Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 13 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 6

 

 

Em Mission Hills, Kansas, pouca gente precisava usar a estrada depois da meia-noite em um dia

de semana, Bree logo descobriu. Depois de sair da delegacia, ela andou por cerca de meia hora

para se acalmar. E, embora ainda não conseguisse raciocinar com clareza, o hábito enraizado da

estrada se impôs e ela se viu pedindo carona. Estava parada no semáforo da rampa de acesso havia

pelo menos uma hora e o motorista do único carro que passara nem a vira.

Ela colocou a bolsa no chão e vestiu a regata verde fluorescente que usara para se proteger do

sol mais cedo. Migalhas caíram como flocos de neve quando ela tirou a regata da bolsa. Um par

de faróis brilhou distante em sua direção, mas virou à esquerda alguns quarteirões antes do acesso

à rodovia. Bree costumava achar bonitas as ruas à noite, tudo iluminado e tranquilo, os galhos, as

luzes e o asfalto calmos, como se estivessem dormindo. Agora tudo parecia tão solitário.

Ela avistou pedras espalhadas na lateral da rodovia e pegou um punhado delas. Desejando

atirá-las contra alguma coisa, escolheu o poste do semáforo do outro lado da rua. Esperava ouvir

o ruído característico do impacto da pedra contra o metal, mas errava sempre. Bree ficava com

mais raiva a cada pedra que passava pelo poste sem fazer nenhum barulho. Das pedras, do poste,

dela mesma. Mais que tudo, no entanto, sentia raiva do monólogo interior, de como seu cérebro

não parava de repetir as mesmas palavras muitas e muitas vezes na voz de Alexis: egoísta e

imprudente.

Por fim, uma pedra acertou o metal e o som ecoou pela noite. Bree ergueu as mãos e gritou

triunfante. Um carro passou pela estrada sobre o elevado sem ser visto. Depois a noite caiu no

silêncio de sempre, e a voz de Alexis retornou.

Bree sentou na calçada, os antebraços sobre as pernas, a cabeça apoiada no colo, como alguém

bêbado demais para andar, ou alguém a bordo de um avião prestes a cair.

Egoísta e imprudente. Bree queria jogar as palavras de volta na cara da irmã. Quem tinha sido

egoísta primeiro? Muito antes de Bree sair de casa, Alexis começara a passar a noite na casa de

Matt, cancelar almoços, agir como uma figura de autoridade quando tudo que Bree queria era

uma aliada. E por quê? Por causa de um estudante de direito chato e pouco atraente? Um cara

que queria passar o resto da vida lendo contratos?

Bree olhou para as pedrinhas no asfalto, para os brilhantes cacos de vidro deixados por um

acidente antigo. Tentava não pensar em quantas noites dos últimos nove meses Alexis passara sozinha na casa vazia, cercada de lenços de papel que caíam feito destroços à sua volta. Bree

tentou se convencer de que a culpa não era sua. Tentou se convencer de que a insistência de

Alexis em ser forte em vez de compassiva era a raiz do problema, mas o argumento não se

sustentava, e cada tentativa era refutada pela voz de Alexis: egoísta e imprudente.

Então ela notou que os cacos de vidro começaram a brilhar mais forte por causa dos faróis

que cortavam a escuridão. Bree ficou em pé e ergueu o polegar na pose clássica de quem pede

carona, aquele clichê insubstituível. Seu primeiro pensamento foi pegar mais pedras e atirá-las no

carro para ouvir o ruído do impacto. Mas ela conteve o impulso.

O carro era do tipo que os residentes de Mission Hills pareciam preferir, grande e luxuoso,

um SUV preto com acabamento cromado. O veículo quase passou direto, mas de repente o

motorista pisou no freio, manobrando para parar. A janela se abriu e Bree olhou para dentro do

veículo, mas manteve um pé na calçada.

O motorista tinha bolsas sob os olhos que, a princípio, Bree pensou serem apenas sombras. A

careca quase encostava no teto, e o assento mal podia sustentá-lo. Os dois últimos botões da

camisa estavam abertos, revelando pelos enrolados grudados de suor. Ele não disse nada, só a

olhou de um jeito que a fez abrir a bolsa e tatear lá dentro em busca da faca de carne.

— Preciso ir à rodoviária — Bree falou, tentando identificar o objeto no porta-copos do SUV.

— E aí? — ele respondeu, apoiando um braço sobre o banco do passageiro. Bree teve a

impressão de que ele podia abrir a porta do outro lado do carro sem ter que se mover muito.

Ela sentiu o cheiro doce e enjoativo de uísque.

— A rodoviária mais próxima — repetiu, ainda tateando entre as roupas e os restos de

comida para encontrar a faca. — Você pode me levar?

— Ah, claro, posso fazer isso sim. — Sem nem se incomodar em disfarçar que estava

tentando ver o corpo dela abaixo da linha da camiseta, ele se inclinou para a janela, derrubando a

garrafinha de uísque que levava no porta-copos. Ele nem pareceu ter notado.

Bree olhou para a estrada, esperando que talvez outro carro aparecesse. A pista estava vazia,

só uma faixa de asfalto sob as lâmpadas da rodovia, as silhuetas das árvores para além do

acostamento, nem mesmo uma casa ou uma loja fechada. Ela tirou a mão da bolsa e vasculhou os

compartimentos laterais.

— É muito longe?

— Perto — ele respondeu. — Muito perto. Mas a gente devia tomar alguma coisa antes. —

Quando ele disse isso, pareceu se lembrar da garrafa de uísque. — Ah, merda — resmungou e se

abaixou para procurar a bebida.

Em qualquer outra noite, em qualquer outro lugar, Bree teria ido embora. Teria caminhado a

noite toda até encontrar uma rodoviária, se necessário. Mas sabia que a voz de Alexis a seguiria.

Ela só queria movimento de novo.

Ela suspirou e segurou a maçaneta, mas não abriu a porta.

— Só a rodoviária é suficiente.

Ele levantou resmungando, a garrafa nas mãos. Tirou a tampa e deu uns goles.

— Um drinque — disse, limpando a boca com o dorso da mão. — Vem, entra.

Bree sentia que, com a faca na mão, entrar no carro podia não acabar sendo a coisa mais

estúpida que já fizera na vida. Não seria inteligente, admitia, mas talvez essa fosse uma daquelas

histórias que contaria um dia sobre a inconsequência da juventude. Ela abriu completamente o

zíper da bolsa e olhou dentro dela, afastando sacos de salgadinho, o kit de costura e a embalagem

de chiclete. Mas a faca não estava lá. Os policiais deviam ter confiscado.

E ainda assim ela começou a puxar a maçaneta da porta. E viu a própria imagem refletida na

porta do SUV. Parecia cansada, abatida, cercada pelo brilho alaranjado da iluminação pública que

a envolvia e formava uma espécie de halo não merecido.

O motorista ergueu as sobrancelhas e sorriu ao vê-la abrir a porta.

— É disso que eu tô falando — ele comentou.

Quando se preparava para entrar, Bree ouviu um chiado familiar e viu um automóvel parando

atrás do SUV. Os faróis iluminando seu rosto a impediam de enxergar muita coisa.

Apesar dos dois motores ligados, Bree ouviu a música que saía dos alto-falantes do carro. A

voz do cantor era mais lamuriosa do que ela apreciava normalmente, mas já sentia a urgência de

aumentar o volume. A música soou um pouco mais alta quando Leila abriu a porta e desceu para

se aproximar de Bree. Ela olhou dentro do SUV, e o motorista sorriu.

— Duas? Que bom. Tem muito de mim também.

Leila pousou a mão no ombro de Bree.

— Estou dirigindo em círculos há uma hora procurando você — sussurrou. — Achei que

você precisava de um tempo para se acalmar.

Por um momento, a voz de Alexis em sua cabeça se calou. Bree nunca se sentira tão feliz por

ver alguém.

— Bem na hora — disse, fechando a porta do SUV e provocando gritos ininteligíveis do

motorista. — Você me salvou da pior decisão da minha vida.

Quando entrou no carro de Leila, Bree viu a silhueta de papelão no banco de trás e quis rir,

mas não encontrou o riso dentro dela e se limitou a soltar o ar pelo nariz, como se seu corpo

tivesse perdido essa capacidade. Ela prendeu o cinto de segurança e aumentou o volume do rádio,

depois fechou os olhos e deixou a melodia afogar seus pensamentos. Leila pisou no acelerador e

elas saíram do acostamento.

Egoísta e imprudente, seu cérebro cochichou mais uma vez. Bree pensou no que poderia ter

acontecido se entrasse naquela caminhonete, vislumbrou como poderia ter sido o acidente.

Imaginou Alexis atendendo a outro telefonema inesperado, pensou que a irmã — mesmo em

meio à dor — poderia sentir alívio.

Os soluços explodiram de repente. Subiram-lhe à garganta antes que ela pudesse contê-los, a

deixaram ofegante antes mesmo de as lágrimas molharem seu rosto. Elas pingaram no banco

vermelho do carro de Leila, brilharam por um segundo sob as luzes da rodovia antes de

penetrarem no tecido, formando manchas escuras como sangue.

Leila não disse nada por um tempo, mas abaixou o volume do rádio e deu a Bree alguns guardanapos de papel do saco de rosquinhas que ainda estava no carro.

— Sei que você ama sua vida na estrada, Bree — ela disse, estendendo a mão para tocar a da

amiga. — Mas talvez você ame mais a ideia de amar essa vida do que a vida propriamente dita.

Bree limpou os olhos, espalhando a umidade pelos cílios. Um carro passou em sentido

contrário na pista. Os faróis se tornaram sóis brilhantes nas lágrimas que pendiam de seus cílios.

Bree limpou o nariz em um dos guardanapos que Leila lhe dera. Por um bom tempo não disse

nada, apenas sentiu as lágrimas que se recusavam a cessar, o nó no estômago que persistia

enquanto se negava a admitir o que sabia que era verdade. Mais carros passaram, iluminando o

interior do carro de Leila por um instante antes de desaparecerem na estrada, sem saber ou se

importar com o que Bree estava sentindo.

— Ela estava certa — ela disse por fim, apertando tão forte o guardanapo usado que ele ficou

com a forma de seu punho cerrado mesmo depois de ter sido jogado no lixo preso ao câmbio. —

Sou egoísta e imprudente. Pensei que estava vivendo como a gente tem que viver, sem subestimar

as coisas. Mas eu só estava sendo uma idiota, não é?

— Eu não diria isso — Leila riu.

— Não, eu fui uma cretina. Beijei o noivo dela e desapareci. Deixei minha irmã pensar que eu

estava morta. Nunca pedi desculpas. E ela só estava tentando cuidar de mim. — A voz de Bree

sumiu, a compreensão do que fizera sufocando as palavras.

— As pessoas se machucam — disse Leila, sem mudar o tom de voz. — Acontece com todo

mundo. De propósito ou não, com arrependimento ou não. É parte do que fazemos às pessoas. A

beleza está na nossa capacidade de superar e perdoar.

Bree deixou as palavras de Leila suspensas no ar. Desde que saíra de casa, pensava no beijo que

dera em Matt como um exemplo claro de curtir o dia. Beijar alguém que queria beijar, seguir

aquela vozinha interior espontânea e não olhar para trás devia ser sempre uma vitória.

Mas agora não parecia nada mais do que um impulso egoísta. As lágrimas começaram a brotar

outra vez. Ela as sentiu transbordar em silêncio, sem soluços desta vez, como Alexis chorara na

delegacia.

Bree endireitou as costas e puxou o cinto de segurança, que a apertava demais.

— Estou perdida — disse, pegando outro guardanapo para limpar o nariz. — Não sei o que

dizer para consertar tudo isso, mas ela precisa saber que estou arrependida. Temos que encontrá-

la.

— Tudo bem, nós vamos.

— Como? Não sei onde ela está. Não lembro o número do celular. Você tem o número?

Leila balançou a cabeça.

— O policial procurou o número da sua casa quando eu fui telefonar para ela.

— Então ela sumiu. — As lágrimas lhe anuviavam a visão e Bree as deixou rolar.

— Acho que sei para onde ir — disse Leila.

Enquanto o carro ganhava velocidade, Bree segurou a mão reconfortante de Leila e se

permitiu chorar.