Perdidos por aí
Capítulo 2
Leila estava sentada com os pés no colo de Hudson, os dedos fortes dele ao redor de seus
tornozelos. Ele tinha um jeito especial de tocar sua pele, como se extraísse energia dela. O ar era
perfeito, agradável a ponto de mal poder ser sentido, como uma carícia matinal. Havia um copo
de limonada com hortelã sobre a mesa, suando, as gotas escorrendo pelo vidro gelado e formando
uma poça que fez Leila desejar uma piscina. Ela viu Hudson sorrir de olhos fechados, a cabeça
inclinada para trás, iluminada pelo sol. Sentiu o desejo de correr os dedos pelos lábios dele.
— Feliz aniversário! — uma vozinha gritou, tirando Leila de seu sono. O rosto de Dee
preenchia a fresta parcialmente aberta da entrada da barraca, e havia um chapéu de aniversário
sobre a cabeça de cachos loiros. Ela soprava uma língua de sogra que se desenrolava como a
língua de um réptil. — Feliz aniversário! — Dee repetiu, baixando o zíper da entrada da barraca
para abri-la por completo.
O ar que entrou era frio e delicioso, como o do sonho, e Leila olhou em volta à procura de
Hudson.
— Vem — Dee chamou, arrancando-a do torpor sonolento e da barraca. — A gente tem uma
surpresa pra você.
Leila dormira com as roupas que usava no dia anterior, jeans e suéter azul-celeste, ambos
manchados de grama e cheirando a fumaça (gostava disso). Ela tirou o suéter e o atirou em um
canto, depois passou a mão na cabeça, alisando os fios que se soltaram enquanto dormia. Podia
ver a saia de Harriet e a calça de linho de Brendan atrás de Dee, e mais um par de pernas que não
reconhecia.
— O que está acontecendo? — Leila perguntou.
— Vem ver! — Dee insistiu, acenando enquanto saía da barraca. Ela soprou a língua de sogra
novamente, e um coro de cornetinhas respondeu do lado de fora.
Devia ser meio da tarde. Leila se espreguiçou e estalou as costas, depois engatinhou para fora
da barraca.
— O que é isso? — perguntou, sorrindo para Dee e olhando confusa para a cena ali fora.
— É a sua festa de aniversário! — Dee apontou para o grupo de pessoas, como se Leila ainda
não as tivesse visto ali. — Sei que não é seu aniversário de verdade, mas não é justo eu conseguir lembrar de quase todas as minhas festas e você não lembrar de nenhuma das suas. Mesmo tendo
tido mais festas que eu. Agora pelo menos tem uma para lembrar.
Harriet e Brendan usavam chapéus iguais ao de Dee e estavam segurando um bolo, afastando
os mosquitos que tentavam pousar na cobertura branca simples. Liza, a responsável pelo
camping, também estava ali com uma cornetinha. Algumas pessoas que Leila nunca tinha visto
também estavam, provavelmente outros campistas que Dee convocara com seu jeitinho adorável.
Havia um casal de vinte e poucos anos, alguns homens que pareciam gostar de caçar e trocar dicas
sobre não aparar a barba. Famílias estavam reunidas em torno das mesas de piquenique, as
crianças exibindo expressões que iam da euforia por estar participando da festa de aniversário de
uma desconhecida à perplexidade porque os pais supostamente amorosos as haviam arrastado
para o meio da floresta, para longe da civilização.
Leila sentiu seu sorriso se ampliar para além de seu controle. O sonho com Hudson
finalmente a deixara, sendo substituído por uma repentina agitação. Ela olhou para Brendan e
Harriet e ergueu as sobrancelhas.
— A culpa é dela — Brendan falou, balançando a cabeça com espanto e orgulho.
Dee segurou a mão de Leila e a levou para perto do bolo.
— A mamãe disse que os bolos de aniversário quase sempre são de chocolate, por isso
trouxemos um bolo de chocolate pra você. Quem sabe o gosto não faz você lembrar de outro
bolo de chocolate no passado?
A cobertura era completamente branca, uma tela vazia. Harriet mostrou vários saquinhos
plásticos contendo substâncias coloridas.
— A Dee gostou de desenhar no próprio bolo no ano passado e achou que você também ia
gostar de decorar o seu.
— E não esquece de cheirar o bolo — disse a garotinha, ainda segurando a mão de Leila. —
O papai diz que as pessoas lembram das coisas pelo cheiro.
— Foi o que me disseram — Brendan explicou timidamente. Ele sorriu e puxou a ponta da
barba. — Espero que esteja bom. Foi o único que consegui encontrar em cima da hora.
Leila olhou em volta. A atenção de todos estava voltada para ela. Ainda não conseguia
controlar o sorriso.
— Não sei o que dizer. Isso é maravilhoso.
— Temos uma pinhata — Liza anunciou, batendo palmas.
— Você já teve uma pinhata? — Dee perguntou, esperançosa. Leila balançou a cabeça. — Vai
ser divertido! — a menina decidiu. — Nunca estive na primeira festa de aniversário de alguém.
Vamos bater na pinhata, e compramos balões de água também. Não tá muito frio, e a minha mãe
disse que, se a gente se enxugar logo depois, ninguém vai ficar resfriado. Depois podemos brincar
de esconde-esconde e de lata de sardinha, que é a mesma coisa só que ao contrário. Uma pessoa se
esconde e todo mundo tem que procurar, e, quando alguém encontra a pessoa escondida, se
esconde com ela, até sobrar só uma pessoa procurando. — Seus olhos brilhavam de entusiasmo.
Todos seguiram pelo caminho que levava para a floresta, para longe da sede do camping. As
pessoas conversavam. Harriet discutia a gramática em torno das pinhatas.
— Você tem pinhatas? Você usa pinhatas? Brinca com elas? Bate nelas?
Leila pôde ouvir Brendan sussurrar a situação dela para alguém no grupo. Uma das crianças,
um menino mais ou menos da idade de Dee, reclamou de estarem andando muito, e o pai, sem
nenhum traço de impaciência, disse para a criança parar de reclamar e aproveitar o dia.
Logo todos estavam caminhando ao longo do riacho e chegavam à clareira onde Leila passara
a noite olhando para o céu. Se desse mais alguns passos para fora da trilha, ela seria capaz de
encontrar o local exato da foto exibida online. Aquela que estava no site com a legenda: “Um dos
vários lugares incríveis para ver a aurora boreal!”
O grupo alcançou uma bifurcação do caminho que Leila ainda não tivera tempo de explorar, e
Dee conduziu o grupo para a esquerda, chegando logo em seguida a um aglomerado de mesas de
piquenique enfeitadas com toalhas de papel decorativas. Havia tigelas cheias de batatas chips,
bandejas de palitos de vegetais com molhos variados, garrafas de refrigerante de dois litros. Pilhas
de guardanapos de papel com as inscrições “Feliz aniversário!” e “A aniversariante!” embaixo de
pedras que os impediam de voar. Duas ou três caixas de pizza sobre cada mesa, espalhando um
cheiro que Leila sentiu ao se aproximar. Um grupo de três homens mais velhos havia ficado ali
para impedir que animais estragassem a festa. Eram barbudos e bebiam tranquilamente suas
garrafas de cerveja. Um deles acenou com a mão livre; os outros dois se levantaram do banco e
sorriram.
— A festa é sua, então você decide como quer começar — disse Dee. — Podemos comer o
bolo primeiro, ou a pizza, ou bater na pinhata, ou brincar. — Ela mostrou a área de piquenique e
olhou ao redor algumas vezes, os cachos balançando mais que o esperado para a quantidade de
movimento. — Mãe! Cadê o sorvete?
— No riacho — disse um dos homens que bebiam cerveja. — A água não vai deixar derreter.
— Ah — Dee respondeu. Ela soltou a mão de Leila e andou por ali inspecionando todos os
detalhes. Depois, satisfeita, olhou novamente para Leila. — Então, o que quer fazer primeiro?
Leila se abaixou e deu um abraço de urso na menina, que soltou um gritinho de alegria.
— Obrigada — ela segurou Dee por um segundo, depois a soltou e repetiu o agradecimento
para Brendan, Harriet e todos os outros ali reunidos.
Leila notou que a voz estava começando a ficar embargada, mal acreditando na bondade
daquelas pessoas. O impulso carinhoso de Dee de organizar uma festa para ela, a disponibilidade
dos pais para pôr a ideia em prática. Se alguma coisa podia tirar suas lembranças do esconderijo,
por que não a bondade?
— Vamos começar com a pizza — ela decidiu, tocando os ombros de Dee e guiando as
pessoas para a mesa de piquenique mais próxima.
A festa de aniversário era rica em tudo que Leila tinha amado na viagem. Ela imaginou se
alguém sentia o mesmo entusiasmo que ela por conhecer gente nova, ou se era algo que só ela
apreciava.
Os três barbudos bebedores de cerveja, por exemplo, eram Ron, Geoff e Karl, três primos em
uma viagem de pesca. As idades eram aproximadas, um ano de diferença, e quase nem precisavam
falar para saber exatamente o que o outro estava pensando. O jovem casal tinha acabado de ficar
noivo depois de quatro anos de namoro a distância. Uma das crianças, um menino acanhado de
doze anos, dizia ser poeta e ter um cachorro que uma vez tinha comido duzentas e cinquenta
páginas de seu trabalho, o que o fez desistir de escrever por alguns anos.
Leila queria poder ouvir cada conversa que acontecia simultaneamente, mas, em vez disso, ela
se contentou em ouvir um pouco de cada, e o resultado foi uma mistura de gente escavando a vida
umas das outras.
Uma intimidade que, embora fugaz, se formava do nada, e Leila tentou não se limitar a ficar
sentada observando o que acontecia, mas participar da cena. Havia feito a seguinte descoberta a
respeito de si mesma: o desejo simultâneo de observar as pessoas de longe e se integrar à vida
delas.
Depois da pizza, da conversa e do sorvete gelado no riacho, Leila decidiu que a atividade
seguinte seria brincar de esconde-esconde. Ela se escondia em lugares horríveis para poder ter o
prazer de procurar os outros. Adorava fingir que não via as crianças se escondendo, que não ouvia
as risadinhas abafadas quando passava pelos arbustos atrás dos quais elas estavam abaixadas.
Quando os adultos se cansaram de brincar e voltaram para os coolers de cerveja, Leila
decorou o bolo, depois anunciou que era hora de tentar acertar a pinhata. Dee aplaudiu e lhe
passou o cabo de vassoura que servia de bastão.
— Não quero ser a primeira — Leila avisou. — Sou muito forte. Ninguém mais vai ter a
chance de brincar.
Dee balançou a cabeça.
— Não, a aniversariante tem que ser a primeira.
— É sério. Posso explodir tudo na primeira tentativa. Sou forte de verdade.
Expondo o sorriso sem dentes, Dee cruzou os braços e se recusou a aceitar o cabo de vassoura
de volta.
— Você tem que ser a primeira.
— Bom, se você insiste. Mas não vai poder me culpar por não sobrar doce, porque vou
explodir tudo — ela respondeu, contendo um sorriso.
Leila se aproximou da pinhata, deixou Harriet vendá-la e, depois de ser girada algumas vezes,
fingiu cair na primeira tentativa.
— Consegui? — ela gritou do chão, divertindo a plateia infantil com a encenação. Depois se
levantou e passou o cabo de vassoura para Dee, e as outras crianças tiveram vinte segundos cada
uma para tentar acertar a pinhata. O círculo em torno delas era amplo para evitar acidentes. Na
vez do poeta de doze anos, a pinhata quebrou com um estalo que soou como uma rebatida num
jogo de beisebol, e todo mundo correu para pegar os doces que caíram.
Depois da pinhata, o grupo começou a dar sinais de cansaço. Dee chamou Leila para cortar o
bolo. Havia uma vela no meio dele, acesa e enterrada quase até a metade na cobertura verde que devia parecer a aurora boreal. Os campistas se reuniram em torno de Leila e cantaram “Parabéns a
você”, a voz de Dee mais alta que todas as outras. Quando terminaram, Dee falou:
— Agora você assopra a vela e faz um pedido, e, se pedir com vontade e não contar pra
ninguém o que foi, o pedido vai se realizar. — Ela estava ajoelhada no banco ao lado de Leila,
inclinada para trás como se tentasse resistir ao impulso de apagar a velinha. Suas bochechas
estavam coradas do sol e de correr ao ar livre. E ela estava enrolada em uma toalha desde o fim da
guerra de balões de água, tremendo de leve.
Leila fez uma pausa, pensando no que pedir. A chama da vela tremeluziu, dançou no ar frio.
Seria engraçado se um pedido feito a uma vela comum trouxesse de volta suas lembranças. Ela
imaginou, imediatamente depois de apagar a vela, o carteiro se aproximando, procurando Liza
para entregar vários envelopes. Entre eles, uma carta de Hudson, ou um cartão-postal, qualquer
coisa que rompesse o silêncio. Imaginou o próprio Hudson se aproximando. E se pedisse uma
vida normal, uma vida que não girasse em torno apenas do que havia desaparecido?
Com os olhos de Dee estudando seu rosto e cheios de expectativa, Leila respirou fundo,
lembrou que aquilo era só uma vela em um bolo, não um milagre, comprimiu os lábios e pediu
apenas para ver a aurora boreal. A chama desapareceu em uma coluna de fumaça.
Dee se inclinou para Leila e cochichou:
— Deu certo? Você lembrou?
Leila sorriu.
— Obrigada, Dee. Vou me lembrar desta festa para sempre.
— Quem quer bolo? — perguntou Liza, assumindo a tarefa de cortar o bolo em pedaços
razoáveis. Várias pessoas responderam sim e não, e algumas pediram um pedaço bem pequeno.
Dee abaixou a cabeça. Leila pôde ver que a menina tinha lágrimas nos olhos.
— Ei, o que foi?
Dee fungou e fechou a boca com força. Seu lábio inferior ainda tremia de frio.
— Devia ter dado certo — ela disse. — Você tinha que ter lembrado. — Ela pulou do banco
e correu para longe da mesa, o rabo de cavalo balançando enquanto ela se afastava até desaparecer
depois da curva.
Leila a chamou, mas Harriet já estava se levantando.
— Não se preocupe — ela disse. — A Dee vai ficar bem. Ela costuma reagir de um jeito meio
exagerado quando as coisas não acontecem exatamente como ela quer. Aproveite a festa.
Leila tentou fazer isso, aceitando uma fatia de bolo e conversando com as outras pessoas. Se
Dee ainda estivesse aborrecida quando voltasse, inventaria uma mentira inocente para deixá-la
feliz. A todo instante, ela olhava para trás esperando ver Harriet voltar à festa. Depois de cerca de
vinte minutos, quando Leila já começava a se preocupar com a possibilidade de Dee ter levado
toda a história a sério demais, Harriet apareceu no caminho, nervosa e chorando.
— Não consigo encontrá-la em lugar nenhum! — ela gritou. — A Dee desapareceu!