Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 19 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 5

 

Elliot caiu na grama com um baque. Ele sentia uma dor que começava na mão e se espalhava pelo

braço, mas estava tão feliz por ter saído daquele quarto que a ignorou. Quando olhou para a casa,

viu que a luz no quarto das Repolhinhos estava apagada.

— Para onde agora?

— Não sei — disse Elliot. — Ela pode ter ido para outra festa, ou para a casa de alguém.

— Por que a gente simplesmente não liga para ela?

— Ela pôs o telefone acidentalmente na máquina de lavar roupa um dia desses. E ainda não

comprou outro.

— Inconveniente. E as amigas dela?

— Não temos muitos amigos em comum. Meu círculo social tem um diâmetro de quatro

pessoas, talvez. — Leila não riu. — Não que eu precise de muito mais do que isso. Três bons

amigos e alguém por quem estar irremediavelmente apaixonado, isso é tudo com que sou capaz

de lidar. — Ele riu, mas Leila continuou quieta.

Ela olhou para os dois lados da rua e mordeu o lábio inferior.

— Onde mais ela pode estar?

— Na loja de discos — Elliot pensou em voz alta. — Às vezes ela gosta de ir pensar no

telhado da loja de discos onde trabalha.

— Último dia do ensino médio e meu melhor amigo acabou de se declarar para mim — Leila

refletiu. — Se fosse eu, provavelmente estaria pensativa. Vamos dar uma olhada lá.

Eles voltaram para o carro. Leila ligou o som e deu partida, e Elliot fechou os olhos e pensou

em Maribel, imaginando que as marcas de dedos no para-brisa haviam sido deixadas por ela.

Depois de alguns minutos, no entanto, o carro começou a gemer, perder velocidade e avançar aos

trancos, interrompendo o devaneio de Elliot.

— Merda — disse Leila. Ela esticou o braço para ligar o pisca-alerta no instante em que o

carro parou de vez.

— O que é isso? O que aconteceu?

— Acho que estamos sem gasolina. — Leila virou a chave e tentou ligar o motor outra vez,

mas não pegava. — Droga. Normalmente consigo andar até trinta quilômetros depois que a luz

acende.

— Por que não parou para abastecer?

— Fiquei envolvida com essa história toda da Maribel. — Leila bateu no volante e encostou

no banco.

O estômago de Elliot grunhiu outro “droga”.

— Você tem seguro ou alguma coisa assim? Bom, a essa hora da noite, vão levar uma

eternidade para chegar aqui. — Ele olhou para o para-brisa, procurando as impressões digitais,

mas o carro estava entre dois postes de luz e elas desapareciam no escuro.

— Não — respondeu Leila, tentando dar partida mais uma vez.

Elliot cutucou uma mancha seca no smoking, se sentindo derrotado.

— Então acho que é um sinal. Provavelmente, não vai acontecer esta noite.

Ele examinou a sujeira que ficou presa sob a unha, fez uma careta e limpou o dedo no

smoking.

— Ei, nenhum desses caras nos filmes conseguiu tudo fácil, certo? Conquistar a garota dos

seus sonhos é sempre uma jornada cheia de obstáculos.

— Ótimo, já temos o slogan da minha noite. E me diga como vamos superar este obstáculo

em particular?

— Você sai e empurra o carro. Eu dirijo e ajudo a empurrar pela lateral. — Leila abriu a

porta.

— O quê?

— Vamos empurrar o carro até o posto de gasolina mais próximo.

— Você está brincando. São uns três quilômetros. Eu mal consigo andar três quilômetros

carregando a mochila. Quer que eu empurre um carro por essa distância com uma das mãos

machucada?

— Se sua intenção é ouvir outro discurso motivacional, pode esquecer. Agora sai e me ajuda a

empurrar.

Elliot balançou a cabeça, então saiu do carro e foi para a parte de trás, tentando pensar em um

jeito de dar impulso sem machucar ainda mais a mão que já estava ferida. Depois de algumas

tentativas desajeitadas e dolorosas, ele finalmente encontrou uma posição confortável e começou

a empurrar. Leila estava bem na frente dele, com uma das mãos no volante, debruçada para ajudar

a dar impulso. Ele mantinha os olhos no chão.

— Vamos seguir reto por dois quarteirões, depois vire à direita — ele disse. — Se eu não

desmaiar antes.

Não havia outros carros na rua e a noite estava quieta. Elliot podia ouvir o som dos passos

lentos dos dois conforme empurravam o carro, os pneus sobre os cascalhos produzindo um ruído

que lembrava insetos sendo esmagados. Ao longe, a linha brilhante das Cidades Gêmeas

iluminava o horizonte, pequenas trilhas de luz cortando a escuridão que separava a visão dourada

do contorno de Burnsville.

— Tudo bem aí? — Leila perguntou.

Elliot respirava com dificuldade, o corpo exausto depois da longa noite de bebida e perda de

sangue.

— Eu vou ficar bem. Quando chegarmos ao posto, eu compro um Gatorade. E talvez um

transplante de pulmão. — Ele parou de empurrar por um segundo para recuperar o fôlego. —

Acho que a última vez em que minha frequência cardíaca alcançou esse pico foi no quinto ano. —

Mais uma inspiração profunda, o ar passando dolorosamente pela garganta, mas acalmando ao

chegar aos pulmões. — Quando brincamos de pique no recreio. — E continuou desse jeito por

mais alguns quarteirões, arfando até recuperar o fôlego e contando a Leila, algumas palavras por

vez, como Maribel correra atrás dele e ele se sentira dividido entre correr mais para impressioná-

la e ficar parado para ser pego.

— Que romântico — disse Leila. — Se ela ouvisse você falar desse jeito, tenho certeza de que

já seria sua.

Elliot sentiu o rosto corar. Os amigos sempre eram encorajadores, mas ninguém além de suas

fantasias jamais o fizera pensar que ficar com Maribel era possível. Ele continuou empurrando o

carro.

— O que você acabou fazendo? Correu ou parou?

— Dei três passos e tropecei. Ela me ajudou a levantar e me pegou. Foi o dia mais feliz da

minha vida.

Leila riu. A risada tinha um som maravilhoso que ecoou pela rua vazia e fez Elliot desejar que

Leila estivesse por perto há muito tempo.

Quando finalmente chegaram ao posto, eles pararam um instante para recuperar o fôlego.

Tinha demorado menos do que Elliot imaginava. Não havia notado antes, mas o posto ficava no

mesmo quarteirão que a loja de discos. Primeiro golpe de sorte da noite.

— Ótimo — disse Elliot, cheirando o smoking. — O único cheiro que faltava neste paletó:

suor. — E olhou para a loja de discos do outro lado da rua. Havia uma placa na fachada do prédio

que não deixava ver se havia alguém no telhado, cuja vista do Performing Arts Center e do

horizonte de Minneapolis era mais um motivo para Maribel gostar tanto de lá.

— Vamos — disse Leila, se dirigindo para a loja de conveniência. — Eu pago seu Gatorade.

Eles pegaram algo para beber e um desodorante em spray pequeno para Elliot, mas, quando a

moça no caixa tentou passar o cartão de crédito de Leila, ele foi recusado.

— Merda — ela disse. — Deve ser a viagem. O banco fica confuso por eu estar em uma

cidade diferente todo dia. Eu sei que disse que era por minha conta, mas não tenho dinheiro.

Você se importa?

— Também não tenho — respondeu Elliot. — Dei tudo o que tinha para os caras que me

venderam a garrafa de uísque na formatura.

Eles olharam para a moça do caixa com ar de súplica. Ela deu de ombros e voltou a ler sua

revista. Os dois saíram arrastando os pés.

— Sabe de uma coisa? Esquece a gasolina — Leila falou. — Estamos em uma missão, certo?

Vai ver se ela está na loja de discos. Eu espero aqui. Vou dar uma olhada se não tem dinheiro jogado no carro.

— O que devo dizer? Se ela estiver lá.

— Não importa. Fale com ela do mesmo jeito que fala sobre ela e vai dar tudo certo.

Ele olhou para a loja de discos. Todas as luzes estavam apagadas, exceto as que iluminavam o

letreiro no alto do prédio. Elliot conseguia ver a arte na vitrine anunciando lançamentos e ofertas

especiais, a maioria na bela caligrafia de Maribel.

— Leila?

— Sim?

— Se algum dia precisar de ajuda para ir atrás do cara dos seus sonhos, pode contar comigo.

— Obrigada. Talvez eu precise de ajuda.

Elliot atravessou a rua meio que correndo, olhando para os dois lados. Ele se dirigiu aos

fundos da loja de discos e abriu o portão como Maribel lhe mostrara. Depois subiu na caçamba

de lixo para alcançar a escada de incêndio que ia até o telhado. Seu coração batia tão alto que

podia sentir a pulsação no estômago vazio. Depois de respirar fundo algumas vezes, ele começou

a subir. A mão latejava cada vez que segurava um degrau, mas Elliot imaginou Maribel sentada lá

em cima em seu vestido de formatura, as costas nuas no ar morno do verão, os grandes olhos

castanhos meio cerrados em pensamento e subiu mais depressa.

Do último degrau, ele passou para o telhado. O espaço era completamente aberto, nada além

de alguns canos entre a escada e a placa voltada para a rua. Elliot caminhou até o meio do telhado,

embora já estivesse claro que ele estava sozinho ali. Não era só a evidência visual; Elliot era capaz

de sentir a ausência de Maribel. Por um segundo, teve a sensação de que nunca mais a veria, de

que o vazio no telhado significava não só mais um obstáculo, mas que ela saíra de sua vida por

completo. Ele não sabia quantas falsas esperanças ainda seria capaz de suportar.

Ele se aproximou da placa, depois olhou para além dela, em direção ao posto de gasolina do

outro lado da rua. Leila estava dentro da loja de conveniência, apoiada no balcão, conversando

com a moça do caixa. Que tipo de adolescente viaja sozinha até o Alasca para ver a aurora boreal?

Que tipo de garota estava disposta a ajudar um completo desconhecido como ela estava fazendo?

Elliot desceu a escada e atravessou a rua de volta para o posto de gasolina. Leila o viu se

aproximando e saiu da loja para encontrá-lo. Por alguma razão, Elliot acenou para ela como se

não a visse havia muito tempo.

— Nada? — ela perguntou antes de olhar para a mão erguida. — Eita, você está sangrando.

— O quê? — Elliot virou a mão enfaixada. Um pequeno círculo de sangue aparecera na

palma e se espalhava lentamente. — Droga.

— Eu me ofereceria para voltar ao hospital, mas... você sabe. — Ela chutou um pneu.

— Tem uma farmácia vinte e quatro horas a alguns quarteirões daqui. Eu só preciso de

algumas gazes limpas.

— Era isso o que eu queria ouvir — disse Leila.

Na farmácia, eles tentaram passar o cartão de crédito de Leila novamente, mas deu na mesma.

Então tentaram convencer o gerente a deixar Elliot levar a gaze e voltar mais tarde com o

dinheiro.

— É uma emergência — Leila explicou, apontando o sangue que aparecia no curativo.

— Então recomendo que ele procure um hospital.

— Por favor, senhor. Se eu não voltar com o dinheiro amanhã, pode mandar a polícia atrás de

mim. Pior, pode telefonar para os meus pais. Estou ignorando os dois a noite toda e

provavelmente eles lhe darão uma recompensa por avisar que estou vivo. Meu nome é Elliot

Pinnik. Moro em...

— São sete dólares e quarenta e nove centavos — disse o gerente. Ele pôs as mãos na cintura e

franziu o cenho, a postura adulta clássica para demonstrar que a conversa estava encerrada.

Elliot e Leila saíram da farmácia e pararam na frente da loja.

— Eu meio que espero sangrar até morrer para ele ter que lidar com a culpa. — Elliot

suspirou e tirou uma sujeira do curativo. — Então, incansável líder de torcida, e agora?

Leila mordeu o lábio e chutou uma pedrinha no chão. Elliot seguiu a trajetória da pedra pelo

estacionamento até um carro entrar e cegá-lo com os faróis. Quando seus olhos se recuperaram, o

carro estava parado em uma vaga e um homem de calça de moletom e camiseta suja se dirigia à

entrada da farmácia. Ele parecia não dormir havia semanas.

— Com licença, senhor — Leila o abordou. — Sei que isso vai parecer estranho, mas...

— Desculpa, não tenho trocado — o homem respondeu, mal olhando para eles conforme

entrava na farmácia.

Leila observou a porta automática fechar depois que o homem entrou e olhou para Elliot.

— Hum. Então essa é a sensação.

— E se a gente tentar roubar a gaze?

— Não! — Leila gritou de um jeito exagerado, estranho. — Nada de furtos. — Ela se

acalmou um pouco. — Vamos torcer para aparecer alguém generoso que empreste o dinheiro. Se

conseguirmos uma grana para a gasolina também, a gente vai até a casa da Maribel e espera ela

aparecer. Senta aí e faz cara de dor. Mas não mostre o lado ensanguentado da mão, isso pode

assustar as pessoas.

Elliot fez o que Leila dizia, sentando na calçada do estacionamento. Por um tempo não houve

movimento. O homem cansado saiu da farmácia com um pacote grande de fraldas e foi embora.

Uma mulher de meia-idade que fumava no carro jogou a ponta de cigarro no chão, sem se dar o

trabalho de pisar na brasa para apagá-la, e os ignorou completamente ao passar. Dois homens de

vinte e poucos anos pararam e ouviram o que Leila tinha a dizer, mas olharam desconfiados para

Elliot e balançaram a cabeça em resposta negativa. O pé de Elliot começou a formigar e ele se

lembrou do sétimo ano, quando Maribel organizou uma noite de filmes na casa dela. Ele se sentara no sofá, ela no chão, ao lado de seus pés, e Maribel até apoiara a cabeça em seu joelho por

um tempo. Com medo de quebrar o encanto, ele não se mexera até o fim do filme, apesar de o pé

dormente formigar tanto que chegava a doer. Uma van entrou no estacionamento. Elliot tentava

parecer abatido e inofensivo, deixando Leila falar. Olhando para o chão, ele ouviu a porta da van

abrir e reconheceu uma voz.

— Veja se não é o homem da noite!

Confuso, Elliot ergueu a cabeça. Era Kurt.

— O que vocês estão fazendo aqui? — ele perguntou, cumprimentando Leila com um aceno

de cabeça. Ela respondeu balançando a mão. — Como foi com a garota? Depois daquele

espetáculo, achei que estivesse em um lugar romântico com um colchão.

— Ela não estava mais na formatura. Ela não viu.

— Que droga. Você deu uma olhada na festa do Bobby?

— Sim, ela também não estava. Estamos procurando a noite toda.

— E por que ela estaria na farmácia?

— Tivemos que interromper a busca para fazer um curativo. — Ele levantou a mão para Kurt

poder ver o sangue.

— Caramba — Kurt falou.

— Mas acontece que não temos dinheiro — Leila interferiu.

— De quanto precisam?

— Sete e cinquenta — Elliot falou, já se levantando.

— E uma grana para a gasolina, se não se importar — acrescentou Leila.

— Sua apresentação hoje vale pelo menos isso — Kurt respondeu. E os convidou a entrar na

farmácia, pagando pela gaze e dando uma nota de vinte para Leila abastecer o carro. Elliot olhou

para o gerente com uma expressão que esperava ser de superioridade.

Quando saíram, Elliot lembrou o que aprendera nas aulas de ciências para trocar a gaze da

mão. Apesar do sangue, o corte não parecia muito feio. Só um ponto havia se soltado, e a maior

parte do sangue já havia coagulado.

— Muito obrigado — ele disse.

— Tudo bem — Kurt respondeu, tirando as chaves do bolso. — Aliás, já passaram no Ruby’s

Diner? Tem bastante gente lá curando o porre com café e comendo as ofertas da madrugada.

Passei na porta e tive a impressão de que metade do colégio estava lá dentro. A Maribel pode estar

lá. — Kurt apertou a mão de Elliot, depois acenou para Leila. — Boa sorte, cara. Todo mundo

está torcendo por você.

Enquanto observava a van de Kurt sair do estacionamento, Elliot se perguntava se não teria

escutado errado. Seria possível? Todo mundo se importava com o que acontecia entre ele e

Maribel?

— Então? — Leila interrompeu os pensamentos dele. — Ruby’s Diner?

— A essa altura, o Ruby’s Diner deve estar cheio de zumbis ou alguma coisa assim.

Leila bateu no peito dele.

— E aí, Ruby’s Diner?

— Sou apaixonado por essa garota desde que consigo lembrar. É claro que vou ao Ruby’s

Diner — respondeu Elliot. — Mas posso fazer uma piadinha de vez em quando, não posso?

— Você tem uma definição muito convencional da expressão “de vez em quando”.

Elliot deu de ombros.

— Que seja. A essa altura, se eu tiver que enfrentar zumbis por ela, eu brigo feliz.