Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 11 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 4

 

 

Bree só precisava dar uma leve cutucada no volante para o Mercedes mudar de faixa na rodovia.

Essa não era a primeira vez que ela dirigia. De vez em quando, Alexis a levava para praticar pelo

bairro, ou nos amplos estacionamentos dos shopping centers em Reno. Mas essa era a primeira

vez que ela sentia a alegria de dirigir e como um carro podia fazer o motorista se sentir mais

poderoso, como uma besta livre.

Quando o tráfego começou a ficar mais lento, Bree pegou a saída seguinte. Dirigia com

cuidado e sem muita perícia pelas ruas da cidade. Ela voltou para o centro, procurando uma

plateia diante da qual pudesse exibir secretamente o carro roubado.

— Para aqui — Leila sugeriu, apontando para uma vaga pequena. — Vamos tomar um

sorvete para comemorar.

— Comemorar com sorvete?

— Não tem nada melhor — comentou Leila —, nem álcool. É o segredo que todo pai

conhece por instinto: sorvete faz tudo melhorar. Fico surpresa quando penso que os hospitais

não têm um estoque de todos os sabores.

Bree pensou na época em que os pais estavam no hospital, em como ela e Alexis costumavam

ir à sorveteria com frequência, ou para passar o tempo, ou porque a mãe não conseguia comer

outra coisa.

— Agora você disse tudo — ela respondeu enquanto estacionava o carro. Quando desceram,

Bree pensou em outra coisa: — Aliás, como você sabe disso? Que os hospitais não têm estoques

de sorvete. Quem foi visitar?

Leila virou rápido, como se tivesse sido pega fazendo algo errado. Então baixou os olhos e

deu de ombros.

— Minha irmã mais nova teve amidalite.

Elas encontraram uma sorveteria perto dali. A decoração girava em torno de uma velha

máquina de refrigerante, um longo balcão com banquetas e, do lado de fora, um toldo listrado

sobre duas mesas de aço inoxidável.

— Aqui parece um lugar em San Francisco — comentou Bree, puxando uma cadeira e

virando-a de frente para a rua. — Lá tinha todos aqueles sabores malucos, tipo abacaxi assado,

chocolate com pimenta e manjericão.

Leila lambeu seu sorvete de morango e pôs os pés na cadeira diante de si.

— Deve ser incrível.

— É. Eu raramente tinha dinheiro para ir lá, o que tornava tudo ainda melhor quando eu

podia ir.

— Você ficou lá por quanto tempo?

— Só duas semanas, logo depois que saí de casa — respondeu Bree, observando o trânsito.

— Eu nunca estive lá. Como foi?

— Não lembro de muita coisa, para ser honesta — Bree deu risada.

Era de certa forma divertido ver todo mundo sofrendo e suando dentro dos carros. Bree

gostava de observar os detalhes: gravatas afrouxadas com um ou dois puxões e então esquecidas;

conversas gritadas em fones de ouvido escondidos; rabos de cavalo afrouxando como tecido

desfiado.

— Vamos — disse Leila, terminando de comer a casquinha de seu sorvete. — Já faz um

tempinho desde a última descarga de adrenalina. Vamos encontrar alguma coisa para fazer.

 

Bree e Leila passaram por um parque movimentado onde aconteciam várias partidas da liga

infantil. As quadras de basquete eram um borrão de camisetas e shorts coloridos. Nuvens de

insetos rodeavam as lâmpadas, e Bree estacionou, mas manteve o motor ligado por causa do ar-

condicionado, então sentiu o cheiro de cigarro e decidiu abrir um pouco as janelas. Uma corrente

de ar morno entrou pela fresta.

Bree pensava no desenrolar do seu dia em termos de temperatura, a começar pela queimadura

de sol no acostamento, depois o calor insuportável no carro de Leila, o primeiro choque gelado

no Mercedes e agora a maneira quase milagrosa como o anoitecer tornava o ar agradável.

— As pessoas não sabem apreciar a rotação da Terra — ela comentou, encaixando um dedo

na abertura da janela.

Leila riu.

— Esse foi um comentário meio de maconheiro.

Bree deu de ombros, se deliciando com a sensação do ar no dedo.

— Não, parei com essas porcarias todas quando saí de San Francisco. Um ou outro

comentário meio maluco faz parte de curtir o dia. Em algum momento, a apreciação acaba

simplesmente transbordando.

Leila abriu um pouco o vidro e pôs a mão para fora.

— Por que você e sua irmã não se davam bem? Você é uma das pessoas mais legais que já

conheci.

Bree virou para encarar Leila com um sorriso.

— A gente se desentendia. Ela era sempre muito certinha, e eu... sou como sou. E essa aqui é a

minha versão mais calma. Há alguns meses eu era mais, humm... agressiva em relação a me

divertir.

— E você disse que ela queria mandar em você?

— É. Às vezes parecia que estávamos só representando. Ela ficava furiosa, brigava comigo, e

eu respondia com aqueles clichês exagerados de adolescente, tipo, “Você tá acabando com a

minha vida” — Bree recitou com uma voz irritante, abrindo completamente a janela. — Eu ficava

esperando a Alexis sorrir, ou chorar, ou qualquer outra coisa. Mas tudo o que ela queria fazer era

me disciplinar, e aquilo só me deixava ainda mais irritada. Acho que, de algum jeito, eu esperava

que o que tínhamos enfrentado fosse nos unir, tipo, uma ponte sobre o abismo que separava

nossa personalidade. Em vez disso, ela começou a namorar um estudante de direito e parecia me

odiar mais a cada dia.

Leila não falou nada por um tempo. As duas olhavam para o jogo na quadra.

— Como seus pais morreram?

Bree cutucou o couro do volante.

— Minha mãe teve câncer de pulmão. Ela adoeceu primeiro. Eu tinha catorze anos, a Alexis

tinha dezoito. — Ela olhou para Leila, depois deslizou um dedo pelo revestimento da porta do

carro, incapaz de manter as mãos quietas. — Meu pai morreu menos de um ano depois. Às vezes

não sei se devo me sentir grata ou apavorada por já ter vivido tantas vidas aos dezesseis anos.

Bree suspirou, depois balançou a mão no ar morno.

— Fico feliz por ter partido — disse, virando para Leila com um sorriso. — Posso curtir mais

dias.

— Foi um dia legal — Leila comentou.

— Muito legal — Bree concordou, contente por Leila não insistir no assunto. — E agora?

— Não sei. Estava pensando em voltar para a estrada ainda hoje. A gente pode levar este carro

de volta, pegar o meu e seguir para o norte por mais algumas horas.

— Onde você costuma dormir?

— De vez em quando alugo um quarto de hotel, mas é solitário pra caramba, prefiro dormir

no carro. — Leila diminuiu a intensidade do ar-condicionado e abriu toda a sua janela, pondo a

cabeça para fora para sentir o cheiro do ar. — Você está mais do que convidada a vir comigo, se

não tiver outros planos.

— Maravilha. Sem planos. Exatamente como eu gosto.

— Que a aventura continue, então — Leila afirmou, como se lesse os pensamentos de Bree.

Um grito soou no campo de futebol. Bree observou o time que acabara de marcar um gol

correr para se abraçar, os pais aplaudindo loucamente, a felicidade estampada no rosto de todos.

A outra equipe olhava a comemoração como se quisesse ser convidada.

— E então — Bree falou quando pôs o cinto de segurança e ligou o motor —, por que a

aurora boreal?

— É minha obsessão há um tempo. Meu portfólio do colégio não ficaria completo sem isso

— respondeu Leila, e, no mesmo instante, uma viatura da polícia fez a sirene soar uma vez atrás

delas. O som desapareceu quase tão depressa quanto aparecera, como alguém que pigarreia para

interromper uma conversa sem parecer deselegante. Luzes vermelhas e azuis brilharam dentro do

carro. Outra viatura se aproximou e parou exatamente atrás do Mercedes. O segundo carro

acendeu seu holofote, e Bree desviou o olhar do brilho ofuscante no retrovisor.

— Quais são as chances de não estarem atrás de nós? — perguntou Leila.

Dois policiais desceram de cada carro com a mão no revólver. Um deles apontou uma

lanterna para o Mercedes, o que parecia um pouco redundante, considerando o holofote do carro

de trás. Eles se aproximaram a passos lentos pelos dois lados do automóvel. Bree protegeu os

olhos das luzes brilhantes e esperou que tudo acabasse depressa.

O jogo de futebol havia parado. Todo mundo olhava para o Mercedes e para as viaturas, e os

adultos tentavam sem muito empenho fazer as crianças voltarem a se concentrar na partida,

embora também estivessem distraídos.

Bree se sentiu meio mal pela bola rolando lentamente para fora das linhas do campo,

temporariamente esquecida. Imaginava que nada fazia uma bola mais feliz do que ser chutada

pelo campo, sentir as folhas de grama cedendo sob seu peso. Se não fosse pela real possibilidade

de levar um tiro, Bree teria saído do carro, corrido até lá e chutado a bola. Chutaria com força, ela

passaria por cima do gol, sairia do campo, atravessaria a rua e passaria por cima da fileira de casas,

subindo e subindo como uma bala perdida ou um míssil destruidor.