Perdidos por aí
Leila
1
Leila pegou um graveto que estava próximo e o jogou na fogueira. A umidade escondida na casca
provocou estalos e fumaça. Estava anoitecendo. Desde sua chegada no dia anterior ao camping na
periferia de Fairbanks, no Alasca, havia mais crepúsculo do que ela jamais vira, como se o mundo
girasse na velocidade necessária para manter o sol levemente abaixo da linha do horizonte o
tempo todo. Em cerca de uma hora finalmente escureceria. Algum tempo depois disso, na calada
da noite, a aurora boreal riscaria o céu. Assim ela esperava.
Leila afastou o rosto da coluna de fumaça, que fazia os olhos arderem, cobrindo o nariz e a
boca com a manga do suéter. O cheiro da fogueira ficaria em seu cabelo e nas roupas pelo resto da
noite, ela sabia, e ainda não estava certa se apreciava isso ou não.
— Oi — uma voz fraca chamou.
Leila ergueu a cabeça e viu uma loira minúscula se aproximando da fogueira, acenando. No
sorriso da pré-adolescente faltavam três dentes. Os pais vinham atrás dela, a mulher de saia longa
florida e tranças nos cabelos, o homem usando calça de linho, braceletes de cânhamo e uma barba
que alcançava o peito.
— Quer jantar com a gente? — a menina perguntou, sem esperar pela resposta para sentar ao
lado de Leila.
— A Dee percebeu que você armou sua barraca sozinha — comentou a mulher, se
apresentando como Harriet e o marido como Brendan. — Ela nos fez prometer que não
deixaríamos você comer sozinha.
— Vegetais no espeto — Brendan anunciou, começando a ajeitar tomates-cereja em um
graveto que limpou quase que perfeitamente.
Leila tossiu por causa da fumaça, depois sorriu para a companhia repentina.
— Eu adoraria jantar com vocês — ela disse a Dee. — Obrigada.
— Gosta de chá? — a mulher perguntou, pousando uma chaleira perto da fogueira e
sentando no chão com as pernas cruzadas.
— Adoro.
Brendan se abaixou, enterrando os espetos alguns centímetros longe da fogueira para não
tostar os vegetais.
— Vai acampar aqui por quanto tempo?
— Fiz reserva para uma semana. Mas estou aqui para ver a aurora boreal, então vou ficar mais
se precisar.
— Primeira vez? — Brendan bateu as mãos para limpá-las.
— Sim. — Leila olhou para Dee. — Você conhece a verdade por trás da aurora boreal?
A pequena Dee balançou a cabeça para dizer que não, e os cachos loiros balançaram como
molas.
Leila sabia que o pai lhe contara a história e lembrava como ele a recitava em voz alta, as
pausas e os gestos que fazia. Mas era uma lembrança isolada. Não tinha outras memórias para
acompanhar a história: quantos anos ela tinha quando a ouviu pela primeira vez, com que
frequência era repetida, como se sentia quando a escutava.
— Ao longo do tempo, as pessoas têm pensado em diferentes hipóteses. Algumas
acreditavam que as luzes eram grandes fogueiras no céu, ou aves congeladas no ar. Hoje a maioria
crê que são apenas a luz do sol fazendo coisas engraçadas que não faz em nenhum outro lugar.
Mas todas essas hipóteses estão erradas.
Dee já se inclinava para frente, concentrada. Leila queria lembrar se reagira do mesmo jeito na
primeira vez em que ouvira a história. Devia ter a idade de Dee ou menos, para ela ter
permanecido em sua memória quando nada mais tinha ficado.
— A verdadeira história sobre a aurora boreal é a seguinte. — Leila esfregou as mãos perto do
fogo. — Há milhares e milhares de anos, ela não existia. Isso foi há muito tempo, quando as
pessoas do mundo todo tinham vidas bem parecidas. Elas caçavam para comer, formavam famílias
e tribos. Elas acordavam com o sol e iam dormir quando ele se punha. Então apareceu uma
menina que percebeu que o mundo estava ficando maior, mais complicado. Barcos eram
construídos e podiam percorrer rios para outros lugares. As pessoas começaram a pintar,
escrever, fazer música. Essa menina viu que sua vida poderia seguir alguns caminhos diferentes e
teve receio de estar no caminho errado. E se ela quisesse se tornar uma aventureira? E se seu
destino fosse ser pintora, mas ninguém nunca houvesse lhe dado um pincel? Ela passava o dia
todo pensando nas outras vidas que podia ter.
Leila fez uma pausa dramática, como fazia quando recontava a história para si mesma,
deixando a mente demorar um pouco mais na última frase. O crepúsculo persistia, o céu tingido
de roxo com tons alaranjados, algumas estrelas deixando o esconderijo. Leila sabia que era cedo
demais, mas estudou o céu mesmo assim, esperando surpreender as luzes tentando ouvir sua
história. Dee parecia fascinada, interessada demais para notar que a mãe deslizava os dedos por
seus cachos loiros.
— Todas as possibilidades começaram a preencher a menina, se espalhando dentro dela. Seus
pés ficaram tão pesados que ela mal conseguia andar. Ela não conseguia erguer os braços para se
alimentar. As possibilidades comprimiam seus pulmões, dificultando a respiração. Preocupados,
os pais chamaram o médico da tribo. Mas ele não conseguiu descobrir qual era o problema.
Todos iam vê-la, mas ninguém conseguia imaginar o que a tornava tão pesada. E, quanto mais
gente ia visitá-la, pior ela ficava. O problema era que ela via a mesma coisa nos outros. Todas as vidas que as pessoas não viviam. O professor com coração de guerreiro. O agricultor com
imaginação de escritor. O tempo passava. A cada visita que chegava, a menina piorava. Queria
contar a eles o que estava acontecendo, mas sua língua estava pesada demais para falar. Então um
dia finalmente aquilo se tornou demais. Havia muitas vidas para a menina conseguir guardar
todas dentro de si por mais tempo.
— O que aconteceu? — perguntou Dee, se inclinando para frente no colo da mãe.
— Houve um flash — Leila respondeu, abrindo a mão como sabia que o pai fizera ao lhe
contar a história. — O raio mais brilhante que a Terra jamais vira, e ele levou a menina e todas as
vidas dentro dela para o céu. A aurora boreal é isso. Todas as vidas que não estamos vivendo. Não
só as da menina, mas de todo mundo. De acordo com a lenda, seu verdadeiro caminho é revelado
na primeira vez em que você vê as luzes.
Dee riu e bateu palmas, e seus pais também aplaudiram. Brendan assentiu e sorriu em
aprovação. Alguma coisa no fogo crepitou, e Leila olhou para as chamas como se esperasse ver
algo emergindo delas. Era a primeira vez que contava a história em voz alta. Estava extasiada por
tê-la dividido com alguém, mas apavorada com a possibilidade de, com isso, tirá-la da memória,
como as confissões tiram do pecador o peso de seus pecados.
Ainda se deixando pentear, Dee, com aquele jeito próprio das crianças de tirar perguntas do
nada, questionou Leila:
— Onde está sua família?
Leila hesitou, pegando um graveto no chão perto de seus pés e cutucando a casca. Ela olhou
para Dee e viu tamanha inocência que não conseguiu nem sentir o impulso habitual de se esquivar
da pergunta.
— Na verdade, Dee, eu não tenho mais família. Há mais ou menos um ano, sofri um acidente
de carro bem sério — contou, abanando a mão na frente do rosto para espantar a fumaça. Ela
pôde ver a expressão dos pais da menina se suavizando, as sobrancelhas erguidas de pena. Harriet
parou de pentear o cabelo da filha.
— Eles morreram? — Dee perguntou sem rodeios.
— Sim. Tenho uma tia e um tio que cuidaram de mim depois do acidente, mas meus pais e
minha irmã morreram.
— Que triste. — Dee também apanhou um galho e o espetou na terra, evitando contato
visual.
Leila pensou ter visto um raio de cor no céu e olhou para cima, mas não havia nada.
— De certo modo, sim. Mas a verdade é que não consigo nem me lembrar deles. —
Inconscientemente, ela tocou a cicatriz que se estendia do alto da nuca até o topo da orelha.
Ainda sentia arrepios quando tocava ali, apesar de agora o cabelo ter crescido em cima dela. Cada
vez que sentia o tecido cicatrizado, imaginava o caco de vidro que haviam retirado dali. Imaginava
litros e litros de sangue, embora não conseguisse se lembrar de nem uma gota. — Não consegui
reconhecê-los nas fotos ou lembrar dos dias em que as fotografias foram tiradas. Tudo
desapareceu — concluiu, tentando soar indiferente, para não traumatizar a menina.
— Amnésia? — Harriet arriscou, segurando Dee contra o peito. — Isso acontece mesmo,
hein? — E girou um anel prateado no dedo, ajustando-o de uma forma mais confortável.
— Os médicos disseram que não podiam determinar quanto disso é decorrente do trauma
físico e quanto é provocado por estresse pós-traumático. Só o tempo vai dizer quanto da minha
memória vai voltar. A única coisa que lembro do período anterior ao acidente é essa história
sobre a aurora boreal.
— Você não lembra de nada? — perguntou Dee, espantada, tentando imaginar uma coisa
dessas.
— Nada. — Leila deu de ombros.
— E as suas festas de aniversário? Eu sempre me lembro das festas de aniversário. No ano
passado meu bolo teve recheio de morango, e a mamãe e o papai me deixaram desenhar com a
cobertura no bolo, então pude pôr quanto eu quis, e foi muito. Depois fomos nadar, e eu ganhei
três livros. — Os olhos dela brilharam com a lembrança. — E esse nem foi o melhor. O de sete
anos foi muito legal. Você não lembra do seu aniversário de sete anos?
— Não lembro de nenhum, mas aposto que o de sete também foi legal pra mim.
— O que mais você não consegue lembrar?
— Querida — Brendan interrompeu, pousando a mão sobre a cabeça de Dee —, talvez a
Leila não queira falar sobre isso.
— Não, tudo bem. É bom poder tirar isso do peito. — Ela pensou em Sonia, Elliot e Bree, em
como os induzira a falar de seus problemas, e não conseguiu conter um sorriso. Antes de sair,
passaria na sede do camping para ver se tinha correspondência. Talvez a carta que esperava de
Hudson já estivesse ali esperando por ela. — Desde o acidente, eu não tenho ideia de quem
realmente sou. Havia pedaços e fragmentos: meu diário, a lista de contatos no celular, fotos.
Amigos apareciam em prantos no hospital, me abraçavam, mas eu não fazia a menor ideia de
quem eram. Voltei ao colégio por alguns meses, mas era tudo muito estranho. Como se eu tivesse
sido inserida na vida de alguém. Eu não conseguia me reconhecer no espelho. Era bizarro, mas os
estranhos sabiam mais sobre mim do que eu mesma. E, ainda assim, nada voltava. Só a história
sobre as luzes. Não me lembro de nenhuma festa de aniversário — Leila repetiu, tentando fazer
parecer só mais um item da lista. — Não lembro quando aprendi a andar de bicicleta, nem se
aprendi. Mas sei que aprendi a nadar, meu corpo ainda lembra disso. — Um arrepio agradável
percorreu seu corpo quando ela pensou no rio em Mississippi. Podia sentir os pelos dos braços
eriçados.
— Não consigo nem ao menos imaginar como é isso — Harriet disse baixinho, os cabelos de
Dee ainda entrelaçados nos dedos. — Como você conseguiu voltar para sua vida cotidiana depois
de uma coisa dessas?
— Não sei — Leila respondeu. — Eu não voltei. Saí da minha casa em Austin e fui para
Louisiana, onde moram meus tios. Mas isso não ajudou. Só fez tudo parecer ainda mais estranho.
Quando o seguro pagou a indenização, decidi que nada mais me prendia ali. Só tinha uma coisa
que eu queria fazer, uma coisa que talvez pudesse ajudar a trazer de volta as minhas lembranças. — Ela olhou para o céu novamente, pensando por um instante em Hudson, e não na aurora
boreal, em como o céu estava cravejado de estrelas naquela noite.
Todos ficaram quietos, até Dee, e os únicos ruídos vinham do fogo crepitando e de um riacho
próximo. Estava escurecendo, o céu se tingia de um roxo mais intenso, mais estrelas se revelavam.
Não havia nuvens encobrindo o céu. Leila sentiu uma descarga de adrenalina.
— Espero que as coisas mudem hoje — ela disse. — Deve haver uma razão para minha única
lembrança ser a história das luzes. Por isso estou nesta viagem. — Ela olhou para Brendan e
Harriet. Eles a encararam, e havia compaixão na expressão de ambos. Depois os dois olharam
para Dee ao mesmo tempo. — Espero que ver a aurora boreal desperte minha memória, que a
experiência traga de volta alguns detalhes da minha vida, talvez tudo. Vou ficar acordada
enquanto o céu permanecer escuro e esperar para ver as luzes.
Dee, que se entretinha jogando na fogueira coisas que encontrava à sua volta, galhos, folhas e
pedrinhas, levantou e se aproximou de Leila, sentada sobre um tronco caído. Sem hesitar, a
menina a abraçou com força.
— Espero que você lembre das suas festas de aniversário. Especialmente a de sete anos.
Leila estava ouvindo a música no modo repetir havia quase uma hora. Era aquele único verso que
a tocava, palavras tão importantes que mal conseguia acreditar cada vez que ouvia a cantora
repeti-las. “Chasing the only meaningful memory you thought you had left”,* dizia a voz
nasalada, porém bonita, da cantora do Neutral Milk Hotel nos fones de ouvido. Ela conhecera a
canção na viagem para o Alasca e, apesar de não ver mais nenhum significado pessoal no restante
da letra, pensara exatamente no momento que vivia agora, deitada em um cobertor sobre a grama,
olhando para o céu à espera da aurora boreal. Seria muito mais gratificante se as luzes
aparecessem de verdade. Mas estava ali havia horas, e nada. Logo o céu começaria a clarear, e Leila
se sentia impotente. Queria enterrar os dedos na noite, agarrá-la e suplicar para que ficasse um
pouco mais.
A adrenalina estava se esvaindo, o sono era cada vez mais intenso. Não conseguia decidir o
que era mais decepcionante, isso ou a caixa de correspondência completamente vazia na sede. De
alguma maneira, era como viver várias versões da mesma coisa: as luzes se recusando a aparecer, a
ausência de uma resposta de Hudson. Era evidente que Hudson não queria nada com ela.
Tudo parecia tão anticlimático. Naquele exato momento, a viagem toda parecia ter sido inútil.
Quando saiu da casa dos tios na cidadezinha nos arredores de New Orleans, ela se sentia
ninguém. Menos que isso, se possível. Um nada, um espaço negativo. E agora era o quê? Um nada
que tinha viajado milhares de quilômetros e tinha um punhado de noites legais misturadas a
muitas noites solitárias. Os amigos que fizera, se é que podia chamá-los de amigos, não sabiam nada sobre ela, porque não havia nada para saber, nada para contar a eles. Até a história que
contara a Hudson sobre as formigas em sua cidade: não era uma lembrança, era só uma página
que tinha lido em seu diário e repetido, fingindo ou esperando que, ao dizer as palavras em voz
alta, as sentisse como sendo dela.
Seu coração pulou uma batida quando uma estrela cadente cruzou o céu, o rastro brilhante
permanecendo na escuridão como um fantasma. Ela ficou exatamente onde estava, com a cabeça
apoiada no pequeno e desconfortável travesseiro que havia comprado em uma loja de produtos
para acampamento em Fairbanks. Ela cantou “Oh Comely” mais uma vez acompanhando a
música nos fones, tomando cuidado para não deixar de cantar cada verso, mesmo que só
entendesse realmente um deles. Queria que a letra ficasse gravada na memória, que a melodia se
aninhasse nas curvas de seu cérebro.
Quando o céu começou a dar sinais do nascer do sol, Leila tentou lutar contra a decepção pela
ausência das luzes se lembrando de cada nascer do sol que compartilhara com os novos amigos
feitos ao longo da viagem. Tentava dizer a si mesma que a jornada tinha valido a pena, mesmo que
fosse apenas pelas experiências compartilhadas. Mas, na melhor das hipóteses, isso era um
consolo, e não significava quase nada se ainda não tivesse nenhuma ideia de quem era.
Leila acabou ficando até o sol nascer por completo, até não ser mais uma bola alaranjada no
horizonte, mas a brilhante luminosidade amarela de sempre. Depois pegou o cobertor e o
travesseiro e seguiu para a barraca. Haveria outras noites, disse a si mesma. Cedo ou tarde, as
luzes apareceriam.
Ainda do lado de fora, encontrou Dee vagando de pijama, o cabelo preso em um rabo de
cavalo. Quando a menina viu Leila, seus olhos se iluminaram e ela correu para encontrá-la.
— Funcionou? Você lembrou?
Leila forçou um sorriso enquanto balançava a cabeça numa resposta negativa.
Dee fez uma carinha triste.
— Nem um dia?
— Não. Mas talvez porque nem cheguei a ver as luzes. Vou tentar de novo amanhã. — E se
despediu com um triste aceno antes de entrar na barraca. Estava acordada havia mais de trinta
horas, mas o sono não vinha. Leila tinha a sensação de estar deitada ali por horas, esperando,
contabilizando as decepções do dia.
Nota
* “Perseguir a única lembrança importante que você pensava que sobrou.” (N. da T.)