Perdidos por aí
Capítulo 4
Leila despertou lentamente, se permitindo cochilar algumas vezes até ter certeza de que não sentia
mais sono. Ela sentou e bebeu um pouco da água filtrada do riacho na garrafa térmica. Depois
abriu o zíper da barraca, jogou a mochila fechada na grama e saiu para o sol do fim da manhã.
O ar estava quieto no acampamento. Havia ainda o cheiro do café da manhã preparado na
fogueira, linguiça, bacon e café instantâneo. Por entre as árvores, ela via as cores variadas das
outras barracas, mas nenhum movimento. Provavelmente todos tinham saído para seus passeios
matinais, caminhadas, pescarias, observação de pássaros. Leila pegou o celular e enfiou os fones
nos ouvidos. Antes de destravar a tela, tentou se livrar da expectativa de ver uma notificação ali,
mas ainda ficou decepcionada quando não encontrou nenhuma novidade no telefone. Ela
desabilitou o modo repetir e desistiu de “Oh Comely”, do Neutral Milk Hotel, deslizando o dedo
à procura de outra canção.
Com a música enchendo o mundo à sua volta, Leila começou a desmontar a barraca.
Trabalhava devagar, sem pressa de partir. Por alguma razão, a música soava especialmente boa
nesse momento. Cada nota soava mais clara, cada letra tinha um significado mais pungente e
preciso. Não era nem uma canção nova; lembrava de ter ouvido essa música no carro com Bree.
Quando terminou de desmontar a barraca, ela pendurou a mochila no ombro e levou tudo
para a sede do camping, deixando os objetos na porta antes de entrar para verificar a
correspondência.
— Tem certeza que não quer ficar mais uns dias? — Liza perguntou quando Leila informou
que estava de partida. Ela estava separando a correspondência recebida, os dedos com unhas bem
feitas deslizando sem pressa pelos envelopes, separando propaganda e cartas sem importância do
que tinha de distribuir entre os campistas. — Por que decidiu ir embora?
— Está na hora — Leila respondeu, tentando dar uma espiada nos envelopes por cima do
ombro de Liza. Um fone de ouvido estava caído sobre seu peito, o outro continuava
reproduzindo música de fundo só para ela. — Sabe onde estão a Dee e os pais dela? Queria me
despedir deles.
— Foram até a cidade comprar suprimentos. — Liza colocou o último envelope em uma das
pilhas. — Não devem demorar.
— Nada? — Leila apontou para a correspondência.
— Sinto muito.
— Tudo bem. — Leila pensou em deixar um endereço, caso chegasse alguma coisa depois de
sua partida, mas talvez fosse hora de desistir de Hudson também. Se ele quisesse alguma coisa
com ela, já teria mandado notícias. Leila teria que se contentar com a lembrança daquela noite.
Ironicamente, talvez tivesse que aprender a esquecer.
Leila saiu da sede e levou suas coisas para o carro. Pôs tudo no porta-malas, depois abriu a
porta e ligou o celular no carregador do automóvel. Com as janelas abertas e o celular conectado
ao som do carro, ela sentou sobre o capô para esperar Dee e seus pais. Quando ouvia certas
canções, Leila lembrava exatamente por onde estava dirigindo quando as ouvira pela primeira vez:
uma interminável estrada reta entre milharais em algum lugar do Kentucky; presa no trânsito
entre Indiana e Illinois; tomando café da manhã em um restaurante de hotel solitário, o fio dos
fones de ouvido mergulhando na calda da panqueca enquanto via um time feminino de futebol
juvenil entrar no restaurante e formar uma fila diante do bufê, as garotas falando sem parar.
Estreitando os olhos contra o sol, ela tentou imaginar como tinha sido o encontro de Elliot e
Maribel. Poucos minutos depois, o Prius verde-oliva da família de Dee entrou no estacionamento
e parou na vaga ao lado da dela. Harriet estava ao volante, o cabelo preso em um rabo de cavalo
que evidenciava o longo e elegante pescoço. Assim que o carro parou, Dee soltou o cinto de
segurança e saiu para falar com Leila.
Ela desceu do capô e foi imediatamente cercada pelos braços da menina. Apesar de não ser
muito alta, os braços da criança quase não alcançavam sua cintura.
— Bom dia — disse Harriet, abrindo o porta-malas e tirando dali duas sacolas reutilizáveis
cheias de vegetais. Ela entregou uma sacola a Brendan.
— Bom dia — Leila respondeu.
— A mamãe e o papai compraram aquarelas para mim — Dee contou, soltando Leila. —
Vêm com um monte de pincéis, você pode pintar comigo, se quiser. Está ocupada?
— Acho que não posso — Leila respondeu, e se abaixou para olhar nos olhos da garotinha.
— Tenho que voltar para casa. — Ela falava rápido para não prolongar a despedida, mas, ao ouvir
as próprias palavras, teve a impressão de que soaram bruscas. Temia a reação de Dee.
— Ah. — A menina olhou para o chão. — Não é por minha causa, é? Porque eu me perdi
sem me perder de verdade?
— Não, claro que não. Já fiz o que vim fazer aqui. Vi as luzes.
— É verdade — Dee sorriu. Leila estudou os olhos dela, que não pareciam lacrimejar. — Não
tem problema não conseguir lembrar. Sei que não é culpa sua, não é culpa de ninguém. Fiquei
triste por isso, mas agora está tudo bem.
Leila riu e afagou os cachos loiros da menina.
— Ótimo. Pra mim também está tudo bem.
— Você não... — Dee fez uma pausa. — Não vai esquecer de mim, vai?
Leila sentiu o ar parar na garganta, as lágrimas ameaçando transbordar. Ela abraçou Dee mais
uma vez.
— De jeito nenhum.
Sem os desvios espontâneos ou a curiosidade que definira sua viagem para o norte, Leila voltou a
Louisiana em pouco mais de uma semana. Ao entrar na cidade, achou estranho estar em um lugar
que parecia um pouco familiar.
Leila ainda precisava do GPS do celular para encontrar a casa dos tios, mas a área parecia
conhecida. Era estranho ter lembranças ligadas aos locais que passavam pela janela, olhar para
aquela sequência específica de lojas e redes de fast-food e se lembrar de tudo. Na verdade, as
lembranças se limitavam à partida e a uma ou outra visita com a tia ao centro comercial ou ao
cinema, mas ainda era mais do que estava habituada a ter.
As luzes estavam acesas na casa dos tios quando ela parou na entrada da garagem. Leila puxou
o freio de mão, desligou o motor e ficou ali sentada por alguns segundos. Com uma batidinha no
painel, elogiou o carro pelo esforço. Hudson devia ter feito maravilhas para manter um carro
velho como aquele andando perfeitamente por mais de quinze mil quilômetros.
— Para de pensar nele — disse em voz alta. Sem pressa, abriu a porta e se dirigiu à casa.
Ela pôde ouvir ruídos vindos da cozinha, algo fritando na panela, uma faca descendo várias
vezes sobre a tábua de corte.
— Oi, gente! — Leila chamou. Imediatamente, sua tia Cathy saiu da cozinha, limpando as
mãos no pano pendurado no ombro.
— Leila! Meu Deus, que bom te ver de novo! Sentimos sua falta. — Elas se abraçaram
rapidamente. — Vem, vamos para a cozinha. Tom e eu estamos preparando seu prato favorito.
Leila a seguiu.
— Meu prato favorito?
— Sim! Imaginamos que chegaria com fome. Como foi a viagem de volta?
— Tudo bem. Foi longa.
— Aposto que sim! Você dirigiu mais aos dezessete anos do que muita gente dirige a vida
toda — a tia riu, então entrou na cozinha e se aproximou da tábua para continuar cortando
legumes.
Tom, ocupado refogando cebola, aipo e pimentão em uma panela grande, deixou a colher de
pau de lado para dar um rápido abraço em Leila.
— É bom ter você de volta.
— O que vocês estão fazendo? O cheiro está delicioso. — Ela examinou a cozinha, sem saber
o que deduzir a partir de tantos ingredientes. Linguiça, uma panela de arroz, camarão, frango,
uma lata de tomates, pimentão. Não conseguia identificar o aroma picante.
Tom e Cathy se entreolharam, e Leila reconheceu a mesma expressão que vira tantas vezes no
rosto dos colegas de escola no Texas. Um olhar que significava “ela não lembra”. Antes essa era
uma expressão que a constrangia, como se tivesse culpa por não lembrar. Agora ela estava
resignada, sabia que teria de se acostumar com isso, que veria essa mesma expressão muitas vezes,
a menos que se afastasse de todo mundo.
— Jambalaya — Cathy respondeu. — Receita da sua mãe. Nossa mãe, sua avó, fazia a pior
jambalaya do mundo, e sua mãe jurou que nunca daria aos filhos uma jambalaya ruim. — Ela
pegou um punhado de quiabo picado, segurando os pedaços contra a parte plana da faca para
ajudar a transferi-los para a panela de arroz. Sem dizer nada, Tom tocou a cintura da esposa e
beijou sua bochecha, mantendo o rosto próximo ao dela por um instante antes de voltar a se
concentrar nos vegetais que refogava.
Naquele exato momento, Leila decidiu que não se envolveria muito consigo mesma, que não
deixaria o próprio sofrimento fazê-la esquecer da dor dos outros. Sua tia ainda chorava a morte
da irmã, e Leila nem lembrava a última vez em que havia perguntado como ela se sentia.
— Posso ajudar com alguma coisa? — Leila quis saber.
— Você deve estar exausta. Por que não senta um pouco? Não sabíamos a que horas você ia
chegar. Acho que ainda precisamos de uns trinta minutos para terminar tudo aqui.
— Prefiro ficar de pé. É bom esticar as pernas. Posso arrumar a mesa, se quiser. Agora sou
experiente. Vi o mundo. Nessa viagem, conheci até um especialista em arrumação de mesas. Acho
que aprendi uma ou duas coisinhas.
Cathy colocou a tábua e a faca dentro da pia, depois pôs uma frigideira sobre a chama do
fogão e a untou com um fio de azeite. Foi só então que olhou para Leila, pôs as mãos na cintura e
sorriu:
— Seria uma honra contar com o serviço de alguém que conheceu o trabalho de um expert
em arrumação de mesas. Só espero que nossos utensílios não sejam simples demais para alguém
de tão grande renome. Por gentileza, use a nossa melhor porcelana.
Leila, sempre disposta a entrar numa brincadeira, se preparou para responder no mesmo tom,
mas alguma coisa a deteve. Aquele sorriso.
Meu Deus, não era nem uma imagem clara, mas ela se lembrava daquele sorriso.
Sua mãe sorria daquele jeito. Aquele ângulo exato, as covinhas profundas. Os dentes
perfeitamente alinhados, ainda que não completamente brancos. E não era de uma foto ou de um
vídeo. Era uma lembrança. Nebulosa e quase vazia, como uma palavra cujo significado conhecia,
mas não conseguia definir. Mas era uma lembrança. A tia de Leila tinha o mesmo sorriso da mãe.
Quase que imediatamente depois da alegria dessa constatação — e foi uma impressão que
durou uma fração de segundo; a tia olhando para ela e esperando a resposta que daria sequência à
brincadeira —, Leila sentiu, talvez pela primeira vez, a dor de pensar que a família tinha mesmo
ido embora. Sentira muita pena de si mesma desde o acidente, mas não tinha nada real para sentir
saudade até aquele momento. E agora compreendia que qualquer coisa que conseguisse
recuperar, qualquer fragmento de memória que rompesse a névoa em sua cabeça, lhe traria a dor da perda. Pelo resto da vida, qualquer pensamento sobre a família, mesmo que ficasse muito feliz
por tê-lo, seria tocado pela dor.
— Se ouvir barulho de algo quebrando, é sinal de que sua louça está abaixo dos meus padrões
— Leila respondeu por fim, pensando em sair da cozinha para ir arrumar a mesa, mas incapaz de
se mexer até o sorriso sumir do rosto da tia.