Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 12 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 5

 

A cela em que estavam tinha mais ou menos dez metros quadrados e era surpreendentemente

limpa. Bree estava deitada no estreito banco de alvenaria, pendurada na beirada, embora colada à

parede. O banco era de concreto frio e duro, ferindo as costas. Não sem certa satisfação, ela

massageou os pontos onde as algemas tinham pressionado seus ossos, quase lamentando

descobrir que não haveria cicatrizes.

— É impressão minha — disse Leila — ou esta cela é mais confortável do que você esperava?

— Ela estava sentada ao lado das pernas esticadas de Bree, olhando para o chão com os braços

soltos e a ponta dos dedos tocando o solo.

Bree correu um dedo na parte debaixo do banco e olhou para ele procurando sinais de sujeira.

— E mais limpa também.

De repente Leila se ajeitou no banco, os olhos arregalados.

— Puta merda! É a primeira vez que sou presa.

Bree se apoiou nos cotovelos e olhou com escárnio para Leila.

— Eu também.

— A gente devia comemorar. Isso é uma coisa para contar aos netos.

— Tem razão. Como vamos comemorar?

— Você acha que, se pedirmos com jeitinho, nos trariam sorvete?

— Se não der certo, é a sua vez de beijar alguém para conseguir o que a gente quer.

— Combinado. — Leila ficou de pé e se aproximou da grade, que não era cinza sujo como o

ferro, mas tinha sido pintada de um bege agradável. — Policiais, por favor — ela falou para o

corredor vazio. — Ainda não ganhamos nosso sorvete de cortesia — e fez uma pausa. —

Conheço os meus direitos! — Ela olhou para Bree e franziu exageradamente a testa. — Acho que

não vamos ganhar sorvete nenhum.

— Miseráveis. Vamos ter que pensar em outro jeito de celebrar a ocasião especial.

— Alguma ideia? — Leila voltou para o banco e sentou sobre os próprios pés.

— Correr nua talvez, porque nunca fiz isso, e pode ser interessante riscar mais um item da

lista enquanto comemoramos. Mas não temos muito espaço aqui. Além do mais, não seria a

decisão mais inteligente acrescentar mais um delito à nossa ficha criminal tão cedo.

— Suposta ficha criminal — Leila corrigiu. — Você está preocupada?

— Não — respondeu Bree, se deitando como se quisesse mostrar que não estava nada

preocupada. — Tenho certeza que vai dar tudo certo. Além do mais, eles praticamente fizeram

minha redação para a faculdade. O assunto é aprender com as dificuldades dos meus anos de

rebeldia adolescente, e serei aceita em todos os lugares que quiser. — Mas Bree tinha de

reconhecer que havia uma pequena fagulha de preocupação. Não por ela, que era menor de idade,

e na pior das hipóteses passaria alguns meses em reabilitação. A preocupação era com o que

poderia acontecer com Leila.

Um momento depois Bree percebeu como o silêncio era sinistro. Havia apenas a vibração

baixa de uma lâmpada fluorescente em algum lugar no corredor. Nenhuma indicação do que

estava acontecendo no mundo lá fora.

Leila ficou de pé e se aproximou da grade.

— Alguém? Sorvete? — Sua voz rompeu o silêncio e ecoou pelo corredor, mas não produziu

nenhuma resposta. — Canalhas! — Ela sentou no chão, as costas apoiadas nas barras de ferro, as

pernas estendidas. Leila tirou os chinelos e os analisou por alguns instantes. — Você não acha

que é um erro deixar prisioneiros de chinelos dentro das celas? Podem ser usados como armas.

Quer dizer, os meus são muito leves para provocar algum estrago, mas posso dar uma boa surra

em alguém.

Bree levantou as pernas e olhou para os sapatos. Eram tênis de skate, antes pretos, agora

desbotados e esfarrapados, as solas lisas por causa de sua jornada. O pé direito estava manchado,

havia nele uma substância irreconhecível e grudenta que Bree nunca havia notado.

— Os meus tênis são pesados o bastante para fazer estrago. Sou muito apegada a eles, mas

posso fazer o sacrifício, se for para me tornar a primeira pessoa a fugir da cadeia usando apenas os

próprios sapatos.

— Bom, mas não podemos simplesmente sair usando nossas armas. Precisamos de um plano.

— É claro — Bree concordou, se juntando à Leila no chão. — A gente devia fazer um refém.

Quando alguém vier nos pegar, usamos meus cadarços para amarrar a vítima. Eu aponto o tênis

para a cabeça dele, enquanto você abre caminho a chineladas.

— O que vamos fazer quando estivermos lá fora?

— Aí é hora de disparar os sapatos. Na confusão do tiroteio, corremos para a viatura policial.

Fazemos uma ligação direta, fugimos para um lugar seguro e pintamos a viatura de vermelho.

— E vivemos o resto da vida como fugitivas — Leila concluiu em um tom animado. —

Vamos dirigir pelo país todo zombando das autoridades. Depois atravessamos a fronteira e

seguimos para o norte até onde as estradas canadenses permitirem. Vamos ver a aurora boreal,

depois voltamos para os Estados Unidos e seguimos para o sul até a Patagônia, para ver o céu do

outro lado do mundo.

Bree estava prestes a concordar quando ouviram o barulho de portas sendo abertas e fechadas,

depois os passos pesados de um oficial no corredor.

— O Estado exige que concedamos a vocês o direito a um telefonema cada para um parente

ou advogado — ele avisou com as chaves na mão.

Bree ficou parada, quieta. Ela podia sentir os olhos de Leila e do policial sobre ela, carregados

de expectativa. Leila pediu um instante ao homem e se sentou ao lado de Bree, esperando que ela a

encarasse.

— Não tenho ninguém a quem telefonar — disse suavemente. — Você tem? — Bree exalou,

talvez exagerando um pouco para mostrar que a pergunta era como um soco no estômago. Ela

balançou a cabeça. — Eu esperava que você tivesse um tio ou uma tia — Leila confessou.

— Não. Não perto daqui, pelo menos.

Leila levou a mão à boca e roeu um canto de unha.

— Por mais que tenha sido surpreendentemente razoável ficar presa, é bem provável que a

gente se meta em uma confusão muito feia se não chamarmos alguém. Tipo, daquelas que podem

estragar a vida. Se tivesse qualquer outra coisa que pudéssemos fazer, outra pessoa para chamar,

eu não pediria isso. Mas, a menos que consiga pensar em outra pessoa, vamos precisar ligar para

sua irmã.

— Talvez não seja tão grave assim — Bree respondeu. — Vamos esperar até alguém vir aqui

falar com a gente, precisamos saber exatamente com o que estamos lidando. — As palavras não

soavam convincentes nem para ela mesmo, mas estava tentando afastar a ideia de ligar para Alexis.

Elas não se falavam havia mais de nove meses. Bree tinha um pesadelo recorrente: ela estava

pedindo carona e todos os carros que paravam eram dirigidos por Alexis, com Matt no banco do

passageiro.

— Bree, nós duas sabemos que não é uma boa ideia. Tivemos um dia do caramba. — Ela

mostrou a cela e sorriu, ainda falando em voz baixa. — Mas acho que dá pra dizer que acabou por

aqui. Agora as consequências começam a aparecer. Se não tiver ninguém lá fora para nos ajudar,

elas vão ser piores do que precisam ser.

— Leila... — Bree começou a dizer, mas não sabia como continuar.

— Eu sei que você não saiu de casa nas melhores circunstâncias, mas o que mais podemos

fazer?

— Você não entende — Bree respondeu, surpresa com o fato de que estava muito perto de

chorar. — “Nas melhores circunstâncias” é uma merda que não chega nem perto de descrever o

que aconteceu. Não posso ligar depois de tanto tempo e pedir para ela me tirar da cadeia.

O silêncio voltou a dominar a cela, rompido apenas pela respiração pesada de Bree. Ela puxou

os joelhos contra o peito, quase sem conseguir encaixar os pés no banco estreito. Cutucou a

mancha no tênis, removendo a substância grudenta com um barulho nojento.

— Não dá pra curtir a vida aqui dentro, Bree. Eu sei que você não quer falar com ela. Mas

você tem que fazer isso. Vocês são irmãs. Tenho certeza que ela vai ficar feliz quando ouvir sua

voz.

Bree parou de arrancar a sujeira do tênis e apoiou a cabeça nos joelhos.

— Eu beijei o noivo dela. — Ela respirou fundo, tentando estabilizar a voz quando se

lembrou da expressão de Alexis. — Era só rebeldia, sabe? Do tipo esperado quando se trata alguém como criança. Ela pegou a gente. Assim que vi a cara dela, peguei minhas coisas e saí de

casa.

Bree havia pensado que, na próxima vez em que visse Alexis, elas já seriam adultas e o tempo

teria curado as feridas que causaram uma à outra. Tinha até fantasias de encontrá-la na rua, em

algum lugar em Nova York talvez, e elas sorririam uma para a outra e diriam: “Como estão as

coisas?”, e tomariam um café. Quando isso acontecesse tudo seria esquecido, ou se tornaria

irrelevante, pelo menos.

— Não posso ligar para ela. Não depois do que fiz.

Um dreadlock lhe caiu sobre os olhos, e ela desanimadamente tentou desfazer alguns nós.

— Me deixa falar com ela — Leila disse depois de um tempo.

Bree respirou fundo e fechou os olhos.

— Ela não vem.

— Não custa tentar.

Em algum lugar para além das grades da cela, um telefone estava tocando.

— Não quer tentar o plano de fuga com os sapatos? Acho que pode dar certo — Bree tentou.

Leila riu e apertou de leve o braço dela.

— Não se preocupa. Vou cuidar de tudo.

Ela hesitou por um momento. Bree podia ouvir o policial impaciente do lado de fora, a

respiração meio ofegante. Leila afagou novamente o braço de Bree e disse ao policial que estava

pronta.

Bree observou Leila se afastar pelo corredor com o policial, ouvindo o ruído das solas de

borracha contra o piso de linóleo.

 

Bree não sabia dizer quanto tempo ela e Leila ficaram presas. Tempo suficiente para deixar a

monotonia chegar. Foi aí que ela começou a entender de fato o horror de uma cela. Antes, achava

cruel manter relógios nas prisões, forçar os prisioneiros a literalmente ver o tempo passar sem

participar dele. Mas agora se dava conta de que não ter relógios por perto era o castigo mais

severo. Só um dia abstrato seguido de outro, e você ali, imóvel no meio disso tudo.

Uma campainha interrompeu a reflexão de Bree e a porta no fim do corredor se abriu. Fazia

muito tempo que ela não via um rosto familiar.

Mais do que tudo, ela estava surpresa pelo fato de Alexis ainda estar do mesmo jeito. Ela

vestia um moletom com capuz e calça larga e estava sem maquiagem, parecendo ainda mais jovem

do que era, mais próxima da idade de Bree. Ela sempre achara a irmã mais bonita, e agora tinha

certeza disso. Ela parecia descansada, como se sua ausência fosse um alívio.

Um policial a acompanhava, examinando um molho de chaves e claramente não sabendo qual

usar. Bree não se levantou, mas viu a irmã se aproximar lentamente.

Leila ficou de pé e se afastou da grade. Ela sorriu numa tentativa de reconfortá-la, mas Bree

não se sentia reconfortada. Seu estômago sofria com o nervosismo. Tinha medo de vomitar na

frente de todo mundo.

O rosto de Alexis era sereno, quase sem expressão, só um pouco diferente de como ela o vira

meses atrás. Bree se lembrava da tensão nos músculos do maxilar que precedia todos aqueles

sermões.

Bree continuava esperando algo grandioso acontecer. Alexis gritar com ela, ou, por alguma

razão, abraçá-la. Mas não conseguia saber o que a irmã estava pensando.

O policial conduziu Leila e Bree pelo corredor sem dizer nada. Elas seguiram alguns

procedimentos burocráticos, assinaram alguns formulários. Um dos policiais falou um pouco e

perguntou: “Vocês entenderam?”, quando terminou, mas Bree nem estava ouvindo, então apenas

assentiu. De todas as coisas possíveis, Bree estava pensando se havia voo direto de Reno para

Kansas City, ou se Alexis fizera escala. Quanto tempo elas haviam passado na cela?

Um jovem policial atrás de um balcão entregou a chave de Leila e informou para onde o

guincho havia levado o carro. Ele também devolveu a bolsa de viagem de Bree. Quando o policial

passou mais formulários para Alexis assinar, Bree sentiu a ansiedade crescer e comprimir seu

peito, como se realmente tivesse o poder de arrancar todos os músculos do coração. Quando

foram encaminhadas para o lado de fora, Bree deu um passo para longe de Leila, como se quisesse

mantê-la distante da discussão que certamente aconteceria.

Lá vem, pensou Bree. Um sermão, a grande explosão do amor fraternal e singular de Alexis. Mas

Alexis simplesmente continuou andando em silêncio para o estacionamento. Não havia muitos

carros ali, e todos pareciam ter a mesma cor desbotada sob o brilho das lâmpadas da rua. As ruas

estavam quietas, todo o bairro dormia.

— É isso? — Bree perguntou à irmã. — Você não tem nada a dizer?

Alexis virou. Parecia prestes a começar a berrar, mas apenas falou suavemente:

— Não, Bree. Não tenho nada a dizer pra você. — E se virou novamente para continuar

seguindo rumo ao carro alugado. Bree levou um instante para perceber que o rosto da irmã estava

molhado, lavado pelas lágrimas que ela não notara na delegacia.

— Não vou voltar, você sabe — Bree falou em voz alta, a determinação enfraquecida pelo fato

de não conseguir se lembrar de ter visto a irmã chorando antes.

— Ótimo. Obrigada por deixar bem claro.

Bree parou de segui-la. Um carro branco a cinco ou seis metros de distância piscou os faróis

quando Alexis destravou as portas com o controle.

— Sim, eu já imaginava. Você está feliz por se livrar de mim.

Leila deu um passo na direção de Bree, como se quisesse acalmá-la, mas não soubesse como.

— Fico contente por ver que você não mudou. Continue assim. A imaturidade é realmente

uma das suas melhores características — respondeu Alexis, agora parada ao lado do carro. Ela abriu a porta, mas continuou do lado de fora, olhando para a chave e para os próprios pés, o rosto

lavado por uma nova torrente de lágrimas. Elas transbordavam sem esforço, sem que nenhum

músculo se contorcesse. Bree pensou que talvez a irmã não estivesse chorando, que Alexis tinha

contraído algum tipo de doença e que as lágrimas eram apenas um sintoma.

— Da mesma forma que ficou contente por se ver livre deles — Bree respondeu.

E, pela primeira vez, o rosto de Alexis se contorceu em uma expressão de angústia. Bree quase

se sentiu aliviada ao ver a transformação e sua inegável honestidade.

Alguns segundos intermináveis se passaram. Alexis soluçava abertamente. Bree queria

perguntar em que merda de lugar estavam as lágrimas meses atrás, mas não conseguiu formular as

palavras. Leila transferia o peso de uma perna para outra. Quando conseguiu se controlar por um

instante, Alexis encarou Bree:

— Eu venho até Kansas City pra tirar você da cadeia depois de passar nove meses sem

nenhuma notícia sua, e você nem pede desculpas pelo que fez? — Alexis parou e esfregou os

olhos vermelhos com a palma da mão. — Esquece o Matt. Eu pensei que você estivesse morta,

Bree. Telefonei para todos os hospitais num raio de cento e cinquenta quilômetros. Assinei

jornais online de todas as grandes cidades para ler os obituários, sobre pessoas desaparecidas que

haviam sido encontradas mortas, sempre com a esperança de que nenhuma descrição

correspondesse à sua. Você se comportou como uma pirralha por meses depois que o papai e a

mamãe morreram, e em nenhum momento lembrou que eu também tinha perdido os pais. E tudo

que você fazia era agir como se eu tivesse culpa. Depois de tudo pelo que passamos, você me

deixou sozinha morrendo de preocupação. Não deu a mínima para como eu me sentia. Então,

nove meses mais tarde, os piores nove meses de uma vida que incluiu muitos meses ruins, recebo

um telefonema de uma delegacia do outro lado do país, e nem ao menos é sua voz que escuto. É a

voz de uma desconhecida. Não teve nem a decência de ligar você mesma? Como você pode ser tão

egoísta e imprudente?

Leila cruzou os braços como se quisesse se proteger. Os olhos dela estavam fixos em Bree, o

olhar firme, o rosto marcado apenas por uma ruga entre as sobrancelhas. Fora da delegacia, tudo

era silêncio, mas Bree imaginava que conseguia ouvir coisas se dilacerando.

— Você realmente não tem nada para me falar? — perguntou Alexis, a chave em sua mão

tilintando contra o vidro quando ela se apoiou na porta aberta. — Foi tão longe assim?

Os músculos no peito de Bree se contraíram mais. Ainda podia sentir os olhos de Leila

cravados nela, por isso olhou para cima, para o ponto mais escuro do céu.

— De que merda você está falando? É você quem tem que pedir desculpas. Depois que o

papai e a mamãe morreram, passei meses ouvindo você reclamar de tudo. Você nunca disse que

sentia saudade deles, nem uma vez; nunca se comportou como se sofresse por eles terem morrido.

Sua única preocupação era ficar com o Matt. Como se não tivesse mais família nenhuma. É a

primeira vez que vejo você chorar.

Alexis soltou o ar pela boca e balançou a cabeça.

— Eu chorava toda noite, Bree. Assim que eu ia para a cama, ligava a tevê para encobrir o

barulho e enterrava o rosto no travesseiro para chorar. É um milagre que Matt e eu tenhamos

ficado juntos tanto tempo, considerando quanto desse tempo eu passei chorando.

A lembrança voltou, Bree lembrou que ouvia a tevê ligada no outro quarto e se ressentia por

Alexis ter superado tudo tão depressa.

— Se isso é verdade, por que nunca me contou?

— Porque eu tentava ser forte na sua frente. Eu estava destruída. E ainda estou. — Ela

suspirou, ou arfou, ou uma mistura das duas coisas. — Meus pais morreram e minha irmã mais

nova começou a aparecer bêbada, andar com drogados e estava sempre metida em encrenca. De

que outro jeito eu poderia me sentir? — Ela fungou e, a julgar pelo ruído, tirou alguma coisa da

bolsa para limpar o nariz, mas Bree não tinha coragem de olhar. — Só para você saber, pra tirar

você dessa encrenca, eu tive que procurar o Matt — Alexis continuou, falando o nome dele como

se o vomitasse para Bree. — A última pessoa com quem eu queria falar, graças a você. Ele

telefonou para o dono do carro que você roubou e conseguiu convencê-lo a retirar a queixa — ela

falava lentamente, como se esperasse que Bree a interrompesse. — Portanto você está livre para

fazer o que quiser outra vez.

Antes que Bree pudesse dizer alguma coisa, a porta do carro de Alexis começou a fechar. O

motor ganhou vida e a garota acendeu a luz interna para se olhar no retrovisor, limpar as lágrimas.

Depois pisou no acelerador e começou a se afastar.

Bree esperou o carro da irmã desaparecer antes de olhar para Leila. Ela sentia que começava a

tremer com o esforço de conter as lágrimas, como se o choro de Alexis fosse contagioso.

— Essa sim foi uma conversa bacana.

Então pegou a bolsa do chão e pendurou a alça no ombro. A alça raspou no pescoço

queimado de sol e provocou um ardor que lhe desceu pelas costas. Sempre que se deparava com

uma situação na qual nunca estivera antes, Bree gostava de se atentar ao cenário, comprometida,

como sempre, com a intenção de não deixar a vida passar despercebida. Mas quase não notava o

ar agradável do Kansas, ou os policiais que conversavam no estacionamento; tudo era esquecido

com quase a mesma rapidez com que era notado, suplantado pelas palavras de Alexis. Bree tinha a

sensação de que não havia nada ali, apenas ela e a bagunça que acontecia em seu estômago.

Precisava sentar, mas tinha medo de as lágrimas aparecerem e ela não ser capaz de levantar por

horas.

— Sabe — Bree comentou, andando tão lentamente que parecia estar mancando —, acho que

vou continuar sozinha.

Leila parou de segui-la.

— Por quê? — Ela parecia magoada.

— Só preciso ficar sozinha por um tempo — Bree explicou. Falar exigia um esforço enorme.

Ela se sentia ofegante, zonza, imaginava Alexis chorando no travesseiro, telefonando para os

hospitais, adoecendo de preocupação enquanto ela viajava de carona, praticava pequenos furtos e

bloqueava qualquer pensamento que contrariasse seu declarado amor pela vida.

Leila mordeu o lábio e franziu o cenho.

— Não consigo entender.

— Obrigada por um dia legal — Bree murmurou, quase sem ar. — Desculpe ter feito você

ser presa. — Ela ajeitou a alça da bolsa mais uma vez e deu as costas para Leila, descendo a rua

sem olhar para trás, o mundo todo se apagando e a deixando sozinha com seus pensamentos.