Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 9 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 2

 

Quando Bree acordou, assustada, estavam entrando em um posto de combustível.

— “The Trapeze Swinger”, do Iron and Wine — disse Leila, enquanto soltava o cinto de

segurança. — Se você estiver só um pouco cansada, não consegue ficar acordada até o fim da

música.

Bree alongou os músculos, tentando encontrar um jeito de acordar cada um deles ao mesmo

tempo.

— Fiquei apagada por quanto tempo?

— Não muito. Meia hora mais ou menos. — Leila parou o carro ao lado de uma das bombas.

— Desculpa se te acordei, preciso abastecer.

— Não, tudo bem — Bree respondeu, piscando para afastar o sono dos olhos. — Odeio

dormir, de qualquer forma. Sempre tenho a sensação de estar perdendo alguma coisa.

Leila saiu do carro e ficou encostada nele enquanto enchia o tanque. Bree abriu a porta e se

juntou a ela, estreitando um pouco os olhos para o sol do meio do dia. Ela olhou ao redor,

notando que o posto era parecido com um em Reno, inclusive com as árvores e a listra na janela

da frente da loja de conveniência. Alexis e ela costumavam parar lá e comprar petiscos para levar

ao cinema, logo quando Alexis começou a dirigir e o pai delas adoeceu. Bem, antes de Alexis

conhecer o noivo, Matt. Skittles e um saco de batatas, sempre.

— Sei o que quer dizer — falou Leila. Ela estava fazendo aquela coisa de morder a pele entre

o polegar e o indicador, de novo. — Quer alguma coisa da loja de conveniência?

— Vou com você — respondeu Bree. Ela esperou Leila começar a andar e então pegou a

bolsa no banco de trás e a pendurou no ombro. Passaram por um homem na casa dos vinte anos

usando o leitor de cartão de crédito na bomba automática. Ele as notou passando, e Bree quase

pôde sentir as cantadas idiotas e ofensivas que desfilavam por seus olhos. Ela conteve o impulso

de atirar alguma coisa nele e entrou na loja de conveniência.

O atendente era alto e ostentava um bigode. Seu porte devia ter sido atlético um dia, mas ele

estava bem longe da sua melhor forma. Ele as encarou sem interesse, depois voltou a assistir

alguma coisa na pequena tevê ao lado do caixa.

Leila seguiu para os fundos da loja, completamente ocupados por geladeiras de bebidas. Bree

a acompanhou e cruzou os braços, depois olhou para trás para ver se o funcionário continuava distraído. Ela abriu a bolsa e a passou para o lado direito, onde estava Leila. Então abriu a porta

de uma geladeira e, lenta e casualmente, colocou duas garras de água e uma lata de chá na bolsa.

Então fechou a porta com delicadeza e se afastou, cruzando os braços de novo.

Leila deu um passo para o lado e se aproximou de Bree, mantendo os olhos nas bebidas diante

dela. Bree notou que era bem mais alta que ela, talvez doze ou quinze centímetros. Era mais

magra também, devido aos meses na estrada. A pele mais escura, queimada de sol, e talvez não

estivesse tão limpa. Leila se inclinou para Bree com um frágil sorriso.

— O que foi isso?

— Minha alma está coçando — Bree respondeu. — Nunca furtou nada antes?

— Não, na verdade não.

— Parece bobo, mas é pura adrenalina.

Leila não parecia tão certa disso, olhando para o funcionário.

— Curtir o dia nem sempre tem a ver com algo cheio de significado — Bree argumentou,

enfiando outra lata de chá na bolsa. — Às vezes é só se entregar a um capricho idiota que te faz

sentir viva.

Leila deu de ombros, como se quisesse dizer “e por que não?”, e se aproximou da geladeira

bem na frente de Bree. Ela a abriu, mantendo as costas para o funcionário, e enfiou a mão lá

dentro, pegando a primeira coisa em que tocou. Guardou o produto na bolsa de Bree, os olhos

arregalados de excitação.

— Sentiu? — perguntou Bree.

Leila riu e então sussurrou um pouco alto demais:

— Vamos pegar mais!

Elas pegaram dois refrigerantes e um energético; Bree pegou uma garrafa pequena de água e a

segurou para preservar as aparências. O funcionário estava distraído, ou simplesmente não se

importava com nada. Mantendo a expressão mais séria possível, elas se dirigiram para o corredor

de doces, onde a operação se mostrou um pouco fácil demais. As barras de chocolate cabiam

perfeitamente na palma da mão, as embalagens justas demais para fazer qualquer barulho. As

duas furtaram alguns punhados e Bree as escondeu em uma das camisetas na bolsa.

Elas dobraram o corredor, e Bree quase tropeçou no display de batatas. Agora seria um

desafio. O corredor era mais próximo de onde o funcionário estava, a maior parte dele ficaria

visível caso ele levantasse a cabeça. E um pacote de batata faz barulho assim que tocamos nele,

como se tivesse um alarme. E, em algum lugar sob tudo isso, estava a lembrança dela e de Alexis

no cinema havia muitos anos, tentando pegar batatas sem fazer barulho, a versão delas de

Operação.

A bolsa de Bree estava pesada como não ficava havia muito tempo, a alça esticada com o peso

dos produtos furtados, a pressão revivendo o ardor da queimadura de sol. Leila se ajoelhou, fingiu

amarrar os sapatos e enfiou na bolsa pacotes de palitos de carne-seca e sementes de girassol. Bree

estava segurando uma embalagem de ursinhos de goma e fingia ler as informações nutricionais.

Ela ouviu um barulho e levantou a cabeça. O funcionário estava segurando o celular e parecia consultar a lista de contatos ou ler mensagens, como se implorasse para alguém tirá-lo daquela

monotonia. Ele olhou para as duas, os olhos se demorando um pouco mais em Leila, que

continuava ajoelhada, com o traseiro apontando para ele. Bree ajeitou a alça da bolsa, tomando

cuidado para não sacudi-la.

— Vou ali fora fumar — avisou ele, com a voz ardida como Bree imaginava que fosse —, se

as senhoritas não se importam. Gritem quando quiserem pagar.

— Beleza.

Ele saiu de trás do balcão e passou pela porta. Elas podiam vê-lo através do vidro abrindo um

novo maço de cigarros, batendo-o no dorso da mão sem nenhuma pressa.

— Ele está facilitando demais para nós — comentou Leila, meio desconfiada. Depois olhou

para as câmeras de segurança atrás do caixa.

— As pessoas têm uma longa e estúpida tradição de confiar erroneamente em quem

consideram atraente — disse Bree, passando para a seção de café e jogando duas rosquinhas

cobertas de açúcar em um saco de papel.

Leila pôs as rosquinhas na bolsa de Bree e riu alto.

— Caramba, é muita coisa. — E abriu um sorriso malicioso que falou diretamente à alma de

Bree. — Vamos ver quanto a gente consegue levar.

Elas ainda pegaram três burritos congelados, alguns pacotes de macarrão instantâneo, uma

garrafinha de molho apimentado e até uma intrigante miniatura de kit de costura vendido por

dois dólares e que estava exposto entre as embalagens de óleo para motor e aditivo para radiador.

Levaram tanto quanto cabia na bolsa de Bree, e depois, só por diversão, pegaram mais um pouco:

um pacote de balas de alcaçuz, o que impediu que o zíper da bolsa fechasse por completo. A

embalagem aparecia na abertura como o focinho molhado de um bichinho de estimação curioso.

Do lado de fora, o funcionário fumante olhava distraído para a rampa de acesso da rodovia. O

cigarro já queimara até o filtro, mas ele continuava ali.

Bree teve uma ideia. Ela se aproximou da foto de uma celebridade montada em um display de

papelão que estava perto de uma pilha de caixas de refrigerante. Pegou o display com cuidado,

para não derrubar tudo.

— O que você está fazendo? — Leila perguntou.

Bree lhe entregou a silhueta em papelão e pegou uma embalagem amarela de chiclete de cima

do balcão.

— É muito mais excitante quando eles podem ver o que você está roubando. Vamos sair

juntas e sorria.

Leila hesitou, mas em seguida segurou a porta aberta para Bree.

— De todas as coisas que pensei que eu podia ser, nunca imaginei que seria uma viciada em

adrenalina. Você está me corrompendo.

— Isso é só um nome que as pessoas chatas dão àquelas que, como a gente, gostam de se

divertir — respondeu Bree, ciente de que estava se exibindo demais, mas gostando do som das

palavras, de qualquer forma, acreditando que eram verdadeiras. Ela saiu e, no mesmo instante, se dirigiu ao funcionário: — Deixei dez dólares em cima do balcão. — E mostrou a garrafa de água

e a embalagem de chiclete. — Se deixar a gente levar o display, pode ficar com o troco.

O olhar vago dele passou de Bree para Leila, que segurava a silhueta de papelão. Era uma

expressão que ela já vira antes, pessoas focadas demais na própria vida. Então o homem riu e deu

de ombros.

— Se cuidem, meninas.

Elas seguiram lenta, porém triunfantemente para o carro, e ali dentro começaram a rir, o tipo

de risada maníaca que se recusa a parar, que aponta tudo o que há em volta e diz: “Olha, aquilo é

engraçado também”. Leila jogou o display no banco de trás e, ainda rindo, apoiou a testa no

ombro de Bree. Quando conseguiram se controlar, Leila ligou o carro e Bree se deu conta de que

havia um bom tempo não dividia sua alegria com alguém. Ela ria com outras pessoas, claro, mas

eram gargalhadas induzidas pelas drogas ou pela televisão. Risadas isoladas, solitárias. Dessa vez...

bem, era fraternal.