Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 10 de 36

Páginas do PDF

Perdidos por aí

Capítulo 3

 

— Acho que já estive aqui antes — Bree falou quando chegaram ao centro da cidade. Ela estava

mexendo nas saídas de ar-condicionado, abaixando e levantando as grades, tentando inutilmente

encontrar o fluxo de ar ideal.

— Em Kansas City?

— É — ela confirmou, olhando ao redor. — Minha família sempre viajava de carro. Mas é

difícil ter certeza em relação aos centros das cidades, são sempre iguais. Todos têm alguma coisa

que os diferencia, claro, mas, se alguém vendar seus olhos e te deixar aqui, você vai levar um

tempo para deduzir onde está.

— Isso seria um experimento social interessante. Vendar as pessoas e deixá-las em uma

cidade que não reconhecem de imediato.

— Acho que a maioria ia se encolher e chorar.

— Acho que é o que estou fazendo nesta viagem.

Bree ergueu uma sobrancelha.

— O quê, se encolhendo e chorando?

Leila riu.

— Não. Vendando os olhos e seguindo para cidades que não conheço. Acho que sei para

onde estou indo antes de chegar, mas não acredito que seria muito diferente se alguém me

largasse lá. Eu ficaria andando sem rumo, encontraria algo para comer, observaria as pessoas e

pensaria nelas e no mundo e, para ser honesta, principalmente em mim mesma.

Elas estavam paradas em um sinal vermelho, e Leila mordia as pernas de um ursinho de goma.

Bree pegou sua bebida.

— O calor aqui é pior do que em Reno — comentou. — Eu já devia ter parado duas vezes

para fazer xixi, mas estou suando tudo que bebo.

— É, desculpa pelo ar-condicionado. Acho que o mecânico que cuidou do carro não regulou

de propósito, para me obrigar a voltar.

— É mesmo? Isso é sacanagem.

— Não. Na verdade, não é. É só um carro velho. — Leila suspirou e jogou o resto do ursinho

na boca. — Você é de Reno?

— Sim. O maior buraquinho de merda do mundo.

— Quando vai voltar para casa?

Bree balançou a cabeça enquanto mastigava o bastão de carne-seca.

— Não vou.

— Por que não?

— Minha irmã estava fazendo da minha vida um inferno — explicou Bree, surpresa com a

própria franqueza. Só tinha falado sobre isso com uma pessoa, um garoto de San Francisco,

principalmente porque ele era quieto o bastante para ser um bom ouvinte e porque o contato da

sua pele com a dele parecia arrancar os segredos de seus esconderijos. — Nossos pais morreram.

Os dois em um ano, e ela assumiu o papel de responsável por mim, mas levou essa história a sério

demais. Então eu fugi — ela concluiu, preferindo não contar a história toda.

— Você mantém contato com ela?

— Não — respondeu Bree. Depois mordeu mais um pedaço do bastão e avistou uma minivan

entrando em um estacionamento do outro lado da rua e um jovem e atraente casal descendo do

automóvel. — Não foi uma despedida muito amigável. A gente nunca se deu muito bem, mas

depois que nossos pais morreram não fazíamos nada além de brigar. Ela ficava furiosa porque eu

saía para me divertir, o que eu só fazia porque, bom, como reage alguém que fica órfã aos quinze

anos? E eu ficava furiosa porque ela me tratava como criança. Além disso, ela passava o tempo

todo com o namorado, Matt.

A minivan soltou um bipe e as portas travaram. Bree viu o casal se afastar, a mulher

empurrando um carrinho, o homem levando uma garotinha sobre os ombros.

— Você nunca sente saudade da sua vida antiga? — Leila perguntou.

Bree encostou a lata de refrigerante na testa quando o sinal ficou verde.

— Quando estou entre um lugar e outro, talvez. Adoro a estrada, mas é logisticamente

impossível ficar em movimento o tempo todo. Às vezes tenho vontade de voltar. Mas não consigo

me imaginar encarando minha irmã.

— Por quê?

— Ela não chorou nos funerais — Bree contou calmamente, como se pensar nisso não

partisse seu coração. Não era mentira, mas também não era exatamente verdade. — Ela pode

dizer o que quiser das minhas atitudes, mas pelo menos tive a decência de sentir alguma coisa.

— Humm.

Bree preferia esse ruído abafado às respostas vazias dadas pela maioria das pessoas.

Depois de meia hora andando sem rumo, o ar não havia esfriado nada. Os bancos de veludo

tinham se tornado desconfortavelmente grudentos, e elas decidiram parar e esticar um pouco as

pernas. Cansadas do calor, procuraram um lugar à sombra de uma árvore, com galhos longos e

baixos que se estendiam como braços protetores.

Do outro lado da rua, cercado por um muro branco de três metros de altura que se estendia

até onde Bree conseguia enxergar, ficava o Country Club de Kansas City. A paisagem do lado de

fora era impecável, tudo bem verde e perfeitamente aparado, arbustos cortados formando esferas

perfeitas. De vez em quando, um carro se aproximava do manobrista solitário. As pessoas que desciam dos automóveis estavam bem-vestidas, os homens de ternos que pareciam caros, com

abotoaduras brilhantes e lenços no bolso, as mulheres adornadas com joias e bolsas de grife. Um

grande Mercedes dourado estava subindo a alameda em direção ao manobrista. Um carro como

aquele nunca parara na beira da estrada para dar carona para Bree.

— Aposto que aquele Mercedes tem um ar-condicionado legal — ela comentou.

— Aposto que sim — Leila concordou. Ela limpou o suor da testa. — Deve estar

acontecendo algum evento.

O sol ainda estava alto no céu, a noite só chegaria em algumas horas. Bree sentia a camiseta

colar na parte inferior das costas.

— É... — ela disse. — Você acha que se importariam se a gente usasse um pouquinho?

Leila olhou para Bree e ergueu uma sobrancelha.

— Seria bom andar por aí em um carro com um ar-condicionado decente. Por quê? Sua alma

está coçando de novo?

Elas viram o manobrista entrar no carro, percorrer cerca de quinze metros da alameda e

entrar no estacionamento que, de onde estavam, não conseguiam ver. Depois de alguns instantes,

ele voltou ao seu posto na entrada, esperando o próximo veículo aparecer. A chave do Mercedes

foi pendurada em um gancho ao lado de mais ou menos duas dúzias de chaves de carros de luxo.

— A gente só vai pegar emprestado por uma hora — Bree sugeriu. — Ninguém nem vai

perceber.

— Não tenho tanta certeza. Os ricos têm um sexto sentido sinistro quando mexem nas coisas

deles.

— Só umas voltas rápidas na avenida.

— Rápidas porque alguém vai estar atrás da gente?

— Ninguém vai atrás da gente.

— Eu sei — confessou Leila. — Estou hesitando porque estou nervosa.

— Ei, não vou negar seu direito de ficar nervosa. Mas, quando superar o nervosismo, acho

que você sabe o que devemos fazer.

— O que vamos dizer se alguém pegar a gente?

— Que estávamos morrendo de calor e desidratação e que foi uma emergência médica —

Bree improvisou.

Leila fez uma pausa.

— Então a gente vai voltar e deixar o carro exatamente onde estava?

— Na mesma vaga.

Outro veículo subia a rua, provavelmente a caminho do clube. As garotas se entreolharam,

rindo como malucas. Bree sentia o coração batendo mais depressa.

Ela abriu a porta.

— Vem, vamos pegar a chave quando o manobrista for estacionar o carro que está chegando.

Leila respirou fundo algumas vezes, como se estivesse se preparando para percorrer uma

longa distância debaixo d’água.

— Curta a terça — ela disse.

As duas atravessaram a rua correndo e se esconderam atrás do muro, do lado de fora do clube.

Quando ouviram o manobrista dar partida no carro para ir estacioná-lo, saíram do esconderijo e

subiram a alameda a passos rápidos. As chaves estavam livres ali, tentadoras como tortas esfriando

na janela. Bree as alcançou primeiro e pegou o chaveiro com o logotipo da Mercedes brilhando

prateado contra a luz do sol. Era quase decepcionantemente fácil.

— Aja como se estivesse à vontade aqui — disse Bree conforme andavam pelo

estacionamento. — Não existe documento de identidade melhor do que um sorriso e um aceno.

O peso da chave em sua mão já lhe era tão gratificante, mais do que a bolsa cheia de coisas

roubadas. Ela mal podia esperar para entrar no carro, dar partida, dirigir pela cidade e fingir que o

ar-condicionado tinha sido a única motivação.

— Posso ajudar, garotas?

O manobrista apareceu algumas fileiras de carros à frente. Ele não era feio, pensou Bree. O

colete do uniforme era meio ridículo, a camisa social branca estava embolada dentro da calça, e ele

ostentava alguns pelos faciais que ainda não podiam ser chamados de barba.

— Só precisamos pegar uma coisa no carro — respondeu Bree, sem reduzir a velocidade dos

passos.

O manobrista notou a chave na mão dela. Bree cerrou o punho apertado, como se ele pudesse

tentar pegá-la de volta à força. Ela se perguntou se conseguiria correr mais rápido que ele.

— Ah — disse o rapaz, começando a se aproximar. — Vocês, hum... são sócias do clube?

— Meus pais esqueceram uma coisa — falou Bree, apontando vagamente na direção do

Mercedes dourado.

Leila a seguia, mas o manobrista continuou se aproximando, como se pretendesse interceptá-

las. Ele tirou o celular do bolso.

— Tudo bem — disse, mas era evidente que não as deixaria em paz.

Merda, pensou Bree, sentindo um obstáculo intransponível. Depois lembrou como tinha sido

fácil sair da loja de conveniência com todos os produtos furtados, como aquele cara abastecendo

o carro tinha olhado para elas. Agora o Mercedes estava a apenas três carros de distância,

suficientemente perto para conseguir destravar as portas usando o controle. Ela encarou o

manobrista, procurando em seus belos olhos algo além de desconfiança.

— Posso perguntar uma coisa? — ela disse, dando um passo na direção dele.

— Hum — o rapaz respondeu. Agora eles estavam ao lado do Mercedes. O manobrista

olhou para o carro, depois para Leila e em seguida para Bree, a menos de um braço de distância.

— É claro.

— Quando foi a última vez que você se sentiu realmente vivo?

— O quê?

Sem dizer mais nada, Bree tocou a cintura dele e se aproximou um pouco mais. Ela o beijou

em um impulso. Apesar do que tinha acontecido, Bree ainda acreditava em beijos impulsivos. Ela

se afastou e não conteve o riso ao ver a expressão atordoada do manobrista.

— Uau — ele disse.

— Escuta, vou ser honesta com você. — Bree mantinha um braço na cintura dele. — Esse

carro não é nosso. Mas não vamos roubar nada.

— Não? — Ele olhou para as duas, e Bree se perguntou se a desconfiança já dava lugar às

fantasias.

— Não. Mas queremos pegar emprestado.

— Ah. Não sei se eu posso...

— Só uma hora — Bree continuou. — A gente devolve antes que alguém perceba.

— Acho que não é uma boa ideia.

Bree o beijou novamente. A barba por fazer irritava a pele, mas não de um jeito ruim, mais

como um dedo roçando o canto de sua boca.

— Você só precisa fingir que não viu a gente — Bree sugeriu, se afastando dele e sentindo o

coração disparar com a descarga de adrenalina. — A gente volta em uma hora. Depois, quando

sair do trabalho, a gente pode se encontrar.

Ele coçou o queixo, olhou para Leila apoiada no Mercedes, depois outra vez para Bree, os

olhos descendo abaixo da linha de seu decote. Uma buzina soou atrás deles.

— Droga — ele resmungou, olhando para a fachada do clube. — Tudo bem. Tudo bem.

Esperem até eu estacionar o carro que chegou, então podem ir. — E começou a voltar para o seu

posto de manobrista, andando e olhando por cima do ombro. — A gente se vê mais tarde —

disse.

Quando ele desapareceu, Bree olhou para Leila e destravou as portas.

— Hora do ar-condicionado alemão.

— Você é minha nova heroína — Leila declarou e se acomodou no banco do passageiro.

Bree sorriu e se sentou ao volante. Esperava que o interior tivesse cheiro de couro, ou de carro

novo, que na verdade era cheiro de formol, de acordo com o que lera em algum lugar. Mas o

cheiro predominante era de cigarro, odor corporal, excesso de perfume. Aquelas janelas nunca

tinham sido abertas?

Quando ela ligou o carro, o ar-condicionado começou a funcionar de imediato. Era

maravilhosamente poderoso e sonoro, como se os engenheiros alemães que o projetaram

quisessem criar não só ar, mas vento. No momento em que o manobrista chegou para parar o

outro carro, um BMW prateado, Bree acenou para ele e saiu lentamente do estacionamento,

tomando a direção da rodovia. Ela podia sentir o coração bombeando outra vez a monotonia para

fora do corpo.

Quando alcançaram a rua, Bree pisou mais fundo do que era necessário, as árvores do lado de

fora se transformando em borrões tão repentinamente que tudo parecia um desenho animado.

— Você ouviu como ele disse “uau” quando você o beijou?

Bree riu e pisou um pouco mais fundo no acelerador. O pedal quase não oferecia resistência.

Ela cruzou um sinal amarelo, e uma mulher que passeava com o cachorro balançou a cabeça em

um gesto de indignação.

Elas ajustaram o ar-condicionado na potência máxima, abriram as janelas e gritaram, gritos

agudos que teriam feito os monstros de Maurice Sendak tremerem de prazer. O carro rugia

como se as acompanhasse, o ar entrava pelas janelas e sacudia seus cabelos, fazendo as mechas

dançarem diante de seus olhos. Talvez ela estivesse apenas imaginando, mas Bree sentia a

adrenalina circulando pelo corpo, partículas microscópicas percorrendo as veias, coisinhas

selvagens com vida própria. Ela gritou de novo, um uivo de esvaziar o pulmão, um som que o

vento capturou e misturou à risada de Leila.

Bree encontrou a saída para a rodovia e cruzou a rampa de acesso. Ela pisou mais fundo no

acelerador, tão fundo que praticamente podia sentir o combustível queimando. Leila batucava no

painel como se o passeio tivesse uma daquelas músicas carregadas de energia como trilha sonora.

Bree tinha uma visibilidade incrível. Eram apenas ela, Leila, a área metropolitana de Kansas City

esparramada sob o amplo céu do Centro-Oeste e a estrada desaparecendo centímetro a

centímetro no horizonte, convidando-as a seguir em frente.