Perdidos por aí
Capítulo 7
Não foi a luz do sol que o despertou, mas o calor do dia que começava e o suor lhe escorrendo
pelas costas. Hudson abriu os olhos em pânico, imediatamente notando a ausência de estrelas, o
céu maculado pelo nascer do sol que, em qualquer outra circunstância, poderia ser lindo.
— Merda. Ai, merda. Merda, merda, merda. — Ele cutucou Leila até ela acordar com um
sorriso sonolento. — A gente precisa ir. A gente precisa ir agora. — Ele a levantou gentilmente
pelos ombros até que ela se afastou e o viu procurando o celular, para então se dar conta de que o
deixara no carro.
— Que horas são?
— Muito tarde. Temos que ir.
Hudson começou a fazer as contas mentalmente para calcular a velocidade que seria
necessária para chegar no horário para a entrevista. Leila se levantava do chão. Ele olhou para o
continente, como se isso pudesse reduzir a distância. Ela se espreguiçou, bocejando. Era uma
pena não ter tempo para apreciar a beleza dela à luz da manhã.
— Por favor, Leila, temos que correr.
Dessa vez ele mergulhou primeiro, nadando tão rápido quanto podia. Quando chegou ao
outro lado, se sacudiu ao máximo para tentar se secar, depois a ajudou a sair do rio. Hudson
esperava que suas roupas secassem a tempo. Ele abriu a porta do carro para Leila, incapaz de se
livrar do hábito mesmo naquelas circunstâncias. Em seguida, correu até o outro lado e se sentou
ao volante, abrindo o porta-luvas para pegar o celular. Havia inúmeras chamadas perdidas e
mensagens de voz deixadas pelo pai. Eram sete e quinze da manhã. A entrevista aconteceria em
quarenta e cinco minutos, a quase cem quilômetros dali.
— Merda — ele repetiu, engatando a ré para pegar a estrada.
— Não se preocupe, a gente vai conseguir — ela garantiu, pousando a mão sobre a coxa dele.
Hudson não respondeu, mas pousou uma mão sobre a dela e a apertou antes de segurar o
volante outra vez. Ele mantinha os olhos no ponteiro crescente do velocímetro, no hodômetro
acrescentando os quilômetros. O silêncio no carro era pesado.
Eles chegaram ao campus da Universidade do Mississippi em Jackson. Hudson não estudaria
ali, onde funcionava apenas o centro médico, mas o reitor agendara a entrevista naquele lugar para
aquele dia para evitar que Hudson tivesse de viajar mais de trezentos quilômetros até Oxford. Havia alguns prédios por ali, e Hudson não sabia exatamente perto de qual devia estacionar. Ele
parou no mais próximo e torceu para ter acertado.
O estacionamento estava cheio, a maioria carros mais velhos e caminhonetes. Duas mulheres
com uniforme de enfermeira estavam sentadas em um banco, tomando café e conversando sobre
qualquer coisa que estudantes de enfermagem costumam conversar.
Hudson parou o carro na vaga bem em frente a elas. Não olhou que horas eram para não
confirmar seus temores.
— Vai — disse Leila. — Eu estaciono e espero você no carro. Boa sorte.
Hudson desceu e correu até o prédio mais próximo. Antes de alcançar a porta, ele soube que
o esforço era inútil. Só estava fazendo isso porque o pai estava ali, observando de algum lugar
dentro de sua cabeça. Hudson estava usando roupas com as quais não só dormira, mas atravessara
um rio a nado. Duas vezes. A camisa ainda estava um pouco úmida e o jeans, ensopado. Ainda que
por um milagre aquele fosse o prédio certo e só precisasse encontrar a sala do reitor, ele estava
atrasado. Uma boa primeira impressão não estava prestes a acontecer. Sua única esperança era de
que o homem o recebesse mesmo assim, e Hudson pudesse de alguma forma se expressar bem o
bastante para convencê-lo a esquecer o atraso e sua aparência. Mas as chances de isso acontecer
em sua atual condição eram improváveis. Ele tinha dormido pouco, só algumas horas, e ainda
sentia o toque de Leila na pele.
Estava prestes a abrir a porta quando viu uma placa indicando o Departamento de Admissões
no prédio vizinho. Hudson resmungou alguns palavrões e mudou de direção, passando correndo
pelas estudantes de enfermagem e ouvindo um trecho da conversa:
— ... foi totalmente horrível. Eu até pedi para falar com o gerente, e eu nunca faço isso...
Só agora, enquanto corria pelo gramado, ele percebeu que seus músculos estavam doloridos
da noite com Leila, maravilhosamente doloridos.
Por fim, ele fez uma curva e chegou à entrada do prédio. Depois de ler as diretrizes das salas,
subiu correndo a escada até o segundo andar. Hudson se sentiu relaxar um pouco ao ver a sala
vazia, exceto por uma mulher com ar de matrona sentada à mesa na recepção. Ela era corpulenta,
os cabelos presos em um coque, e ergueu os olhos do livro para mirar Hudson. Talvez por ser a
personificação do clichê de uma professora, por um segundo Hudson teve a impressão de
reconhecê-la.
— Oi — ele falou, tentando oferecer um sorriso polido e não passar a impressão de que tinha
subido a escada correndo. — Meu nome é Hudson, tenho um encontro com o reitor Gardner.
Uma entrevista. — Ele pigarreou de leve e uniu as mãos no abdome, como se assim pudesse
esconder as roupas.
A mulher suspirou e colocou o livro sobre a mesa, se virando em seguida para a tela do
computador. Ela brincou um pouco com o mouse, então pressionou algumas teclas até o monitor
voltar à vida.
— Hum — a mulher comentou depois de um instante. — Você está atrasado.
Hudson assentiu, se certificando de parecer constrangido.
— Eu sei. Sinto muito mesmo. Não vou esquecer de pedir desculpas ao reitor. Não há
justificativa para isso.
— Tarde demais — ela falou com um suspiro. — Sinto muito, meu bem. O reitor esperou
por vinte minutos, depois teve de ir a uma reunião do outro lado do campus.
A reação imediata de Hudson foi abaixar a cabeça. Ele a manteve baixa por um momento,
tentando pensar, até a recepcionista perguntar se estava tudo bem.
— Deve ter alguma coisa que eu possa fazer — ele disse. — Qual o próximo horário vago na
agenda do reitor? Explico o que puder no tempo que ele tiver.
A mulher balançou a cabeça, unindo tristemente as sobrancelhas. Ela se voltou para o
computador e fez uma cena, rolando a tela para cima e para baixo.
— Você era o último compromisso agendado aqui. Agora ele está do outro lado do campus,
depois almoça com o representante dos alunos e volta para Oxford. Não há nada que eu possa
fazer.
Desanimado, Hudson se virou. Atravessou a entrada do prédio lentamente, tentando pensar
em como poderia explicar ao pai o que aconteceu. As duas mulheres ainda conversavam no
banco, os copos de café soltando vapor como a fumaça de um acidente de trem. Leila estacionara
do outro lado, o carro vermelho virado para a saída do campus. Ela estava sentada no capô, os
joelhos erguidos e as pernas cruzadas, olhando para a estrada, tranquila como esperado para uma
manhã de sábado. Leila parecia cansada, mas feliz. Havia um pequeno hematoma na junção do
pescoço com a clavícula, uma marca roxa que Hudson não notara por causa do clima frenético da
manhã.
Por fim, ela o avistou e desceu do capô.
— O que aconteceu?
— Não deu tempo.
Ela passou os braços pelo pescoço dele e o abraçou com força.
— Merda, sinto muito. — Era estranho como ele conseguia reconhecer o conforto físico do
abraço ainda que não se sentisse reconfortado. — Não dá pra remarcar?
Hudson retribuiu brevemente o abraço, depois se afastou.
— Não, não dá. Eu simplesmente não apareci na entrevista mais importante da minha vida. —
Tinha vontade de dar um soco no carro.
— Talvez se você...
— Que droga, Leila, não.
A rispidez em sua voz surpreendeu os dois. Ele se virou para a estrada, o rosto bonito de Leila
e a expressão nele estampada — fosse de tristeza, choque, incredulidade — fora de seu campo de
visão, não podendo abrandar a raiva que ele queria sentir.
Uma gargalhada alta ecoou no estacionamento. Hudson se virou e viu uma das mulheres com
a cabeça inclinada para trás, rindo. A maior delas falava animada, e a que ria balançava a mão
como se implorasse à outra para parar.
Hudson se pegou mordendo a ponta do polegar, um tique nervoso que ele geralmente se
esforçava para evitar, uma vez que odiava os pedaços de pele ressecada que ficavam no lugar.
Dessa vez ele se permitiu continuar.
Depois de um tempo, Leila se aproximou e parou diante dele, obrigando-o a encará-la. Ela se
inclinou e o beijou na bochecha. Tudo em que ele conseguia pensar era o escritório vazio onde
devia estar sentado, as costas eretas, o olhar firme, demonstrando confiança e um autêntico
interesse em sua educação, todas as coisas que as FAQs de sites o aconselharam a fazer.
— Vamos — Hudson falou depois de alguns instantes. — Tenho que contar para o meu pai.
Leila estreitou os olhos até deixar à mostra apenas as íris verdes e as pupilas negras que
combinavam com o cabelo. Hudson olhou para o chão, para a linha onde o pavimento encontrava
a grama, pensando na história que ela contou sobre os dois formigueiros diferentes. Ele
contornou o carro, abriu a porta do motorista e se sentou ao volante antes que Leila pudesse se
mexer.
Ele ligou o motor antes de ela entrar, o que Leila demorou a fazer. Quando fez, o interior do
veículo foi invadido pelo peso e a fragilidade. Eles estavam quietos, o único barulho era do
próprio carro, os freios chiando sempre que Hudson reduzia a velocidade para uma curva. Havia
a nítida impressão de que, se um dos dois falasse, alguma coisa se romperia. Ele ajustou o
retrovisor para aumentar o campo de visão à direita, assim não teria que olhar na direção dela.
Hudson dirigia bruscamente, com acelerações rápidas, freadas repentinas e curvas fechadas.
“Direção ofensiva”, a voz do pai ecoou em sua mente, “é o maior perigo na estrada.”
Quando chegaram ao bairro de Hudson, o Camaro preto do pai ainda estava na entrada da
garagem, brilhando sob o sol da manhã como se tivesse sido encerado pouco antes. Hudson
parou o carro de Leila junto da calçada e deixou o motor ligado por um instante. Ele estava
segurando o volante com força, tentando dissolver a tensão dos dedos. Sua perna esquerda tremia
nervosamente contra a porta, causando um barulho irritante.
Quem diabos era aquele lindo furacão em forma de garota que entrara em sua vida, tirando
tudo do lugar?
— Tudo o que eu tinha que fazer era ficar em casa — falou ele, olhando para sua residência.
— Dormir um pouco, aparecer na hora. Era tão fácil. A gente podia ter ficado aqui. Podia... sei lá.
Por que a gente tinha que ir para a ilha ontem, justo ontem?
Hudson podia sentir os olhos dela nele.
— Seu pai é um cara legal. Ele vai entender.
— Não importa se ele vai entender ou não — Hudson respondeu, elevando a voz. — Eu
posso ter arruinado meu futuro. Você não percebe? Era a minha única chance de conseguir uma
bolsa integral. Agora não vão me dar mais nada.
Ela esticou o braço e pôs a mão sobre a dele, mas Hudson continuava segurando o volante, os
nós dos dedos brancos com o esforço.
— Eu sinto muito que isso tenha acontecido. Mas não valeu a pena? Ainda foi a melhor noite
da sua vida, certo?
Em poucos minutos, o pai de Hudson sairia para trabalhar. Quando pensou nisso, ele sentiu
o estômago revirar com a culpa. O pai passava o tempo todo na oficina esperando uma única
coisa do filho, e agora Hudson frustrara essa única esperança, tudo por causa de uma garota. Ele
não pôde evitar abaixar a cabeça, como se a vergonha pudesse simplesmente cair dela.
— Não sei — respondeu, se virando para Leila. — É difícil ver as coisas por esse ângulo
agora.
Os olhos dela refletiram o sol da manhã. Que direito tinha ela de ser tão linda em um
momento como aquele?
Em algum lugar pela vizinhança, um carro se aproximava. Hudson podia ouvir o som do
motor, no mínimo um V6 em boa forma. Hudson desejou que eles tivessem simplesmente ficado
em casa, adormecido sobre o edredom, acordado na hora com as roupas amarrotadas, evitando
qualquer brecha para a dúvida sobre essa ter sido ou não a melhor noite de sua vida. Mas a noite
com Leila fora estragada por essa manhã de ressaca.
— Não fiz você ficar na ilha — Leila falou com a voz calma, suave. — Você quis.
— De que raios você está falando? — Hudson disparou. — E o jeito como você ficou parada
na minha porta ontem à noite? Como eu podia ter deixado de sair? E a gente não precisava ter
atravessado o rio a nado, essa ideia foi sua. A gente podia ter ido de barco, levado os celulares,
ligado o despertador. Não tínhamos que ficar lá a noite toda. Você sabia que eu tinha uma
entrevista.
— Você sabia melhor do que eu, Hudson. — Ela apoiou os pés no painel e puxou os joelhos
contra o peito. — Se você quer fingir que era eu quem estava no controle ontem à noite, tudo
bem. Mas nós dois sabemos a verdade.
— Ah, e qual é?
— Você escolheu ficar lá comigo. Podíamos ter nadado de volta. Eu perguntei se você queria
voltar. — Ele não pôde mais suportar o olhar de Leila, então virou o rosto e viu o próprio reflexo
na janela. Ela continuou: — “Não tem outro lugar onde eu gostaria de estar.” Foi isso o que você
disse.
— Não lembro de ter dito isso. — A perna de Hudson ainda batia nervosamente na porta do
carro, o barulho irritante preenchendo as pausas entre as palavras, não deixando o silêncio
dominar o interior do automóvel. — E, se eu disse, foi porque não estava raciocinando direito.
A respiração de Leila falhou, como se ela tivesse tropeçado em alguma coisa. Hudson podia
ver o queixo dela tremendo, ainda que muito de leve.
Na rua, a sra. Roberson passeava com seus dois chihuahuas, Bowser e Nacho, saltitando com
suas perninhas minúsculas para conseguir acompanhá-la. Ela acenou alegremente para Hudson,
vestindo um agasalho cor-de-rosa, os cabelos presos em um rabo de cavalo. Hudson ergueu a
mão em resposta, sentindo a tensão nos dedos diminuir.
— Você sabia exatamente o que estava fazendo, Hudson — Leila respondeu, seus olhos
seguiam Bowser e Nacho pela rua. — Acho que você estava procurando uma desculpa para perder a entrevista. Acho que isso aconteceu por um motivo, e, assim que você superar o medo de
admitir o que quer de verdade, vai ver que talvez tenha sido melhor assim.
Hudson bufou numa reação de desdém.
— Do que você está falando? Sem aquela bolsa, eu não posso ir para a faculdade. Sem a
faculdade, não tenho uma porra de um futuro. — Ele balançou a cabeça, surpreso porque a
garota que ontem parecia entendê-lo tão bem agora não entendia mais nada.
Leila tirou os pés do painel, calçou os chinelos e se ajeitou no banco.
— Pare de mentir para si mesmo. Você não quer ir para a faculdade, Hudson.
— Você nem me conhece, Leila. Por que acha que sabe o que eu quero?
De repente Leila abriu a porta do carro e se virou, os pés no asfalto, as costas voltadas para
Hudson. Os sons da manhã entraram pela porta aberta, aves cantando, insetos, crianças rindo em
algum lugar.
— Ouvi você falar dessa cidade como se fosse a única coisa que ama, além de consertar carros.
Tem gente que passa a vida toda sem descobrir exatamente o que quer da vida. Você já tem o que
quer, e o futuro que você e seu pai planejaram vai tirar tudo isso de você. — Ela levou uma das
mãos ao rosto, mas Hudson não conseguiu ver o que ela queria com isso. — Você permitiu que
dormíssemos na curva do rio porque era exatamente lá que você queria estar. Não tinha a ver
apenas com estar lá comigo. Você está com medo de sair de Vicksburg, de deixar seu pai.
Hudson sentiu falta de ar. Ele abriu a porta do carro e pôs os pés na calçada, de forma que
agora ele e Leila estavam de costas um para o outro, como um velho casal idoso em lados opostos
da cama.
— Você não sabe o que está dizendo.
Ele saiu do carro e bateu a porta. Queria correr para dentro de casa, mas suas pernas estavam
fracas e ele se apoiou no carro, os olhos na porta da frente, no jornal enrolado sobre o capacho da
entrada, as páginas amarrotadas pelo impacto com a parede. Alguns instantes se passaram,
Hudson respirava fundo para se controlar, as pernas ainda se recusando a se mover. Então ouviu
o ruído dos chinelos de borracha de Leila se aproximando.
Hudson não saberia dizer o que sentiu exatamente quando viu que ela estava chorando. Se
queria confortá-la e limpar suas lágrimas, ou se preferia que ela continuasse chorando, cada
lágrima uma prova de que ele não era o único culpado. Havia outra parte dele que podia até estar
orgulhosa por ela se importar a ponto de chorar. Como todas essas coisas podiam existir dentro
dele ao mesmo tempo e não rasgá-lo em pedaços, reduzi-lo a uma pilha de cacos na calçada?
— Tudo bem, tudo bem. Eu estraguei tudo — ela reconheceu parada diante de Hudson. —
O que posso fazer para consertar as coisas?
— Não tem nada que você possa fazer — ele respondeu, a voz mais calma do que esperava.
Uma voz que lhe lembrava a do pai. — Talvez você deva ir embora.
Uma leve brisa soprou, espalhando um cheiro fresco ao redor. Hudson se deu conta de que os
dois deviam estar com o cheiro do rio, do chão onde dormiram, de ontem. Por quanto tempo o
cheiro ou o barulho do rio trariam de volta a lembrança de Leila?
Os olhos dela estavam vermelhos, mais do que deveriam, já que apenas algumas lágrimas
haviam transbordado e deixado marcas em seu rosto. Talvez estivessem vermelhos pelo esforço
que ela fazia para não derramar mais. Leila respirou fundo, sentiu o ar penetrar os pulmões com
um ruído fino e agudo, quase como um assobio.
— Tudo bem — ela disse. — Eu vou.
Ela passou os braços ao redor dele, rápida demais para que ele pudesse tentar impedi-la.
Hudson sentiu as lágrimas pingando em seu pescoço. A brisa soprou novamente e resfriou as
áreas molhadas. A sensação era de que elas podiam congelar.
Sem dizer mais nada, ela lhe deu um beijo no rosto e se afastou para entrar no carro. O motor
soou perfeito quando ganhou vida — funcionando, pronto para a viagem. Ele a viu prender o
cinto de segurança, engatar a marcha, olhar para ele e forçar um sorriso torto, triste. O sol refletiu
no vidro da janela e ele não conseguiu ver mais nada lá dentro, o que não fazia diferença, porque
ela já se afastava pela rua.
A garota responsável pela melhor noite de sua vida tinha ido embora, seguia vagamente para o
norte — sabia-se lá para onde. Ele ficou ali na calçada por alguns minutos, olhando para o
quarteirão onde morava, para os portões conhecidos iluminados pelo sol da manhã. Hudson
continuou ali como se esperasse algo acontecer. Depois virou para entrar em casa, decidido a tirá-
la da cabeça.