Perdidos por aí
Capítulo 4
Bree só precisava dar uma leve cutucada no volante para o Mercedes mudar de faixa na rodovia.
Essa não era a primeira vez que ela dirigia. De vez em quando, Alexis a levava para praticar pelo
bairro, ou nos amplos estacionamentos dos shopping centers em Reno. Mas essa era a primeira
vez que ela sentia a alegria de dirigir e como um carro podia fazer o motorista se sentir mais
poderoso, como uma besta livre.
Quando o tráfego começou a ficar mais lento, Bree pegou a saída seguinte. Dirigia com
cuidado e sem muita perícia pelas ruas da cidade. Ela voltou para o centro, procurando uma
plateia diante da qual pudesse exibir secretamente o carro roubado.
— Para aqui — Leila sugeriu, apontando para uma vaga pequena. — Vamos tomar um
sorvete para comemorar.
— Comemorar com sorvete?
— Não tem nada melhor — comentou Leila —, nem álcool. É o segredo que todo pai
conhece por instinto: sorvete faz tudo melhorar. Fico surpresa quando penso que os hospitais
não têm um estoque de todos os sabores.
Bree pensou na época em que os pais estavam no hospital, em como ela e Alexis costumavam
ir à sorveteria com frequência, ou para passar o tempo, ou porque a mãe não conseguia comer
outra coisa.
— Agora você disse tudo — ela respondeu enquanto estacionava o carro. Quando desceram,
Bree pensou em outra coisa: — Aliás, como você sabe disso? Que os hospitais não têm estoques
de sorvete. Quem foi visitar?
Leila virou rápido, como se tivesse sido pega fazendo algo errado. Então baixou os olhos e
deu de ombros.
— Minha irmã mais nova teve amidalite.
Elas encontraram uma sorveteria perto dali. A decoração girava em torno de uma velha
máquina de refrigerante, um longo balcão com banquetas e, do lado de fora, um toldo listrado
sobre duas mesas de aço inoxidável.
— Aqui parece um lugar em San Francisco — comentou Bree, puxando uma cadeira e
virando-a de frente para a rua. — Lá tinha todos aqueles sabores malucos, tipo abacaxi assado,
chocolate com pimenta e manjericão.
Leila lambeu seu sorvete de morango e pôs os pés na cadeira diante de si.
— Deve ser incrível.
— É. Eu raramente tinha dinheiro para ir lá, o que tornava tudo ainda melhor quando eu
podia ir.
— Você ficou lá por quanto tempo?
— Só duas semanas, logo depois que saí de casa — respondeu Bree, observando o trânsito.
— Eu nunca estive lá. Como foi?
— Não lembro de muita coisa, para ser honesta — Bree deu risada.
Era de certa forma divertido ver todo mundo sofrendo e suando dentro dos carros. Bree
gostava de observar os detalhes: gravatas afrouxadas com um ou dois puxões e então esquecidas;
conversas gritadas em fones de ouvido escondidos; rabos de cavalo afrouxando como tecido
desfiado.
— Vamos — disse Leila, terminando de comer a casquinha de seu sorvete. — Já faz um
tempinho desde a última descarga de adrenalina. Vamos encontrar alguma coisa para fazer.
Bree e Leila passaram por um parque movimentado onde aconteciam várias partidas da liga
infantil. As quadras de basquete eram um borrão de camisetas e shorts coloridos. Nuvens de
insetos rodeavam as lâmpadas, e Bree estacionou, mas manteve o motor ligado por causa do ar-
condicionado, então sentiu o cheiro de cigarro e decidiu abrir um pouco as janelas. Uma corrente
de ar morno entrou pela fresta.
Bree pensava no desenrolar do seu dia em termos de temperatura, a começar pela queimadura
de sol no acostamento, depois o calor insuportável no carro de Leila, o primeiro choque gelado
no Mercedes e agora a maneira quase milagrosa como o anoitecer tornava o ar agradável.
— As pessoas não sabem apreciar a rotação da Terra — ela comentou, encaixando um dedo
na abertura da janela.
Leila riu.
— Esse foi um comentário meio de maconheiro.
Bree deu de ombros, se deliciando com a sensação do ar no dedo.
— Não, parei com essas porcarias todas quando saí de San Francisco. Um ou outro
comentário meio maluco faz parte de curtir o dia. Em algum momento, a apreciação acaba
simplesmente transbordando.
Leila abriu um pouco o vidro e pôs a mão para fora.
— Por que você e sua irmã não se davam bem? Você é uma das pessoas mais legais que já
conheci.
Bree virou para encarar Leila com um sorriso.
— A gente se desentendia. Ela era sempre muito certinha, e eu... sou como sou. E essa aqui é a
minha versão mais calma. Há alguns meses eu era mais, humm... agressiva em relação a me
divertir.
— E você disse que ela queria mandar em você?
— É. Às vezes parecia que estávamos só representando. Ela ficava furiosa, brigava comigo, e
eu respondia com aqueles clichês exagerados de adolescente, tipo, “Você tá acabando com a
minha vida” — Bree recitou com uma voz irritante, abrindo completamente a janela. — Eu ficava
esperando a Alexis sorrir, ou chorar, ou qualquer outra coisa. Mas tudo o que ela queria fazer era
me disciplinar, e aquilo só me deixava ainda mais irritada. Acho que, de algum jeito, eu esperava
que o que tínhamos enfrentado fosse nos unir, tipo, uma ponte sobre o abismo que separava
nossa personalidade. Em vez disso, ela começou a namorar um estudante de direito e parecia me
odiar mais a cada dia.
Leila não falou nada por um tempo. As duas olhavam para o jogo na quadra.
— Como seus pais morreram?
Bree cutucou o couro do volante.
— Minha mãe teve câncer de pulmão. Ela adoeceu primeiro. Eu tinha catorze anos, a Alexis
tinha dezoito. — Ela olhou para Leila, depois deslizou um dedo pelo revestimento da porta do
carro, incapaz de manter as mãos quietas. — Meu pai morreu menos de um ano depois. Às vezes
não sei se devo me sentir grata ou apavorada por já ter vivido tantas vidas aos dezesseis anos.
Bree suspirou, depois balançou a mão no ar morno.
— Fico feliz por ter partido — disse, virando para Leila com um sorriso. — Posso curtir mais
dias.
— Foi um dia legal — Leila comentou.
— Muito legal — Bree concordou, contente por Leila não insistir no assunto. — E agora?
— Não sei. Estava pensando em voltar para a estrada ainda hoje. A gente pode levar este carro
de volta, pegar o meu e seguir para o norte por mais algumas horas.
— Onde você costuma dormir?
— De vez em quando alugo um quarto de hotel, mas é solitário pra caramba, prefiro dormir
no carro. — Leila diminuiu a intensidade do ar-condicionado e abriu toda a sua janela, pondo a
cabeça para fora para sentir o cheiro do ar. — Você está mais do que convidada a vir comigo, se
não tiver outros planos.
— Maravilha. Sem planos. Exatamente como eu gosto.
— Que a aventura continue, então — Leila afirmou, como se lesse os pensamentos de Bree.
Um grito soou no campo de futebol. Bree observou o time que acabara de marcar um gol
correr para se abraçar, os pais aplaudindo loucamente, a felicidade estampada no rosto de todos.
A outra equipe olhava a comemoração como se quisesse ser convidada.
— E então — Bree falou quando pôs o cinto de segurança e ligou o motor —, por que a
aurora boreal?
— É minha obsessão há um tempo. Meu portfólio do colégio não ficaria completo sem isso
— respondeu Leila, e, no mesmo instante, uma viatura da polícia fez a sirene soar uma vez atrás
delas. O som desapareceu quase tão depressa quanto aparecera, como alguém que pigarreia para
interromper uma conversa sem parecer deselegante. Luzes vermelhas e azuis brilharam dentro do
carro. Outra viatura se aproximou e parou exatamente atrás do Mercedes. O segundo carro
acendeu seu holofote, e Bree desviou o olhar do brilho ofuscante no retrovisor.
— Quais são as chances de não estarem atrás de nós? — perguntou Leila.
Dois policiais desceram de cada carro com a mão no revólver. Um deles apontou uma
lanterna para o Mercedes, o que parecia um pouco redundante, considerando o holofote do carro
de trás. Eles se aproximaram a passos lentos pelos dois lados do automóvel. Bree protegeu os
olhos das luzes brilhantes e esperou que tudo acabasse depressa.
O jogo de futebol havia parado. Todo mundo olhava para o Mercedes e para as viaturas, e os
adultos tentavam sem muito empenho fazer as crianças voltarem a se concentrar na partida,
embora também estivessem distraídos.
Bree se sentiu meio mal pela bola rolando lentamente para fora das linhas do campo,
temporariamente esquecida. Imaginava que nada fazia uma bola mais feliz do que ser chutada
pelo campo, sentir as folhas de grama cedendo sob seu peso. Se não fosse pela real possibilidade
de levar um tiro, Bree teria saído do carro, corrido até lá e chutado a bola. Chutaria com força, ela
passaria por cima do gol, sairia do campo, atravessaria a rua e passaria por cima da fileira de casas,
subindo e subindo como uma bala perdida ou um míssil destruidor.