Perdidos por aí
Capítulo 2
Sonia olhou para seu reflexo no espelho do banheiro. Suas bochechas estavam inchadas de
chorar, o cabelo embaraçado, os olhos vermelhos. O paletó de Jeremiah pendia largo sobre seu
corpo, os braços perdidos nas mangas. Ela abotoara os três botões, mas nem assim conseguia
esconder que usava apenas sutiã sob o smoking.
Sonia enrolou as mangas e jogou um pouco de água fria no rosto, depois pegou o gloss labial
na bolsa e o aplicou sem nenhum entusiasmo. O telefone vibrou novamente, tremendo sobre a
bancada suja do banheiro na estrada. O nome de Jeremiah aparecia na tela. Ela não conseguia se
imaginar atendendo à ligação sem desabar em soluços outra vez. Mesmo que ele estivesse
telefonando para chamá-la de volta ao seu quarto, ela sabia que ainda não seria capaz de
responder se tinha ou não superado Sam.
Sonia silenciou o celular e o enfiou no bolso do paletó. Depois jogou mais água no rosto e
saiu do banheiro. A garota, cujo nome, Leila, Sonia descobrira trinta minutos depois de terem
começado a jornada, estava sentada ao volante com os pés para fora do carro, olhando a paisagem
de montanhas cobertas de árvores iluminada apenas pela lua cheia.
— Desculpa ter feito você dirigir até aqui. Não precisa mesmo me levar de volta — ela falou,
embora já tivessem atravessado a fronteira de volta para os Estados Unidos e estivessem mais ou
menos na metade do caminho para Tacoma. Sonia desabou no assento do passageiro e Leila deu
partida, voltando à rodovia.
Leila deu de ombros.
— Não tem problema. Você está se sentindo melhor?
— Não muito. — O telefone tocou novamente e ela apertou o botão lateral para interromper
a vibração.
— O que você estava fazendo no Canadá? — perguntou Leila, olhando o espelho lateral
quando um caminhão passou por elas.
— Fui a um casamento de família — Sonia simplificou. — E você?
— Estava só de passagem, eu acho.
Menos de um minuto depois, a vibração recomeçou.
— Desculpa — disse Sonia. — Vou atender. Ele não vai desistir.
Ela atendeu à ligação, mas a princípio não disse nada.
— Sonia?
— Oi — ela falou, a voz voltando a tremer. O jeito como ele disse o nome dela soou estranho,
a dor transbordando da voz dele.
— Meu paletó. Preciso dele.
Sonia hesitou, olhando para Leila, que estava concentrada em dirigir.
— Eu saí da cidade. — Ela não conseguia ouvir nada do outro lado, só estática, ou o vento do
ar-condicionado no quarto de hotel. Jeremiah ficou em silêncio por tanto tempo que ela deu uma
olhada na tela do aparelho para se certificar de que a ligação não tinha caído.
— As alianças estão no bolso, Sonia.
Outro caminhão passou por elas, um veículo enorme cercado de luzes vermelhas como
aquelas que iluminam o topo dos edifícios para orientar os aviões. A passagem do caminhão fez
tudo tremer, até o ar.
— O quê? — Assim que ela disse isso, no entanto, sentiu o peso no paletó e se deu conta de
um volume pressionando seu peito.
— Esteja onde estiver, vai ter que voltar.
Ela apalpou o bolso interno, sentindo a caixa. Depois levou a mão ao cabelo e sentiu o
emaranhado. Ela não podia acreditar que tinha saído do hotel vestindo o paletó, que não sentira o
peso das alianças em trecho nenhum do caminho. Sabia que tinha de voltar, mas não sabia se seria
capaz de encarar aquela expressão desolada no rosto de Jeremiah outra vez.
— Está tudo bem com a gente? — ela perguntou quase chorando.
— Podemos conversar sobre isso mais tarde. Você precisa trazer as alianças de volta. —
Jeremiah nunca tinha sido tão seco com ela.
Sonia assentiu e olhou para Leila, que ouvia a conversa com um ar preocupado.
— Tudo bem — ela respondeu, então desligou, incapaz de suportar o tom desprovido de
doçura.
— Quer conversar? — Leila perguntou depois de alguns momentos.
Sonia cruzou os braços e apenas balançou a cabeça. Não culpava Leila por perguntar, mas
falar sobre o assunto não ajudaria. Falar era justamente o que tinha estragado tudo. Não
conseguia nem pedir para Leila voltar.
— Ei, escuta, todo mundo já passou por isso — Leila insistiu. — Se tem uma coisa que eu sei
é que guardar os problemas para si só serve para torná-los ainda mais difíceis de lidar.
— É mesmo? Você sai por aí contando seus problemas para todo mundo? — perguntou
Sonia, e imediatamente se arrependeu do tom que usou.
Leila abaixou a cabeça.
— Não, não o suficiente. É por isso que eu sei.
— Desculpa, não foi essa a intenção. Você só tem sido legal comigo, eu não devia estourar
com você. — Sonia olhou para a escuridão da rodovia. Percorrera essa estrada muitas vezes nas
viagens ao chalé da família de Sam, mas não conseguiu reconhecer o posto no qual pararam, nem
sabia dizer a que distância estava de casa.
— Tudo bem. Você está chateada — disse Leila. — Sabe aquela sensação horrível que surge
no estômago sempre que você pensa no que te faz chorar?
Imediatamente, Sonia pensou no trajeto de carro até o hospital depois do colapso de Sam.
Pensou no primeiro beijo que deu em Jeremiah. Em como não conseguia escrever nada havia
meses, nas páginas vazias do caderno, como se não tivesse absolutamente nada na cabeça. Pensou
em Martha, que ainda falava com ela sobre Sam como se esperasse vê-lo sair do quarto a qualquer
momento. Sim, conhecia bem esse sentimento. Era dominada por ele havia um ano, e a única
pessoa que podia amenizá-lo agora o tornava ainda pior.
— Sim — ela conseguiu responder.
— Bom, nesse exato momento ele parece pior porque os mesmos pensamentos estão se
repetindo, ecoando aí dentro. Você é como uma chaleira implorando para o vapor sair. Precisa
deixar alguém tirá-la do fogão e despejar seu conteúdo em uma xícara.
— Está dizendo que quer me transformar em chá?
— A metáfora é meio confusa, talvez — Leila reconheceu. — Mas acho que você entende o
que estou dizendo. Eu só quero ajudar.
Sonia olhou para um carro que passava por elas, tentou espiar as pessoas dentro dele, mas só
conseguiu enxergar um lampejo de metal.
— Por quê? Por que você está sendo tão legal com uma completa desconhecida?
— Não sei. Acho que gosto de chá.
Para sua própria surpresa, Sonia abriu um sorriso. Ela olhou para Leila, esquecendo Sam e
Jeremiah por um segundo e se perguntando quem exatamente seria essa garota.
Leila se ajeitou, trazendo a perna esquerda para o banco e a dobrando sobre si.
Sonia tirou o celular do bolso, olhando as horas e calculando quanto tempo tinha até o
casamento. A tela acesa exibia uma foto dela e de Sam, os dois sentados sobre a estátua de um
troll em Seattle. Sonia já tinha se perguntado se isso incomodava Jeremiah, se devia mudar sua
imagem de fundo. Mesmo isso era uma traição a qual não se sentia pronta para cometer.
No geral, ela lidava melhor com as emoções usando papel e caneta, mas aparentemente tinha
perdido a habilidade. Talvez Leila fosse confiável, o jeito como falava sobre tristeza, como se lhe
fosse uma emoção familiar. Ou talvez houvesse um limite sobre quanto tempo alguém podia
sufocar alguma coisa antes de ela transbordar involuntariamente.
— Há mais ou menos sete meses, o cara que eu namorava havia dois anos, Sam, caiu no meio
de um jogo de basquete. Ele foi levado para o hospital, mas morreu duas horas depois. Um
problema cardíaco. Alguma coisa no miocárdio? Não sei. Nunca consigo lembrar o nome exato.
Sei que a maioria dos adolescentes acredita que o primeiro amor é o único amor da vida, mas nós
éramos especiais. — Ela parou para enxugar os olhos e, notando que o celular ainda estava aceso
exibindo a foto com Sam, o guardou no bolso ciente de que não suportaria falar sobre ele e olhar
para ele ao mesmo tempo. — Quando ele morreu, senti que tinha acabado para mim. Que
ninguém jamais se aproximaria do que tínhamos. Eu não queria que ninguém se aproximasse
disso. Minha alma gêmea tinha partido e eu passaria o resto da vida sem ele.
Uma lágrima escorreu rapidamente pela bochecha de Sonia, como se estivesse sendo sugada
por um ralo. Ela balançou a cabeça e limpou o rastro deixado ali.
— Meu Deus, e isso é só o começo. Tem certeza de que quer ouvir tudo?
— O chá não está pronto. Continue despejando água.
— A metáfora não está funcionando — Sonia deu uma risadinha.
— Tanto faz! Você não terminou de contar sua história.
Sonia esfregou os olhos, depois passou a mão pela cabeça, organizando os pensamentos.
— A família dele sempre foi incrível comigo — continuou. — E isso não mudou depois que
ele morreu. Pelo contrário, são ainda melhores. Telefonavam para saber como eu estava, me
levavam para jantar, me convidavam para ir ao cinema. Caramba, eles me tratam melhor que a
minha própria família. Nunca tive essa sensação de pertencer a algum lugar até conhecer o Sam.
Então continuei frequentando a casa deles, ia a jantares de família, churrascos, tudo isso. E foi lá
que eu conheci o Jeremiah. O irmão dele vai casar com a irmã do Sam amanhã — ela contou,
pegando o celular do bolso e sacudindo o aparelho para mostrar que tinha sido ele quem
telefonara. Ela respirou devagar, se sentindo como se andasse sobre uma corda bamba e passos
rápidos pudessem derrubá-la em outra sessão de choro. — No início nem me dei conta de que
era uma paixão. Um dia ele me ofereceu uma carona e, antes que eu entendesse alguma coisa, a
gente estava se beijando. Depois disso passei dias enjoada. Quer dizer, o último buquê de flores
que eu tinha posto no túmulo do Sam não tinha nem murchado e eu já estava me jogando nos
braços de outra pessoa.
Leila abriu a boca para dizer alguma coisa, mas mudou de ideia e esperou Sonia continuar.
Elas passaram sobre uma ponte, uma plaquinha marrom as fez saber que passavam sobre o rio
Stillaguamish.
— Estamos juntos em segredo há dois meses e, apesar de ele me fazer muito feliz, quando não
estamos juntos me sinto ainda mais infeliz que de costume. Não consigo me livrar da sensação de
estar traindo o Sam, como se ficar com Jeremiah significasse que eu nunca o amei e que ele
morreu enganado, acreditando ter encontrado sua alma gêmea. E agora o Jeremiah quer tornar
público nosso envolvimento ou terminar... nem sei bem qual dos dois. Mas não posso deixar a
família do Sam saber que estou com outra pessoa. Eu mesma mal consigo pensar nisso, então
como vou contar a eles? E se eles não quiserem mais saber de mim depois que descobrirem? Não
posso correr o risco de perdê-los.
O carro devia estar andando bem devagar, porque de vez em quando um automóvel passava
por elas e os faróis inundavam o interior do veículo de Leila. Ela continuava em silêncio,
esperando pacientemente que Sonia contasse sua história, como se esperasse de fato drenar toda a
tristeza dela simplesmente ouvindo.
Sonia bateu o joelho na sacolinha plástica pendurada no câmbio. Havia uma garrafa de água
no porta-copos, e Leila a ofereceu ao ver que Sonia olhava para ela.
— Quando encontrei você — Sonia continuou —, Jeremiah e eu tínhamos acabado de brigar
e eu precisava sair de lá. Mas eu sou uma idiota e saí usando o paletó dele, com as alianças do casamento em um dos bolsos. — Ela olhou para Leila, cujo rosto sereno agora demonstrava
preocupação: uma ruga na testa, os lábios curvados para baixo. — Você acha que podemos
voltar? Preciso mesmo levar as alianças. O casamento vai estar arruinado se eu não fizer isso.
Leila imediatamente ligou a seta e saiu para o acostamento, o carro tremendo conforme
passavam por cima das saliências que alertavam os motoristas que se aproximavam demais da
saída.
— Por que não disse isso antes? — ela perguntou, virando o carro para fazer o retorno.
— Você nem pensou duas vezes — Sonia constatou, surpresa.
— Acho que a última coisa de que você precisa agora é sentir que não tem ninguém do seu
lado. Se alguns litros de gasolina e tempo podem me ajudar a fazer alguém sentir que não está só,
fico mais do que feliz em poder colaborar. — E voltou à estrada de mão dupla, agora deserta,
dando início à viagem de volta. — E então, o sentimento horroroso passou? — perguntou,
sorrindo.
— Não muito. — Sonia bebeu um gole de água e sentiu uma imensa gratidão. — Mas
melhorou. Obrigada.
— Foi um prazer — Leila sorriu.
Por um segundo foi como se o sentimento horrível tivesse desaparecido, ou se tornado menos
horrível, pelo menos. Mas alguma coisa incomodava Sonia, um medo vago de ter esquecido
alguma coisa. Ela apalpou o bolso interno do paletó e verificou que a caixinha com as alianças
ainda estava lá. Só para ter certeza, pegou a caixinha e viu as duas alianças encaixadas, em pé como
dois soldados em alerta. O telefone estava preso na cintura do shorts.
Para ter certeza de que ainda estava com a carteira e o passaporte, ela se abaixou para pegar a
bolsa no chão. Assim que os dedos tocaram o tapete, ela começou a mover a mão de um lado para
o outro em busca do contato com o couro. Inclinando um pouco mais o corpo, deslizou a mão
até onde o braço conseguia alcançar.
— O que foi?
— Merda — Sonia disse, visualizando claramente a bolsa sobre uma bancada suja de
banheiro. — Acho que deixei a bolsa no banheiro quando a gente parou. — Ela soltou o cinto de
segurança e se abaixou para olhar, o ombro pressionado contra a falsa camurça do revestimento
do banco. Mas já sabia que a bolsa não estava ali.
— Tudo bem — Leila falou calmamente. — A gente para quando passar por lá.
Levaram só alguns minutos para chegar ao posto. Não havia outros carros no estacionamento,
o que Sonia interpretou como um bom sinal de que a bolsa podia continuar no mesmo lugar. Ela
saiu rápido do carro e correu para o banheiro.
Ainda assim a bancada estava completamente vazia, coberta apenas por pequenas poças de
água e manchas do sabonete que pingava do recipiente suspenso e secava sobre a pedra. Sonia
correu da porta até a bancada, como se estivesse longe demais para ver a bolsa. Mas ela não estava
lá, e com ela tudo o que estava dentro tinha desaparecido: o brilho labial, uma foto dela com Sam,
a carteira com um cartão de crédito para emergências, um pouco de dinheiro canadense e sua carteira de motorista do estado de Washington, a chave do quarto de hotel, o caderno com as
últimas anotações, poucas palavras riscadas quase que imediatamente após serem escritas e seu
passaporte americano, cuja tinta do último carimbo de entrada ainda nem secara direito.
O peso das alianças parecia de alguma forma aumentar em seu bolso, como se de algum jeito
elas percebessem que agora estavam a uma distância impossível de onde deveriam estar.