Perdidos por aí
Capítulo 4
Leila não deixou Elliot desanimar nem por um momento. Ela agarrou o braço dele e o conduziu
diretamente para a saída.
— Nesses filmes sempre tem uma festa na casa de alguém — ela disse. — Tenho a sensação
de que caminhamos para um final feliz típico do cinema.
Elliot não disse uma única palavra. Entrou no carro dela e, pela primeira vez, notou o bizarro
display de papelão no banco de trás.
— Ele não deixa que eu me sinta sozinha na estrada — explicou Leila.
Elliot olhou para ela.
— Como assim, na estrada?
— Não sou daqui. Estou só visitando as Cidades Gêmeas, vim passar poucos dias. Na
verdade, estava indo embora quando um bêbado maluco atropelou meu carro.
— Não! Mas que filho da mãe — Elliot respondeu, sorrindo. — Para onde você está indo?
— Alasca.
— Legal. Algum motivo especial?
— Vou ver a aurora boreal. Ele quer muito ir — Leila apontou para o banco de trás. —
Nunca consigo negar o que ele pede.
Elliot riu, mas podia sentir que havia algo por trás do humor de Leila.
— É mesmo por isso que você está na estrada? Só para ver a aurora boreal?
— Não é um motivo bom o bastante? As pessoas vão a Buffalo só para ver as cataratas do
Niágara.
— Então por que a aurora boreal, e não as cataratas do Niágara?
— Acho que um milagre dos céus em meio às belezas naturais do Alasca é muito mais
interessante do que um monte de água em Buffalo. Além do mais — ela dizia enquanto dava
partida —, prometi à minha avó que iria ver a aurora boreal pessoalmente, já que ela nunca
conseguiu ir.
Elliot estudou Leila. Seus dedos, pequenos e sem anéis ou esmalte nas unhas, seguravam o
volante sem apertá-lo. A expressão dela era neutra enquanto olhava para a rua.
— Para onde eu vou?
Ele apontou para a direita, os olhos ainda fixos no perfil de Leila. Depois de mais algumas
orientações, ela deu uma olhada rápida para ele, como se estivesse verificando um dos espelhos do
carro.
— Qual é o plano desta vez? Mais alguma coisa grandiosa e cinematográfica?
— Não sei se tenho energia para mais uma apresentação como aquela. — Elliot mexeu na
manivela da janela. — Vou tentar a declaração de amor de novo. Para ser bem honesto, não fui
muito seguro na primeira vez. Quase gaguejei, e ela me interrompeu antes que eu pudesse
terminar. Não foi como em Jerry Maguire, tipo, “Você me ganhou no oi”. Ela me interrompeu e
fugiu.
— Bom, ela pode fugir, mas não se esconder.
Elliot riu, apesar da vergonha que ainda sentia da primeira tentativa com Maribel. Ele quase
podia senti-la na pele, como algo que precisava ser lavado.
— Nas circunstâncias atuais, foi a coisa mais sinistra que você podia ter dito.
— Não foi apropriado? Achei que podia ser alguma dessas coisas que dizem nos filmes.
— E é. Mas normalmente os caras maus dizem esse tipo de coisa para os bons, ou ao
contrário. É mais um clichê de filme de ação. Não tem a ver com comédia romântica.
— Ah. Bom, então esquece. — Um momento passou. — Droga, eu devia ter parado de falar
depois daquele discurso. Teria criado uma aura de mistério e sabedoria ao meu redor.
— Leila, você me atropelou no meio da noite e, apesar de não sabermos praticamente nada
um do outro, está decidida a consertar minha vida amorosa. Acredite, a aura já existe.
Quando chegaram à festa, Elliot esperava encontrar a confusão generalizada das festas de
ensino médio dos filmes: gente bêbada vomitando no jardim, casais se pegando em todos os
lugares, alguém com uma fantasia maluca correndo pela rua. O que viram foi uma rua tranquila,
sem muitas vagas para estacionar e uma casa grande com as luzes acesas. Havia música vibrando
no ar e vozes distantes.
Elliot e Leila subiram pelo caminho de pedra que atravessava o jardim e se estendia até a porta.
No centro de uma fonte, um anjo cuspia tranquilamente na larga bacia. Na porta, um cartaz
avisava: NÃO ADIANTA TOCAR A CAMPAINHA, TEM MUITO BARULHO . NÃO SE PREOCUPE, SUBORNAMOS
OS VIZINHOS, NINGUÉM VAI CHAMAR A POLÍCIA. ENTRE E BEBA. O BARRIL ESTÁ LÁ NO FUNDO.
Eles abriram a porta, liberando os sons da festa. Possivelmente havia duas músicas diferentes
tocando, embora pudesse ser resultado da falta de conhecimento de Elliot sobre música
eletrônica. Ou as pessoas riam e gritavam tão alto que o barulho parecia uma linha extra de
acordes. Havia um grupo perto da porta, pessoas bebendo goles tímidos de copos vermelhos e
olhando o relógio.
Leila e Elliot seguiram pelo corredor até a cozinha. Havia plaquinhas nas paredes apontando
onde ficavam os banheiros, a bebida e, de acordo com a mais verdadeira tradição do ensino
médio, a masmorra do sexo.
— Caramba, espero que ela não esteja na masmorra do sexo — disse Elliot.
— Com que roupa ela está? — Leila perguntou, ficando na ponta dos pés para tentar ver acima das cabeças, mas fracassando. A maioria estava de smoking e vestido de festa, destacando o
vestido amarelo simples de Leila.
— Vestido roxo e corsage de orquídea. — Eles entraram na cozinha. — Temi que ela fosse
com alguém ao baile e que esse alguém desse o corsage — Elliot comentou. Ele tinha que falar
quase dentro da orelha dela para ser ouvido com aquela música alta. — Mas ela e as amigas
disseram que não precisavam estar penduradas em um cara para ter uma noite especial. Então eu
dei para a Maribel o corsage que fiz para ela.
— Você fez um corsage pra ela?
Elliot sentiu que corou.
— Procurei na internet e aprendi a fazer.
— Que fofo — Leila sorriu. — E ela usou?
— Sim. — Ele deu de ombros. — A maioria das pessoas não entende, mas somos muito
amigos. De verdade.
Ficaram alguns minutos ao lado das bebidas na cozinha, esperando Maribel ou uma das
amigas aparecer para pegar um drinque. Um cara com uma camiseta dos Vikings, que Elliot
reconheceu por terem frequentado a mesma turma de artes no primeiro ano, ficou parado ao lado
deles como se esperasse alguém lhe servir.
— Ei, Victor! — Elliot chamou quando conseguiu lembrar o nome. — Lembra de mim?
— Não — Victor respondeu sem hesitar, ainda esperando alguém lhe servir uma bebida.
— Ah — Elliot franziu o cenho, mas então se deu conta de que nem estava tão ofendido. —
Você viu a Maribel por aí? Maribel Palacios?
— Ela está bem aí do seu lado, cara — Victor apontou para Leila.
— Certo — Elliot falou. — Obrigado.
— Ele foi muito útil — Leila disse, virando para um grupo de garotas do outro lado do bar
para perguntar por Maribel.
Maribel não era exatamente uma garota popular, mas fazia parte do conselho de alunos e
atuara em muitas peças do colégio, então Elliot deduziu que seria útil perguntar às pessoas. Mas
só duas delas sabiam quem era ela e só um cara a vira.
— Em algum lugar por aqui — ele disse, sem muita utilidade, pegando uma garrafa de vodca.
Depois de alguns minutos, eles decidiram seguir para a sala. As luzes estavam apagadas e raios
verdes cortavam a fumaça, que, assim Elliot esperava, era produzida por uma máquina, não por
um incêndio de verdade. A sala estava lotada de gente dançando, e um DJ comandava as músicas
de seu computador. Elliot achava difícil imaginar Maribel no meio daquela gente suada, por isso
eles foram para fora.
O quintal era um gramado amplo cercado de árvores, com estátuas e uma piscina. Um casal
havia se apoderado dos móveis em um canto afastado, mas as outras espreguiçadeiras tinham sido
tomadas por malucos chapados que olhavam para as estrelas. A fumaça lembrava um
conglomerado de fábricas com suas chaminés.
Elliot e Leila pararam ao lado do barril e olharam ao redor em busca de Maribel.
Dois caras que Elliot conhecia estavam na fila da cerveja. Peter Jones, que segundo boatos
tinha conseguido uma bolsa no MIT, olhou para o amigo:
— Sabe o que eu nunca entendi na vida?
— Já chegamos nesse ponto da noite? A hora da epifania?
— Tem muito mais mulher do que homem no mundo, certo? — Peter continuou, ignorando
o comentário do amigo. — Cinquenta e dois por cento da população mundial, mais ou menos.
Em todos os lugares do mundo, tem mais mulheres do que homens. É um fato matemático.
— É, e daí?
— Por que nunca fui a uma festa que refletisse essa proporção? É sério, olha em volta. Fácil,
três a um para os pênis. E isso faz desta festa um sucesso. Normalmente a proporção é de cinco
para um, pelo menos. Por que as festas desmentem as probabilidades matemáticas? Que leis
regem essas reuniões? Não entendo.
— Você precisa de uma namorada, cara.
— Preciso de uma namorada, com certeza.
Por fim, Elliot avistou uma das amigas de Maribel, Stephanie, saindo da casa. Ele não sabia
muito sobre ela, só que fazia parte da equipe do anuário. Eles a alcançaram quando Stephanie
acendia um cigarro. Ela parecia constrangida com a presença de Elliot, evitando encará-lo.
Maribel devia ter contado sobre o que acontecera no baile.
— Oi, Steph. A Maribel está por aqui?
Ela soprou a fumaça e olhou para Leila com curiosidade.
— Sim. Por quê?
— Eu preciso falar com ela.
Ela bateu a cinza com o braço esticado para não sujar o vestido.
— Você sabe que só fala comigo quando está procurando a Maribel, né? Sempre que vejo
você se aproximando, penso: Onde está a Maribel? — disse e olhou para Leila como se tentasse
identificá-la, depois encarou Elliot. — Na próxima vez em que se apaixonar por uma garota,
pode ser uma boa ideia conversar com as amigas dela.
Elliot não sabia o que dizer. Gaguejou alguma coisa, então olhou para Leila como se ela fosse
sua intérprete.
— O que foi? Ela tem razão — Leila falou.
Steph suspirou, levando o cigarro à boca.
— Eu a vi lá dentro — disse. — Estava subindo a escada.
— Obrigado. — Elliot sentia que devia dizer mais alguma coisa, mas Leila também agradeceu
e começou a puxá-lo pelo quintal de volta para a casa.
Eles seguiam lentamente por entre as pessoas, Leila olhando ao redor e apontando uma ou
outra coisa, como se Elliot nunca tivesse ido a uma festa de colégio e visto as pessoas bebendo e
comendo.
— Tem dezoito pessoas no celular só neste cômodo — Leila disse atrás dele conforme
tentavam atravessar a cozinha e passar pela pista de dança. — Para quem estão mandando mensagens, se todo mundo que conhecem está aqui?
— Você está falando sério? — Elliot perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— Aquele cara quase mergulhou o telefone no molho de cebola! — Leila gritou com prazer.
— E aquela menina parece que vai... É. Vomitou. E ninguém se incomodou. Elliot, por que
ninguém se incomoda?
— As pessoas não vomitam nas festas que você frequenta?
Leila ignorou a pergunta, olhando em volta para ver mais coisas.
Elliot continuou seguindo pela festa com Leila em seu encalço. Ele tinha imaginado que a
escada seria área restrita, mas não havia cordão de isolamento, e as plaquinhas convidativas
apontavam: MAIS BANHEIROS, ARMÁRIO PARA OS CASACOS E OUTROS LUGARES NOS QUAIS SER
FLAGRADO ENQUANTO PEGA ALGUÉM OU COISA PIOR .
— É melhor isso que a masmorra do sexo, né? — Leila opinou. Elliot gemeu sem querer. —
É brincadeira — ela disse e deu um tapinha encorajador nas costas dele. — Espera, não. Não
estou brincando. Isso é melhor que a masmorra do sexo. Desculpa por ter mencionado isso.
— Leila?
— O que é?
— Aquela aura de mistério e sabedoria de que falamos antes... Quer voltar para ela?
— Foi a forma mais gentil que alguém já usou para me mandar calar a boca — ela reconheceu
e começou a subir a escada.
Passaram por uma garota desmaiada no meio da escada. Leila deu uma olhada impassível para
as fotos de família na parede. No topo da escada havia outra saleta com um sofá e uma TV de tela
grande. Pessoas bêbadas jogavam videogame e dividiam um narguilé, tentando soprar anéis de
fumaça. Um casal namorava na ponta de um sofá em L. O vestido da garota era roxo, e por um
segundo Elliot sentiu o estômago despencando em queda livre. Mas então a menina virou para
olhar por sobre o ombro, para Elliot e Leila, e ele viu que era uma ruiva com uma argola no nariz
e que o vestido nem era do mesmo tom de roxo.
Eles seguiram em frente, batendo nas portas e entrando nos cômodos. Cada vez que Leila
empurrava uma porta, Elliot prendia a respiração, esperando que Maribel não estivesse lá dentro
com alguém. Em um dos quartos, as pessoas estavam sentadas no chão ouvindo Pink Floyd com
as pupilas dilatadas. O banheiro tinha cheiro de vômito. A suíte master era a única trancada.
No fim do corredor, eles alcançaram a única porta que não tinham verificado. Estava
entreaberta, e dava para ver que o quarto estava escuro. Havia um papel preso à porta, um aviso
sobre assumir o risco ao entrar. Leila pousou a mão sobre a maçaneta.
— Espera — Elliot tocou seu ombro. — E se ela estiver aí com alguém?
— As luzes estão apagadas.
— Isso não é exatamente reconfortante, Leila.
— Talvez ela esteja sozinha aí dentro, dando um cochilo ou alguma coisa assim. Não estou
ouvindo nenhum barulho.
Leila empurrou a porta.
— Tem alguém aqui?
Ela deu um passo à frente, e Elliot a seguiu para enxergar melhor o interior do cômodo.
Barulhos indistinguíveis vinham de algum lugar do quarto, e ele teve a forte sensação de que tinha
mais alguém ali.
— Oi? — ele tentou. — Maribel?
Os ruídos continuaram, quem quer que os estivesse produzindo não se importava com a
presença deles ali. Elliot tateou a parede em busca do interruptor. Ele mal conseguia ver Leila se
movendo com os braços estendidos para frente. Ela gritou quando o pé ou a canela se chocou
contra alguma coisa.
Assim que Elliot achou o interruptor e acendeu a luz, a porta bateu atrás deles. Ele não sabia a
que reagir primeiro: à surpresa por ter sido trancafiado ali, ao casal se agarrando furiosamente na
cama (pelo menos não era Maribel) ou às paredes cobertas de prateleiras de bonecas Repolhinho.
Centenas de carinhas de plástico assustadoras olhando para eles como se estivessem em um filme
de terror de gosto duvidoso. Algumas eram tão velhas que tinham perdido todos os cabelos, ou
um membro, ou os traços faciais tinham sido apagados, deixando-as sem rosto, exceto pelo relevo
do nariz, uma mancha azul onde devia existir um olho.
O casal na cama, felizmente ainda vestido, finalmente notou a luz acesa. A garota sentou na
cama, olhou para Leila e para Elliot, depois deu uma bofetada no rosto do namorado.
— Tacos no jantar, baile de formatura, e você manda mensagem para os seus amigos virem
interromper de novo? Estou de saco cheio de você.
— Amor, não conheço essas pessoas — gritou Carl, levando a mão à bochecha vermelha.
Enquanto Leila ria, Elliot sentiu que começava a hiperventilar. Podia sentir os olhos das
bonecas Repolhinho nele. O leve sorriso desenhado em cada rosto de plástico dava a impressão
de que elas debochavam dele. Até Carl conseguia descolar a garota, mesmo que estivesse prestes a
perdê-la agora. Ele correu para a porta e sacudiu a maçaneta com desespero. Estava trancada por
fora. Ele sacudiu a maçaneta de novo e gritou por socorro, mas só ouviu os sons da festa lá
embaixo.
— Muito engraçado — Elliot gritou. — Vocês trancaram a gente aqui. Agora deixem de ser
babacas e abram a porta.
A voz de uma garotinha soou do outro lado.
— Vocês não sabem ler? Esse quarto é meu, e precisam da minha permissão para entrar. E
agora também vão precisar dela para sair.
— É uma criança? — Leila perguntou. — O que uma criança está fazendo nesta festa?
— Menina, estamos só procurando uma pessoa. Por favor, abra a porta!
— Não — a vozinha respondeu, já se afastando.
Elliot esmurrou a porta, mas nem ele mesmo podia ouvir muito bem as batidas com a música
eletrônica pulsando pela casa. Ele apoiou a testa na madeira.
— Você prometeu que esta noite seria especial! — a namorada de Carl berrava entre soluços.
Elliot bateu a cabeça na porta. Não era assim que essa noite devia acontecer. Ele sentiu a mão
de Leila em seu ombro.
— Ei, a gente vai sair daqui. Não se preocupe.
— Olha só o que vocês fizeram — Carl falou, apontando para a namorada que soluçava
contra os travesseiros.
— Desculpa — Leila respondeu —, a gente estava procurando uma pessoa.
— É, e ela não está neste quarto. Agora vocês podem dar o fora daqui?
Leila fez uma cena, sacudindo a maçaneta e puxando a porta.
— Você ainda não entendeu que estamos trancados aqui?
— Que seja — ele resmungou, voltando a se concentrar na namorada, cujo corpo era
sacudido por soluços. Carl tentou tocar as costas dela, mas a garota o empurrou. — Amor, para
com isso, eu te amo. Não precisa fazer tanto drama.
Elliot olhou pasmo quando a garota se levantou e sorriu.
— Ama mesmo?
Segundos depois eles estavam se pegando de novo, e o barulho lembrava o de alguém
mastigando com a boca aberta.
Elliot apoiou as costas na parede e escorregou até o chão, esfregando o rosto com a mão
saudável. Leila se sentou ao lado dele.
— Eu morri, não é? — ele perguntou. — Você me atropelou e agora estou no inferno.
— Acho que devo ter matado nós dois — Leila respondeu, fazendo uma careta em direção à
troca de saliva que acontecia na cama.
— Sabe abrir portas com grampo?
Leila balançou a cabeça.
— Não. E você, acha que consegue arrombar a porta?
— Gostaria de dizer que sim, mas provavelmente vou acabar tendo que voltar para o hospital.
— Elliot olhou para a mão enfaixada, imaginando se as cicatrizes seriam mais que uma lembrança
dolorosa dessa noite. — Não sei o que é pior: eles ou as bonecas. Tenho a impressão de que elas
vão ganhar vida e tentar fazer cócegas em mim. — Ele estremeceu.
Elliot bateu com o cotovelo na porta atrás dele, esperando que alguém ouvisse o barulho, ou
que a garotinha desistisse.
— Eu te amo muito — Carl falou entre um beijo e outro, mas a garota continuava soluçando.
Ela se afastou e piscou para conter as lágrimas.
— Ama mesmo?
Leila e Elliot olharam para o casal com um misto de espanto e repulsa, e os dois voltaram a se
beijar, sussurrando coisas não tão doces entre beijos barulhentos.
— A gente tem que sair daqui — disse Elliot.
— Imediatamente — Leila concordou, olhando ao redor como se pudesse encontrar uma
segunda porta. Depois pôs as mãos na cintura. — A janela! — gritou. — Uma casa como esta não teria quartos sem janelas! — E seguiu para a parede ao fundo, de onde começou a tirar as bonecas
das prateleiras. Como imaginava, as bonecas Repolhinho escondiam uma janela.
Elliot ficou de pé e se apressou para perto de Leila. Felizmente, as prateleiras não eram
chumbadas à parede, mas encaixadas em fendas em vigas fixas dos dois lados da janela. Os dois
começaram a remover as prateleiras, deixando-as no chão ao lado das bonecas, que eram tão
assustadoras vistas de cima quanto de baixo.
Quando Elliot removeu as últimas prateleiras, Leila estendeu a mão para a janela.
— Maribel, aí vamos nós — disse, e empurrou a vidraça para cima. Ela não se mexeu. Antes
que Elliot pudesse desanimar, no entanto, ela puxou a trava que mantinha a janela fechada.
Tentou novamente, e dessa vez a vidraça subiu com facilidade, deixando entrar o ar morno do
verão. Elliot passou a cabeça pela abertura. Havia uma laje bem embaixo deles, poucos metros
acima do jardim. Mesmo sem o desespero de ter sido trancado naquele quarto, a descida não
pareceria tão assustadora.
Leila subiu no parapeito. Usando praticamente só uma das mãos, Elliot a seguiu com cuidado.
Eles pisaram na laje, as mãos apoiadas na parede da casa para se equilibrar. Leila olhou para Elliot
e sorriu:
— A gente não vai desistir, nem que leve a noite toda. Você vai ter seu grande momento
cinematográfico.
E então eles pularam.