Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 32 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 3

 

 

Leila acompanhou os pais de Dee na busca pela floresta, tentando ser uma presença

tranquilizadora. Dessa vez se sentia grata pela aproximação lenta da noite.

Estavam vasculhando o acampamento havia duas horas, todos divididos em grupos de duas ou

três pessoas para cobrir a maior área possível. A intervalos regulares de alguns segundos, uma voz

chamava Dee em meio às árvores, espantando os pássaros que ainda estavam por ali. O som do

bater de asas enchia Leila de medo. Mas ela não ousava perder a compostura na frente de Brendan

e Harriet. Olhava inutilmente para a floresta ao redor do terreno, tentando ver algo entre as

árvores além de escuridão e mais árvores.

Brendan mantinha um braço em torno dos ombros de Harriet, mas parecia tão aflito e

devastado quanto ela. Quando diziam o nome da filha, a voz deles soava fraca, como se fosse

reduzida a um fio. Um guarda florestal, Rick, os acompanhava apontando uma lanterna para os

arbustos, olhando para os galhos altos demais para Dee poder tê-los alcançado. Um pouco acima

do peso, com olhos entediados, Rick parecia mais um segurança de shopping do que alguém que

trabalhava ao ar livre, muito menos um guarda florestal.

— Crianças dessa idade se cansam com facilidade — disse ele. — Às vezes os instintos são

um pouco confusos, e elas ficam vagando e acabam se perdendo cada vez mais. Mas uma criança

que já acampou antes, como vocês dizem, saberia que ficar parada é a melhor coisa a fazer. Se ela

fugiu depois de uma briga, meu palpite é que será encontrada quando quiser ser encontrada.

— Não foi uma briga — Leila murmurou. Devia ter inventado alguma coisa, um

detalhezinho bobo que teria deixado Dee feliz.

— De qualquer maneira, eu não me preocuparia — insistiu o guarda.

— Ah, bom, eu estou preocupada — disse Harriet.

Leila não se conformava com a ideia de não poderem fazer nada além de procurar. Sentia-se

inútil gritando o nome de Dee, chegando a uma clareira e olhando para a planície com as mãos na

cintura, sem saber o que mais podia fazer.

O ar estava esfriando. Não era nada congelante, nem perto disso, mas Leila pensou em como

Dee era pequena, como se afastara enrolada em uma toalha úmida, e foi invadida pelo pânico. De

repente o mundo era um lugar cheio de ameaças. Animais famintos, penhascos ocultos, plantas venenosas que podiam causar dano a um simples toque. Câncer, doenças cardíacas imprevistas,

acidentes de carro.

Leila respirou fundo.

— Talvez ela já tenha voltado ao acampamento.

— Acho que não — o guarda respondeu, um pouco rápido demais. — Eles teriam me avisado

pelo rádio. — E continuou olhando para as árvores, sem perceber os olhares de Leila e Brendan

sobre ele.

— Vocês recebem algum tipo de treinamento com relação à sensibilidade, Rick?

— Não — ele respondeu. — Por quê?

Harriet deu um sorrisinho secreto para Leila, revirando os olhos. Não era um gesto de

coração, mas era compreensível.

— Fico pensando se tanto charme é natural. — Leila se abaixou para pegar um galho, só para

ter alguma coisa com o que ocupar as mãos. O galho estava coberto de formiguinhas pretas, e ela

o jogou no chão. Depois fechou o zíper da jaqueta até em cima e escondeu o nariz atrás do tecido.

— Espero que ela não tenha ido muito longe — Rick continuou, sem se importar em nem ao

menos exibir uma expressão preocupada, a voz monótona. — Mais dois quilômetros e estaremos

bem perto do território dos ursos.

— Sério, Rick? É esse tipo de comentário que você pensa em fazer em um momento como

este?

Ele ajeitou o cinto e continuou andando.

— Não entendi. Ursos e outros animais são motivo de grande preocupação para os campistas

desta área.

Harriet se encolheu e cerrou os punhos. Brendan, contrariando sua atitude habitualmente

tranquila, parecia cada vez mais perto de esmurrar o guarda.

— Rick, o que acha de seguirmos em frente e deixarmos os dois voltarem? Caso tenhamos

deixado passar algum detalhe, ou Dee tenha voltado ao camping? — sugeriu Leila.

— Não é má ideia — disse ele. — Mas recebi instruções para ficar com o sr. e a sra. Maclin.

— E se eu ficar com eles, e você for embora?

— Não — Rick respondeu distraído. — E se encontrarem uma matilha de lobos sem minha

arma de dardos para protegê-los? E daí? — E bateu na arma que levava no coldre como se

afagasse um cachorro leal.

Leila balançou a cabeça sem acreditar. Olhou para Harriet e deu de ombros.

— Eu tentei.

— Eu sei — respondeu ela. — Volte. Acho que, quanto mais nos espalharmos, melhor.

— Tem certeza? — Leila não queria deixá-los sozinhos com o guarda sem noção, embora em

parte estivesse feliz por poder se livrar dele.

— Sim. Só tome cuidado com animais violentos. E ligue se encontrar a Dee. — Ela pegou o

celular para trocarem os números.

— O sinal de celular não é bom aqui.

— Mas que inferno, Rick — Leila explodiu.

— Vá. Salve-se. — Harriet ofereceu um sorriso, o que naquele momento em particular

pareceu um gesto de coragem. Leila tinha certeza de que a última coisa que ela queria fazer era

sorrir. Se pudesse escolher entre sorrir e, por exemplo, se encolher no chão da floresta e chorar

até a filha aparecer, provavelmente ela escolheria a segunda opção. Mas assim mesmo Harriet

estava sorrindo, seguindo em frente sem perder o controle.

Leila girou sobre os calcanhares e voltou pelo caminho que haviam percorrido. Era uma trilha

de caminhada, longa, mas não especialmente difícil, um caminho que, de acordo com a teoria do

guarda Rick, seria a escolha mais provável para uma menina de nove anos.

Ela inspecionava os arredores enquanto andava, mas, depois de horas fazendo apenas isso, era

difícil ter esperança. No entanto, de alguma forma ainda lhe era envolvente ver folhas dançando

ao vento, árvores inteiras tremendo e sendo sacudidas como pessoas interagindo em uma sala. A

beleza do lugar era quase tranquilizante, como se nenhum mal pudesse acontecer a Dee enquanto

ela estivesse perdida por ali.

Um galho estalou em algum lugar próximo. Em seguida, ela pôde ouvir o ruído de passos

muito leves. Leila ficou quieta, absolutamente imóvel, para ter certeza de que não estava

imaginando coisas. Os ruídos se repetiram, pisadas leves sobre o solo.

— Dee? — Leila chamou.

Os passos imediatamente ganharam velocidade. Estavam próximos, nas árvores logo além da

trilha. Se ainda fosse dia, ou pelo menos começo do crepúsculo, provavelmente poderia vê-la.

— Dee, sou eu, a Leila! — ela gritou, se afastando da trilha para seguir o ruído dos tênis sobre

as folhas, cada vez mais rápido. Antes que se desse conta, Leila estava correndo pela floresta,

desviando de arbustos, saltando obstáculos, se protegendo dos galhos mais baixos, agulhas de

pinheiros que feriam seu rosto enquanto acelerava. — Dee! Não corre!

Ela já estava quase sem fôlego. Em sua vida passada, gostava de correr. Sabia disso pelos tênis

gastos no armário e pelo exemplar de Do que eu falo quando eu falo de corrida, de Murakami, em

sua estante. Mas era a primeira vez que corria desde o jogo de Drunkball, desde a fuga dos

policiais na ilha, quando Hudson havia segurado sua mão.

— Dee! Vai devagar!

Era difícil imaginar as pernas curtas de Dee se movendo naquela velocidade. Leila rezava para

a menina não tropeçar em nada, não cair e se machucar. A imagem de sangue passou por sua

cabeça, e ela correu até as pernas queimarem, perseguindo os passos que, de maneira improvável,

se afastavam mais e mais. O som de água corrente era cada vez mais alto, quase suficiente para

abafar o barulho dos passos. Leila implorava por uma daquelas clareiras perto do rio, por um

vislumbre de Dee.

O suor lhe escorria dos cabelos para as costas e era frio quando impregnava o tecido da blusa.

Ela vai ficar doente, pensava. Vai se machucar, vai se perder, e tudo porque eu não consegui me

lembrar de uma porcaria de festa de aniversário. Lágrimas começaram a escorrer por seu rosto quando pensou no buraco que estourou dois pneus do carro de sua família, fazendo o pai perder

o controle. Por causa daquele buraco, o carro se dobrou ao meio ao se chocar contra um poste de

rua, tornando os cintos de segurança ineficientes diante da física. Um buraco estúpido no chão

tirara tudo de Leila, e ainda tirava coisas dela.

— Dee! — Leila gritou, sem saber se a menina ainda podia ouvi-la.

De repente era noite. A escuridão se instalara sem aviso prévio. Era difícil dizer por quanto

tempo ela havia corrido. Só um momento, parecia, mas os pulmões de Leila doíam, clamavam por

ar, e as pernas não conseguiam mais levá-la adiante no mesmo ritmo. Ela exigiu ainda mais delas,

implorou que a levassem um pouco mais longe. E elas obedeceram por um momento.

Continuaram se movendo, o suficiente para ela avistar um espaço por entre as árvores, o riacho

correndo sereno a distância.

Leila chegou à clareira respirando com dificuldade, o ar úmido e pegajoso envolvendo-lhe a

testa e o pescoço. Ela resistiu ao impulso de se dobrar ao meio, para poder olhar para o outro lado

da clareira, onde viu... um veado. Um pobre e assustado veado, correndo desesperado pela relva a

caminho do abrigo de outro aglomerado de árvores. Era só uma silhueta na escuridão, quase sem

cor, exceto pelo risco branco nas costas. Mas era claramente um veado, e um ou dois segundos

depois ele desapareceu novamente no bosque, deixando Leila sozinha para recuperar o fôlego.

Ela apoiou as mãos nos joelhos e se inclinou para frente, fechando os olhos para suportar a

decepção, suor e lágrimas pingando do queixo para a grama. Uma dor de cabeça apareceu, um

latejar que acompanhava a linha da cicatriz na nuca e o ritmo dos batimentos cardíacos.

Quando se recuperou um pouco, Leila caminhou até o riacho e jogou água no rosto,

enxugando-o com a manga da camiseta. O rosto ardeu por causa do frio. Ela levou um tempo

para se dar conta de que aquela clareira era a da foto do anúncio do camping. Devia ter corrido

por um atalho na floresta, ou tinha corrido mais do que se dera conta.

As pernas estavam tremendo, fracas. A boca estava mais seca do que jamais sentira antes. Ela

se ajoelhou na margem do riacho outra vez, unindo as mãos para beber um pouco da água quase

congelada. Quando tentou ficar de pé, as pernas se recusaram a sustentá-la. Em vez disso, ela caiu

na grama e estendeu as pernas para frente.

Foi quando viu uma silhueta cem metros abaixo, mais ou menos no mesmo lugar onde

passara a noite anterior deitada. Uma pessoa pequenina, ereta, de rabo de cavalo.

Leila levantou apressada e, apesar das queixas das pernas exaustas, se apressou até o outro

lado da clareira. Dee estava inteira, ilesa, sorrindo até. Leila a abraçou e não conseguiu conter as

lágrimas de alegria. Uma enxurrada de pensamentos parentais inundou sua cabeça. Fiquei tão

preocupada, nunca mais faça isso comigo, onde você estava, estou tão feliz por ver que está bem! Mas

ela estava feliz demais para falar qualquer coisa, por isso só continuou abraçando a menina.

— Leila, olha — disse Dee.

Ela se afastou de leve e viu que a menina olhava para o céu, um braço apontando para cima.

A aurora boreal em todo o seu esplendor. Ondas de luz verde riscavam o céu, entremeadas

por reflexos dourados e roxos. E se moviam como coisas vivas, como se estivessem respirando.

Nenhum outro céu que Leila vira antes podia ser comparado à beleza do que estava vendo agora.

Não era como um acidente da natureza, parecia mais um evento deliberadamente criado para o

mundo. Agora entendia o porquê de tantos mitos em torno das luzes, por que os antigos

pensavam que eram a prova de um deus benevolente querendo lembrá-los de seu amor. Eram

majestosas, diferentes de tudo o que Leila vira antes. E tiravam seu fôlego, assim como fizera a

corrida pela floresta.

Ela lembrou sua parte favorita da história, o trecho sobre o guerreiro. Esperou ouvir a voz do

pai contando esse trecho, aguardou os detalhes em torno da experiência voltarem aos poucos.

Mas aquela frase se repetia em sua cabeça na mesma voz nebulosa que recontava a história desde

que ela acordara naquele hospital.

A aurora boreal era tão linda quanto esperava que fosse, e ela se recusava a piscar enquanto

olhava para cima, para as luzes, vasculhando a mente vazia em busca de fragmentos do passado, de

cinzas dele, de uma única partícula de poeira da vida anterior ao acidente. Mas nenhuma catarse

se desencadeava dentro dela, nenhuma epifania borbulhava a caminho da superfície, nenhuma

recordação se apresentava diante do espetáculo a que assistia.

Leila tentou fechar os olhos e contrair a mandíbula, como se as lembranças estivessem apenas

escondidas em algum músculo adormecido. As únicas imagens que desfilavam por sua mente

eram as das fotografias que lhe mostraram no hospital, as fotos da irmã no colégio e as do álbum

de casamento dos pais. Lembrou do retrato dos quatro na praia, como tinha sido surreal olhar

para si mesma sem saber quando ou onde a foto havia sido tirada. Ela fechou os olhos com tanta

força que chegou a doer, e, quando os abriu novamente, pequenos pontos brancos surgiram.

A aurora boreal era linda de tirar o fôlego, e absolutamente insignificante. Podia estar

olhando para um nascer ou um pôr do sol fantástico. Podia estar olhando para o céu estrelado do

Mississippi deitada ao lado de Hudson. Francamente, era provável que essa última opção tivesse

tido mais importância. A viagem toda tinha sido em vão. Uma agradável e ilusória distração da

realidade que ela precisava encarar: ela tinha perdido sua vida anterior, talvez completamente.

Leila abaixou a cabeça e tocou as costas de Dee, feliz ao notar que a menina usava um

moletom que parecia mais quente que o dela. Então enxugou o rosto e disse:

— Fico feliz por você estar bem.

Dee abriu um sorriso confuso antes de olhar para as luzes novamente.

— Também fico feliz por você estar bem. Não é lindo?

Exausta, Leila se deixou cair na grama fria.

— Com certeza é.

Dee se sentou ao lado dela e apoiou a cabeça em seu ombro. A aurora continuou sua exibição

como se tivesse consciência da plateia e fizesse um espetáculo especial. Pequenas mudanças

surpreendiam Leila, arrancando dela exclamações involuntárias de prazer que desapareciam tão

rapidamente quanto surgiam, como se fossem levadas pelo vento.

Brendan e Harriet correram para as garotas sentadas à margem do riacho. O guarda Rick os

 

seguia sem pressa, falando pelo rádio e assentindo como se soubesse desde o início que o

desfecho da história seria esse. O casal estava chorando e cobria a filha de beijos e abraços.

— Que bom que a Leila te encontrou — disse Harriet com a menina nos braços. Sorrindo

para Leila, ela moveu os lábios e murmurou um obrigada.

Outros campistas que haviam estado na festa de aniversário foram aparecendo, mantendo

uma distância respeitosa para dar privacidade à reunião familiar. Leila assistia a tudo em silêncio,

feliz porque a noite não havia acabado em tragédia, afinal.

Tentava manter afastada a decepção pela falta de lembranças. Teria tempo para essa dor mais

tarde, quando estivesse sozinha.

Dee dava risadinhas, adorando a atenção dos pais.

— Eu não sabia que estava perdida. Eu estava triste e quis ficar sozinha um pouquinho.

Brendan apoiou a testa na da filha e sorriu, abraçando a esposa ao mesmo tempo.

— Na próxima vez em que você ficar triste, por favor, fique triste em um lugar menor e

menos assustador. — Ele beijou as duas mulheres mais importantes de sua vida e fechou os olhos,

sem dúvida grato por poder abraçá-las ao mesmo tempo.

Olhando aquela cena, Leila se deu conta de que uma reunião feliz e emocionada era o que

esperara o tempo todo, apesar da realidade. Nunca terei nada disso, ela pensou. Ninguém nunca

vai me abraçar desse jeito, me fazer sentir que não pertenço a nenhum outro lugar. Nunca terei essa

reunião, e chegou a hora de entender e aceitar.

Ela pensou nos tios em Louisiana, a única família que ainda tinha. Eram jovens e não tinham

filhos. Abriram sua casa e o coração para recebê-la, e até tinham desejado sorte nessa viagem

maluca que ela decidira fazer. Ajudaram Leila a comprar o carro, a ajudaram a aprender a dirigir.

Leila não se lembrava de nada com relação a eles antes do acidente, mas eram a única família que

ainda tinha.

Tinha chegado a hora, ela percebeu. Hora de parar de correr atrás de tudo que tinha perdido.

Decidira viajar porque precisava se afastar de uma vida desconhecida, e em algum lugar no

caminho ela havia se perdido. Passara a acreditar que algumas luzes se exibindo gloriosas no céu

podiam mudar alguma coisa dentro dela, alguma coisa que provavelmente não tinha mais

conserto. Era hora de abrir mão do desejo maluco de lembrar. Hora de começar a viver a vida

como ela surgisse. No presente, não no passado. Era hora de ir para casa.