Perdidos por aí
Capítulo 2
Depois que terminou de arrumar o carro de Leila, Hudson foi até os fundos da oficina para tirar a
roupa de trabalho enquanto o pai cobrava pelo serviço. Quando saiu, ele a viu no banco do
passageiro do carro.
— Eu dirijo? — perguntou ele, conforme abria a porta do lado do motorista.
— Você é o guia turístico — Leila respondeu, fazendo um amplo gesto com o braço como se
indicasse que o mundo além do para-brisa era vasto e inexplorado. — Você dirige.
Ela sorriu para ele, e Hudson pensou como ela ficava excepcionalmente bem quando sorria.
Ele engatou a primeira marcha e partiu, se perguntando aonde a levaria, como a faria sorrir mais
vezes. O tesouro óbvio era a curva do rio, mas ficava longe demais. Tudo naquela região guardava
boas lembranças — o museu da Coca-Cola, que ele visitara em todos os seus aniversários até os
doze anos, a sorveteria que pedia aos clientes sugestão de novos e estranhos sabores e que uma
vez atendera ao pedido de Hudson, bacon com chocolate —, mas a única maneira de transferir
memórias aos lugares e fazê-las parecer tesouros para ela era falando. Hudson normalmente não
tinha problemas para conversar com as garotas, mesmo as bonitas, mas, embora não ficasse sem
palavras perto dela, não sabia como começar.
— É tudo bem vermelho por aqui — ele falou, por fim.
— Eu sei. Foi basicamente por isso que comprei o carro. Amor à primeira vista.
— Então vou me arriscar e dizer que vermelho é a sua cor favorita.
— Eu gosto de vermelho. Mas tenho profunda admiração por qualquer coisa que se disponha
a ser total e absolutamente ela mesma. Se é para ser vermelho, então que seja vermelho, oras. Do
volante às calotas, seja vermelho.
Hudson conseguiu apenas assentir para si mesmo. Ele nunca tinha conhecido ninguém que
falasse desse jeito, do jeito como ele pensava. O freio chiou alto quando ele reduziu a velocidade
para parar em um sinal fechado, e Hudson garantiu a Leila que tudo estava funcionando bem. O
freio gostava de cantar, só isso. Ele seguiu à esquerda rumo a Maryland para que o sol não o
cegasse enquanto pensava em algo para mostrar à garota.
— E você? — perguntou ele, depois de terminar a curva. — O que você é?
— Eu? — ela falou, dissimulando inocência. Então se livrou dos chinelos e pôs os pés no
painel. Hudson imaginou como seria ser o namorado dela, e era a primeira vez que pensava nisso sem descartar imediatamente a ideia. Dar longos passeios de carro enquanto ela cantava baixinho
acompanhando a música, deitar na grama em um lugar qualquer e confessar coisas um ao outro,
descobrir formas de namorar sem deixar o porta-copo do cinema atrapalhar. — Sou uma turista
que caça tesouros. E meu guia ainda não me mostrou nenhum. Aonde estamos indo?
Hudson a levou ao centro da cidade. Passaram por algumas cadeias de motéis na rodovia,
restaurantes e lanchonetes, tudo sem graça e naquele tom de bege mais entediante que cinza.
Nada parecia ser um tesouro bom o bastante para mostrar a Leila.
No entanto, temendo que ela ficasse entediada, Hudson conduziu o carro ao estacionamento
do boliche assim que o avistou. Através da ampla vidraça, pôde ver que o lugar estava cheio, as
bolas fluorescentes rolando pelas dezoito pistas em velocidades variadas, terminando sua
trajetória em silenciosas explosões de pinos brancos.
— Quando eu era criança, vim a uma festa do pijama aqui — ele disse, olhando para o prédio
quadrado azul-claro. Lembranças deliciosas daquela noite o invadiram e ele quis encontrar um
jeito de dividi-las com Leila, mostrar como aquilo tinha sido especial. — Jogamos boliche até as
duas da manhã, depois esticamos os sacos de dormir nas pistas. Toda vez que passo por aqui, fico
pensando em quantas crianças tiveram a chance de dormir em uma pista de boliche.
Hudson olhou pelo para-brisa, observando como a fachada do lugar combinava com o céu
sem nuvens, apreciando a arte desbotada da janela ali desde sua infância. Leila olhou ao redor e ele
percebeu que estava quieto havia muito tempo.
— Vem, vou mostrar tudo para você.
O lugar era barulhento, com os sons de sempre: bolas rolando nas pistas, derrubando os pinos.
Um garotinho tentando impedir que uma bola seguisse para a canaleta gritando com ela e grupos
aplaudindo um strike. A parte de dentro era pintada com o mesmo azul-claro que se via do lado
de fora. Uma “parede da fama” era exibida ao lado do balcão de sapatos. A pequena lanchonete
praticamente pingava gordura de pizza.
— O lugar vira um clube de salsa nas noites de terça — disse Hudson. — As pistas são
ótimas para dançar.
Leila sorriu e o empurrou de leve, deixando claro que não estava caindo nessa. Mas deu uma
olhada ao redor como se procurasse pistas de que podia ser verdade. Quando ela virou a cabeça,
Hudson notou uma cicatriz atrás da orelha dela, uma pequena área de pele marcada. Então ela o
encarou novamente, ajeitou o cabelo e escondeu a cicatriz.
— É impossível ser verdade.
— Por favor, não discuta com seu guia — Hudson respondeu e a conduziu até o balcão de
sapatos. Diferentemente de outros boliches, que investiam em cubículos, o Riverside Lanes adotava um sistema de armazenagem de sapatos muito diferente.
— Isso é ridículo — Leila falou, encarando a enorme pilha de sapatos, vários deles espalhados
pelo chão. Um grupo de estudantes se aproximou conversando animadamente sobre os planos
para o fim de semana e lançando a esmo os sapatos no amontoado. A pilha mexeu e Hudson viu
Leila se preparar para o desastre que se abateria sobre eles.
— Não, é incrível — Hudson a corrigiu. — Sempre que a pilha cai, um funcionário grita
“Avalanche!” e todo mundo que está aqui ganha uma partida grátis.
— E as pessoas não derrubam de propósito?
Ele balançou a cabeça, como se ninguém tivesse pensado nisso antes.
— Que graça teria? — Ele cruzou os braços, admirando todos aqueles pares de sapatos
separados, os cadarços espalhados como braços clamando por socorro em uma pilha de
escombros.
Hudson olhou para Leila, tentando descobrir se ela estava se divertindo. Então um casal na
casa dos vinte anos se aproximou da pilha e começou a vasculhar.
— A visita segue por aqui — avisou Hudson, tocando de leve o ombro de Leila para seguirem
em frente. Ele andava de costas, como um guia turístico de verdade. — À esquerda, você pode ver
a lanchonete, que ainda anuncia pretzels feitos na hora, mesmo que a opção tenha saído do
cardápio há doze anos. À direita, na pista seis, podemos ver a lenda local do jogo conhecida como
Castor, que jogou três partidas perfeitas e nunca sorriu para ninguém além dos pinos derrubados.
Fotografias sem flash, por favor — Hudson brincou, apontando para um homem grandalhão de
cerca de sessenta anos com uma barriga que lhe caía sobre o cinto. — Nossa próxima parada é o
banheiro masculino — anunciou, pensando na lousa sobre os mictórios, sempre adornada com
um misto de vulgaridades inofensivas, rabiscos e uma ou outra mensagem emocionada em
caligrafias ruins que indicavam que o autor da frase estava bêbado, ou dividia a atenção com outra
tarefa. — Você pode ver coisas incríveis por lá. — Houve uma pausa antes de Hudson se dar
conta do que tinha acabado de dizer. Ele olhou para Leila, que o encarava com uma sobrancelha
erguida. — Não foi isso que eu quis dizer. Eu estava falando que algumas pessoas revelam partes
que normalmente ficam escondidas — e cerrou o punho. — Não, também não foi isso. É que...
A gargalhada de Leila o interrompeu.
Hudson sorriu, nervoso.
— Tem uma lousa lá dentro — ele tentou explicar, mas estava encantado demais com o som
daquela risada para continuar. Aquela risada que esvaziou sua mente.
— Não se preocupe. Imagino que não seja mesmo o que pareceu — ela falou, tentando
recuperar o fôlego.
Hudson balançou a cabeça, virou para o banheiro e empurrou a porta.
— Grupo de turistas entrando! — anunciou.
Como ninguém respondeu, ele segurou a porta aberta para Leila e fez um amplo gesto de
boas-vindas.
— Primeiro as damas.
— Esta é a visita mais estranha que já fiz — Leila disse, lançando-lhe um olhar de curiosidade
e humor.
— Mantenha braços e pernas dentro do veículo o tempo todo — ele avisou conforme ela
entrava.
Dois mictórios, uma cabine e uma pia, isso era tudo que havia no banheiro. Um secador de
mãos automático que quase não soprava ar ocupava parte de uma das paredes. Leila olhou para a
lousa sobre os mictórios. Hudson seguiu o olhar dela, tentando imaginar que trecho de caligrafia
ela estava lendo.
Alguém havia desenhado um dragão impressionante.
A JOAN DORMIU COM O CASTOR!
Isso estava rabiscado em letras de forma na parte superior do quadro. E, embaixo, em
letrinhas minúsculas, como se o autor quisesse sussurrar:
Você não sai da minha cabeça.
Versos de uma canção de Johnny Cash, um versículo da Bíblia e o desenho de um pênis
enfeitavam a parede. Hudson não pôde deixar de sorrir da coleção de pensamentos aleatórios
capturados em giz. Ele olhou para Leila e viu que ela também sorria, as mãos unidas às costas
como se apreciasse uma obra de arte.
— Você enxerga os tesouros? — ele perguntou.
Ela assentiu, os lábios estendidos em um sorriso, os olhos passeando pelos rabiscos de giz
branco e azul.
— Essa é a minha citação favorita de Kurt Vonnegut — disse Leila, apontando para a frase:
Peço-lhe que por favor note quando você está feliz.
Hudson sentiu o rosto corar, se perguntando se devia confessar que ele havia escrito a frase na
lousa havia uma semana.
— Isso é fantástico — ela comentou. Então pegou um pedaço de giz na base de metal da
lousa. Depois de um instante organizando os pensamentos, Leila ficou na ponta dos pés para
alcançar um espaço vazio, e sua bela caligrafia se destacou entre as outras palavras no quadro.
Povo de Vicksburg, vocês vivem em um lugar especial.
Bobagem, mas esse breve comentário fez com que Hudson quisesse continuar tagarelando,
quisesse levá-la a cada lugar que ele havia apreciado mesmo que por uma fração de segundo.
Hudson a conduziu de volta ao carro, ansioso para lhe mostrar as outras coisas. Foram à
igreja destruída por um incêndio e reconstruída pela cidade, ao campo de pique-bandeira no
parque ao lado de sua casa, à loja de doces fechada onde uma vez um cadáver foi encontrado, o
que fazia o último pacote de bala sabor cerveja que Hudson tinha em casa parecer ainda mais um
tesouro.
— Quer saber? Acho que a gente deve ir até lá.
— Até a sua casa?
— Sim — ele respondeu, surpreso com a própria audácia, mas grato por ela. — Quer dizer,
pela bala de cerveja. — Leila pensou na sugestão. Ele ergueu as mãos. — Estou agindo
unicamente como um guia de tesouros aqui. Pode não ser o lugar mais interessante para todo
mundo, mas é um que conheço bem o bastante para saber onde estão todos os detalhes ocultos.
Você não quer dar uma olhada no quarto onde Hudson, o famoso mecânico, dorme há dezessete
anos?
Ela inclinou a cabeça para trás e deu uma olhada para ele, como se o examinasse. Hudson
temeu ter estragado tudo, até se dar conta de que ela estava debochando dele, até notar a
insinuação de um sorriso mudando o desenho dos lábios dela.
— Você tem uma daquelas camas em forma de carro de corrida? — Leila perguntou.
— Não — ele respondeu, fingindo estar ofendido, mas pisando no acelerador. — Fiquei
grande demais para ela no ano passado.
Leila gargalhou outra vez. Temendo deixar escapar uma risadinha orgulhosa assim que
abrisse a boca, Hudson ficou calado durante o breve trajeto até sua casa.
Hudson estacionou o carro na frente de casa e passou as chaves para Leila enquanto eles
cruzavam o gramado até a estreita varanda. O carro de seu pai ainda não estava na garagem. Ele
provavelmente tinha passado no mercado para fazer as compras para o jantar.
— Aqui é a varanda — ele falou, abrindo um braço para indicar o espaço enquanto tirava a
chave do bolso com a outra mão. — Não usamos muito.
— Por quê?
— A vizinha é bem faladeira — explicou Hudson, olhando para a rua e para os carros e
caminhonetes estacionados nas garagens abertas, para as bandeiras dos Estados Unidos que caíam feito cortinas no ar parado, para as bicicletas abandonadas depois da escola na porta da frente das
casas. — Meu pai e eu chegamos a perder uma sessão de cinema uma vez porque ela insistiu em
contar todas as fofocas da vizinhança. O primo de alguém havia adotado um bebê asiático e isso
pareceu demandar um discurso ligeiramente racista de trinta minutos. — Ele se voltou para a
porta quando finalmente encontrou a chave. — O verdadeiro tesouro de Vicksburg está no seu
povo.
Hudson olhou por sobre o ombro e sorriu para ela, então a convidou para entrar. Os dois
percorreram a casa rapidamente, da sala de estar para o banheiro e de lá para a cozinha. Ele
mostrou o quintal dos fundos, a modesta mobília de plástico ao redor da churrasqueira. O
gramado era grande e verde, se estendendo das cercas dos vizinhos até o começo de uma linha de
árvores. Depois de um tempo, quando o sol mergulhara atrás dos galhos, ele a levou de volta para
dentro para mostrar o restante da casa.
A escada era larga o suficiente para subirem lado a lado. Hudson perguntou:
— E então, o que você vai fazer no norte? — Na verdade, ele não queria muito saber, porque
a resposta confirmaria que ela estava de partida, provavelmente muito em breve.
— Eu não falei? Vou ver a aurora boreal.
— Ah, legal — ele respondeu, o coração apertando um pouco. — Até onde você tem que ir
para conseguir ver?
— Bom, depende. Vou o mais longe que puder para me dar a melhor oportunidade.
— Uau. Que inveja.
— É, estou bem animada — ela falou, mas sua voz não transmitia essa animação. — Só
espero que... — E se deteve.
— O quê?
— Não, nada. — Eles chegaram ao topo da escada e Leila estendeu o braço na frente do peito
dele. — Espera. — E olhou para as quatro portas fechadas ali. — Me deixa adivinhar. — Ela
apontou para a mais próxima. — Suíte principal, banheiro, seu quarto — disse, apontando para
cada uma das portas, da esquerda para a direita. — E não acho que tenha mais um quarto, porque
você tem jeito de filho único, então vou chutar que aquilo ali é o armário das roupas de cama.
— Incrível.
— É um dom especial.
— É especial, com certeza — Hudson concordou, pensando no que ela deixara de dizer na
escada. — Como você sabia que sou filho único?
— A gente se reconhece pelo cheiro — ela piscou.
No quarto de Hudson, Leila foi direto para a estante de livros, onde as revistas de carros e os
livros que ele lera para o colégio e gostara o suficiente para comprar um exemplar estavam
perfeitamente enfileirados. De costas para ele, a silhueta recortada pela luz do fim de tarde a fazia
parecer ainda menos real, menos uma bela garota que o entendia e que agora estava em seu quarto
e mais uma aparição que podia sumir a qualquer segundo. Hudson acendeu a luz, mas não disse nada, lhe dando liberdade para explorar o ambiente. Não queria que ela tivesse aquele ar de
aparição, queria mantê-la real pelo tempo que pudesse.
— O que é isto aqui? — Leila perguntou, pegando uma concha que ele mantinha no
parapeito da janela.
Hudson se aproximou.
— Uma lembrança da primeira vez em que fui à praia. Eu estava pegando uns jacarés, sabe
como é, me divertindo pra valer. De repente uma onda me arrastou e me lançou com força na
praia. Bati a testa em algo duro, mais duro que a areia. Era essa concha. Acho que ainda dá para
ver a cicatriz. — Ele levantou o cabelo e abaixou a cabeça para ela poder dar uma olhada em sua
testa.
Leila ergueu a mão e deslizou um dedo pela cicatriz. Hudson conseguia ouvi-la respirar,
sentia algo doce em seu hálito.
— Por que você guardou a concha?
— Não sei. Acho que gostei da ideia de ter uma lembrança de um dia tão incrível. Eu não
queria ficar só com a cicatriz.
Leila sorriu, seu dedo não mais na cicatriz, mas descendo, percorrendo a linha do maxilar
dele. Os lábios dela se desprenderam apenas o suficiente para ele ver a fileira de dentes brancos
cintilando contra a língua rosada.
Então o portão da garagem fez barulho sob o quarto e Hudson ouviu o ruído do motor do
Camaro do pai. Leila abaixou a mão e Hudson instintivamente deu um passo atrás, reação da qual
se arrependeu no mesmo instante. Ele queria agarrar a mão de Leila e colocá-la outra vez em seu
rosto. Em vez disso, ficou parado e ouviu o pai indo da garagem para a cozinha, sentindo o
momento ir embora.