que parece ter incomodado os críticos nesse processo é que o termo “desvio” foi depois com
mais freqüência aplicado ao par de células caracterizado por atos definidos como desviantes, quer os
atos alegados tivessem ocorrido ou não. A escolha provavelmente reflete a relutância dos analistas em
parecer aprovar a classificação depreciativa de atos em potencial desviantes. A relutância origina-se de
seu reconhecimento do caráter intrinsecamente situacional das regras, que existem apenas no consenso
para sempre renovado de uma situação após outra, e não como incorporações específicas persistentes de
um valor básico. 31
Seja como for, tivessem os interacionistas chamado tipicamente de desviante o cometimento de atos
em potencial desviantes, fosse qual fosse a reação a eles, teria havido menos queixas. Muitos de nós
usávamos o termo de modo frouxo para cobrir os três casos em que o desvio poderia estar envolvido:
cometimento de um ato potencialmente desviante sem reação definidora de desvio; reação definidora de
desvio sem cometimento; e sua coexistência. Essa frouxidão merece crítica, mas o importante é que
nenhuma dessas três coisas é ela mesma toda a história do desvio. Esta reside na interação das três partes
envolvidas.
Para retornar à questão mais ampla, o verdadeiro ataque à ordem social é insistir em que todos os
participantes são objetos apropriados de estudo. A definição anterior do campo do desvio como o estudo
das pessoas que supostamente violaram regras respeitava essa ordem, isentando de estudo os criadores e
os impositores de regras. Se alguém é isento de estudo, isso significa que suas pretensões, teorias e
afirmações de fato não estão sujeitas a escrutínio crítico.32
A relutância interacionista em aceitar teorias convencionais levou a uma atitude crítica em relação a
assertivas de autoridade e moralidade convencional e a uma hostilidade com relação às análises
interacionistas por parte de seus porta-vozes e defensores. Assim, representantes da polícia afirmam que
a maioria dos policiais é honesta, exceto pelas poucas maçãs podres presentes em qualquer barril.
Investigações sociológicas mostrando que a má conduta da polícia resulta de imperativos estruturais que
fazem parte da organização do trabalho da corporação provocam “defesas” da polícia contra cientistas
sociais. De maneira semelhante, a afirmação de que a doença mental é uma questão de definição social33
provoca a resposta de que as pessoas internadas nos hospitais psiquiátricos estão realmente doentes;34
essa resposta passa ao largo da questão do caráter social da definição, mas diz respeito à questão moral
implícita, ao sugerir que os psiquiatras, afinal, sabem o que estão fazendo.
As teorias interacionistas como favoráveis ao establishment. Pelas razões que acabam de ser
sugeridas, as teorias interacionistas parecem (e são) bastante “de esquerda”. Intencionalmente ou não,
são corrosivas dos modos convencionais de pensamento e das instituições estabelecidas. Apesar disso, a
esquerda criticou essas teorias, e de uma maneira que espelha objeções feitas de um ponto de vista mais
centrista.35 Assim como aqueles que aprovam as instituições existentes não gostam do modo como as
teorias interacionistas põem seus pressupostos e sua legitimidade em questão, aqueles que consideram as
instituições existentes corrompidas se queixam de que as teorias não dizem isso. Todos eles se queixam
de uma postura moral ambígua, situando o problema numa lamentável ideologia “isenta de valores” que
pretende a neutralidade quando de fato esposa uma ideologia “radical” ou “meramente liberal”, conforme
o caso.36
O problema, claro, decorre de algum equívoco quanto à noção de ser isento de valor. Penso que todos
os cientistas sociais concordam que, dados uma pergunta e um método para chegar a uma resposta,
qualquer cientista, sejam quais forem seus valores, políticos ou outros, deveria chegar basicamente à
mesma resposta, aquela dada pelo mundo dos fatos inelutáveis que está “lá fora”, não importa o que
pensemos sobre ele. À medida que um sociólogo de esquerda se propõe a basear a ação política em
achados de pesquisa, seus próprios ou de outros, ele deveria se esforçar para tanto e esperar que isso
seja factível. De outro modo, suas ações podem fracassar em razão daquilo que seus valores o impediram
de ver.
Essa formulação simples não pode ser contestada. Mas todos os cientistas sociais deixam de atingir
essa meta em algum grau, e o erro pode resultar, de uma maneira ou de outra, dos valores do cientista.
Podemos contar mal os cidadãos negros no censo porque não pensamos que vale a pena o trabalho extra
que pode ser necessário para procurá-los, dado seu estilo de vida. Podemos deixar de investigar a
corrupção na polícia porque julgamos improvável que ela exista — ou porque seria inconveniente
chamar atenção para ela, caso exista. Podemos sugerir que somos capazes de compreender protestos
políticos mediante o exame das personalidades dos que protestam, sugerindo assim que as instituições
contra as quais eles protestam não desempenham nenhum papel no desenvolvimento de seus atos de
dissidência. Podemos fazer trabalhos que ajudarão as autoridades a lidar com arruaceiros, como seria o
caso se descobríssemos correlatos do radicalismo que autoridades escolares, empregadores e a polícia
usassem para eliminar arruaceiros potenciais.
As questões morais tornam-se mais prementes à medida que passamos da noção técnica de liberdade de valor para a escolha de problemas, as maneiras de formulá-los e os usos que podem ser feitos dos
resultados. Algumas dessas dificuldades decorrem do fracasso da sociologia em levar a si mesma a
sério, em seguir a injunção que quase toda versão de nossa teoria básica contém, mas que é talvez mais
clara na teoria interacionista: estudar todos os participantes de uma situação e suas relações.37 Seguir
essa injunção nos leva automaticamente à corrupção da polícia onde ela existe e tem alguma coisa a ver
com o que estamos estudando. Seguindo-a, não estudaríamos o protesto político como se ele envolvesse
apenas os que protestam. Uma sociologia isenta de valores que seguisse rigorosamente seus próprios
preceitos não incomodaria a esquerda dessa maneira.
A questão do uso dos resultados, contudo, não pode ser resolvida tão facilmente. Tampouco o
problema que atormentou muitas associações profissionais: se os sociólogos profissionais têm algum
direito a uma opinião especial — em virtude de serem sociólogos — sobre questões morais e políticas.
Constatamos que eles poderiam, onde isso se justifica, reivindicar conhecimento especializado com
relação às conseqüências de diferentes políticas. E verificamos que poderiam estar especialmente
preocupados em saber de quem são os interesses a que estão servindo. Parece-nos mais difícil, porém,
comprovar a afirmação de que os sociólogos, em virtude de sua ciência, têm algum conhecimento
especial, ou direito à nossa atenção, com relação a questões morais. Por quê? Porque a ciência, dizemos,
é isenta de valores. Passamos então a fazer distinções tênues, impossíveis de se manter na prática, entre o
sociólogo como cientista e o sociólogo como cidadão. Pois todos nós concordamos que o sociólogo
cidadão não só pode adotar posições morais, como não deve evitar fazê-lo.
Não podemos manter essas distinções na prática porque, como Edel38 demonstrou de maneira tão
vigorosa, averiguar fatos, construir teorias científicas e chegar a juízos éticos são coisas que não podem
ser tão nitidamente separadas.39 Embora não possamos deduzir logicamente o que deve ser feito a partir
de premissas sobre o que é, juízos éticos responsáveis dependem em grande parte de nossa avaliação do
modo como o mundo e seus componentes estão construídos, como funcionam e do que são capazes. Essas
avaliações se apóiam em bom trabalho científico. Elas influenciam nossas decisões éticas, fazendo-nos
ver toda a complexidade moral do que estudamos; a forma particular como nossos compromissos éticos
gerais são corporificados numa dada situação; como nossos compromissos éticos contingentes com
valores como justiça, saúde, misericórdia ou razão se entrecruzam, convergem e entram em conflito.
Nosso trabalho trata continuamente de questões éticas; é moldado e dirigido, de forma permanente,
por nossas preocupações éticas. Não queremos que nossos valores atrapalhem nossa apreciação da
validade de nossas proposições sobre a vida social, mas não podemos evitar que influenciem nossa
escolha de objetos e hipóteses, ou a utilização de nossos resultados. Essa influência tampouco deveria
nos incomodar. Ao mesmo tempo, é impossível evitar que nossos juízos éticos sejam influenciados pelo
crescente conhecimento com o qual nos confronta nosso trabalho científico. Ciência e ética se
interpenetram.
Tomemos o uso da maconha. Nosso julgamento deve mudar quando substituímos sua interpretação
como entrega desenfreada a um prazer perverso pela visão de que é uma implacável compulsão psíquica
para tranqüilizar conflitos interiores, como propõem as teorias e os dados psiquiátricos. Nosso
julgamento muda novamente quando a vemos como uma recreação relativamente inofensiva, cujas piores
conseqüências, sociais e individuais, parecem provir do modo como não-usuários reagem aos usuários.40
Aqueles de nós preocupados em maximizar a liberdade humana passarão então a se concentrar na questão
do dano relativo causado pela gratificação do prazer em contraposição à sua repressão. Poderíamos
estudar a operação de sistemas de imposição, o desenvolvimento de grupos de interesse entre os
burocratas e empresários que os operam, as forças que os desviam de suas finalidades deliberadas e a
irrelevância destas para as situações e conseqüências do uso — tudo isso por meio da busca do valor da
liberdade. Estaríamos preparados para descobrir que as premissas em que nossas investigações se baseiam são incorretas (que, por exemplo, os sistemas de imposição operam de fato de maneira eficiente
e honesta para lidar com sérias dificuldades para os indivíduos e a comunidade), e conduziríamos nossa
pesquisa de maneira a tornar possível uma descoberta como esta.
Sociólogos que partem de outras posições éticas poderiam investigar as pressões dos pares, a mídia
e outras fontes de influência pessoal que levam ao uso de drogas e, assim, ao colapso da ordem social
por intermédio do mecanismo de libertação de coações sociais. Poderiam examinar a maneira sutil como
essas pressões forçam as pessoas a usar drogas e limitam a liberdade da maneira geral temida pelas
teorias psicológicas anteriores, ainda que o mecanismo envolvido seja outro. Também eles estariam
preparados para descobrir que suas premissas e hipóteses são inválidas. Sociólogos que deixassem por
completo de investigar a questão expressariam com isso sua crença de que é moralmente apropriado
ignorá-la.
As teorias interacionistas do desvio são censuradas quando os críticos consideram esse quadro
complexo das relações entre pesquisa científica e juízo moral sutil demais e insuficientemente direto.
Assim como os críticos centristas se queixam da relutância perversa da teoria interacionista em
reconhecer que estupro, roubo e assassinato são realmente desviantes, os críticos de esquerda afirmam
que ela se recusa a reconhecer a opressão de classe, a discriminação racial e o imperialismo como
realmente desviantes; ou a pobreza e a injustiça realmente como problemas sociais — seja como for que
as pessoas os definam.41 Ambos os lados querem ver suas concepções éticas prévias incorporadas ao
trabalho científico na forma de asserções factuais não inspecionadas, baseadas no uso implícito de juízos
éticos sobre os quais há um elevado grau de consenso.
Assim, se eu disser que o estupro é realmente desviante, ou que o imperialismo é realmente um
problema social, estou sugerindo que esses fenômenos têm certas características empíricas que, todos nós
concordaríamos, os tornam repreensíveis. Poderíamos, com nossos estudos, ser capazes de estabelecer
exatamente isso; mas muito freqüentemente nos pedem que o aceitemos por definição. Definir algo como
desviante ou como um problema social torna a demonstração empírica desnecessária e nos protege da
descoberta de que nossa concepção prévia é incorreta (quando o mundo não é como o imaginamos).
Quando protegemos nossos juízos éticos de testes empíricos, encerrando-os em definições, cometemos o
erro que chamo de sentimentalismo.42
Os cientistas muitas vezes querem fazer com que uma combinação complexa de teorias sociológicas,
evidências científicas e juízos éticos pareça não passar de uma simples questão de definição. Cientistas
que assumiram sérios compromissos de valor (não importa de que variedade política ou moral) parecem
em especial propensos a querer isso. Por que as pessoas querem disfarçar sua moral como ciência?
Muito provavelmente compreendem ou intuem a vantagem retórica contemporânea de não ter de admitir
que se faz “apenas um juízo moral” e alegar que se trata de um achado científico. Todos os participantes
de qualquer controvérsia social e moral importante irão tentar ganhar essa vantagem e apresentar sua
posição moral como tão axiomática que pode ser incorporada sem problema aos pressupostos dessa
teoria, pesquisa e dogma político. Sugiro à esquerda, com a qual partilho simpatias, que deveríamos
atacar a injustiça e a opressão direta e abertamente, mais que alegar que o juízo de que essas coisas são
más pode de algum modo ser deduzido de princípios sociológicos básicos ou justificado somente por
achados empíricos.
Nossas disposições e nossos juízos éticos, embora desempenhem a justo título um papel em nosso
trabalho científico, deveriam ter uma atribuição diferente em cada uma das várias atividades que
constituem o trabalho de um sociólogo. Quando testamos nossas hipóteses e proposições contra a
evidência empírica, tentamos minimizar sua influência, temendo que nosso raciocínio guiado por nossos
desejos dê tom a nossas conclusões. Quando escolhemos problemas para pesquisa, contudo, levamos em
conta (juntamente com questões práticas, como o acesso ao objeto de estudo, e preocupações teóricas, como a probabilidade de chegar a conclusões gerais significativas) a relação de nossos resultados
potenciais com problemas éticos que nos interessam. Queremos descobrir se nossos juízos iniciais são
corretos, que possibilidades de ação estão abertas para nós e para outros atores na situação, que proveito
poderia ser tirado do conhecimento que esperamos reunir. Quando decidimos que ações empreender com
base em nossos resultados, e quando decidimos a quem dar conselhos, nossos compromissos éticos
dominam claramente nossas escolhas — mesmo que ainda queiramos ser precisos em nossa avaliação
das conseqüências de qualquer dessas ações. Finalmente, por vezes partimos das ações que queremos
empreender e das pessoas que queremos ajudar, e com base nisso escolhemos problemas e métodos.
As críticas “maluco-beleza”. Alguns críticos afirmaram que as teorias interacionistas do desvio, embora
pareçam contrárias ao establishment, de fato o apóiam, ao atacar funcionários de nível inferior de
instituições opressivas, deixando ilesos os superiores hierárquicos responsáveis pela opressão e, de fato,
ajudando-os, ao dedurar subordinados indisciplinados.43
No estado atual de nosso conhecimento, só podemos lidar com essas questões especulativamente.
Não se apresentou qualquer evidência em apoio a essa crítica, nem poderíamos encontrar facilmente
evidências para refutá-la. Ela diz respeito à orientação ética geral das teorias interacionistas, bem como
a questões factuais das conseqüências da pesquisa e da teorização, e pode ser contestada nesse terreno.
As teorias interacionistas do desvio, como as teorias interacionistas em geral, prestam atenção à
forma como os atores sociais se definem uns aos outros e a seus ambientes. Prestam particular atenção a
diferenciais no poder de definir; no modo como um grupo conquista e usa o poder de definir a maneira
como outros grupos serão considerados, compreendidos e tratados. Elites, classes dominantes, patrões,
adultos, homens, brancos — grupos de status superior em geral — mantêm seu poder tanto controlando o
modo como as pessoas definem o mundo, seus componentes e suas possibilidades, e também pelo uso de
formas mais primitivas de controle. Podem usar meios mais primitivos para estabelecer hegemonia. Mas
o controle baseado na manipulação de definições e rótulos funciona mais suavemente e custa menos, e os
grupos de status superior o preferem. O ataque à hierarquia começa com uma ofensiva a definições,
rótulos e concepções convencionais de quem é quem e o que é o quê.
A história nos impeliu cada vez mais na direção de modos disfarçados de controle baseados no
monitoramento das definições e rótulos aplicados às pessoas. Exercemos controle acusando pessoas de
atos desviantes de vários tipos. Nos Estados Unidos, indiciamos dissidentes políticos por uso ilegal de
drogas. Quase todos os Estados modernos fazem uso de diagnósticos, estabelecimentos e pessoal
psiquiátricos para confinar tipos politicamente perturbadores tão variados quanto Ezra Pound ou Z.A.
Medvedev.44 Quando estudamos como os empreendedores morais conseguem fazer com que regras sejam
criadas e como impositores aplicam essas regras em casos particulares, estamos estudando como os
grupos de status superior de todo tipo mantêm suas posições. Em outras palavras, estudamos algumas das
formas de opressão e os meios pelos quais elas obtêm o status de normal, “cotidiana” e legítima.
A maior parte das pesquisas no modo interacionista concentrou-se nos participantes imediatos de
dramas localizados de desvio: os que se envolvem em várias formas de crime e vício, e aqueles
impositores com que se encontram em suas rotinas diárias. Tendemos mais a estudar policiais, atendentes
de hospitais psiquiátricos, guardas de prisão, psiquiatras e assemelhados, e menos seus superiores ou os
superiores de seus superiores. (Há exceções: o estudo da administração carcerária feito por Messinger,
pesquisa entre gerentes industriais de Dalton; a aplicação feita por Skolnick da teoria do desvio à
política de protesto nos Estados Unidos. 45)
Mas, além de não ser exclusivo nem inevitável, o foco em autoridades de nível inferior tem o efeito
real de lançar dúvida sobre autoridades de nível mais alto responsáveis pelas ações de seus
subordinados. Elas podem ordenar essas ações explicitamente, de forma velada — de modo que possa negar tê-lo feito, se necessário —, ou simplesmente permitir que aconteçam por incompetência ou