Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 1 de 36

Páginas do PDF

Perdidos por aí

Dedicatória

PARA MINHA FAMÍLIA

1

 

Hudson podia ouvir o motor do carro a quarteirões de distância. Ele saiu da oficina e fechou os

olhos, escutando, separando os sons para saber exatamente o que teria de consertar antes mesmo

de abrir o capô.

Parado ali na porta, ouvindo o carro ainda distante, Hudson podia esquecer todo o resto. O

colégio e as garotas, o futuro e se os amigos eram mesmo canalhas ou só fingiam, assim como ele.

De olhos fechados, podia reduzir o mundo a um único motor e nada mais; um mundo no qual era

capaz não só de nomear cada pequena parte, como também sabia para que cada uma delas servia,

como funcionava, como consertá-la.

Ele abriu os olhos quando ouviu o chiado do freio do automóvel, que reduzia a velocidade

para entrar na oficina. Era um velho Plymouth Acclaim, o tipo de carro que ou se deixa morrer

com prazer, ou se ama do fundo do coração e se recusa a desistir dele. O veículo já tinha tido dias

melhores, a pintura vermelha estava lascada e desbotada, o silenciador do escapamento já não

silenciava muito. Hudson acenou, chamando o motorista para perto. Ele ainda estava

identificando os problemas quando a garota desligou o motor e desceu.

Ele se permitiu apenas uma rápida olhada na direção dela e, assim que a viu, soube que aquela

era uma mulher capaz de nos fazer pensar que a vida não está completa a menos que ela faça parte

dela. A garota era um amontoado de contradições: baixa, mas com pernas longas, olhos verdes

ardentes, mas expressão doce, carinha de bebê, mas sábia. Ela estava vestindo uma camiseta

vermelha simples e justa que combinava com o carro. O cabelo estava solto, os cachos negros

ultrapassando a altura do queixo.

— Boa tarde — cumprimentou ela, com um sorriso educado.

Ele respondeu no mesmo tom, tentando adotar a atitude profissional com a qual interagia

com a maioria dos clientes. Ele lhe pediu para abrir o capô e seguiu até a frente do carro para

erguê-lo. Hudson pretendia mergulhar imediatamente no trabalho, mas, contrariando o instinto,

deu mais uma olhada para a garota. Por quanto tempo a lembrança daquele rosto o assombraria?

Dias? Semanas?

— Algum problema específico?

— Bem, na verdade não — ela respondeu, enfiando as mãos nos bolsos traseiros do shorts, o

que fez sua postura mudar de um jeito que Hudson não pôde deixar de notar. O mundo tranquilo fora da oficina notou essa mudança, o ar úmido do Mississippi notou, até as diversas

manchas de graxa no chão da oficina notaram. — Acabei de começar uma viagem de carro e ele

está fazendo muito barulho, achei melhor ter certeza de que está tudo bem.

Hudson pegou um pano limpo de uma prateleira próxima e verificou o nível do óleo do

motor e do câmbio. Ele gostava de trabalhar em silêncio, nada além do som da ventoinha do

motor, as mãos e as ferramentas na máquina. Alguma coisa naquela garota, no entanto, o tornava

falante.

— Para onde você está indo?

— Para o norte — ela respondeu. — O caminho todo para o norte.

— Você é daqui? — De repente ele se sentiu constrangido com o próprio sotaque, com as

vogais arrastadas, com sua presença medíocre.

— Não. E você?

Ele riu conforme deslizava as mãos pelo motor, procurando rupturas nas correias.

— Nascido e criado aqui. — Ele assentiu para si mesmo enquanto fazia uma lista mental do

que precisava de reparos. — Você se importa se eu perguntar de onde você é?

— Não. — Ele pensou tê-la ouvido sorrir, mas quando ergueu a cabeça viu que ela olhava

curiosa para as bugigangas nas prateleiras da oficina. — Nasci no Texas. Em uma cidadezinha

não muito diferente desta.

— Então, se você é do Texas e vai para o norte, o que está fazendo em Vicksburg? Não fica

exatamente no caminho.

— Eu precisava consertar o carro, e ouvi dizer que você é o melhor da região — ela

respondeu. Hudson levantou os olhos novamente e ela sorriu. Semanas, ele pensou. Vou passar

semanas pensando nesse rosto. Ela contornou o carro e se juntou a ele na frente do capô. — E

então, o que você acha? O carro aguenta a viagem?

— Quando eu fizer o que tem que ser feito, sim. Vou trocar o óleo e dar uma olhada nas

velas. Talvez a correia precise ser trocada, mas acho que tenho as peças. Vou checar o freio

também, porque não gostei do ruído quando você parou. Mas não é nada preocupante.

Por um instante, Hudson esqueceu a garota, se concentrando em sujar as mãos, manchando-

as com a graxa que espalharia na calça de trabalho, adicionando ali mais uma cicatriz de batalha a

ser orgulhosamente exibida.

— Você gosta disso, não gosta?

Hudson ergueu a cabeça para encontrar a garota tão perto que pôde sentir o cheiro dela

brigando com o cheiro de fumaça na oficina.

— Do quê?

— Da minha cara — ela respondeu, depois de um tapinha de leve no braço dele. — Disso,

bobo. Consertar carros. Dá pra notar.

Ele deu de ombros, o tipo de reação de alguém que não tem outra opção a não ser amar

alguma coisa.

— Se quiser, pode entrar enquanto faço o orçamento.

— Não precisa de orçamento — ela respondeu. — Faça o que tem de ser feito. Confio em

você.

— Hum, pode levar algumas horas. Tem café e uma tevê lá dentro. Algumas revistas também.

E tem uma lanchonete descendo a rua... — ele se deteve, se dando conta de que não queria que ela

fosse embora.

Normalmente não importavam quais distrações estivessem à sua volta, ele conseguia ignorar

tudo e mergulhar no trabalho. O mesmo valia para os estudos na biblioteca; os amigos podiam

passar por lá e mexer com ele, gatinhas da turma podiam sentar e tentar puxar conversa, mas ele

nunca se deixava distrair.

No entanto, havia alguma coisa nessa garota que o fazia querer ouvir a opinião dela sobre

tudo, saber como foi seu dia, contar como tinha sido o dele.

— Ou você pode ficar e me fazer companhia — sugeriu Hudson.

Ela se afastou, mas, em vez de sair da garagem, pegou uma cadeira dobrável que estava apoiada

na parede e a abriu.

— Se não se importa — ela falou.

Hudson respirou aliviado. Como sua sorte tinha mudado depressa. Saíra do colégio e voltara

para casa para uma longa tarde de preocupação com a entrevista do dia seguinte, quando falaria

com o reitor de admissões, sem nada além de uma ou outra troca de óleo para distraí-lo. Mas

agora ele tinha um serviço completo pela frente e a companhia de uma bela garota. Ele limpou as

mãos no pano que pegara havia pouco na prateleira e começou a trabalhar, tentando pensar em

algo para dizer.

Ele podia vê-la de canto de olho, sentada serenamente, se movendo apenas o suficiente para

olhar ao redor. Às vezes ela olhava para ele, e o coração de Hudson respondia com um pulo.

— Você sabia que algumas escolas de mecânica têm oficinas com área de observação, como

nas faculdades de medicina? Assim como cirurgiões em treinamento, não temos muito o que

aprender na sala de aula. A única diferença é que não precisamos estar esterilizados. — Hudson

espiou por cima do capô para ver a reação dela. A garota virou para ele, uma sobrancelha erguida,

mordendo o lábio inferior para conter um sorriso. — Ouvi dizer que alguns alunos até desmaiam

quando assistem a um conserto de motor pela primeira vez. Não suportam as cenas fortes.

— Ah, é claro. Todo aquele óleo... Quem aguenta? — Ela sorriu e balançou a cabeça. —

Tonto.

Ele sorriu de volta, depois empurrou o carro até o elevador hidráulico para poder trocar o

óleo do motor e do câmbio. Ele não sabia o que o levara a fazer um comentário tão bobo,

tampouco podia explicar por que pareceu tão bom ser chamado de tonto por ela.

— Você já esteve no Mississippi antes? — ele perguntou assim que o carro estava no alto.

— Na verdade, não.

— Por quanto tempo você planeja ficar?

— Não tenho certeza. Eu não estou seguindo um roteiro. Talvez esteja só de passagem.

Hudson encaixou o funil na saída de óleo, ouvindo o ruído familiar do líquido denso

escorrendo pelos canos de descarte ao lado do elevador. Ele procurou algo mais para dizer,

reconhecendo o impulso de fazer uma confissão.

— Bom, se quer minha opinião, acho que você não devia ir embora antes de conhecer o

estado. Tem muitos tesouros por aqui.

— Tesouros? Do tipo enterrado?

— Claro — respondeu Hudson. — Só que metaforicamente. — Ele a olhou na expectativa

de vê-la revirando os olhos ou desprezando de alguma outra forma seu comentário. Ele nunca

havia falado nada disso com ninguém, sobretudo por pensar que as pessoas o achariam maluco

por considerar Vicksburg especial. No entanto, a garota parecia curiosa, o esperando continuar.

— Não necessariamente enterrados, mas escondidos atrás da vida diária. Atrás das redes de fast-

food e do tédio. As pessoas que gostam de Vicksburg normalmente apreciam o que a cidade não

é, em vez de todas as coisas que ela é. — Hudson fechou o escape do óleo do motor e repetiu o

procedimento para extrair o óleo do câmbio, esperando não estar tagarelando demais.

— Como assim?

— Não é uma cidade grande, não é poluída, não é perigosa, não é estranha. — Meu Deus, ele

podia sentir que estava começando a falar mais depressa. — Tudo isso é verdade e é bom, claro.

Mas não é o que Vicksburg realmente é, entende? É como dizer “Gosto de você porque você não

é uma assassina”. É uma qualidade muito boa, mas não diz muito sobre a pessoa.

Muito bem, pensou Hudson. Continue falando sobre assassinos; é a maneira perfeita de causar

uma boa impressão. Enquanto o óleo do câmbio escorria, ele examinou os pneus, que pareciam em

boas condições, e tentou afastar seu pequeno discurso de qualquer crime.

— Desculpa, não sou assim normalmente. Acho que é fácil conversar com você — explicou

Hudson.

Por algum milagre, a garota estava sorrindo para ele.

— Não se desculpe, a conversa está interessante.

Ele tirou o pano do bolso e limpou as mãos.

— Obrigado. A maioria das pessoas não está interessada nessas coisas.

— Bom, para sua sorte, eu sei apreciar um bom papo.

Ela sorriu de novo e então olhou ao redor, os olhos semicerrados contra a forte luz do sol.

Hudson se perguntava se algum dia se sentira tão atraído por ver alguém olhar ao longe. Mesmo

com as belas garotas com as quais flertava sem muito interesse, Kate, Suzanne e Ella, ele não

conseguia se lembrar de ter sido incapaz de desviar o olhar.

— Então, que tesouros escondidos são esses? — ela perguntou.

Hudson contornou o carro, como se examinasse alguma coisa.

— Hum — disse, impressionado com o fato de ela ter dado continuidade à conversa. —

Agora não lembro de nada. Mas você sabe o que quero dizer, não? Como às vezes a gente acha

que é a única pessoa no mundo que enxerga uma certa coisa?

A garota riu, profunda e calorosamente.

— Vou citar um tesouro: aqui é tranquilo — disse ela. Em seguida, limpou uma leve camada

de suor que lhe cobria a testa, usando a umidade para afastar algumas mechas de cabelo que lhe

caíam no rosto.

Ele podia ouvir o pai trabalhando nos fundos, testando o motor de um caminhão que havia

chegado algumas horas antes. Hudson voltou a atenção para o carro, a entrevista do dia seguinte

sendo empurrada para o fundo de sua mente.

— Lembra o lugar onde cresci — a garota continuou. Hudson ouviu o barulho da cadeira

contra o chão quando ela a empurrou para trás e caminhou em sua direção. Ele esperava que ela

parasse a seu lado, mas ela ficou em algum lugar atrás dele, fora de seu campo de visão. — Tinha

um campo de futebol na escola fundamental onde estudei. Se passar por lá de carro, não parece

nada além de um terreno abandonado cheio de grama. — Hudson teve de se esforçar para não

virar e observar os lábios dela se movendo enquanto falava. — Mas todas as crianças em

Fredericksburg conhecem os formigueiros. Dois, um em cada ponta do campo. Um é cheio de

formigas pretas, o outro de formigas vermelhas. No verão, o campo é dominado por uma guerra

de formigas. Não sei se disputam território ou se umas querem comer as outras, mas a imagem é

incrível. Todas aquelas coisinhas vermelhas e pretas se atacando, é como ver milhares de jogos de

xadrez acontecendo muito longe. E esse é o pequeno tesouro de Fredericksburg, só nosso.

Hudson se pegou sorrindo para o motor, em vez de trocar as velas.

— Isso é ótimo — ele disse, as palavras soando desanimadas demais. A garota não só não o

deixou falando sozinho; ela sabia exatamente o que ele queria dizer. Ninguém, nem mesmo o pai

de Hudson, o entendera com tanta perfeição, nunca.

Houve uma pausa que ele não soube como preencher. Pensou em perguntar por que o carro

era registrado em um endereço na Louisiana, não no Texas, mas não era a hora certa para isso. Ele

se sentiu grato quando o motor do caminhão no qual seu pai trabalhava começou a funcionar e o

veículo começou a ser manobrado para sair da garagem, provocando uma cacofonia de apitos de

ré e ruídos de mudanças de marcha.

Quando o caminhão rugiu rua abaixo, Hudson se virou e olhou para a garota, mas,

constrangido sob o olhar dela, fingiu procurar algo na prateleira ao lado.

— Quando eu terminar de arrumar seu carro, quer sair para caçar um tesouro?

Hudson não sabia de onde a pergunta tinha saído, mas estava feliz por não ter parado para

pensar nisso, não se dando tempo de desistir do convite.

A pergunta pareceu ter pegado a garota de surpresa.

— Você quer me mostrar a cidade? — E olhou para os próprios pés, desnudos exceto pelos

chinelos vermelhos.

— Quer dizer, se você não estiver ocupada.

Ela pareceu desconfiada, o que era algo bem razoável a fazer. Hudson não podia acreditar que

tinha convidado uma desconhecida para ir caçar um tesouro com ele.

— Tudo bem, claro — ela falou bem antes de Hudson ouvir o pai entrar na oficina e chamar

seu nome.

— Só um segundo — ele disse à garota, erguendo uma das mãos em um pedido de desculpas

ao passar por ela. Hudson resistiu ao impulso de tocá-la enquanto passava tão perto, só um leve

toque nas costas, ou no ombro, e se juntou ao pai na porta da oficina. — Oi, pai — disse ele,

pondo as mãos na cintura, imitando a postura do pai.

— Tudo bem na escola hoje?

— Sim. Nada de especial. Simulei mais uma entrevista com o orientador na hora do almoço.

Fui bem, eu acho. Só isso.

Seu pai assentiu algumas vezes e então apontou para o carro.

— No que você está trabalhando?

— Uma revisão geral. Filtros, óleo, velas. Uma correia nova.

— Posso terminar para você. Você precisa descansar para amanhã.

— Estou quase terminando — Hudson respondeu, já sentindo o desconforto que o invadia

sempre que tinha de pedir ao pai algo que sabia que ele não aprovaria. — É que... — Ele olhou

para trás para ver se a garota podia ouvi-lo. — Bom, aquela garota quer que eu a leve para

conhecer a cidade. — Ele esperou para ver se o pai passaria a mão pelos cabelos grisalhos, seu

sinal evidente de desaprovação. — Prometo que volto para o jantar — acrescentou.

O pai deu uma olhada no velho relógio de pulso.

— Uma hora — disse, acrescentando que Hudson teria que acordar muito cedo na manhã

seguinte para dirigir os oitenta quilômetros até o campus da Universidade do Mississippi, em

Jackson. — Não queremos que você fique muito cansado.

— Não vou ficar, prometo — ele respondeu, fantasias minúsculas sobre a hora que passaria

com a garota já preenchendo sua mente. As costas das mãos se tocando, não totalmente por

acidente, enquanto caminhavam; a perna dela descansando contra a dele quando se sentassem

juntos em algum lugar, se conhecendo melhor.

Já pensando nos lugares aonde poderia levá-la, Hudson agradeceu o pai com um rápido

abraço e voltou para a frente do carro. A garota estava com uma das mãos apoiada no capô e

olhava vagamente para o motor.

— Só preciso fazer mais duas coisas e depois podemos ir — ele disse.

— Ótimo. — Seus lábios se esticaram em um sorriso autêntico, e ela estendeu a mão. —

Aliás, meu nome é Leila.

Ele limpou a mão na calça de trabalho e disse seu nome ao apertar a mão dela. Meses, pensou,

os dedos praticamente vibrando ao tocar a pele dela. Vou passar meses pensando nela.