Perdidos por aí
Capítulo 5
Assim que entraram no Tim Hortons, Sonia e Leila avistaram Stoner Timmy.
— Deve ser aquele ali, não? — comentou Leila, apontando para um cara de quase trinta anos
sentado atrás de uma mesa perto da janela. O cabelo loiro-escuro parecia quase sedoso de frente,
mas era cheio de dreadlocks na parte de trás. Ele usava shorts xadrez, sandálias de couro rachado,
meias de losangos e, apesar do calor, um moletom tie-dye com capuz. Cerca de meia dúzia de
copos de papelão cobriam a mesa, e ele usava um deles como cinzeiro. Como ele tinha permissão
para fumar em uma cafeteria pequena como aquela não estava claro, mas, aparentemente,
ninguém se incomodava. Ele estava escrevendo intensamente em um caderno e de vez em quando
ria sozinho.
— Meu Deus — Sonia suspirou e entrou na fila de duas pessoas diante do balcão. — Tenho
a sensação de que vou precisar de um café só para enfrentar essa conversa.
— Boa ideia — Leila respondeu. — Quanto tempo temos?
Sonia acendeu a tela do celular.
— A cerimônia começa às três, temos mais ou menos seis horas para deixar o cara
contrabandear a gente para o Canadá. Nada muito complicado. — Sonia olhou para o cardápio
familiar. Não havia Tim Hortons ao sul até Tacoma, mas a família de Sam era canadense e
insistia em parar em um café da rede sempre que viajava de carro. Ela decidiu pedir a bebida
favorita de Sam e um donut, depois olhou para Leila, que ainda estudava o cardápio.
— Acho que não me contou — Sonia falou depois de Leila fazer o pedido. — Por que você
está fazendo essa viagem? Por que quer ver a aurora boreal?
— Sempre fui meio obcecada por astronomia. Acho que é isso que vou estudar quando for
para a faculdade. — Leila pegou o troco, e elas saíram da fila, parando perto do balcão para
esperar as bebidas. Inconscientemente, as duas olharam para Stoner Timmy, que fumava mais um
cigarro e agora rabiscava em um dos copos de café. — Mas, mais do que isso, acho que era meu
destino conhecer Stoner Timmy. Esquece a aurora. É isso.
Sonia riu, mas sua curiosidade havia sido aguçada. Então o pedido foi entregue e ela, com
mais fome do que tinha se dado conta, mordeu imediatamente seu donut, mudando de assunto.
O donut coberto de xarope de bordo tinha gosto de Sam. Ou melhor, não de Sam, mas dos
dois anos que ela havia passado com ele. Ela mordeu mais um pedaço. A escolha do donut tinha sido um erro e um conforto ao mesmo tempo.
— Vamos? — perguntou Leila, apontando para a mesa defumada.
Depois de levar a mão ao bolso do paletó dobrado sobre seu braço para se certificar de que a
caixinha com as alianças ainda estava lá, Sonia assentiu e seguiu na frente. Stoner Timmy — ao
menos era quem ela presumia que fosse — removia a tampa de todos os copos sobre a mesa para
inspecionar o conteúdo. Quando se aproximou o suficiente, Sonia notou que todos os copos
estavam meio cheios, e o líquido dentro deles era de cor variada demais para ser só café.
— Stoner Timmy?
Ele ergueu os olhos do experimento com os copos. Então os estreitou de um jeito que parecia
teatral e deu uma tragada no cigarro. Ele olhou para Sonia, para Leila, de novo para Sonia. A
barba não estava feita, mas os pelos faciais nem podiam ser chamados de barba. Ele fixou o olhar
em Sonia.
— Gostei das sobrancelhas, cara. Muito vanguardistas.
— Hum — Sonia reagiu, sem saber como interpretar o comentário. — Obrigada. Oi. Você é
o Stoner Timmy?
— Costumo responder a esse nome, claro. Se tenho direito a ele, isso é com os deuses. Ou
com a natureza. Ou, sei lá, com o gabinete de seguridade social. O cara — ele acrescentou,
estendendo as vogais e torcendo os dedos diante do rosto como se manipulasse uma marionete.
— Meu Deus — Leila riu atrás de Sonia. — Isso vai ser interessante.
Stoner Timmy deu mais uma tragada no cigarro pela metade. Depois, sem aviso prévio, jogou
a bituca acesa em um dos copos e acendeu outro imediatamente.
— Desejam minha assistência? — perguntou, apontando para as duas cadeiras diante dele.
Sonia sentou desconfiada, duvidando de que aquele cara pudesse ajudá-la a resolver até o
menor dos problemas, muito menos levá-la clandestinamente para o Canadá. Leila, em
contrapartida, sentou depressa, se recompondo rapidamente, apesar de os olhos ainda
transbordarem agitação.
— Sim — Sonia começou, tentando encontrar uma forma de explicar. — Ouvimos dizer que
você consegue levar as pessoas para o outro lado da fronteira.
Stoner Timmy olhou pela janela e assentiu solenemente. Sonia suspeitava de que era só
encenação.
— Conheço um caminho para o Grande Norte Branco, é verdade. — E coçou o queixo como
se uma longa barba branca pendesse dele, não os raros tufos de pelos que lhe brotavam no rosto.
— Então você pode levar a gente? — Sonia hesitou. — Como?
— Ei, ei, ei — Stoner Timmy ergueu as mãos. — Para que tantas perguntas?
Leila riu. Ele não pareceu notar.
— É muito importante que eu atravesse, e quero ter certeza de que não estou aqui perdendo
tempo. Se pode levar a gente, diga o que temos que fazer.
— Acalme-se, Aquela com Sobrancelhas Interessantes. Faço várias viagens por dia. Ganho a
vida com isso — disse ele, fazendo um gesto para mostrar a mesa, como se os copos de café traduzissem grande riqueza. — Mas, antes que eu explique como, tenho algumas perguntas a
fazer.
— Mal podemos esperar para responder — disse Leila, puxando a cadeira mais para perto.
Timmy bateu a cinza do cigarro.
— Que bom. — Ele olhou para Leila com os olhos meio fechados, ou para manter o ar
teatral, ou porque a fumaça o impedia de abri-los. — Gosto da sua coragem. Não tem muita
gente com coragem hoje em dia.
Sonia deu mais uma mordida no donut favorito de Sam. Stoner Timmy olhava para o espaço
entre as duas garotas.
— Stoner Timmy, as perguntas.
— Certo — ele falou, saindo do transe. Tanto quanto possível, pelo menos. — Primeira
pergunta. Quem mandou vocês aqui?
— Meu irmão, Mitch.
— E ele trabalha para qual agência do governo?
— O quê? Ele não trabalha para nenhuma agência do governo. Ele nem trabalha. Fica em casa
chapado o dia todo. Quando se sente mais produtivo, ele toma banho.
— Nada convencional — Stoner Timmy sorriu em aprovação. — O que querem com os
vizinhos do norte?
— Por que precisa saber? — Leila interferiu, claramente se divertindo com a imitação que
fazia do tom dramaticamente desconfiado de Timmy. — Não parece pertinente.
— O sucesso nos meus negócios depende das consequências dos meus atos no Canadá. Se
levar pessoas inofensivas e for discreto, meus negócios prosperam. Se, por outro lado, levar
pessoas indesejáveis, chamo atenção e os negócios sofrem prejuízo.
Sonia ergueu as sobrancelhas, impressionada com a repentina eloquência de Stoner Timmy.
— E, merda — ele acrescentou, como se pensasse melhor, imediatamente diminuindo o que
dissera antes. — Se forem lá pra matar alguém ou fazer uma bruxaria pra acabar com todas as
florestas, ou qualquer coisa assim, as pessoas vão botar os olhos em mim. Entenderam?
Sonia olhou em volta para ver se alguém ouvia o que o lunático estava falando. Mas ninguém
parecia notá-los.
— Vamos a um casamento — ela disse, tirando a embalagem da joalheria do bolso do paletó
de Jeremiah. — Está marcado para daqui a algumas horas, e as alianças estão comigo.
Stoner Timmy pôs o cigarro no canto da boca e pegou a caixa, estudando-a com a admiração
de alguém que resolveu um cubo mágico. O celular de Sonia vibrou no bolso, e ela o silenciou
sem tirá-lo dali, o pânico a invadindo ao pensar no tempo passando.
— Por favor, Tim, você pode ajudar a gente?
Depois de alguns momentos em silêncio, Stoner Timmy abriu casualmente o estojo, olhou
rapidamente para as alianças e o deixou em cima da mesa.
— Então a viagem envolve amor e joias — disse, ignorando o pedido de Sonia.
— Sim, exatamente isso — Leila confirmou. — Dá até para dizer que, sem amor e joias, não
haveria viagem nenhuma.
— Como tantas outras. — Stoner Timmy pegou um dos copos, olhou dentro dele para se
certificar de que não tinha sido usado como cinzeiro e bebeu um pouco do líquido. Um fio
escorreu por seu queixo; era vermelho, como o carro de Leila. Ele limpou a pele com a manga do
moletom, e a mancha desapareceu em meio aos rodamoinhos de cor. — Você parece pura de
coração e digna de entrar no norte, Sobrancelhas Interessantes. — E assentiu para Sonia, depois
para Leila, antes de acrescentar: — Você também, Cheia de Coragem. Só mais uma coisa antes de
eu apontar o caminho para o Canadá. Só preciso saber... — Ele parou. Sonia se debruçou sobre a
mesa quase com a mesma curiosidade de Leila, que agora nem escondia mais o sorriso e se
divertia como se a conversa fosse a coisa mais engraçada que já havia lhe acontecido. — A)
Alguma de vocês está com uma escuta?, B) Alguma de vocês é um Senhor do Tempo?
Leila olhou com entusiasmo para Sonia, os olhos arregalados, mordendo o lábio para não rir
alto.
— Se somos Senhores do Tempo? — Sonia repetiu, incrédula. Que diabos era um Senhor do
Tempo e por que Stoner Timmy suspeitava de que uma das adolescentes diante dele fosse uma
dessas coisas? Mas lhe pedir uma explicação desencadearia mais uma incompreensível enxurrada
de bobagens. — Não, não sou um Senhor do Tempo. E não estou usando uma escuta — ela
disse.
Leila ergueu a mão.
— Juro que não sou, nunca fui nem nunca serei um Senhor do Tempo.
Stoner Timmy tirou o cigarro da boca e soprou a fumaça lentamente, os olhos cravados em
Leila.
— Tem certeza? Não está perdida no tempo?
— Não que eu saiba — Leila declarou. Ela tentava conter um sorriso, mas alguns instantes
passaram enquanto Stoner Timmy a estudava atentamente, e o brilho nos olhos dela desapareceu
devagar. De repente era como se entre eles houvesse um tipo de comunicação que Sonia não
entendia.
— Você definitivamente está perdida em alguma coisa — afirmou Stoner Timmy, e deu mais
uma longa e lenta tragada no cigarro. — O Canadá pode ser o destino dela, mas não é o seu — ele
continuou, ainda olhando nos olhos de Leila.
Então se inclinou para as duas, espalhando em torno delas um cheiro surpreendentemente
agradável, filtro solar com aroma de coco e roupa limpa. Stoner olhou por cima do ombro de um
jeito conspirador e acenou para que as duas se aproximassem.
— A resposta para o seu problema está nos donuts. Creme bávaro, se possível.
Sonia esperou para ouvir mais, mas Stoner Timmy se recostou na cadeira, aparentemente
muito satisfeito consigo mesmo.
— Espera, o quê? Isso não pode ser toda a informação que tem para nós.
Soprando fumaça pelo canto da boca (e diretamente para a mesa vizinha, cujos ocupantes
nem reagiram), Stoner Timmy franziu a testa e coçou uma região vermelha no queixo, talvez uma
urticária ou o resultado do excesso de coceira.
— Já falei demais. — Ele olhou ao redor, como se procurasse um espião. Depois olhou para o
último pedaço do donut de Sonia. — Vai comer isso?
Já tentando pensar em outra solução, Sonia balançou a cabeça e empurrou o donut por cima
da mesa.
— Lembrem-se — ele disse, tirando-o do guardanapo —, a resposta está nos donuts.
Timmy fez uma pausa, como se estivesse permitindo a compreensão de algum significado
adicional. Mas Sonia nem imaginava como os donuts poderiam levá-la ao Canadá. Ela virou para
ler a resposta em Leila, mas a garota parecia igualmente perplexa.
Quando terminou de comer, Stoner Timmy acenou para um garoto que havia acabado de
entrar no Tim Hortons. O menino se aproximou, e Stoner Timmy pediu licença para cuidar de
um “assunto de negócios”.
Elas saíram do lugar, estreitando os olhos para o sol claro da manhã na cinzenta Washington
e para a conversa que tinham acabado de ter lá dentro.
— Bom, foi interessante — disse Leila. Ela sorria de leve, mas parecia entender que o
conselho bizarro de Stoner Timmy basicamente as levava de volta ao ponto de partida. — A
resposta está nos donuts? Como alguém entra em um país com donuts?
A pergunta pairou no ar, uma dúvida pequena comparada a todas que Sonia não formulara.
Como Liz poderia perdoá-la por arruinar o casamento? Como Martha se sentiria com relação à
sua fuga no meio da noite? Qual seria o tamanho da decepção de Jeremiah?
Bem quando Sonia começou a sentir as frustrações se transformando em lágrimas, Leila deu
um tapa em seu braço e apontou para um caminhão de entregas da Tim Hortons parado no
estacionamento com o motor ligado. O motorista descarregava produtos que seriam levados para
dentro. O gerente da loja estava perto do caminhão, conferindo tudo com uma prancheta.
— É o último — disse o motorista, e as palavras atravessaram o estacionamento como se
fossem uma dica. O gerente assentiu, e os dois passaram por Sonia.
— Olha a placa do caminhão — Leila comentou. British Columbia. — Deve ter sido essa a
informação do Stoner Timmy. A resposta está nos donuts!
Sonia deu uma olhada para o café, onde o motorista e o gerente continuavam cuidando da
mercadoria. Àquela altura, estava disposta a tentar qualquer coisa. Elas atravessaram o
estacionamento a passos rápidos e deram uma olhada na carroceria do caminhão. Havia caixas de
papelão por todos os lados, formando pilhas altas o bastante para poderem se esconder atrás, pelo
menos até a próxima entrega no próximo Tim Hortons, que, Sonia sabia pelas viagens feitas
anteriormente, ficava do outro lado da fronteira.
Sem querer perder tempo, Sonia entrou no caminhão. Depois ajudou Leila a subir com toda a
discrição de que era capaz, e que aliás não foi muita. Sonia bateu o joelho no para-choque e Leila
quase chutou o carro ao lado. Esperando que ninguém houvesse notado a movimentação desajeitada, elas se esconderam atrás de uma pilha de caixas no fundo. Ficaram juntas, as duas
prendendo o fôlego e tentando resistir à tentação de espiar para saber o que estava acontecendo lá
fora. Quando o motorista voltou, fechou a porta sem se incomodar em verificar se havia algo
errado, trancando-as na escuridão antes de engatar a primeira e voltar à estrada.